Noite

18 A Droga da Lua


Notas iniciais
Gente, esse cap foi repostado!
Boa leitura! :3

_02 de Janeiro_

Toni me encarava, com as presas afiadas e arreganhadas em um sorriso cínico. Alguma parte da minha mente me disse que eu não deveria olhá-lo diretamente nos olhos, mas eu a ignorei totalmente e sustentei seu olhar. Sem um pingo de coragem transbordando em minhas veias, mas o fiz.

Ficamos assim por um longo momento, com um turbilhão incoerente de vozes gritando na minha mente e um suor frio se formando... E aí, nada.

Eu acordei.

Suado.

De olhos arregalados.

Vivo. – O que eu acho que é uma tremenda de uma sorte.

Passada a confusão momentânea causada pelo pesadelo, – Estou tendo muitos ultimamente. – permiti-me voltar às minhas funções normais de raciocínio.

— Vampiros. — eu disse baixo, lembrando-me do Toni; mais precisamente, das presas do Toni. Quase esperei que o quarto vazio fosse me contradizer, e começar a jogar na minha cara todas as dúvidas que pairavam por meus pensamentos.

Nem preciso dizer que nada aconteceu, né?

Passado esse momento de estranhamento, me dei conta de que – Em algum momento de meu longo devaneio ontem à noite. – eu acabei dormindo, sentado no chão, com as costas apoiadas na lateral da cama. De modo que tinha uma visão panorâmica da capa do meu violão, o mesmo que eu fizera questão de tocar incansavelmente nos últimos dias.

Hoje não foi um desses.

Levantei-me devagar e me senti enjoado ao reparar no casaco sujo de sangue que eu ainda vestia. O cheiro de sangue não era muito forte, mas quanto mais eu o olhava... Mais a cena daquele cara tendo as tripas devoradas voltava a minha mente. Sei que eu tenho que dizer isso a alguém... Mas quem? Não posso sair descrevendo fábulas vampirescas e mortes sem cadáveres, por aí. – Isso, se eu ainda quiser ter alguma credibilidade com quem quer que seja.

— Sim, não há crime. Não sem a droga do cadáver! — eu murmurei para mim mesmo, decidido a passar naquele mesmo beco mais tarde. Por mais hábil que alguém fosse em eliminar evidências... Recusava-me a acreditar que o cheiro, todas as manchas... Simplesmente tudo, fora apagado, como se tudo o que aconteceu ontem não tivesse passado de alguma ilusão idiota.

O que me leva ao ponto... – e eu estava tentando evitar pensar nisso, acho que ainda estou.

Toni é um vampiro: Ok.

Toni é de alguma espécie de vampiros que faz as pessoas desmaiarem: Ok.

Toni anda no sol: Woah... Um forte ponto fraco a menos.

Toni é um tipo de vampiro que come carne humana: Nada ok! Onde estão as lendas, os seriados, os livros, os filmes... De toda uma vida? Como deter uma coisa que não parece sequer seguir os padrões fictícios? Não acho que madeira, crucifixos ou alho vá funcionar...

O que só me leva a crer no quão ferrado estou. Já que eu e a Ângela sabemos da droga do segredo dele... Não acho que representemos um obstáculo tão significativo. Tanto quanto duvido que ele vá deixar a situação do jeito que está... Mas em compensação, algo pareceu detê-lo quando ele ia nos matar. Acho que isso é o pior, se esse “algo” o deteve, significa que há alguma vantagem em nos manter vivos, não é? E eu não consigo ver em como essa “vantagem” pode ser menos que desastrosa para nós.

— Se eu descobrir quem está envolvido, talvez eu possa jogar com isso. — eu resmunguei tendo absoluta consciência do quão pretensiosas e tolas as minhas palavras eram.

Putz, o cara tem presas!

Arrastei-me até o banheiro, tentando evitar o assunto Tabhita que insistia em cutucar dolorosamente a minha mente. O interessante, é que soa mais solucionável pensar sobre a existência de vampiros canibais, do que sobre o que aconteceu ontem com ela.

Fitei minhas olheiras no espelho. Eu estava tão acabado que nem parecia eu. Tentei forçar um sorriso, mas acabei desistindo... Só estava levando a estranheza para outro nível, não era como se eu fosse conseguir enganar a minha mãe, de qualquer forma...

Comecei a tirar as calças, em seguida o casaco – Com um passo e ânimo totalmente trôpegos. – e então, quando fui tirar a camisa, eu vi.

— Mais que porcaria é essa? — quase gritei de indignação para as paredes.

Pouco acima do meu pulso esquerdo, um hematoma esverdeado se delineava. – Talvez, por causa da força com que o Toni apertou meu braço àquela hora... É um milagre ele não ter sido arrancado do corpo. Disso, não tenho dúvidas. – Mas o que me assustou foi uma ferida inflamada e com uma frágil casca avermelhada já se formando, enquanto espalhava-se com o comprimento de um dedo médio.

Fiquei um longo minuto analisando-a, não fazia ideia de quando a havia conseguido. Talvez, vampiros te infectem pelo toque...? Enfim, qualquer uma das soluções descabidas a que tentei dar sentido acabaram por permanecerem descabidas demais até mesmo para o mundo sobrenatural. Acabei por ignorar a causa e tentar tornar claras as implicações, apalpando a ferida que não me causava dor e em seguida enfiando-a debaixo da água corrente para ver o que acontecia. – Me arrependi imediatamente! A dor foi quase insuportável!

— Que porcaria. — eu disse respirando pesadamente, me forçando a manter o braço sob a água. Seja lá qual for a causa da ferida, mantê-la limpa, no mínimo, a tornaria menos pior. Não em aparência, porque não importou o quanto eu lavasse, continuava com o mesmo aspecto inflamado; mas, sei lá, qualquer tratamento sempre começa com a parte de lavar, né?

Depois de um demorado banho quente, apesar do calor que estava, voltei a verificar o enorme machucado, pensando no que faria com ele. Continuava com um aspecto esverdeado, tendo como centro, um corte fino que se enfiava na minha carne... Mas não de forma que parecesse tão grave ao ponto de levar pontos. É mais como se eu tivesse tido um arranhão mais fundo do que o recomendável. – Não que arranhões sejam recomendáveis, eram como cicatrizes de guerra quando eu era criança. Não doíam muito, mas deixavam marcas. Estúpido? Eu sei, mas acho que isso faz parte do privilégio que é ser criança... Enxergar as coisas como se quer enxergar. Sem ninguém te censurado por isso.

No fim das contas, acabei entrando de fininho no laboratório do meu pai – Que foi construído em tempo recorde! – e peguei alguns anti-inflamatórios e uns Band Aids. – Ok. Ser filho de médico é fogo, porque eu sei muito bem o quão idiota foi essa ação... Mas também tenho a excelente habilidade de ignorar algumas convenções quando quero. Afinal, para o bem ou para o mal, quem se lascará sou eu. – Tentei fazer uma fila de curativos no braço, imitando aquele truque do ponto sem nó. Consegui, mas não posso dizer que tenha saído tão elegante quanto os que o meu pai costuma fazer.

Depois de terminar com a arte e vestir um casaco, – O que me fez suar como um louco. – fui à cozinha atrás de algo para comer, torcendo para que tétano não fosse uma das minhas futuras preocupações.

— Aproveitou bastante ontem, hein. — provocou minha tia rindo, enquanto segurava Caique com força e tentava tirar um pedaço de chiclete que se grudavas aos seus cabelos encaracolados.

— Hum? É. — eu disse meio distraído, me sentando à mesa da cozinha, e plenamente consciente do quão horríveis minhas olheiras estavam. — E a Tabhita? — perguntei cortando um pedaço de bolo que provavelmente sobrara da mesa do café da manhã.

— Acho que ela foi dormir na casa daquela amiga dela... — ela disse largando Caique e desistindo de tirar o chiclete do cabelo dele, para ir pegar uma tesoura em uma das gavetas do armário. — Qual o nome dela mesmo? — ela disse enrugando a testa, e eu não sei dizer se era pelo nome que lhe escapava, ou por não ter conseguido tirar o chiclete.

— Refrigerante. — Eu disse repentinamente, largando meu bolo e indo até a geladeira.

— O quê? Refrigerante? — ela disse me fitando sem entender.

— Refrigerante é ótimo para tirar chicletes do cabelo. — eu disse colocando uma garrafa do borbulhante líquido laranja na sua frente. — Tenta aí.

— É mesmo? — ela disse, quase dando de ombros e entornando um pouco no em um copo de plástico.

— É, já tive algumas experiências com chiclete. — eu disse me sentindo mais desanimado do que nunca e me lembrando das vezes que eu conseguira enfiar chiclete no cabelo da Tabhita e ela berrara desesperadamente até eu contar o segredo para que ela se livrasse daquele troço no cabelo. Depois de um tempo desemaranhando o cabelo dela e tirando todo o chiclete, que eu enfiara em um lugar bem na raiz, lembro-me como se fosse hoje que ela sorriu. Sorriu como se não fosse eu que tivesse enfiado o chiclete lá. Aquele mesmo sorriso que me faz ficar encarando-a sem me cansar...

— Só um cadinho, sou um cadinho... — dizia minha tia para Caique, puxando o chiclete do menino que queria beber o refrigerante e que chorava e reclamava em uma mistura nojenta de baba e meleca de nariz, fazendo com que seu forte sotaque mineiro só tornasse a situação mais cômica.

Depois disso, esbarrei algumas vezes com a minha mãe que corria junto com a Rosa, para lá e pra cá... Arrumando alguns dos quartos dos hóspedes ou negociando o horário em que o café da manhã seria servido com os campistas que espalhavam suas barracas pelo gramado. – Umas seis ao todo, daquelas com capacidade para cinco pessoas. Eis a razão de toda a loucura da minha mãe!

Quando já eram umas onze horas, desisti de alimentar qualquer esperança de que a Tabhita fosse aparecer. Infelizmente, seria o meu primeiro dia de aula e meu novo colégio, o Silvana Batista, fica tão longe quanto as botas perdidas de Judas.

Vesti a camisa do uniforme, – Que é azul marinho com uma gola pólo branca. – sobrepondo-a com o meu casaco e decidindo tirá-lo assim que saísse de casa. Não era como se meus novos colegas e professores fossem estranhar meu machucado. – Na verdade, não é da conta deles, não há por que se importarem. – Engoli o almoço sem muito entusiasmo... Quem é que vai ao seu primeiro dia de aula depois de encontrar com um vampiro...?

— Felipe! — ouvi a familiar voz anasalada da Felícia me chamar e com um forte puxar de ar, me voltei para encará-la.

— Oi. — eu disse vendo-a usar o mesmo uniforme, mas de forma mais arrumada. Com um jeans claro e um tênis que parecia recém engraxado de tão brilhante, talvez tivesse acabado de sair da caixa de sapato. Totalmente diferente do meu All Star que já é uma espécie de relíquia.

— Oi. — ela respondeu com mais entusiasmo do que eu achei que um oi poderia transmitir. — Indo para o colégio?

— É. — eu disse, amargurado. Se a Felícia visse sequer a sombra do meu braço roxo, teria um surto de preocupação. Ou seja, lá estava eu virando camarão enquanto tentava fazer minha expressão não parecer muito irritada. E não sou exatamente bom nisso, para não dizer: péssimo.

— Vamos juntos então. — ela disse com um sorriso. Sério, acho que ela está desenvolvendo imunidade ao meu baixo astral. — O ponto de ônibus é logo à frente. Vamos.

— Ah, claro. — eu disse acompanhando-a e percebendo que em dado momento, já estávamos próximos a rua que ia de encontro ao fatídico beco de ontem. Não queria envolver a Felícia nisso, mas não resisti. Fui até o beco, quase que em um frenesi. Desafiando-o a estar impecável, sem nenhum traço de cadáver como na noite anterior. E foi isso o que aconteceu. Era apenas uma ruela, cheia de latas de lixo transbordando e com um gato malhado que passou correndo por nós quando entrei no beco de supetão.

— Felipe? — chamou Felícia, incerta, atrás de mim. — O que foi?

— Nada. — eu disse sem despregar os olhos do beco, com uma resignação muda.

— Como nada? — ela disse, parando ao meu lado e olhando para o beco também. — Você... — Esperei que sua voz melodiosa continuasse com as perguntas, mas ela se calou o que me fez olhá-la, curioso. O que quer que seja que tenha feito Felícia calar a boca era digno de nota. Foi o que pensei na hora, mas qualquer deboche se esvaiu quando vi sua expressão enojada.

— O que foi? — eu disse revezando meu olhar entre ela e o beco.

— Felipe, o que aconteceu aqui? — ela disse pondo a mão sobre o nariz. — É nojento! Que cheiro horrível é esse? E... — sua voz falhou. — Isso é sangue? — ela disse apontando o dedo para o chão.

Por um longo segundo eu fitei o chão de pedra, procurando qualquer vestígio de algo que não fosse poeira... E não achei. Passou pela minha cabeça que, talvez, Felícia só estivesse brincando com a minha sanidade... Mas ao encontrar seu olhar, vi que ela me fitava intrigada. Sem nenhum medo aparente, mas com evidente repulsa em sua expressão. Não, ela não estava mentindo.

— Hum... Talvez tenha sido algum rato morto... — eu disse sem muita confiança, ainda sem ver nada de anormal no beco.

— Não mesmo. — ela discordou firmemente. — Tem muito sangue... E esse negócio... — ela disse dando um passo a frente. — Tem um negócio rosado ali no meio...

— Ei, pare. — eu disse segurando o seu braço mais firmemente do que pretendi. — Deve, deve ter sido alguma briga de cachorros ou gatos... — Eu disse num blefe memorável que a Tabhita deveria ter visto, e arrastando-a para fora do beco. A última coisa que eu queria, era Felícia falando que viu um pedaço de tripa por aí. — Estamos atrasados.

— Ah, é. — ela disse e eu fingi não perceber o olhar de estranhamento que ela me lançava.

Entramos no ônibus que não estava muito cheio e eu me sentei no canto, de modo que pudesse me distrair com a paisagem. Achei que Felícia fosse me deixar sozinho e ir se sentar com alguns dos muitos que a cumprimentavam entusiasmadamente. – O que foram basicamente todos os estudantes do ônibus. Todos os caras, pelo menos. – Mas não, ela sentou-se ao meu lado e passamos a próxima hora em silêncio, o que era raro vindo de Felícia. De certa forma, me senti grato por isso. Não estava com cabeça para sustentar qualquer conversa descente. Precisava urgentemente falar com a Ângela e queria muito contar tudo o que aconteceu para a Tabhita. E tinha mais essa agora, acho que é uma das coisas que mais me arrepia... De alguma forma, Toni me manipulara para que eu não conseguisse perceber as evidencias no beco. Inicialmente eu achei que ele só pudesse fazer as pessoas ficarem inconscientes, mas e se... E se isso for algum tipo de hipnose? Ou pior, um tipo de hipnose muda que nem me permite algum resquício de consciência de ter sido hipnotizado? Se isso fosse realmente verdade... O quanto eu já havia sido manipulado? Quando? Onde? Em quê?

Pensar que minha vontade e minhas percepções já não eram mais totalmente confiáveis me apavorou. Normalmente, por mais terrível que a situação seja, é presumível que uma boa conexão de neurônios poderia resolver a maioria dos problemas. Mas e se essas conexões estão sendo controladas de alguma forma? Talvez eu só esteja pensando o que alguém quer que eu pense... Talvez o mesmo algo/alguém que impediu que Toni me matasse.

Nessa hora, me toquei que eu vinha escrevendo nesse diário há já alguns dias... Fiz uma nota mental, para lembrar-me de folheá-lo quando chegasse em casa. Se eu tivesse deixado passar alguma disparidade muito descabida, talvez eu pudesse percebê-la relendo algo que eu escrevi. Se alguém – Toni, talvez. Mas duvido que só haja um vampiro no mundo. – mudou mesmo alguma coisa na minha cabeça, talvez eu a tenha anotado antes que ela mudasse? Aff! Isso é uma porcaria! Sabe como é uma merda procurar algo supostamente tendencioso no seu cérebro?

E claro, tem essa ferida no meu braço – Surgida do Misterioso Além. – e que já estava começando a arder. Tive que me segurar para não saciar o forte ímpeto de coçá-la.

— Felipe? — chamou Felícia em um tom gentil. — Vamos.

Dei-me conta que já havíamos chegado e saí do ônibus junto com a massa estudantil, vestida com suas camisetas polos e diversas variações de jeans e All Star. Ninguém de casaco. – Maravilha! Que inveja! – Me forcei a não formar nenhuma carranca e fui seguindo Felícia até a entrada do enorme colégio com paredes de tijolos delicadamente pintados de alternados tons de mel e com um jardim esmeradamente cuidado na entrada. Talvez fosse uma tentativa – Terrivelmente fracassada. – de fazer os estudantes ignorarem as grades que circulavam o colégio, e fazerem-nos pensar de que não se tratava de uma prisão educacional.

Inconscientemente, me peguei imaginando as vias que deveria utilizar caso quisesse matar aula. Na entrada estava disposta uma guarita, com três guardas de colete e armados, quase esperei que eles fossem me revistar. Mas só estavam muito empenhados na tarefa de assegurar que nenhuma garota estivesse usando alguma roupa curta ou que alguns dos estudantes estivessem sem uniforme. Circulei os olhos pelo pátio apinhado e concluí que se tivesse que pular o muro em algum lugar, seria lá atrás. Só um diretor muito paranoico – E sábio? – colocaria guardas para guardar os fundos de um colégio; pelo menos de dia.

— Já sabe qual vai ser a sua turma?

— Não. — eu disse, percebendo que estivera ignorando Felícia que me estudava sem nenhum disfarce. — Você é do segundo ano, não é? Talvez eu fique na mesma sala que você. Há quantas turmas de cada ano, aqui?

— Mais do que parece. — disse Felícia me conduzindo para os degraus que se dispunham em uma entrada lateral, há uns poucos passos da principal.

— Aonde está me levando? À secretaria?

— É. — ela concordou. — Então... Tem três turmas de cada ano aqui. O colégio é novo, mas tem bons patrocinadores e um monte de gente das cidades vizinhas vem estudar aqui.

— Por isso fica tão no limiar da cidade?

— Precisamente. — concordou um cara de ar risonho, levantando-se de uma das cadeiras dispostas na saleta que precedia a secretaria e vindo cumprimentar-nos. — Felipe, não é? — ele disse estendendo-me a mão e eu demorei um segundo inteiro para perceber que ele queria que eu a apertasse. Sério, deve ser algum costume local... Não sei, mas dois adolescentes apertando as mãos quando se conhecem, soa tão formal quanto parece.

— Eu mesmo.

— É um prazer. — ele sorriu, soltando minha mão, e eu pude ver o aparelho com borrachinhas vermelhas que ele usava nos dentes. — Meu nome é Hugo, sou representante de turma.

— Hum? Mas já? Os representantes não são votados no início do ano? — inquiri sem considerar que, talvez, a pergunta o ofendesse. Tenho esse mal, às vezes sou direto demais.

— É por notas Felipe. — Felícia respondeu ao notar o sorriso do Hugo desvanecer-se em uma linha fina e dura.

— Ah. — eu disse sem estar realmente encabulado.

— Em que turma o Felipe está, Hugo? — ela indagou querendo desviar o assunto para alguma via mais afável.

— 2-B. — ele disse voltando a seu bom humor inicial. — A minha turma. Pode ir indo Felícia, eu o levo lá.

— Tá. — concordou Felícia à contra gosto, dando-se conta de que ele a estava mandando ir embora. — Nos vemos na cerimônia de entrada, Felipe! — ela disse, deixando seus lábios escorregarem em um discreto sorriso que iluminou seu rosto. Passo tanto tempo ignorando a Felícia que, às vezes, é até estranho voltar a percepção de que na verdade ela é bem bonita.

— Tenho que pegar uns papéis com a diretora, só espere um instante, está bem? — ele disse indo até a mesa da secretária à qual só tomei maior consciência naquele instante; é uma senhora esguia e com ar rígido e organizado. Talvez seja daqueles tipos que manda você parar de falar gírias e tenta dar um jeito no seu cabelo rebelde. Uma coisa é certa, não acho que ela seria capaz de dar um jeito no meu cabelo rebelde.

— Ok. — eu disse para as costas do Hugo.

Após alguns segundos falando com a secretária, ele entrou no escritório da diretora e eu me dei conta de que ele estava indo falar com a Sabrina, tia do Zeca. De certa forma, ainda me ressinto com esse idiota. Ele sumiu. Eu poderia até tentar ligar, mas as duas vezes que tentei... Resultou em caixa de mensagens e depois, não tentei mais; pelo motivo mais óbvio e estúpido do mundo: orgulho!

Logo que Hugo voltou e me guiou pelos corredores da escola, falando tão rápido, que tive dificuldade de entendê-lo, fazendo com que eu apenas passasse a olhar ao redor e a acenar positivamente, ocasionalmente, quando parecia o certo a fazer. Em geral, pelas poucas frases que pesquei, era um colégio de gente rica e cheio de regras estúpidas que só servem para bitolar com o cérebro do indivíduo. Fiquei quieto sobre isso, em outras circunstâncias, talvez eu lançasse algum comentário mordaz que refletisse a minha falta de tato e contrariedade; mas hoje, meus pensamentos sempre acabavam vagando e indo parar na Tabhita.

Antes que eu pudesse perceber, já estava imaginando seus cachos azulados entre meus dedos, seu sorriso irreverente, àquele beijo... E a parte da qual eu sempre tentava fugir. – Pode parecer egoísta que eu tenha ficado pensando nisso, logo depois de ver um cara morrer de forma tão brutal; mas no fim... Bem, acho que não me importo, sempre me achei meio egoísta mesmo. – As palavras que continuavam a se repetir, assim que eu permitia que meus pensamentos perambulassem sem rumo; com aquela conhecida voz clara e que normalmente é cheia de riso...

Cala a boca, Felipe! Você acha que eu gosto de ficar assim com você? Não gosto! Quero você como amigo, primo ou sei lá... Não como namorado! Compreenda o óbvio!

Acho que no fim das contas, eu fui o único a sentir alguma coisa... Talvez eu estivesse tão louco para enxergar o que eu queria enxergar, que só tenha tido algum significado para mim. Perceber isso, talvez me ajude a resolver as coisas, mas não me faz sentir melhor. Para não dizer que piora.

— ... Não saia daqui, Felipe. — eu captei esse fim de frase ao perceber que Hugo cutucou meu braço para que eu olhasse para ele e em seguida o vi sair apressado, sem entender o que ele foi fazer e sem realmente querer saber, me permiti prestar mais atenção ao redor e, ao longe, depois do pátio no qual o corredor despontava, surgiam duas enormes instalações que pareciam quadras. Ouvi algum vozerio vindo dessa direção e imaginei que fosse lá que estivesse ocorrendo a cerimônia de entrada que Felícia mencionara. Certamente um monte daquela discursaiada cheia de regrinhas medíocres, a julgar pelas políticas da escola. Suspirei e me dei conta de algo que poderia ser interessante, se haviam dois... E pelo o que minha mãe disse, havia uma enorme área de esportes voltada a natação, talvez...

Nem pensei muito, comecei a andar à passos rápidos, ansioso por vislumbrar isso. Faz um tempão que não entro em uma piscina de verdade e a ideia me animou um monte, se o Hugo aparecesse ou saísse reclamando, eu poderia muito bem dizer que me perdi ou algo parecido.

Fui quase correndo até o outro lado, seguindo para a construção mais silenciosa; parecia um ginásio, mas talvez fosse uma piscina coberta. Deixei minha imaginação trabalhar e decidi contornar a cantina, à esquerda, para então chegar até a piscina coberta. Se eu seguisse reto, talvez alguns dos esparsos estudantes que não reparavam muito em mim, poderiam vir perturbar... Dizendo que a cerimônia blablabloseadora era para o outro lado ou algo assim.

Não foi uma escolha feliz.

Assim que comecei a dobrar a esquina dos fundos da cantina, já com um sorrisinho animado se formando, fui detido por um golpe de montes de litros de um líquido que me encharcou.

Pisquei várias vezes, tentando desturvar a visão e, por acidente, passei a língua pelo meu lábio molhado.

— Esse é o pior suco de laranja que já experimentei. — resmunguei focando uma mulher que me fitava, com os olhos esbugalhados, e um balde vazio na mão. — Você sempre tem o hábito de jogar suco de laranja nos outros? — eu disse amenizando o meu tom ao contemplar sua expressão em pânico e sacudindo meus braços, a fim de tirar um pouco do excesso de suco.

— Oh, sério. Desculpe-me! — ela disse saindo com uma olhadela para trás e fechando cuidadosamente a porta antes de correr ao meu encontro e tentar me secar com um pano de prato.

Uma novata, pensei olhando-a mais de perto. Seu avental estava torto e sua bochecha esquerda suja de farinha.

— Eu pago! — ela disse de repente, arregalando ainda mais os olhos, o que eu não achava possível até então. — Eu pago. Sério, eu pago. Só... Por favor, não conte...

— Ei, calma! — eu disse falando tão baixo quanto ela. — Eu só ia chamar a polícia e... — comecei a dizer com ar distraído, sem resistir.

— O quê? Você está brincando, não é?

— Eu estou. — eu disse com um sorriso cúmplice. — Se acalme, ok? Apenas me diga o porquê desse suco ter um gosto tão horrível...

— Eu coloquei sal e bicarbonato de sódio por acidente. — ela disse parecendo relaxar um pouco. — Isso foi maldade, — ela continuou alguns segundos depois. — quero dizer... A parte da polícia.

— Foi. — eu disse sem nenhum tom de desculpas. — Assim como jogar o suco nos fundos da cantina parece brilhante. — eu ri olhando para trás e encontrando mais dos comuns arbustos bem cuidados do Silvana Batista. — Essas plantas teriam uma morte trágica.

— Humph! Moleque... Sabe a surra verbal que a Vanda me daria se soubesse que eu estraguei o suco? Ela simplesmente começaria... — ela começou a dizer, mas algo na minha expressão a fez parar repentinamente. — Não se divirta com o azar dos outros! Não vai mesmo contar para alguém, vai?

— Se você realmente achasse que eu fosse contar a alguém, não estaria me dando um sermão.

— Hum... Está bem. — ela disse descarregando seu semblante, o que me fez perceber que ela deveria ter uns vinte e poucos anos. — Vou arranjar algo para você se secar.

— Seria bom... — comecei a dizer, balançando as mangas encharcadas do meu casaco, mas aí eu o vi. Claro, né! Porque quando alguma coisa realmente ruim acontece comigo, outra ainda pior aparece só para que eu perceba que aquele ditado: Não pode piorar!, não funciona nem como consolo. Eu o visualizei, inicialmente, pela minha visão periférica antes de voltar meu rosto totalmente, assombrado.

Toni usava um jeans amarrotado e eu quase esperei que houvesse sangue neles. Ele conversava com outro cara e vinha na minha direção, sem perceber minha presença o que me dava mais alguns segundos antes do inevitável. Tentei não me deter muito, reparando em como seus músculos se destacavam no uniforme e em como àquelas mesmas mãos enormes haviam deixado meu braço com um enorme hematoma e o meu pescoço com uns lanhos vermelhos... A Dra. Alzira ficaria assombrada se visse como eu estava usando todo esse troço de positividade, mas, enfim, se as coisas fossem como eu quero... Vampiros não existiriam ou, pelo menos, eles queimariam no sol.

Voltei a olhar para a funcionária da cantina que levantava uma sobrancelha frente a minha frase interrompida e sorri; provavelmente, um daqueles sorrisos artificiais e sem qualquer significado.

— Tchau. Tenho que ir. — com essas breves palavras, comecei a correr em direção a suposta piscina coberta, ignorando o fato de ela ter aberto a boca, pretendendo me dizer alguma coisa antes de me deixar ir embora. Talvez uma promessa solene de que eu não a levaria ao tribunal por ter jogado suco de laranja em mim.

Comecei a correr pela grama, visando evitar os rastros molhados que eu estava deixando e torci para que nenhum inspetor ou jardineiro estivesse por perto. Também fiz uma nota mental, ali parece ser um ótimo lugar para deitar e dormir sem ser achado. Atrás da cantina. Com alguns arbustos na frente... Daria para ficar ali por uma eternidade sem ser percebido, mesmo por uma pessoa que estivesse há uns dois passos da grama.

Quando finalmente consegui chegar onde pretendia, um pouco antes de entrar, dei uma olhadela para trás; certificando-me de que Toni não me seguira e respirei, aliviado, ao perceber que nada além do vento morno ousava vir na mesma direção.

Empurrei a porta de metal e vi que o que eu especulara estava completamente certo. Uma piscina do tamanho de um campo de futebol, com no mínimo uns 2.500.000 litros de água, centralizava-se no espaço coberto. Dei alguns passos ignorando o fato de estar molhando o chão branco. À direita havia várias pranchas de isopor, empilhadas em um dos bancos. À esquerda havia os vestiários. Mais para frente o feminino e próximo a entrada, o masculino. Achei isso muito cômodo e me arrastei até o masculino. Talvez eu pudesse dar um jeito no meu uniforme. Se antes eu não estava com vontade de voltar a encontrar o Hugo, agora então, com o Toni rondando por aí... Não estava nem um pouco instigado.

Tentei abrir a porta do vestiário masculino, mas como eu já deveria ter imaginado estavam trancados, de modo que acabei por sentar no chão, próximo a piscina. Joguei o casaco para o lado, aliviado por poder tirá-lo e como minha camisa estava só parcialmente molhada, continuei vestindo-a. – Também, porque me pareceu dramático demais tirar a camisa e bancar o galã de novela contemplando a água. É tão tosco que dói.

Depois de alguns minutos assim, escutando a tagarelice do silêncio, percebi que estava dedilhando, inconscientemente, cordas invisíveis de violão com a mão direita.

— Viciados são um problema. — eu disse e suspirei em seguida, ao lembrar-me de como a Tabhita gosta de dizer isso como uma censura provocativa, com aquele sorriso riscando seus lábios.

Sorriso de hortelã.

Sorriso do Peter Pan.

Sorriso sabor pipoca.

Sorriso sem minhoca.

Sorriso com melaço.

Sorriso sem palhaço.

Sorriso do brigadeiro.

Sorriso de tintureiro...

Sorriso cor de céu.

Sorriso sem cinzel.

Sorriso por goiabada.

Sorriso sabor piada.

Sorriso do pirata...

Comecei a cantarolar, deixando um sentimento nostálgico me abraçar. Eu inventei esse projeto de canção quando era criança e lembro-me que minha mãe não entendeu o porquê do sorriso ter que ser sem palhaço, até o dia em que eu tive uma crise de choro quando meu primo, Iago, tentou me arrastar para ver o show dos mesmos enquanto estávamos em um parque de diversões.

Animei-me um pouco ao lembrar-me dessa música. Bem simples, uns dois acordes apenas. Fácil de tocar. Fácil de decorar. Fácil de cantar. E, cara... Cantei tanto essa música quando era moleque, que não sei como minha mãe não me bateu para calar a boca. Eu com certeza me bateria para calar a boca.

Não demorou muito para que eu me levantasse e me pegasse encarando meu reflexo na superfície irregular da água. Reparando nos detalhes da piscina pude ver que há oito raias, marcadas de vermelho. Nem mesmo o clube onde eu fazia natação em BH tinha instalações desse nível... Logo, é óbvio que eu estava louco para me jogar lá dentro. Se eu tivesse levado minha bermuda, é provável que já o tivesse feito assim que pus os olhos na piscina.

— Pretende pensar se vai entrar ou não, por quanto tempo? — virei-me, lentamente, reconhecendo a voz.

— Não vou entrar. — eu disse tentando encontrar algum traço mais expressivo em seu semblante, fora os vivos olhos vermelhos que tinham o mesmo aspecto faminto que eu me lembrava. — Mas eu queria.

— Se você quer, entre. — ela disse, saindo de perto da entrada e vindo em minha direção em passos rítmicos e graciosos. — Se você quer, faça. Não culpe qualquer outra coisa por você não ter feito o que queria.

— Você está tentando citar*Sartre? — inquiri me sentindo estranhamente relaxado na presença de uma garota albina, vestindo um vestido preto, cheio de rendas, fazendo-a parecer uma espécie de lolita.

— Oh. — ela disse levando uma das mãos a boca em um entusiasmado tom de surpresa e, em seguida, abrindo os braços em rendição. — Fui pega.

— Você não estuda aqui. — eu disse voltando a olhar a água.

— Não. — ela concordou com um vago aceno.

— Então, por que está aqui?

— Então, e você? Por que está aqui? — ela rebateu imediatamente e, apesar de não estar olhando para ela, pude sentir o riso em sua voz.

— Fui pego. — eu disse, simplesmente.

— Hmm... Você parece desanimado. Planeja desistir de Martina? Já? — ela perguntou e eu voltei-me para encará-la, sem entender o que ela queria dizer.

— Desistir de Martina? — eu disse com um sorriso mais no sentido de mostrar os dentes do que de expressar algum sentimento. — Eu moro aqui, não é questão de desistir ou não. Morar aqui continuará sendo um fato. — eu disse e só então percebi o quão ríspidas soaram minhas palavras, acho que estava deixando minha frustração transparecer.

— Hmm... É isso mesmo o que pensa?

Dei de ombros.

— Talvez.

— Hmm... Então você está pensando em outros montes de coisas que não verbalizou? — ela disse em tom de quem tenta entender uma charada.

— Estou.

— E porque não diz? — ela disse com um sorrisinho de canto de boca, como se eu fosse alguma espécie de indivíduo estúpido que não compreendesse o óbvio.

— Porque não te conheço. Porque não confio em você. Porque você me acharia louco. — eu disse sem qualquer hesitação e voltando meu olhar para a piscina.

— Hmm... Você é direto. — ela disse sem parecer ressentida.

— Mais do que gostaria.

— Você se incomodaria se eu o achasse louco?

— Não sei.

— Faz diferença? Você se importa?

— Não.

— Aí está! — ela disse e ouvi um estalo de dedos.

— O quê?

— As sobrancelhas!

— Sobrancelhas? — eu disse virando-me para ela e captando sua expressão divertida.

— Você só sabe franzi-las e franzi-las e franzi-las... Você pensa demais.

Claro, a solução para resolver os problemas da minha vida é parar de pensar. Porque não cogitei isso antes?

— Veja bem, — ela continuou. — Você é um desses caras mal humorados que fecham a cara e enxergam o mundo com uma peneira na frente dos olhos. Não é muito chato assim?

— Está dizendo que sou obtuso? — perguntei já meio irritado.

— Estou dizendo que se você continuar se importando com o que não é importante, nada vai dar certo.

— E o que seria isso? O que é importante? — perguntei estreitando os olhos.

— Sei lá. A lua é importante.

— A lua é importante? Você está tentando ser poética?

— Viu? Você pergunta demais. Se você sabe que a lua existe, apenas pare de se martirizar com a existência dela, olhando-a desesperadamente. Preste atenção nos lugares que a luz pálida dela toca, porque estes são no chão. Na no planeta Terra, portanto, você pode tocá-los!

— O quê? Estamos naquele predestinado momento em que o eremita sábio vem me dar conselhos enigmáticos? — eu deixei as palavras se formarem enquanto revirava o que ela dissera no meu cérebro.

— Não estou te dando conselhos. — ela disse enfiando a mão na água e agitando-a. — Na verdade, só estou piorando as coisas para você. — ela voltou-se para mim e sorriu. — Saber das coisas é bom, mas é pior, sabe... Não temos a quem culpar.

— Daí Sartre.

— Daí Sartre. — ela concordou.

— Qual é seu nome?

— Hmm... Qual deles você quer saber? Tenho um monte, não gosto da maioria.

— E de qual deles você gosta?

— Hmm... — ela ponderou enrolando os fios de cabelo branco, com as mãos molhadas. — Gosto de Melinda, mas ninguém nunca me chamou assim.

— Melinda. — saboreei o nome. — Você é humana, Melinda? — eu indaguei sem delongas. A essa altura, era evidente que ela sabia muito mais que um terráqueo comum.

— Sim, — ela disse levantando o olhar do cabelo e fitando-me com uma nova atmosfera de interesse. — sou humana até os ossos.

Não acreditei. Mas meneei a cabeça em concordância.

— Acho que isso é bom.

— É, eu prefiro dessa forma. — ela disse se levantando. — Eu já vou e... — ela disse apontando para o machucado no meu braço. — Sugiro que tranque melhor o seu quarto para evitar mais desses. — dei uma boa olhada no meu machucado, assimilando o que ela dissera e voltei o olhar para onde ela estivera há alguns segundos, a fim de contestá-la, mas ela já estava saindo. Apenas vislumbrei um pedaço da saia de seu vestido, antes de ficar totalmente só novamente.

Fui embora assim que Melinda saiu, com a forte impressão de que eu deixara passar algo muito importante despercebido nos últimos dias. Toda aquela parafernália de lua e luz da lua deveria significar algo do tipo e tem esse lance do: Sugiro que tranque melhor o seu quarto para evitar mais desses. Isso quer dizer que alguém entrou no meu quarto e fez isso? Como? Eu, no mínimo, acordaria com um troço afiado sendo enfiado no meu braço.

A listinha de coisas que não entendo, só aumenta:

Beco com evidências que eu não vejo.

Escola e representante de turma, chatos (Só coloquei esse para que a lista não fique tão sombria).

Alguém cortando meu braço durante a noite.

Uma albina adolescente que acha que é a mestra sábia de algum livro.

Vampiro que parece um super homem canibal. (sem a parte da pedrinha verde como ponto fraco*).

O dia podia ficar pior? Oh, você se surpreenderia com a capacidade que meus dias têm de ficarem piores ultimamente.

Saí da piscina coberta e fui seguindo para os fundos, pelo seu lado esquerdo. Lá atrás, estudei bem o muro. Na verdade, é metade muro, metade grade. Uns dois metros e meio... Por aí. Amarrei o casaco na cintura e, apoiando inicialmente meu pé na parte que ainda era muro, tomei impulso para pular a grade. Caí do outro lado meio sem jeito, mas consegui evitar um tombo, o que foi bom.

Peguei o ônibus – Depois de quase uma hora esperando! – sem reparar muito ao redor e, enquanto estava com a cabeça encostada no vidro da janela, contemplando a paisagem rural, fui vendo os vestígios de luz alaranjada rabiscarem o céu como estrias douradas que reivindicam seu espaço até o último instante.

Desci próximo ao beco, pretendendo dar uma olhada por lá de novo.

Nada.

Continuava na mesma, um beco comum. Com um cheiro comum e pedras comuns e lixo comum e gatos comuns. Depois de um minuto ou dois tentando vencer esse bloqueio com força de vontade, em uma ideia maluca, abordei o primeiro transeunte que vi e pedi-lhe que me ajudasse a procurar meus óculos perdidos, pois eu não enxergava nada sem eles.

O cara até se dispôs a me ajudar, mas quando lhe indiquei o beco ele contorceu o rosto em repulsa e disse:

— Você não está vendo direito, garoto... Mas deve estar sentindo o cheiro, não é? Algum bicho morreu aí e há tantas moscas que eu não vou nem chegar perto. Mas, se quiser, posso acompanhá-lo até sua casa...

— Ah, não... Obrigado. Não precisa. — eu disse tentando enxergar alguma mosca. O máximo que consegui foi ver foi um camundongo passar rapidamente de uma lixeira a outra.

Dispensei o cara após certa insistência, da parte dele, de me acompanhar. Fui andando distraído, não querendo estar fora quando a noite expulsasse totalmente os últimos raios de sol. E aí, como o dia foi uma porcaria... Lá estava, Wagner.

Quase não acreditei quando o vi. Cheguei a até mesmo piscar e limpar os olhos algumas vezes. Ou o azar me persegue ou a cidade que é pequena demais para que eu me mantenha muito longe dele.

Wagner não me viu. Ele estava parado no meio da rua, olhando para um papel, compenetradamente, como se isso fosse natural ou... Um novo método descontraído de se matar. Torci para que fosse a segunda opção, mas quando vi um carro vindo e ele não mostrou nenhuma sombra de reação tanto à minha voz chamando-o, quanto aos faróis que desenhavam dois círculos esbranquiçados em sua roupa; corri para o meio da rua, arrastando-o para fora do alcance do carro sem pensar duas vezes.

— Wagner? — chamei, largando-o e ouvindo o som do carro já longe. — Seu idiota! O que estava fazendo no meio da rua?

— Lendo, talvez... — ele disse com um olhar inocente totalmente artificial.

— Lendo? Qual é! Se quiser morrer, seja mais criativo! Arranje um lugar onde ninguém o atrapalhe e não faça de ninguém seu cúmplice!

— É minha mãe agora?

— Cara, sério... Não estou em um bom dia, ok? Apenas cale a boca.

— O quê? Seus pais te ligaram?

— Me ligaram? — eu disse pegando o celular e percebendo que ele estava descarregado. — Por que eles ligariam? — perguntei estreitando os olhos.

— Não sei. — ele disse dando de ombros. — Mais cedo, eles me perguntaram pela sua prima, a Tabhita. — ele sorriu e eu respirei fundo para não fazer nenhuma bobagem. — Também vi sua mãe dizendo que não conseguia falar com você.

— Está falando sério?

— Estou. Considere um agradecimento por ter me salvado agora há pouco.

— Não fiz um favor a você, por mim, apenas vá e morra em um lugar que não incomode. Fiz um favor a sua mãe que não merece o filho que tem.

— Pelo visto você a conhece melhor do que eu... — eu o ouvi dizendo, mas o abandonei não querendo perder meu tempo. Meus pais tentaram me ligar.

Será que aconteceu algo com ela? Será que é algo relacionado com Madrid?

Senti meu estômago doer. Parei em frente a minha casa, com a mão sobre a maçaneta. Respirei fundo e entrei.

— Felipe! — minha mãe pulou do sofá e correu ao meu encontro. — Está bem?

— Estou. — eu disse desconfiado. — Cadê a Tabhita?

— Felipe... — ela disse com um ar preocupado. Minha mãe é daquelas mulheres que costuma sorrir demais e que tem aquela atmosfera em volta, que a faz parecer bem mais jovem. No entanto, hoje, ela não estava assim. Suas rugas pareciam mais visíveis e sua expressão mais abatida.

— Mãe, cadê a Tabhita? — eu perguntei logo.

— Talvez não seja nada... Eu liguei para a casa onde a Tabhita disse que passaria a noite, já que não consegui falar com ela pelo celular. E...

— Ela não passou a noite lá? — adivinhei.

— Não.

— E onde ela está?

— Então, Júnior... Ela não foi para a escola hoje. Seu celular está fora de área. — ela disse pausadamente, me avaliando. — Não achamos quem a tivesse visto desde...

— Mãe...

— Felipe, você foi o último a vê-la. — disse minha mãe e uma dor começou a instaurar-se em minhas têmporas. — A Tabhita sumiu.

Se você sabe que a lua existe, apenas pare de se martirizar com a existência dela, olhando-a desesperadamente. Preste atenção nos lugares que a luz pálida dela toca, porque estes são no chão. Na no planeta Terra, portanto, você pode tocá-los!

As palavras ditas por Melinda gritaram, claras e acusadoras na minha mente. E então me senti mortificado. Por um ou dois segundos, quase entrei em desespero. E por fim, deixei a raiva ganhar.

Toni.

Isso deve ser uma droga de retaliação do Toni, mas eu mato esse cara... Ah, eu mato esse cara, nem que eu tenha que tentar, um por um, os métodos que conheço de matar vampiros, até achar um que funcione.

Notas finais
*Sartre é um filósofo e uma de suas teorias afirma justamente a atribuição da responsabilidade na realização de escolhas ao próprio individuo que a fez. Não impor-tando se o pai mandou, se o assaltante apontou o revólver, se a Igreja disse... No fim é você que escolhe, independentemente das consequências.
**Pedra verde que é o ponto fraco do super homem, krypton.

E é isso aí, nekos! Me digam o q acharam nos reviews, ok?!
Bjus^^