Noite
14 Olhos Rubros
Notas iniciais
O capítulo está maior, espero que gostem!
Desde já agradeço a Clock-chan pela betagem! *-*
Boa leitura!!!!
_29 de Janeiro_
Acordei super tarde, já era mais de meio dia. Quando cheguei á cozinha, com os cabelos ainda em sua plena liberdade de expressão, minha mãe disse pela milésima vez que eu deveria cortá-los e cantarolou alegre, colocando algumas vasilhas de comida sobre a mesa.
— O que está fazendo? — eu perguntei, tomando uma golada de água gelada.
— Eu e seu pai vamos almoçar na casa da Hermínia, hoje. Estou deixando o almoço pronto para você e a Tabhita, nem pensem em comer porcaria, viu?
— Yeah, yeah... E onde eles estão?
— Seu pai foi na frente e a Tabhita já está no campo! Saiu toda animada hoje cedo...
— Hah...? No campo?
— Ela vai participar de um dos times de futebol da competição do Festival da Batata!
— Oh, sério isso? Desde quando?
— Desde antes de ontem, eu acho...
— Hmm... — isso era tão típico — Vou passar por lá depois. — disse massageando as têmporas, com dor de cabeça. Jogar até quatro da manhã é ótimo até a parte em que você vai dormir e tem que acordar.
— Bom, aproveite enquanto pode, por hoje! Amanhã vão chegar alguns hóspedes e você terá que me ajudar, então esteja disposto!
— Ok. — eu murmurei sem um pingo de ânimo, aparentemente, Martina atraia certa quantidade de romeiros e visitantes convencionais, que participavam das festividades; e alguns deles hospedavam-se na pousada Vale Verde todos os anos, o que nos conferia: hóspedes. Pelo o que minha mãe disse, talvez minha tia e alguns primos viessem também. Enfim, ela estava super animada e eu ainda me sinto incomodado com todo aquele lance de vampiro, ursos do mau e suicídios... Nada tem nexo nessa merda!
Ontem fiquei reassistindo aquele vídeo que a Tabhita baixou e fuçando, á procura de algo substancial, net afora. Não havia nada demais, só achei o site da delegacia de Martina, – É, no fim das contas, existia uma delegacia! – outro com notícias meio desatualizadas e algumas outras referências em fóruns e sites de pesquisa, com vários artigos que faziam um enormemente entediante estudo e análise do solo e de algumas propriedades minerais, muito abundantes em Martina. Os outros referenciais pareciam muito vagos ou direcionados a um aspecto específico, como o Jornal regional que tinha algumas notícias sobre Martina, mas apenas quanto a sua riqueza natural ou algumas das festividades locais. Não havia menção a coisas como o suicídio da Márcia; nem sequer no site de notícias online da própria cidade, tinha alguma menção a respeito.
Por quê?
É como se Martina fosse envolvida por alguma bolha, fazendo as coisas apenas resvalarem sem realmente mudar qualquer coisa. Quero dizer, o tal Deny sumiu e nem no jornal saiu? Um caso de suicídio e nem no jornal saiu? Uma garota foi devorada por alguma coisa com dentes e não identificada e nem no jornal saiu? – Acho que prefiro a versão do urso fantasma.
Putz... Como assim?! Essa cidade tem problemas!
E quanto as mortes, não faço ideia de onde a Tabhita achou aquela estatística de mortalidade em Martina, porque não achei merda nenhuma. E como eu não sabia bem como conectar as mortes e estava extremamente necessitado de mais informações, fiquei apenas rabiscando em um papel... Tentando achar alguma ligação entre os acontecimentos, que mesmo tão incompatíveis soavam tão surreais.
Foi aí que eu comecei a pensar em vampiros, digo, todas aquelas criaturas seculares, romantizadas e com presas. Não importava como eu olhasse, aquele vídeo era uma completa mentira! Em dias normais eu diria tratar-se de alguma trollagem destinada a internautas, desocupados o suficiente para levarem toda aquela bobagem a sério... MAS, o cara do vídeo havia sumido dia 25 e mesmo assim estava em um vídeo datado do dia 28, com um amigo virado no ICE e delirando sobre uma vampira e agarrando uma ruiva.
Talvez ele, apenas, tivesse caído fora de casa para fazer algumas merdas por aí, MAS – porque essa merda de “MAS” insiste em aparecer?! – se fosse só isso, não existiriam cartazes com a cara dele, espalhados por aí, não é?! Afinal, já existe um incrível aparato tecnológico hoje em dia, chamado celular... E se ele tivesse o hábito de sumir por aí sem dar notícias, no mínimo, os pais dele não estranhariam. Além disso, se ele estivesse farreando por aí, talvez fosse a alguma cidade vizinha?! Não consigo imaginar algum tipo de rave em Martina, soa bizarro. Porém, o vídeo off que a Tabhita baixara foi intitulado como: “Vampiros em Martina”.
Então, supondo que eles apenas se encontraram em algum lugar perto da floresta, — tendo em contas as árvores ao fundo – para beber, fumar ou terem crises existenciais... Eles não postariam no Youtube sendo que o Deny estaria fugindo de casa ou algo assim, ou pelo menos, ele não iria querer ser filmado.
Ou seja, ele sumiu do dia 25 até o dia 28, data em que uma vampira o atacou. Então o paradeiro dele é realmente desconhecido a não ser que eu ache aqueles amigos dele que devem frequentar o Silvana Batista, também – Supondo que eles não sumiram e que o tal Denildo frequente mesmo o Silvana Batista, o que eu acho quase certo, já que ele é o único Colégio que os que têm grana por aqui, frequentam.
— Oh, acho que estou um pouco ansioso para o início das aulas... — murmurei, me espreguiçando.
Tudo levava ao Silvana Batista e acho que quando as aulas começassem eu poderia descobrir algumas coisas interessantes...
Depois disso tentei dormir, mas como depois de tentar por uma hora, não consegui... Sem tirar coisas como: “Vampiros como os de Crepúsculo ou como o Drácula?!” da cabeça e me achando muito estúpido, fui jogar um MMORPG que eu baixei antes de ontem, deixando o PC ligado enquanto a droga atualizava. Solução brilhante para quem está tentando achar alguma lógica na existência de vampiros... haha.
Com isso, acho que encerro minha madrugada cheia de adrenalina... Woah! Acho que ainda estou meio inconformado por não ter achado nenhuma solução plausível, nem que fosse para provar que tudo era alguma fantasia sherlockina...
Aff.
Minha mãe saiu não muito depois de ter me mandado cortar o cabelo mais uma vez.
— Ai, que saco! Eu vou cortar a droga desse cabelo! — eu disse me servindo de um monte do strogonoff que ela preparou, acho que meu apetite voltou ao normal, agora que eu não estou mais tão mortalmente gripado; portanto, me dei a liberdade de tomar um banho gelado antes de sair sob o sol escaldante.
Fiquei na dúvida se deveria ir primeiro na banca dar uma fuçada nos jornais... Ou se ia ver a Tabhita. Acabei passando na banca.
— Hmm... — comecei a folhear os jornais do dia e o dono da pequena banca, ficou me lançando olhares furtivos como se duvidasse que eu fosse, de fato, comprar algum jornal. Não o culpo por isso, não tenho o hábito de ler nem assistir jornal. Normalmente, pego as notícias em sites pela internet mesmo me poupando do que eu não quero saber – Como, quem saiu do BBB; sério, para que merda aquele programa serve?! A Tabhita sempre diz que é uma cópia do entretenimento americano, com o objetivo de sugar nossos cérebros tornando-nos seres irracionais o que ocasionará, em um futuro não muito distante, um apocalipse zumbi; de algum jeito, as teorias dela sempre resultavam em um apocalipse zumbi.
— Procurando algo específico? — perguntou o dono da banca, aproximando-se, sem segurar sua ansiedade. Ele era caolho e ficava piscando mais vezes que o normal quando olhava de mim para o jornal, alternadamente.
— Hmm... Acho que não... — disfarcei. Com certeza não é como se eu estivesse procurando notícias sobre algum vampiro ou algo assim, mas se coincidentemente eu achasse uma... Ok! Acho que vou voltar para casa e começar a jogar de novo... — Você tem alguns jornais mais antigos aí?
Sério, nunca vi a expressão de alguém mudar tão rápido! Tudo bem que ele ainda continuava olhando alternadamente de mim para os jornais, no entanto ele não parecia mais ter a pretensão de me expulsar dali a qualquer momento.
— Vai levar? — ele indagou com um ar esperançoso, empurrando uma enorme pilha de outros jornais, da semana passada, em minhas mãos.
— Heh... Vou. — eu disse pausadamente, sem conseguir dar uma boa olhada nos anúncios, que era o meu objetivo inicial. No fim das contas, acabei com uma pilha de jornais enfiados na mochila e com o dono da banca assoviando alegremente como se àquela compra fosse a última Coca Cola do mercado.
Arrastei-me até o campo que era enorme. Na verdade não é bem um campo... Ou, pelo menos, não no sentido “verde” da conotação, porque se trata de um enorme espaço – em que caberiam umas cinco quadras paralelas umas as outras – com uma terra seca e uns recortes de grama em alguns lugares aleatórios. Não demorou muito para que eu visse a Tabhita, com aquele cabelo azul que é uma espécie de combinação “neon piscante” ao serem tocados por aqueles raios lasers que o sol de Martina libera. Ela estava correndo para lá e pra cá em um dos dois campos que eram tão bem cuidados como o espaço como um todo.
Fui me aproximando e vi que ela jogava com outros garotos, nem sei o porquê de, em um mísero delírio, eu ter imaginado que ela estaria em uma espécie de time feminino que jogaria bravamente para ter a honra de carregar o troféu da batata.
Como ela não reparou a minha presença, deixei-me cair sob uma árvore – uma das únicas fontes de sombra daquele mini-desérto — de onde eu poderia ter uma ótima visão do jogo, ainda que não estivesse muito interessado. Meu pai sempre me achou uma espécie de desgosto máster nesse sentido, já que ele sempre tentou me instigar a participar do clube de futebol quando eu era criança ou a converter-me em um fanático torcedor do cruzeiro como ele, mas... Não deu muito certo, e com o tempo ele acabou se conformando, eu espero.
Antes de virmos para Martina ele sempre chamava meus primos e tios para assistir os jogos decisivos de futebol, com ele. Era um verdadeiro pandemônio! Como se a sala fosse virar um campo de guerra a La Games of Thrones, a qualquer minuto ou falta mal apitada pelo juiz; que sempre se convertia em um monte de brigas sobre qual time é melhor, já que meu pai é cruzeirense, a Tabhita e a maioria dos meus primos são santistas e um monte dos meus tios são flamenguistas.
Enfim, sentei lá, morrendo de vontade de engolir um litro de água gelada ou morrer feliz jogado em alguma piscina por aí, e comecei a pegar os jornais que comprei. Sério, o cara me empurrou até alguns jornais do mês passado e eu nem tinha reparado na hora.
Aff.
Comecei a folhear os jornais, um deles tinha o mesmo título que o jornalzinho mequetrefe que eu tinha achado online, com a diferença que os casos eram, realmente, narrados nas páginas cinzentas do jornal. Talvez não tenha nenhum grande mistério sobre a negligência com a postagem de notícias, talvez, só... Ninguém lesse?!
Tsc. Podia ter inventado desculpa melhor!
Espalhei os jornais pelo chão, tinham pelo menos, uns doze. Não demorou muito para que eu achasse o perfil de notícia que eu procurava.
Garota de nove anos comete suicídio
Rapaz desaparecido desde a manhã do dia 25
Guarda Florestal encontra vestígios de animais de grande porte
Surtos de crises Alérgicas vêm se Agravando
Garota é encontrada desfigurada na floresta
E por aí prosseguia. Havia algumas notas falando de alguns adolescentes desaparecidos e eu não pude deixar de notar que era datado de hoje. O cara do ICE, a ruiva e mais uma garota que parecia ser do tipo emo, estavam com suas fotos estampadas, seguidas de seus nomes, descrições físicas, condições de desaparecimento e contatos. – e o local em que estudavam, o Silvana Batista.
Hector Pires Magalhães (17)
Maria Gabrielle Galles Martin (16)
Meire Costa de Andrade (16)
Supus, seguindo o fluxo do óbvio, que se a tal Meire foi quem os gravou na floresta, fugiu com a câmera e fez upload do vídeo... – Não que eu pudesse realmente ligar o Nick “Frogy” à tal Meire – Ela havia sido pega? Ou simplesmente excluíra o vídeo por medo de algo?
— Acho que isso explica as vagas sobrando no Silvana Batista... — eu disse procurando o jornal do dia 26, tentando encontrar alguma nota do desaparecimento do tal Denildo, já que desaparecimentos só são levados a sério pela polícia, depois de 24h. Bem quando eu achei, sem deixar de reparar como o espaço dedicado a ele era maior do que uma nota usual – o que pais cheios da grana não fazem, hein?! – uma garota me deu um verdadeiro susto, sentando-se bruscamente ao meu lado. Mas não foi um daqueles sustos comedidos do tipo: “Você me assustou!”, foi uma coisa bem dramática que implicou em eu engasgando com minha própria saliva e tossindo como um louco de garganta inflamada que quase meteu a cara no jornal que estava lendo.
— O que tem de interessante aí? — a garota disse me encarando com seus orbes, anormalmente grandes. À principio nem respondi, fiquei meio consternado com sua aparecia marcante; suas íris que oscilavam entre um tom rubro e rosado, e seus cabelos brancos que desciam até seus ombros, emoldurando seu rosto pálido.
Uma albina. Cara, sério... Não era a primeira vez que eu via uma albina, mas era a primeira vez que eu via uma tão de perto, no meio da minha psicose com vampiros.
— Você gosta e jornais? — ela disse pegando um deles e espremendo seus olhos, tentado ler o que estava escrito — Já está aqui há algum tempo, olhando-os com a testa assim... — ela disse apontando para o próprio rosto, franzindo as sobrancelhas e me lançando um sorriso meio escandaloso quando, ao ver meu olhar intrigado — Claro que eu a estava fitando-a como um idiota – ela encostou seu dedo indicador entre minhas sobrancelhas e ficou com ele ali parado até que eu me recuperei do estupor momentâneo e rompi o silêncio.
— O que você está fazendo? — indaguei me afastando.
— Não sei e você? — ela disse me olhando com expectativa.
Ok, muitas coisas problemáticas acontecendo. Vampiras gatas, suicídios, Zeca tendo uma crise melodramática e indo embora...
— Hmm... — Suspirei sem saber bem o que dizer. Sério, a garota devia ter a minha idade e estava ali, inclinada, me fitando de olhos arregalados, como se eu não pudesse ver o seu decote. — Is... — eu comecei a dizer, quando ouvi um berro meio desesperado vindo do campo de futebol; inicialmente não levei muito a sério, mas quando virei minha cabeça e vi a Tabhita berrando alguns xingamentos enquanto um cara segurava seu braço, meus neurônios ferveram e minhas pernas moveram-se antes que eu percebesse.
— Faça o favor de largá-la?! — eu disse com um tom bem expressivo, após ter pulado a grade baixa que circulava a o campinho.
Notas finais
Até o próximo capítulo!
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