Noite

6 Tempo Perdido


Notas iniciais
Capítulo grandinho! Me empolguei ao escrevê-lo!!! Espero que estejam curindo a história!!!

_Ainda dia 25 de Janeiro_

Já vou dizer logo que não é culpa minha, eu ainda estar narrando o dia 22. Afinal, por mim eu nem teria ido lá. Não mesmo!

Aff.

Contei logo à Tabhita o lance todo com a Marcinha, irmã do Zeca. Do suicídio e tudo, mas não me demorei muito no assunto. Por mais pessimista que eu seja, não gosto de ficar destrinchando a morte dos outros.

— Quantos anos ela tinha? — Tabhita perguntou ainda meio chocada, enquanto eu tocava a campainha.

— Acho que uns nove.

— E como ela...

— Ela morreu afogada. — eu disse adivinhando sua pergunta.

— Ah...

Provavelmente a Tabhita iria me perguntar mais alguma coisa, mas a porta se abriu e o Wagner apareceu. Lançou-me um olhar enviesado e depois passou a encarar a Tabhita dos pés a cabeça, sem qualquer disfarce.

— Oi! — disse a Tabhita sem se abalar.

Sinceramente, acho isso meio incrível na Tabhita. Eu, provavelmente, lançaria um dos meus piores olhares de “me erra” ou algo assim. Mas ela sempre sorria e era gentil, até que a conheciam realmente e descobriam que ela se divertia com esses jogos e tinha uma natureza perversa... Ok, parei!

— Hey, Wagner. Essa é a Tatbhita, viemos falar com o Zeca.

Deixa-me explicar como ir à casa de um amigo, passou a ser o mesmo que visitar o Wagner. Pelo menos vou explicar o que entendi, é uma família meio complicada. – Cara! Estou com dor de cabeça. Achei que no interior os vizinhos não ouviam brega a essa altura! Meus tímpanos estão estourando! – Zeca me disse que ele e a Marcinha estão morando com os tios, que seriam os pais do Wagner, há um ano. Não quis perguntar, mas pela atmosfera e a expressão dele quando me disse isso, acho que os pais dele meio que abandonaram eles.

Ok, isso não é só minha dedução. Boa parte da minha especulação está embasada no meio de informação oficial da cidade, que é “o clube dos velhinhos”. Assim denominado pela minha ilustre pessoa. É, isso mesmo, ouvi os velhinhos dizerem que os pais do Zeca foram fazer sei lá o quê na cidade e não estavam nem aí para os filhos. Senti-me mal por eles, mas não toquei no assunto. Eu não consigo nem ME ajudar, não quero piorar as coisas para o cara.

— Ele não está bem, não acho que quer visitas. — ele disse comendo a Tabhita com o olhar. Sinceramente?! Ela parecia não estar nem aí e o encarava com indiferença, mas eu já estava meio irritado.

— A Alguma... A Felícia — me corrigi. Quando você se refere mentalmente a alguém como “Alguma-Coisa-Icia” ou “Loira Chiclete” por muito tempo... Fica difícil verbalizar outra coisa. — A Felícia me disse que ele falou para eu passar aqui. — eu disse calmamente. Não era o momento para eu cair no pau com o Wagner, até porque eu não sou tão insensível como a Tabhita diz.

— Tá! Entrem! — disse Wagner saindo da frente para que pudéssemos passar.

A casa estava tão impecavelmente arrumada como sempre. Cortinas verdes, sofás brancos e um tapete enorme que se espalhava por quase toda a sala.

— Ele está lá em cima. — disse Wagner.

Passei por ele sem dizer nada e arrastei a Tabhita junto. Não sei bem o porquê de ela ter vindo, com certeza não era uma boa ocasião para sua exploração e coletânea de informações em Martina.

Bati na porta duas vezes e entrei.

Zeca estava sentado na cama, dedilhando pelas cordas do violão e anotando algumas coisas em um caderno cheio de rabiscos pelo que pude reparar. – É, ele toca violão, também! Assim que cheguei aqui e estava procurando meu violão como um louco e brigando com o cara do caminhão que trouxera toda a mudança, o Zeca veio com aquele papo manso dele e com isso o cara saiu ileso. Acho que tenho que agradecê-lo por isso e: ou me jogar num poste por ter esquecido o Joy na casa da Tabhita ou arrancar os cabelos azuis dela por não ter dito nada.

— Hmm... Oi. — eu disse meio sem graça. Cara, eu nem superei a morte da minha avó direito! Como que eu iria consolá-lo? Não achei que falar “você vai superar!” ou “o tempo é o melhor remédio!” seriam boas opções. Aliais, eram as piores opções possíveis que uma criatura poderia dizer! Eu encaro como uma espécie de facada final. — Como você está?! — Então, néh... Ele deveria estar muito bem com o suicídio da irmã dele de nove anos. Eu nem sabia que uma criança de nove anos tinha a capacidade de discernir o que era um suicídio, quanto mais colocá-lo em prática! Todo esse esforço mental para não falar merda e o que sai? Merda.

— Hmm... Estou indo... — ele disse com um meio sorriso. Foi impressão minha ou ele estava tentando me consolar por eu ser um péssimo “consolador”? — Ah, você trouxe uma amiga? Você não é daqui, não é?! Sou o Zeca, prazer! — ele disse estendendo a mão. Eu até poderia ter acreditado que a morte da irmã dele fora algum tipo de alucinação da minha cabeça, pelo seu aparente bom humor. Porém, suas olheiras denunciavam a noite mal dormida e sua expressão estava visivelmente inquieta.

— Olá, sou Tabhita. — ela disse com um sorriso, que diferentemente de quando sorriu para Wagner, fora autêntico.

— Vou mandar a Felícia mandar recados mais vezes! Você veio bem rápido e ainda trouxe acompanhante!

— Érrr... Acho que sim. — eu resmunguei, segurando-me para não mandá-lo enviar-me um SMS da próxima vez. Estamos no interior, mas acho que dá pra usar celular, néh?! Ainda que o sinal seja um lixo!

— Estão fazendo o quê, aí, em pé?! — ele disse arredando para o lado na cama. Sentei-me ao seu lado e Tabhita puxou a cadeira do computador, onde ficou dando voltas de 180° e nos observando pelo canto do olho.

— Foi mal te chamar assim e tudo... Queria avisar que vou sair da cidade por um tempo. Meus pais queriam que eu fosse morar com eles na capital e eu vou lá por um tempo, ver se é uma boa mesmo.

— Hmm... Tem certeza disso? Pelo o que te conheço, você gosta bastante daqui.

— É, e cresci aqui com a Marcinha. — ele disse com uma expressão que não pude deixar de notar que era dura.

Fiquei quieto, nada que eu dissesse faria a irmã dele voltar, eu nem sequer lembro direito dela! Lancei um olhar de esguelha para Tabhita, ela certamente saberia o que dizer em uma situação dessas, mas obviamente não se intrometeria sem nem conhecer o cara. Resultado: eu fiquei lá, encarando a Tabhita e moendo meu cérebro, tentando absorver alguma ideia por telepatia.

— Então, vai querer tocar ou não?

— Hmm? — eu disse como um idiota. Aparentemente, Zeca estava longe de ser alheio ao meu deslocamento. O cara estava tentando me deixar confortável. Cara, eu sou patético, fui lá tentar ajudar e estou sendo ajudado! — Ok! Acho que posso fazer isso.

Peguei o violão e estava com vontade de tocar algo de The Doors, mas me deixei levar por algo mais nostálgico. Achei que Zeca iria gostar, então comecei a cantar baixinho. NOTEM que eu disse que comecei a CANTAR baixinho! Isso por si só, seria digno de nota se eu não estivesse tentando animar o cara.

Todos os dias quando acordo...

Lancei um olhar para Tabhita que assentiu e deu um sorriso leve. Ela canta muito melhor do que eu, sabe?! Com certeza seria um consolo melhor.

Não tenho mais o tempo que passou...

Mas tenho muito tempo...

Temos todo tempo do mundo!

Fui passando os dedos suavemente pelas cordas do violão, como se o som fosse algo precioso para liberar seu potencial todo de uma vez. Pelo canto do olho, vi que os lábios do Zeca cantarolavam suavemente.

Todos os dias... Antes de dormir...

Vemos que esse povo foi um dia...

Sempre em frente!

Não temos tempo a perder...

Toquei tão naturalmente... Como se o violão fosse uma extensão do meu braço. Sempre tenho uma sensação meio inumana – não me perguntem como! – quando pego num violão, não é a toa que se tornou uma espécie de vício. Eu ouvia a Tabhita cantando com sua voz calma e afinada e os meus dedos dedilhavam as cordas, quase como se fossem vivos. Acho que eu me consolei um pouco também, quando toquei aquela música, sentindo meu corpo tremer suavemente. Inconscientemente, pensei na minha avó e em como ela se fora tão facilmente. A vida era preciosa, mas tão tátil quanto essa música, eu acho. Trata-se de uma questão de pegar o ritmo da melodia, curti-la, tentar acertar a letra e abraçar o silêncio novamente.

Somos tão jovens... Tão... Jovens...

Eu terminei de tocar e me permiti dar um sorriso. Acho que até mesmo o Zeca sentiu-se um pouco melhor e quanto à Tabhita... Não preciso nem mencionar que ela tinha um sorriso estampado na cara, néh?!

Depois disso me despedi e fomos embora. A Tabhita não disse nada, no fundo, acho que ela sabia que eu não estava muito bem. Ela sempre enxerga dentro de mim de um jeito que chega a ser assustador, às vezes. Mas não posso negar que é reconfortante.

Agora, eu vou ali bater no vizinho que ainda está ouvindo bregão nas alturas! Tenho certeza que há uma lei em algum lugar de nossa linda constituição – Ótima mesmo! Os políticos que são uma merda! – que afirma que se alguma criatura estiver com o som alto depois das dez da noite eu posso chamar a polícia! Vou lá ameaçar ele, porque vou fazê-lo pagar a conta médica depois que meus tímpanos furarem e não haverá inquérito policial que me faça ter piedade!

Notas finais
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