Noite
12 Pesadelo
Notas iniciais
_28 de Janeiro_
Eu bocejei, estava com muito sono e sentia o meu corpo anestesiado. Fitei a sala escura e procurei meu celular.
Duas e quinze da manhã.
Pelo o que parecia, ninguém havia chegado ainda e eu tinha a estranha sensação de que elas não voltariam mais. Tentei achar o número do meu pai, mas não sei se eu fumei alguma droga sem saber ou se esqueci de registrá-lo na memória do aparelho, porque não achei o contato dele. Na verdade, estava ficando tudo estranhamente embaçado e meu estômago começou a doer de ansiedade; foi quando ouvi a porta abrindo-se e fiquei aliviado ao ver a Tabhita entrando.
— Tabhita?! — indaguei aliviado por vê-la — onde vocês estavam até essa hora? Cadê a mãe?
— Felipe, você é muito estressado! — ela cantarolou, sentando-se ao meu lado no sofá, sem olhar para mim — Sua mãe não quis voltar, mas eu voltei, sabe...
— Tabhita?! O que quer dizer? — eu perguntei tentando visualizar seu rosto, sem sucesso, pois ela virou-o ainda mais para o outro lado.
— O Zeca me entregou a carta que você queria! — ela disse e eu reparei, pela primeira vez, que ela estava com um papel surrado nas mãos. — Não quer saber o que diz?
— Humm... Sim, eu quero. — eu disse, fitando sua cabeça azul. Sem entender direito o porquê de ela não querer me encarar.
— Ok. — ela disse abrindo a carta — *I hate what I've become — ela cantarolou, com sua voz baixa e afinada — The nightmare's just begun...
— Ei?! Tabhita?
— I must confess — ela me ignorou e continuou cantando — that I feel like a monster…
Senti meu estômago revirar-se com mais força quando ela parou de cantar, como se o silêncio fosse pior.
— Tabhita?! — chamei e me arrependi imediatamente, porque quando ela começou a virar-se, foi como se uma mão fria me segurasse com força. Não sabia o porquê, mas assim que me sentia.
Quando seu tão aguardado olhar tocou o meu, não encontrei os mesmos olhos quentes e castanhos que conheço tão bem; mas orbitas negras e sem Iris. Não posso negar que isso me apavorou mais até do que o sorriso frio que ela me lançava.
Quando finalmente abri os olhos e me dei conta que tudo não passava de um pesadelo idiota, dei uma risada de alívio. Quão assustador um sonho, por mais estúpido que seja, pode soar antes de que se abra os olhos?
I hate what I've become
The nightmare's just begun
Procurei de onde vinha a música e tentei alcançar o celular da Tabhita que gritava como um louco em cima da mesa, sem acordá-la — já que ela estava toda confortável, babando em cima de mim.
I must confess that I feel like a monster
Eu pretendia ignorar a ligação, mas atendi quando vi que era a minha mãe ligando.
— Mãe?!
— Oi, Felipe! Tentei ligar tantas vezes para vocês... O que estão fazendo aí?
— Hummm... — fitei a Tabhita que havia jogado uma coberta sobre nós no sofá e dormido ali mesmo e dei de ombros, mesmo que minha mãe não pudesse ver — Dormindo. Ei, nem vi vocês chegando ontem...
— É. — minha mãe interrompeu — A Tabhita não te contou? Fomos ao Colégio Silvana Batista ontem e aconteceu um acidente na estrada, tivemos que esperar horas até podermos sair de lá. A diretora foi até muito gentil.
— Ei, espera! — eu disse ainda meio sonolento e no clima de pesadelo — O que, exatamente, vocês foram fazer no Silvana Batista?
— Fomos ver algumas possibilidades de matrícula, mas depois converso direito com você. Liguei para avisar que seu pai está bem e volta mais tarde para casa, ao menos ele vai ganhar uns três dias de folga.
— Ok, ok! Espera aí mãe! O que aconteceu com o pai? Como assim ele está bem?!
— Ah... — eu a ouvi bocejar do outro lado da linha — Aconteceu um acidente, ontem, quando seu pai foi nos pegar no Colégio Silvana Batista. Eu passei a noite aqui, com ele, no hospital, só por garantia. Não se preocupe, ele está bem e já querendo voltar a trabalhar.
— Um acidente? Ele bateu o carro ou algo assim?
— Não! Não! Parece que ele foi atacado por um bicho ali perto do Colégio Silvana Batista, estava escuro e é perto da floresta, você sabe... Mas não foi nada grave, vou te contar melhor quando chegar em casa. Por falar nisso, querido, sua voz está soando meio rouca. Você está melhor?
— Sim, sim. — eu resmunguei irritado, por minha mãe ter me lembrado da minha dor de garganta e do esplendido fato de que eu não estou conseguindo respirar pelo nariz.
— Seu pai tinha comprado um remédio para você, mais tarde vou para casa e levo, está bem? Não saia na friagem, o dia está meio nublado.
— Ok.
— Beijos, Júnior!
— Tchau. — eu disse desligando logo depois dela.
Estudei a Tabhita dormindo por um tempo. Ela estava com a cabeça apoiada na minha perna e só o topo de seu emaranhado de cabelos azuis era visível sob a coberta. Não sei como ela consegue dormir com a cara enfiada debaixo de um cobertor, eu já teria morrido asfixiado há muito tempo. Imaginei seu rosto adormecido e involuntariamente comparei-o com o sorriso gélido que a Tabhita dark do meu sonho tinha.
Urgh!
Tentei arranjar um jeito de me levantar sem acordar a Tabhita, mas — a menos que eu descobrisse uma nova forma de contorcionismo – preferi continuar onde estava. E sério, me dei conta do quão terrível é dormir meio sentado, meio deitado no sofá; era como se eu tivesse acabado de sair de uma máquina de lavar roupa.
Aff.
Catei o celular da Tabhita – que é sim, um daqueles imortais da Nokia – e olhei a hora.
— Putz, meio dia, já! Aff... Quer saber?! Tabhita! — chamei apertando sua bochecha — acorda aí!
— Hmmm... — ela começou a se mexer. Resmungou monte de coisas que não entendi e continuou dormindo.
— Ok, Tabhita e sua incrível habilidade de dormir até com o mundo acabando. — consegui me levantar e joguei o cobertor por cima da cabeça dela de novo. Era uma cena estranha, a cara dela coberta e as pernas de fora. Gente que sente frio na cabeça, nem digo nada...
Escovei os dentes e constatei que minha cara estava tão horrível quanto eu imaginava. Involuntariamente, comecei a pensar no dito urso atacando meu pai e na possível relação que isso tinha com a morte da garota que os velhinhos da padaria mencionaram. Estava tentando evitar raciocinar sobre isso desde que minha mãe dissera que meu pai havia sido atacado por algum animal, mas, infelizmente, não é tão fácil enganar o próprio cérebro.
— Não é perigoso ter uma escola perto de uma floresta com animais perigosos? — eu me indaguei em voz alta, fazendo caretas de reflexão para o espelho. — E ainda tenho que pegar a carta do Zeca...
Por fim esfreguei a cara com sabão, o máximo que pude, tentando tirar aquele aspecto febril da minha expressão. Desci e segurei a vontade de ligar para a minha mãe e perguntar um monte de coisas do tipo: “que animal foi?” ou “existe uma guarda florestal por aqui?”; mas me segurei e fiquei um tempo jogado no sofá da sala, querendo que a Tabhita acordasse logo para que eu pudesse perguntar logo tudo o que eu queria saber.
— Ei, Tabhita? — eu chamei sentado, ainda encarando e ela nem se mexeu. — Aff. Que horas essa garota chegou? — eu perguntei-me ao me aproximar e puxar novamente a coberta.
— Ei, Tabhita! Acorda! — eu disse apertando, ambas, as suas bochechas.
— Ei, Lipe! Cala a boca. — ela disse tentando puxar a coberta de volta.
— O que aconteceu com o meu pai, exatamente?
— Hmmm... Ele está no hospital. — ela disse se sentando ainda de olhos fechados — Sua mãe já chegou?
— Não, ela ligou e avisou que chegariam mais tarde. Também disse que não foi nada grave.
— É! Não foi não. — ela disse bocejando — sua mãe preferiu que ele passasse a noite lá, mas o médico disse que nem era necessário.
— Típico.
— Huhum.
— Que animal foi?
— Não sei. — disse a Tabhita me lançando um olhar esperto — pensou na garota da padaria, não é?! Mas ao que tudo indica, eles não têm nada haver um com o outro. O animal que mordeu seu pai era de um porte bem menor, nem se quisesse seria capaz de, praticamente, devorá-lo.
— Que bom, acho.
— É. Já comeu?
— Hmm... Não.
— Tem noção do quão ruim está sua cara? — ela disse enfiando a mão na minha testa — Você está febril e cara... Você estava roncando.
— Eu não ronco.
— Estava roncando.
— E você babou minha calça inteira.
— Ok, ok... — ela disse pulando do sofá e correndo para a cozinha — O que temos para o café da manhã?
Tabhita e sua incrível habilidade de me ignorar.
Agora, eu estou indo na casa do Zeca. Espero que ele não esteja me evitando, que seja só paranoia minha. Tabhita me fez contar tudo e quase me bateu pelo jeito simplório como que eu pedi a carta de suicídio da Márcia.
Aff.
Estou morrendo de curiosidade para ler essa carta, até sonhar com ela, eu já sonhei.
Notas finais
I hate what I've become| Eu odeio o que me tornei.
The nightmare's just begun| O pesadelo apenas começou.
I must confess that i feel like a monster! Eu preciso confessar, que eu me sinto como um monstro.
Gostaram??
Att.
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