Noite
17 O Festival
Notas iniciais
Obrigada a quem vem me deixado reviews e acompanhando a fanfic! =)
Enfim, boa leitura!
_01 de Janeiro_
Hoje é mais um daqueles dias em que eu olho para esse diário com uma tremenda vontade de jogá-lo pela janela enquanto grito como um doido, como esse dia foi uma porcaria. Tinha tudo para ser incrivelmente bom – Com certeza, incrivelmente! Algumas coisas extremamente boas aconteceram, apesar da esquisitice ter predominado. – Mas não sei por que merda no mundo o azar me persegue e deu no que deu.
Era a terceira partida do dia. Tabhita corria de lá para cá, driblando sem muita dificuldade os camisas verde. – Ela, com certeza, estava parecendo um gigante pompom azul, com seus cabelos puxados em um rabo de cavalo e vestindo uma camisa azul, uns três números maior que o seu. – Era a semifinal. Pelo o que vi, não é algo tão raro alguns times serem mistos; ainda que a proporção de garotos para garotas continue completamente desigual. A Tabhita era meio campo e coseguiu pegar algumas bolas e fazer alguns passes que deram ótimas oportunidades.
Aquele cara, o tal que estava brigando com ela outro dia, também estava jogando. O cara era atacante e chutava tão forte e com tanta gana, que eu fiquei com dó do goleiro que vivia se estabacando, tentando pegar os chutes do inferno dele. Nessas horas eu penso que não teria sido nada agradável cair no pau com esse cara, mas aí me lembro do desmaio e aí... Aff! Voltando ao jogo...
Havia muitas pessoas assistindo, muitas mesmo! Foi difícil arranjar um lugar com boa visibilidade para assistir o jogo. No fim, acabei dando um jeito de me espremer entre os torcedores de verde cheirando a cerveja e cuspindo a cada berro; e os torcedores de azul que eram a mesma merda que os de verde, só mudava a cor da camisa mesmo. Não faço ideia de onde meus pais, tios e priminhos do mal tinham se enfiado; só sei que não fiz questão de procurar, estava ocupado demais desviando-me da baba dos caras.
A partida estava acirrada, nenhum dos times queria ceder espaço. Foram poucas as vezes em que a bola chegou a menos de trinta passos do gol sem que o time adversário a roubasse. E assim como a Tabhita tinha dito, a goleira M...? – Oh, realmente não lembro o nome dela! – Defende muito bem! Fiquei impressionado com a forma que ela evitou uma bolada na cara, agarrando a bola há alguns milímetros do seu rosto. Foi tenso, hein... Até eu gelei imaginado aquele troço indo de encontro ao meu nariz. Se a visão, com certeza ,seria péssima, a dor então... horrível! – Talvez, ficar com o nariz torto para o resto da vida também fizesse parte do pacote.
Reparei em um monte de outras coisas, mas como era a primeira partida em que a Tabhita jogava a partir do primeiro tempo... Eu, basicamente, não tirei os olhos dela. Sério, ela é realmente muito boa, mas... Não sei, ela não parecia estar tão ameaçadora como de costume. Lembrei-me instantaneamente de ontem. Ela não me disse o que aconteceu e hoje ela ainda estava meio estranha, ainda que não estivesse me evitando. – Continua falando comigo como se eu fosse uma lufada de ar. Nem olhar nos meus olhos ela olha!
Logo no fim da partida, faltando uns cinco minutos para o fim; o placar estava de 1x1. Não importa como eu olhasse, a Tabhita não parecia bem. Ela continuava mandando passes para o coisa gigante, sempre que podia, mas suas sobrancelhas estavam sempre franzidas e seu rosto parecia estar mais pálido a cada minuto.
— Ela vai desmaiar... — falei para mim mesmo e comecei a costurar a multidão, levando cotoveladas e tomando um banho de cerveja de um gordinho muito vermelho que começou a me xingar em espanhol. Sequei meu rosto com o casaco, fazendo careta, até que cheguei ao lugar onde ficava o banco em que se concentravam os reservas do time azul. Na verdade, o time tem um nome, mas em momento algum fiz questão de assimila-lo.
A partida acabou em 2x1 para os verdes. Vi a Tabhita jogar-se no gramado, ignorando tanto os colegas cabisbaixos quanto os adversários que pulavam eufóricos. Pulei a grade de proteção que cercava o campo de futebol e corri até ela.
— Tabhita! — chamei segurando sua mão e percebendo imediatamente que ela estava meio fria para alguém que jogou uma partida de futebol inteira.
— Ei, Lipe...— ela disse se levantando e sorrindo de um jeito meio, sei lá, como se alguém estivesse dando descargas elétricas para ela sorrir.—Vou na casa da Mari tomar um banho e já volto, ok?!
— Não, espera. — eu disse sem soltar sua mão — Tabhita, você está bem? Você está da cor de giz!
— Estava nervosa e comi muito antes do jogo, acho que me fez mal... Corri muito, sabe... Estou enjoada.
Arqueei as sobrancelhas sem acreditar.
— Vou lá tomar um banho, ok? — ela disse desvencilhando-se sutilmente de mim — A casa da Mari é mais perto, mais tarde volto.— Com essas palavras, ela correu até a goleirados camisas azuis, acenou brevemente e ambas pegaram suas mochilas e seguiram juntas até o outro lado da quadra. Acho que fiquei um minuto inteiro parado no meio do campo, tentando entender que prego decidiu fugir do cérebro da Tabhita para ela estar tão estranha ultimamente.
Depois que saí da quadra e contornei a multidão louca de torcedores, acabei encontrando com a Felícia que sorriu e ficou toda vermelha quando me viu.
— Oi. — ela disse meio ofegante, depois de desviar-se do povo agitado. Há tanta gente em Martina para esse Festival, que minha mãe já está alugando o gramado da pousada para fazerem acampamento! Como todos eles conseguem se acomodar na cidade durante todo o festival, eu não sei! Talvez se enfiem na floresta durante a noite. Quem sabe?
— Oi.— eu disse meio ressabiado. Minhas conversas com a Felícia costumam ser algo bem estranho. Quero dizer, ou ela fica fazendo caretas como se quisesse me dizer algo... Ou ela começa a falar um monte de coisas sem sentido, e tipo, muito rápido. Daí, viajo na maionese e falo hum hum. Completamente tenso.
— O time da sua prima perdeu. — ela disse com um ar de desânimo. Nunca me importei muito com isso, mas quando ela disse prima, me incomodou; foi como se a palavra tivesse batido como um estalo no meu cérebro. A Tabhita é minha prima, quero dizer... É a sobrinha do primo do meu tio-avô. Minha prima de sei lá quantos graus, mas é.
— É, mas pelo menos eles conseguiram o terceiro lugar.
— Verdade, mas acho que Toni não está bem com isso.Ele queria ter ido para a final de amanhã, com certeza, tem briga vindo por aí...
— Toni? Quem é Toni?— Não precisei de muito tempo para descobrir quem era. Quando segui o olhar de Felícia e vi o cara que agarrou o braço da Tabhita... Pareceu muito óbvio que ele deveria ser o tal Toni, mas na minha cabeça ele sempre fora o troglodita do outro dia. Foi quase estranho perceber que ele tinha nome.— Ah.
Ficamos alguns segundos em silêncio, sem saber o que dizer. Tive vontade de perguntar pelo Zeca, se ele estava bem na capital e coisas assim... Mas a verdade é que eu ainda não saquei o porquê dele ter ido embora sem dizer nada. Quero dizer, eu queria mesmo ver aquela carta de suicídio... Acho que se visse ele hoje, daria um puta murro na cara dele. Grrr... – Ok, sendo totalmente egocêntrico e egoísta, mas acho que posso fazer o que bem entender no meu diário, não é?!
— Você se arrepende? — Felícia começou a dizer de repente, colocando algumas das mechas, que escapavam de sua trança, atrás da orelha. — Você se arrepende de ter vindo morar aqui?
Ponderei sobre a pergunta; fora a internet horrível, ocasionando um monte de lag nos meus jogos e o calor dos infernos e todo mundo falando da vida de todo mundo e toda essa ausência de cinemas, livrarias, parques e etc... Acho que está até que bem ok. – Oh, sério! Se eu soubesse...Que os problemas de Martina caminham para algo bem além de mortes esquisitas...! Nessa hora eu não sabia da parte bizarra da coisa, então foi nisso que pensei. A ignorância em certos momentos é uma benção! Se eu pudesse voltar atrás, olhando tudo o que aconteceu hoje, não teria me enfiado em Martina de jeito nenhum; mas como todo drama bem alicerçado, a merda já está densa demais para eu simplesmente cair fora. Aff!
— Não. — eu disse, percebendo que era verdade. — O ar é... — eu iria começar uma interessante observação sobre como o ar é saudável e tudo o mais, quando ouvi a Tabhita me chamar. Virei-me em sua direção e a vi junto com a Mari-qualquer-coisa e mais um dos jogadores do time de futebol camisa azul.
— Lipe! Você ainda está aqui? — ela disse parecendo estar normal. Cara, sério... Ou isso é TPM, ou a Tabhita está desenvolvendo bipolaridade. — Ah, oi, Felícia! — ela disse com um autêntico aceno, que Felícia devolveu sem graça. Depois de hoje, começo a pensar que a minha opinião sobre a Felícia é mais estereótipo da minha cabeça do que qualquer outra coisa. Ela não é tão irritante assim, só fala algumas coisas realmente sem noção às vezes e, claro, continua tendo uma voz chata... Meio anasalada e fina. Combinação estranha, mas acho que estou começando a me acostumar com isso.
— Está melhor? — perguntei estudando seu rosto que tinha novas cores e seu cabelo molhado, que cheirava a, sei lá, laranja?
— Yes, totalmente ótima!— ela disse sem me olhar nos olhos e puxando bem a blusa cumprida que vestia para cobrir as mãos também.— Ei, deixa eu te apresentar! Felipe, esses são: Mariana, a goleira...
— Oi. — ela disse me lançando um olhar avaliador, acho que também fiz isso. Ela parecia bem mais baixinha olhando de perto.
— Como você consegue pegar aquelas bolas? É realmente boa... — comecei a dizer com autêntica admiração e ela sorriu, como se qualquer dúvida que futucasse suas ideias sobre mim, tivesse se esvaído.
— Oh, acho que torci o pulso por isso! — ela disse parecendo não se importar muito e levantando a mão, que como ela dissera, estava meio inchada.
— Não precisa de um médico? — indagou Felícia.
— Oh, nem precisa. Já passei um spray que o Carlos me emprestou.
— É, se isso não melhorar... Não sei oque ajudaria, você acabou com o meu spray!
— E esse é o Carlos, — apresentou Tabhita, revirando os olhos — zagueiro, o cara do spray ou, como eu gosto de chamá-lo, o cara que te arrastou enquanto você babava até a pousada.
— Ah. — eu disse lançando um olhar enviesado para Tabhita, por ela me lembrar do episódio lamentável. — Obrigado por isso. — eu disse estudando Carlos. Era um daqueles adolescentes de 1, 80 m que tem uns músculos enormes, mãos do tamanho de pás e umas entradas no cabelo que fazem você pensar... Oh, vai ficar careca daqui há alguns anos!
— Não se preocupe! — ele disse com uma risada estrondosa e apertou a minha mão de forma amigável e meio antiquada, acho.— O espetáculo foi impagável, sabe...— ele disse segurando um riso frente ao meu olhar que não deveria ser nada amistoso.
— O que aconteceu? — perguntou Felícia sem entender.— Você passou mal ou algo assim, Felipe?
— Longa história. — suspirei. — Vamos apenas circular por aí, ok?
— É, vamos! Eu quero ir naquele brinquedo lá que vira de cabeça para baixo!— Tabhita disse entrelaçando seus braços no meu e me puxando com uma súbita animação.
— Eu não tenho estômago para esse...— eu ouvi a Mariana dizer, atrás de nós. Fiquei com vontade de dizer, eu também não!,mas me deixei arrastar pela Tabhita, acho que estava muito contente por ela ter voltado ao normal.
Andamos entre os montes de barraquinhas, de toda natureza, espalhadas pelo campo; vendendo desde roupas, até entretenimento como: tiro ao alvo, uns jogos que pareciam boliche, pescaria e, claro, outros montes de barraquinhas de comida e brinquedos enormes espalhados por todo o campo, próximo a quadra de futebol; Era como uma festa junina vermelha e gigante!
Todos nós estávamos com fome, mas como a Tabhita estava louca para ir em brinquedos como o barco Viking ou o tal que vira de cabeça para baixo, deixamos Mariana, Carlos e Felícia próximos a uma barraquinha de canjica e fomos até o barco Viking, que tinha uma fila menor. Sério, achei que fosse morrer naquele negócio! Racionalmente falando, sei que como a velocidade em que o barco gira, é maior que a gravidade, nossos corpos tendem a ficar colados em nossos assentos; portanto, mesmo que não haja muita proteção, não há muitas chances de despencarmos lá embaixo quando o troço vira de cabeça para baixo, mas... Na prática é outra história! Os nós dos meus dedos ficaram brancos com o tanto de força que coloquei, segurando a barra de ferro a nossa frente. Tabhita simplesmente berrava como uma louca e levantava os braços. Uma garotinha na minha frente, parecia querer vomitar a qualquer segundo e me concentrei apenas em desejar fortemente que o troço parasse, torcendo para que toda aquela coisa quântica de positividade de O Segredo*, fosse de alguma forma real. – Ainda que eu não confie tanto ao ponto de me jogar de uma janela e desejar voar.
— Oh, Lipe! Você vai vomitar? — perguntou a Tabhita rindo e me segurando quando eu cambaleei sutilmente, após sairmos do brinquedo.
— Não, não vou. — eu disse respirando fundo.
— Você está totalmente verde.— ela disse me soltando e cruzando os braços, com um olhar desafiador.
— Ptfff... Talvez eu esteja mesmo... — resmunguei e ela teve outro ataque de risos.
—Sério, Lipe... Você é um velho por dentro!— ela disse andando ao meu lado e batendo levemente seu quadril contra o meu.— Estou com fome e você? Vamos arranjar um morango com chocolate no palito!
—Desde quando isso mata a fome? — franzi o cenho.
— Ah, quem se importa? Apenas vamos logo comer!
Tabhita começou a andar de uma barraquinha a outra, procurando as melhores opções. Esquadrinhei a multidão animada, esperando achar Mariana, Carlos e Felícia; mas não os vi. Também não me importei muito por não achá-los... Foi quando, atrás de uma barraquinha de cachorro quente, eu vi Wagner. Dessa vez, tinha certeza que era ele. Usava um jeans, uma camisa meio esfarrapada e uma pulseira punk que eu achei ser totalmente destoante de seu estilo habitual. Nossos olhos se encontraram e ele sorriu estranhamente, isso me incomodou. Eu deveria ter ficado satisfeito, de certa forma, por ele não ter sumido realmente. – Não sou fã do Wagner, mas não lhe desejo nenhum fim trágico. – Porém, ele estar ali parecia deslocado... Não sei muito bem explicar como...
— Comprei maçã do amor. — Tabhita disse me entregando um palito com uma bola vermelha cheia de granulado colorido por cima.
— Ei, Tabhita, você viu o Wagner? Ele está aqui na festa, acho que ele voltou para casa... — eu comecei a dizer, enquanto ela me guiava para o outro lado; até que percebi sua expressão distante.— Ei, Tabhita? — eu disse parando e, em consequência, fazendo-a parar também.
— Ah, hum, não, não vi.— ela disse começando a mordiscar sua maçã do amor.
Fiquei quieto sobre isso, visivelmente há algo que ela está me escondendo.
—Hum.— eu disse sabendo que ela sabia que eu não acreditei no que ela disse.
Continuamos andando, até que já estávamos meio longe das barraquinhas, próximos a quadra de futebol novamente, e o vento noturno conseguia circular livremente; sem nenhuma barraquinha para quebrar seu embalo no campo quase vazio, balançando os cabelos azuis da Tabhita, suavemente, como em uma carícia. Ela estava bem bonita, com sua camisa de mangas cumpridas e azul, batendo uns dois palmos abaixo da cintura. Usava um short jeans não muito curto e, revestindo suas pernas, usava uma meia calça preta que descia até seu All Star.
O vento estava esfriando um pouco e eu acabei por vestir novamente o casaco sujo de cerveja, que eu havia amarrado na cintura. Tabhita me olhou nos olhos e sorriu, com os lábios totalmente vermelhos por causa da maçã do amor.
— O quê? — eu inquiri, estreitando os olhos.
— Nada... — ela disse com o breve toque de um sorriso mal disfarçado.
— Hmm...
— Já olhou para o céu? São tantas estrelas que parece irreal. — ela disse de repente, e eu segui seu olhar para o céu que transbordava de pontos brancos e brilhantes, iluminando a noite sem luar. Não fazia muito tempo que havia anoitecido, mas em Martina, a lua se torna visível muito cedo e as estrelas são tantas... Que, às vezes, tenho a impressão de que roubaram esse pedaço de céu de alguma história fictícia.
Logo meus olhos abandonaram a vastidão azulada e eu comecei a reparar que os cabelos da Tabhita ainda estavam meio úmidos e colavam-se um pouco a sua testa. Sem pensar muito, tirei aquela mecha dali. Nossos olhos se encontraram e já que eu não estava resistindo aos meus impulsos mesmo, deixei-me afundar em seu olhar e aproximei-me, lentamente.
Minha respiração começou a se acelerar e meu coração batia tão forte, que eu tinha a sensação de que a Tabhita poderia ouvi-lo e começaria a rir a qualquer minuto. Deslizei meus dedos pela linha de seu maxilar e por sua nuca, fazendo-a estremecer. Aproximei meu rosto e parei quando nossos narizes estavam a um milímetro de se encostarem, dando-lhe a chance de me chutar, de me empurrar, de cuspir na minha cara ou que fosse, caso ela não estivesse muito afim do que estava por vir, já que eu não iria mais me segurar. – Sério, foi um segundo muito angustiante! Fiquei morrendo de medo de que ela realmente me chutasse ou algo assim. – Mas a Tabhita não fez nada disso, apenas passeou sua mão livre pelo meu ombro e ficou na ponta dos pés, fazendo com que eu finalmente sentisse seus lábios quentes.
Seus dedos caminharam até o meu pescoço e só pararam quando começaram a brincar com os meus cabelos. Comecei a deslizar minha mão por sua coluna vertebral, fazendo-a arrepiar-se, supus. Seus lábios eram macios, suaves e tinham um gosto doce e viciante; percebi que poderia continuar experimentando-a – Estou sorrindo como um idiota escrevendo isso! – infinitamente, mas acabamos por nos separar, ofegantes. Seus lábios estavam bem mais vermelhos e seus olhos estavam com um brilho diferente do habitual. Um sorriso formou-se em meus lábios e continuei a estudá-la enquanto respirava fundo.
Tabhita começou a gargalhar, como se estivesse saboreando o momento. Acho que entendi o porquê, de certa forma, tudo pareceu tão repentino e momentâneo, mas... Não sempre esteve aqui? Esse sentimento que eu sempre tenho quando a vejo... Sempre esteve aqui, em algum lugar, bem lá no fundo, totalmente dopado e ignorado. Mas, cara, qualquer incerteza saiu correndo assim provei aqueles lábios e cruzei com seu olhar deliciado; e eu, obviamente, estava prestes a puxá-la para um segundo beijo, quando Felícia decidiu nos achar.
—Nossa, vocês estavam aqui?! Procurei como uma louca!
— Podia continuar procurando infinitamente... — resmunguei e fui repreendido por uma cotovelada da Tabhita.
— Estão todos te procurando, — continuou Felícia — vão entregar as medalhas! Vocês ficaram em terceiro lugar!
— É, vamos lá então! Obrigada por vir me avisar, Felícia.— Tabhita disse me lançando uma piscadela e seguindo na frente com a Felícia.— A Mari e o Carlos já estão lá?
— Eles foram tentar acalmar o Toni. Ele estava muito nervoso por termos perdido, xingou tanto o Carlos que me impressionei por ele não ter perdido a cabeça.
— É melhor ele ir embora do que arranjar alguma briga. Aquele cara é um idiota. — disse a Tabhita dando de ombros.— Ei, Felipe! — ela virou-se e sorriu ao ver minha expressão pouco convidativa. — Vamos indo, ok? Tenho que passar na casa da Mari e pegar uma blusa limpa do time... Você vai lá comigo, Felícia?
Felícia franziu o cenho e me lançou um olhar de desânimo, acenando positivamente para Tabhita, em seguida.
— Ok, então... Nos vemos no pódio daqui a pouco, Felipe! — ela disse me lançando uma piscadela e saindo apressada com a Felícia.
Aff! Eu queria que ela tivesse ME convidado!
Continuei andando entre as barraquinhas e lembrei que estava segurando a maçã do amor o tempo todo, então comecei a tentar morde-la e fui desviando-me das pessoas, evitando levar outro banho de cerveja. O que me faz pensar... A Tabhita me beijou e enquantou eu senti cheiro de laranja, maçã do amor e, não sei, aquele ar noturno de verão que parece dar vida aos nosso pulmões; ela sentiu meu adorável cheiro de cerveja?
Com certeza, a cidade inteira estava ali. Reconheci os velhinhos da padaria jogando dominó em uma das barraquinhas; a Dona Daura dançando com o marido dela, acho; o cara da banca de jornal, tentando vender HQs para algumas crianças que insistiam com os pais para que comprassem... Mas meu olhar se deteve na Sabrina. – Esse era o nome dela, a tia do Zeca, pelo o que ele dissera. – Ela usava um vestido elegante e vermelho, que evidenciava sua cintura e seios. Enquanto a fitava, nossos olhos se encontraram; ela bebia cerveja e me lançou um sorriso e um aceno. Olhei para trás, procurando outra pessoa para quem ela destinasse o cumprimento, mas não achei ninguém. Algo me impeliu a ir até ela, – Agora que penso nisso, porque quis ir lá? Talvez o meu inconsciênte quisesse ter uma converssinha bem entendida com ela... Sério, me sinto completamente estúpido ao lembrar disso! – a vi levantar-se de sua cadeira e continuar me encarando convidativamente... Mas o transe irracional no qual eu me enfiara, foi quebrado por uma voz familiar que eu quase esperei que estivesse irritada.
— Está olhando o que, Felipe?
Segui a voz e quase derrubei a lata de suco que Ângela segurava.
— Ah, Ângela.
— O quê? Está decepcionado? Não posso dizer que lamento.
— Não é isso, só... — comecei a dizer quase rindo de sua expressão eternamente chateada. — Eu só estava procurando o canivete, sabe...
— Não se preocupe, larguei-o em casa. Desculpe por isso... — ela começou a dizer meio sem graça. — Fui meio grossa ontem.
— Não se importe, tudo bem. — eu disse, finalmente conseguindo morder algo além de açúcar duro e sentindo o gosto da maçã.
— Está indo ver a premiação?
—Hum, estou... — eu disse, voltando a olhar para o local onde a diretora do Silvana Batista estivera. Ela voltara a se sentar e conversava alegremente com um homem e uma mulher, sentados à mesma mesa. Acho que devo ter tido um lapso de loucura ao achar que ela acenou para mim...
— Então vamos, logo. Já vai começar!
Segui Ângela, ainda meio aéreo até que ela parou de repente, fazendo-me trombar com tudo; ocasionando uma mistura totalmente nojenta de cabelo – O dela. – e maçã do amor. Mas para a minha alegria, ela ignorou, apenas fez uma careta e ajudou a desgrudar seu cabelo da maçã.
— Você ouviu isso?— ela disse voltando pelo caminho pelo qual tínhamos acabado de seguir.
— Ouvi o quê? — eu perguntei, indo atrás dela e jogando a maçã do amor na primeira lixeira que achei. Tentei divisar algum som marcante entre a mescla de diferentes músicas sertanejas que tocavam a pleno vapor, era meio difícil até ouvir o que ela dizia.
— Foi um grito, isso foi um grito! — ela disse começando a correr e eu corri atrás dela, achando-a meio louca, mas corri.
— Não estou ouvindo nada!— eu disse tentando apurar os ouvidos.
— Eu também não, mas por um instante... — ela disse voltando-se para mim com um olhar incerto. — Por um instante, pareceu meu irmão... E se... E se...
— Ok. Vamos ver, então.— eu disse tentando acalmá-la. — De onde veio esse grito?
— E-Eu não sei... — ela começou a dizer e fomos nos afastando do campo da festa, até que eu ouvi. Não foi um grito, foi uma espécie de gemido e alguns guinchos altos. Estanquei sentindo cada músculo do meu corpo se enrijecer. Percebi que o som vinha de um beco, umas duas casas à frente. Como raios a Ângela tinha conseguido ouvir um grito vindo de lá? Engoli em seco, o que quer que fosse, não parecia nem um pouco bom.
— Ei, Ângela, vá chamar ajuda, eu vou...
— O quê? — ela me interrompeu. — Vai bancar o cavalheiro? Dispenso, ok? Além disso, sou muito mais útil que você em uma briga.
Ok. Essa garota tem um gênio tão terrível quanto o da Tabhita!
Corremos até o beco, Ângela foi na frente e ambos ficamos paralisados com o que vimos. Quase não o reconheci, mas era o Toni! Ele estava agachado sobre o atacante do time adversário, os camisas verdes, e sua boca estava empapada de sangue. O atacante tinha as vísceras à mostra, rasgadas... Parte, jogadas no chão e parte, pendendo da mão do Toni. O pior é que o cara ainda estava vivo! Ele gemia descontroladamente até que Toni, sem se afetar com nossa presença, quebrou o pescoço dele com um sonoro CRACK!
— O-O que você está fazendo? — consegui dizer com uma voz rouca.
— Aliviando a dor dele, ué. — Toni disse, aspirando lentamente o cheiro de sangue e bili que as tripas expostas exalavam e arrancando um pedaço com os dentes. Senti-me totalmente enjoado e petrificado ao vê-lo puxar lentamente um punhado de carne fina e roliça que estendia-se sem perder seu tom pálido, em meio ao sangue que destacava as veias azuis que se estendiam por toda a extenção do órgão. Ainda sinto como se um punho gélido agarrasse minha garganta, como quando o vi chupar, o que demorei um longo minuto para perceber que era o intestino delgado, como se sugasse o tutano de um osso de galinha... Sem qualquer hesitação ou dúvida enquanto engolia o resto do entestino avidamente e com os olhos cheios de um prazer mudo e nauseante.
— Você... — começou a dizer Ângela com uma voz débil, começando a ir na direção de Toni e eu a segurei com mais força do que pretendi. Não ganharíamos nada ficando ali, o cara já estava morto!
No entanto, Toni não a ignorou. Ele levantou o olhar do cadáver, rosnou e mostrou suas presas longas e finas... Lançando um olhar cheio de raiva para Ângela que ao contemplá-lo, desabou inconsciente em cima de mim.
Meu olhar revezou-se entre Ângela e Toni. Não importa o quão irreal parecesse, Toni olhara para ela e CHAZAM, ela desmaiara! Não foi coincidência, da outra vez eu certamente não tive uma crise anêmica... Então ele me olhou e eu, hum, desmaiei? Ok. Essa história de vampiro está ficando completamente tosca! Como raios ele consegue fazer isso? Aliás, por que merda no mundo um vampiro realmente existe? Significa, que esse tempo todo, todas essas mortes... São uma espécie de revolução vampiresca acontecendo?! Estou quase me jogando de um precipício pelo absurdo que estou supondo, só quê, não é mais suposição... É fato! Eu vi! As presas, o sangue, as tripas... A sangueira inteira!
Quando Toni se levantou, eu puxei rapidamente a Ângela, evitando um ataque com suas unhas gigantes, espessas como pilhas de controle remoto. Continuei segurando-a desajeitadamente e fitando Toni de olhos arregalados. Eu precisava sair dali, mas não havia como sair correndo com a Ângela nas costas ou algo do gênero. Com certeza ele me pegaria.
Evitei olhar para seus olhos, se eu caísse desmaiado também, seria o fim. Percebi que ele investiria novamente contra nós e então, da melhor forma que o desespero me permitiu, joguei a Ângela sobre uma lixeira próxima a saída do beco e me joguei para o lado evitando o segundo ataque, mas não o seguinte que veio na forma de um tapa monstruoso que quase arrancou minha cabeça do tronco.
Pisquei várias vezes, tentando recuperar a plena forma da minha visão que estava embaçada, sem muito sucesso. Senti o bafo podre de Toni, a centímetros do meu rosto e comecei a tatear meus bolsos desesperadamente, a procura de qualquer coisa que me ajudasse a sair, pelo menos, vivo.
— Veio tirar o atraso daquela briga? — ele perguntou com uma voz rouca e com uma risada estrondosa que reverberava pelo beco escuro.
Consegui achar uma caneta. Livrar-me de um vampiro com uma caneta... Definitivamente eficaz! Mas nem vou reclamar, porque salvou minha vida. Fechei meus dedos em torno dela, Toni já estava em cima de mim. Agarrou minha camisa, quase me levantando do chão, como se não fosse nada, e lambendo seus lábios em vista da apetitosa refeição. – Só para constar, no caso, eu! – Ele segurou minha cabeça e eu sabia o que ele pretendia, logo o som nítido do meu pescoço quebrando, invadiria o beco sem ninguém além do Toni para ouvir. Foi nesse momento que enfiei a caneta, com toda a força que consegui, logo acima do seu pomo de adão. Sangue começou a jorrar, escorrendo por meu braço que ainda segurava a caneta. Acho que espetei a língua dele também, pelo menos, desejei isso. Dei graças a Deus por sempre acabar perdendo as tampas das minhas canetas, não acho que uma caneta tampada teria o mesmo efeito.
Ao sentir, finalmente, suas mãos se afrouxarem e ele puxar com força o braço com o qual eu o atacara de perto de si, o vi recuar arfando, com uma visível expressão de dor; tentei puxar o máximo de ar que consegui, tentando recuperar minhas faculdades mentais e concentrar-me em sair dali com a Ângela. Não importa em que livro, filme, folclore, Wikipédia eu procurasse, tenho certeza que nenhum deles diria que vampiros morrem com canetas enfiadas no maxilar. E conforme eu comecei a jogar a Ângela sobre minhas costas, com o intuito de carregá-la o máximo que conseguisse... Vi Toni arrancar a caneta com uma incrível agilidade e começar a rugir animalescamente. Estávamos mortos, com certeza, morreríamos, pensei. Mas, mal Toni precipitou-se para cima de nós em seu ataque, ele parou subitamente; olhou para a saída do beco, ressabiado e eu me senti tentado a olhar também, mas não olhei. Tinha certeza de que, com qualquer descuido que fosse, ele meteria aquela arcada dentária na minha jugular. No entanto, ele continuou parado, rugiu novamente e saiu correndo, nos ignorando totalmente; deixando as batidas do meu coração quebrarem o silêncio do beco escuro e o cheiro de sangue impregnar-se cada vez mais por minhas narinas.
Respirei, aliviado, por alguns segundos e saí de lá, com a Ângela nas costas, o mais rápido que consegui. Larguei-a desmaiada nos braços do Carlos, assim que o vi, e deixei-o para trás com uma expressão bem perplexa.
— Ela desmaiou! — eu disse dando alguns passos de costas. — Arranje alguma ajuda, por favor, tenho que fazer algo antes!
Saí correndo a procura de alguma joça de policial, talvez fossem vampiros disfarçados ou humanos controlados, enfim, eu esperava não ter tanto azar assim em uma só noite. Não demorou muito para que eu avistasse dois oficiais relaxados, batendo papo perto de algumas crianças que riam e brincavam com um palhaço. Urgh... O pavor da minha infância, palhaços...
— Oi, eu preciso de ajuda! — eu disse meio ofegante. — Há um cadáver não muito longe daqui!
Ambos me lançaram olhares avaliadores, talvez, tentando definir se eu era algum idiota fazendo piada e tentando quebrar o clima animado da noite ou o cara que estava quase ficando doido ante a perspectiva de ter visto e quase ter sido morto/devorado por um vampiro. Enfim, acho que algo bem exasperante no meu semblante, – O sangue que se espalahava pela minha mão também deve ter ajudado! – mostrou que eu não estava só enchendo os pacovas e eles acabaram por me seguir, meio ressabiados, mas seguiram.
Cara, acho que nunca fiquei com uma cara de taxo pior do que a de hoje. Sabe aqueles filmes em que todo mundo esconde tudo do protagonista e as coisas que ele acha que viu, sempre acabam por parecer alguma ilusão... Daí ele entra naquela fase, ou estou louco ou tenho alguma obcessão por vampiros e variantes?! Senti-me completamente assim, mas com uma certeza adicional de que, por mais absurda que a situação ou o argumento fosse, Toni e aquelas tripas... Não tinham sido minha imaginação!
— Não há nada aqui, moleque! — um dos policiais disse cruzando os braços e fitando o beco escuro. E cara... Não havia nada mesmo! Nenhum resquício de sangue, tripas ou sequer a minha caneta salvadora da pátria.
—Hm... Mas havia. Procurem por Toni, o cara que jogou hoje, tenho certeza de que ele sumi...
— Tenho mais o que fazer do que escutar suas invenções. — disse o outro policial. — Eu deveria enfiá-lo no xilindró para enfiar algum juízo aí nesse seu cérebro oco! Não sabe que somos oficiais responsáveis por manter a comunidade segura? No momento em que estamos perdendo tempo aqui, poderíamos estar resolvendo uma ocorrência real!— ele disse quase gritando, com o rosto ganhando uma tonalidade purpúrea. Tenho certeza de que se ele continuasse mais um pouco, um infarto não seria só uma suposição fantasiosa.
— Deixe o garoto, não vale apena mesmo... — disse o outro policial, suspirando e pondo a mão no ombro do irritado. — ele é menor, vamos embora.— e assim foram, me lançando antes, uns olhares desdenhosos. Perfeito, é nisso o que dá encontrar com um vampiro no Festival da Batata; seria poético se eu tivesse algum quê romanesco.
Acabei perdendo a entrega das medalhas e a Tabhita me mataria por isso, com certeza. Lembrei-me de como o dia estava perfeito até alguns minutos atrás e a imagem de Toni devorando tripas acabou por voltar com tudo a minha mente, tirando um pouco daquele gosto doce que o beijo da Tabhita deixara na minha boca. Arranjei um monte de guardanapos e comecei a limpar minha mão de sangue, meu casaco também estava meio molhado, mas como é preto... Não era tão visível.
— Parabéns pelo terceiro lugar... — eu disse ao encontrar a Tabhita. Com certeza não era o momento de compartilhar aventuras vampirescas com ela. Eu nem tinha assimilado direito ainda o que vira. Por incrível que pareça; ver tripas, sangue, garras e presas em 3D, é levemente apavorante. Só o fato de eu não ter votimado na primeira lixeira que achei, já foi notório!
— Oh, claro, obrigada! — ela disse meio desanimada.
Tabhita ainda conversou um pouco com a Mariana e o Carlos garantiu que a Ângela estava bem. Desvencilhei-me da conversa e inventei uma desculpa qualquer quanto a Ângela. Fomos andando para casa e eu reparei, pela primeira vez, na pulseira que a Tabhita usava. Suas mangas cumpridas estavam dobradas até os cotovelos – Não sei o porquê, já que ela estava visivelmente arrepiada pelo frio. – e, revestindo seus pulsos, estava a mesma pulseira punk que eu vira Wagner usando mais cedo.
— Tabhita? — eu disse parando e pegando seu pulso, a fim de olhar a pulseira de couro preta, de perto.— Essa pulseira... Você, você esteve com o Wagner?
Mal eu terminei a pergunta, ela me lançou um olhar arregalado e puxou o braço com força.
— Pare de me agarrar, Felipe!
— Você não me respondeu, além disso... Não te agarrei...— eu disse sem entender a razão por trás de sua reação agressiva e me sentindo meio desconsolado ante a persperctiva de ela ter batido um papo com o Wagner e ganhado uma pulseira de presente.
— Você é sempre assim! Acha que um beijo me torna sua posse? Não, está muito longe disso!— ela começou a gritar.
— Ei, Tabhita...— eu comecei a dizer apaziguadoramente, a última coisa que eu queria era brigar com ela.
— Cala a boca, Felipe! Você acha que eu gosto de ficar assim com você? Não gosto! Quero você como amigo, primo ou, sei lá... Não como namorado! Compreenda o óbvio! — estava tentando não me levar pela briga, mas, sinceramente... Quando ela disse isso, machucou. Tipo, muito.
— Tabhita... — eu disse lentamente, sentindo uma dor de cabeça começar a se instalar e minh irritação aumentar. — Por favor... — disse sarcasticamente, sem conseguir me controlar. — Não me arrependo do que fiz e — assinalei — não fiz sozinho!
— Felipe, — ela disse cheia de resignação, mas sem me olhar nos olhos. Como se me olhar fosse algo frustrante. — você é covarde. Achei que poderia ser diferente, mas... Não pode. Entenda isso.
Não entendi bem aonde ela quis chegar ao dizer aquilo. Ainda agora essas palavras continuam a se repetir sem que eu ache um significado mais revelante para elas. No momento não foi muito diferente, eu apenas abri e fechei a boca sem dizer nada.
— Felipe... Apenas, apenas... — ela continuou dizendo com uma voz mais frágil, e podia jurar que ela estava prestes a chorar.— Me deixe só, ok? Eu estou cansada disso tudo! Esses dias têm sido muito degradantes...
— Tabhita, aonde você quer chegar? — eu forcei minha voz a sair neutra das minhas cordas vocais. Mas ainda acho que soou como um fiapo débil.
— Felipe, eu quero ir embora, ok? Cansei de você, desse fim de mundo... Não percebe que eu estou surtando? — ela disse e qualquer frase cruel que eu estava preparando para despejar, evaporou-se assim que vi as lágrimas começarem a resvalar por sua face. Ela limpou-as desajeitadamente e partiu marchando, me deixando só, no meio da rua.
Fiquei fitando o nada por algum tempo, sentindo meu coração bater dolorosamente. Eu não a forçara a me beijar... Ou a qualquer outra coisa, não é?
— Mesmo assim, como...? — eu me indaguei, quebrando o silêncio noturno e fitando uma silhueta que não estava mais lá.
Quando cheguei em casa, minha mãe veio falar comigo e eu não ouvi uma palavra do que ela disse. Passei reto pela porta do quarto da Tabhita e me tranquei no meu... E foi assim que o dia decaiu de maravilhoso à uma merda dos infernos.
Notas finais
~~Curiosidades~~
A Ângela foi inspirada em uma amiga minha que é faixa verde de karatê e, de fato, tem um olhar que arranca a pele de qualquer um! kkk (só que ela é muito gente boa! o/)
É isso, espero que tenham curtido o cap! Gostaram???
Bjus!!!
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