Noite

15 Madrid


Notas iniciais
Olá, indivíduos... Cá está mais um cap. Espero que curtam!
Boa leitura!

_Dia 30 de Janeiro_

Sonhei que alguém me perseguia, uma espécie de sombra. Eu corria desesperadamente, mas não conseguia ganhar nenhuma distância significativa, porque tudo parecia tão lento – a exceção do meu perseguidor que corria em plena forma – que minhas pernas moviam-se como se estivessem dentro de um espesso monte de gel invisível.

Quando meus olhos finalmente focalizaram o teto, senti-me aliviado por acordar. Minha cabeça estava latejando e o suor fazia minha camisa agarrar-se ao meu corpo. Ainda estava meio escuro, então procurei o celular para ver a hora.

Três e quarenta da madrugada.

— Hmm...?! — eu murmurei espremendo meus olhos e com um sentimento desconfortável, até que minha mente voltou ao campo de futebol na tarde anterior e... Nada?! — O que exatamente aconteceu? — me perguntei esfregando as temporas e já sem sono.

Reparei que eu ainda usava a mesma camisa do Batman e o jeans amassado da tarde anterior. Espremi meu cérebro, tentando visualizar minhas ações depois que eu dera alguns passos apressados até avistar aquele troglodita dos infernos agarrando o braço da Tabhita. Depois disso eu... Eu o quê?!

— Grrr... — grunhi como um idiota. — Será que eu levei alguma surra? — indaguei-me pulando da cama, esbarrando a perna na cadeira e me jogando na frente do espelho do banheiro. Sério, me senti tão aliviado por não ter nenhum roxo ali na minha cara, que quase escorreguei no chão molhado. Minha mãe sempre diz que um dia eu vou acabar tendo uma morte trágica se não secar o chão do banheiro.

— Ok. Não levei porrada nenhuma, então o que aconteceu? — verbalizei encarando-me no espelho e percebendo o quão terrível estava o ninho de cobra conhecido como meu cabelo, somado a umas olheiras enormes que me faziam duvidar se eu realmente levara uma surra e estava com amnésia, ou não.

Desci as escadas devagar e vislumbrei os cômodos vazios e escuros, sem sequer uma alma viva. Abri a geladeira, ainda completamente encucado, procurando alguma coisa para enfiar goela abaixo; até que achei alguns pasteizinhos guardados em uma vasilha de plástico. Sentei-me em uma das cadeiras da cozinha, peguei o molho de pimenta e comecei a colocar um monte por cima da carne do pastel, antes de continuar a mordê-lo.

— Se você não praticasse nenhum esporte, seria gordo! — eu ouvi uma voz meio arrastada dizer.

— Hmm... — murmurei, engolindo um pedaço picante e fitando a Tabhita e seus olhos avermelhados de sono, enquanto ela pegava um copo e o leite; servindo-se com uma expressão satisfeita. Cara, sério... Só lamento quanto aos amantes de leite, mas esse troço puro é INTRAGÁVEL!

— Você ainda não dormiu? — eu indaguei franzindo as sobrancelhas.

— Mais ou menos, acordei com um gato andando pelo telhado tem um tempo, desde então não consegui dormir. — ela disse fazendo careta — Mas... Sério, como se sente? Você me assustou!

— Não sei bem o que aconteceu. — eu disse pegando outro dos mini-pasteis e enfiando pimenta. — Só me lembro de olhar feio para o cara... E... E nada.

— Lipe, você apagou!

— Acho que isso soa coerente, mas hm... — eu meio que tinha conseguido chegar a essa conclusão sozinho. Mas sério, eu fui lá lancei meu olhar malévolo para ele e desmaiei?! Isso soa patético demais! — Eu tive uma crise anêmica ou o quê?!

— Seu pai também não soube dizer a razão, já que você está perfeitamente bem. Ele disse que a causa, talvez tenha sido a sua recente gripe adicionada a sua enorme falta de cuidado consigo mesmo. Eu concordo. — ela disse solvendo outro enorme gole de leite.

— Hmm... — eu disse mordendo o meu pastel sem me conformar. — E qual fim teve aquele idiota? — eu indaguei, pegando seu braço e visualizando uma marca quase imperceptível, que começava a arroxear.

— Dei um fim nele... Sabe... — ela deu de ombros com um sorriso, puxando o braço delicadamente — chutei o...

— Oh, sério?! — eu disse fazendo careta e engasgando com o pastel de tanto rir antes mesmo que ela terminasse de falar. Normalmente eu consideraria uma espécie de violação a lei tácita de não chutar entre as pernas de um cara tão despretensiosamente, simplesmente porque a maioria das criaturas masculinas não entraria em uma briga se todos saíssem chutando aquele lugar assim, sem a menor piedade. Porque sério, dói! As garotas não sabem o que é isso... Mas é uma dor que sobe até o seu abdômen e parece espalhar-se a cada pulsação, de modo que até respirar dói. No entanto, não lamento nenhum pouco pelo filho do Diabo que agarrou o braço da Tabhita e ainda queria estar lá, perfeitamente acordado, para assistir isso.

— Tão real quanto o momento em que você esticou o braço, revirou os olhos e caiu desmaiado.

— Hmm... — eu disse imaginando isso. Não deve ter sido uma cena bonita. — Ainda vai jogar domingo? — eu perguntei mudando de assunto.

— Claro! — ela disse enfaticamente — Treinei um monte hoje e não vamos perder!

— Não tem nenhuma regra por aí que diz que não é permitido, uma garota no meio de um time masculino, não?

— Bem, não... — ela disse estalando a língua — Eu verifiquei antes de forçá-los a me deixarem entrar no time. Além disso, não sou a única. Tem uma garota chamada Mariana que começou a ser goleira, ela é muito boa. Eu até teria te chamado para o posto, mas...

— Hmm... Ainda bem que você não chamou, né?! — eu disse bocejando. Cara, só porque o indivíduo aqui já agarrou alguns gols na vida, não significa que vá se enfiar em uma partida de futebol.

— Ai, Felipe, você é muito chato.

— Quem se importa? — eu disse fechando a vasilha de plástico — Mas tome mais cuidado, ok?! Não quero que você apareça espancada por aqui qualquer dia desses...

— Ok, sir! — Tabhita respondeu levando a mão à cabeça, em uma típica saudação militar.

— Ah, cala a boca e vá dormir que você está com uma cara horrível!

— Ok... Ok... Tão frio, né?! — ela suspirou, cutucando o copo de leite vazio — Ei, Lipe... — ela começou a dizer com um ar mais sóbrio — Eu vi os jornais, o que tem pensado ultimamente?

— Nada revelante. — eu murmurei meio frustrado, não descobri merda nenhuma mesmo — Todos os carinhas do vídeo estudavam no Colégio Silvana Batista e eles, realmente, sumiram. Fim.

— A gente pode ir à delegacia, o que acha? Talvez haja alguma informação útil por lá...

— Grr... Não acho que seria uma boa ideia...

— Não se preocupe, eu falo e você só absorve tudo com seu enorme cérebro. — ela disse com uma piscadela. — Isso... Se realmente quisermos descobrir algo, né?! Porque, cara... Você mente muito mal!

— Yeah, yeah... Estou sabendo. — eu atalhei meio irritado.

Ficamos em silencio. Nessas horas é que percebo que a Tabhita é uma das únicas pessoas com quem consigo dividir um silêncio confortável. Nós nos conhecemos desde que eu tinha uns sete anos. Eu costumava detestá-la, mas depois me acostumei. Passou a ser muito natural vê-la quase todos os dias, definição de família, acho.

Quando finalmente voltamos aos nossos quartos, eu ainda fiquei fitando a porta do quarto dela por algum tempo; perdido nos meus próprios pensamentos, desejando que ela voltasse a sair e com um misto de ansiedade e excitação com a futura chegada dos meus primos.

— Vou tentar dormir ao invés de continuar pensando em merda... — resmunguei entrando no quarto e fechando a porta atrás de mim. Ainda não acredito que desmaiei. Aff! Isso é um saco!

Aff.

Fui andando que nem um moribundo até minha cama, nem me preocupei em trocar de roupa ou tomar banho. Já havia passado a maior parte do sono com aquelas roupas mesmo... Foi quando vi o Joy. Encostado na cadeira do computador, dentro da capa de proteção. Peguei-o e lancei um olhar para a porta, como se a Tabhita estivesse ali me fitando com aqueles olhos sagazes.

Nem posso esconder o quanto fiquei animado. Abri a capa e vi que ela tinha trocado as cordas de nylon por cordas de aço, muito bem ajustadas, pelo o que percebi ao dedilhá-las suavemente. Lembro-me que quando esqueci o violão na casa da Tabhita, logo antes da mudança, uma das cordas já muito gastas tinha arrebentado quando ela foi tentar tocar algumas das notas que eu estava tentando ensinar.

Coloquei o violão sobre o meu colo, segurei seu braço com a mão esquerda e comecei a tocar de leve as notas, saboreando o som mais alto e nítido do que eu estava acostumado. Cordas de aço, realmente, são melhores.

Standing in line*
To see the show tonight
And there's a light on
Heavy glow

Tinha muito tempo que eu não tocava e as notas começaram a se formar em meus dedos sem qualquer esforço. Comecei a cantarolar baixo e tive muita vontade de ter minha tia, Daniele, por perto para que ela pudesse me acompanhar no baixo. A alma de Red Hot é o baixo e cara, a tia Daniele pode ser pirada como é, mas é o cão no baixo.

By the way I tried to say
I'll be there
Waiting for
Dani the girl
Is singing songs to me
Beneath the marquee
Overload

Acho que toquei por um bom tempo até meus dedos – que começavam a ficar preguiçosos pelo tempo sem prática – começarem a doer. Então, finalmente joguei o violão de lado e cai no sono novamente.

Acordei de novo, sentindo um peso sobre meu estômago. Ou, melhor definindo, um peso pulando sobre meu estômago.

— Hmm... Hey... Caíque... — eu resmunguei ainda com os olhos entreabertos — Pare com isso, eu não consigo respirar.

— Mas a tia pediu para eu te acordar e você não estava respondendo!

— Ok. Ok. Você fez seu trabalho muito bem! — eu disse me levantando e fitando o garotinho com a boca suja de alguma gosma infantil vermelha — Já estou acordado. — resmunguei com um bocejo.

— Não pode voltar a dormir! Você prometeu que ia me carregar, não prometeu? — ele disse tentando esboçar uma expressão sisuda em sua face infantil, o que foi realmente hilário.

— Eu não prometi nada. — eu disse cruzando os braços.

— A tia Marina disse que você prometeu, sim!

— Hmm... Mãe... — eu murmurei com um suspiro, me levantando e arrastando o moleque pelo pé. Equilibrei-o facilmente sobre meus ombros e ele agarrou meus cabelos como se fossem algum tipo de rédeas improvisadas, não foi nada agradável. — Pronto! Agora vai lá limpar essa sua boca aí, porque está parecendo... — eu disse colocando-o no chão novamente, após alguns sacudidas, demasiadamente felizes para alguém que ainda estava com os olhos grudados de sono.

— Não, não posso, né! Eu sou um vampiro! Grrr... — ele disse arreganhando os olhos e eu ri voltando minha mente para todo o trabalho de comprar os jornais e desenvolver aquela parafernália mental do dia anterior, que terminara em um desmaio idiota. Fui para o banheiro e enfiei a escova de dente na boca, sem conseguir me livrar daquele pirralho. Sério, o que ele vê em mim? Eu nem gosto de brincar com ele.

Quando finalmente desci, com o Caíque novamente nos meus ombros, quase me cegando conforme depositava suas mãozinhas grudentas na minha testa.

— Caíque! — repreendeu minha tia Lídia, irmã da minha mãe, assim que nos viu. — Saia já daí!

— Manheeeeeê! — ele começou a choramingar enquanto ela o arrancava dos meus ombros, junto com alguns fios de cabelo.

— Desculpe por isso, Felipe. — ela disse com um sorriso calmo, segurando o moleque com uma mão e acariciando meu rosto com a outra. — Como vai? Você cresceu!

— Tia, passaram-se só dois meses... — comecei a dizer, mas ela já estava correndo atrás de seu outro filho, Luan; que corria se descabelando com um monte de meleca vermelha, que eu identifiquei como geleia de morango ao focalizar o frasco.

— Felipe! — acenou meu tio, do sofá — Quanto tempo? — ele disse levantando-se e me agarrando em um de seus abraços destruidores de costelas, antes que eu pudesse sequer me preparar psicologicamente. — Como você está? — Ele perguntou me fitando com um sorriso cheio de bom humor.

— Err... Bem. — eu respondi tentando disfarçar minha careta de dor.

— Ei, Lipe! Venha aqui! — chamou a Tabhita da cozinha e eu fui, mais um pouquinho e o tio Leo me chamaria para uma de suas partidas de xadrez. Nada contra o xadrez, até gosto, mas ele é um tipo de viciado insaciável que não para mais de jogar depois que começa.

— Vamos lá, temos que dar uma geral nos quartos de hóspedes. Sua mãe disse que têm reservas para todos eles, por umas três semanas, não é ótimo?

— É. — eu concordei, deixando-me arrastar pelo corredor que ligava a casa à Pousada. Funciona assim: nos fundos há uma casa de dois andares e com três quartos, que normalmente também é alugada para turistas; mas com administração dos meus pais, a casa passou a ser um lugar para morarmos enquanto o espaço dos hóspedes se restringe as fontes termais, jardim, varanda, quartos e a área onde é servido o café da manhã. — Vai mesmo explorar o cara que desmaiou no dia anterior? — eu indaguei e ela me lançou um olhar feroz, fazendo-me tratar de ficar quieto.

Peguei um dos panos de chão que a Tabhita já havia preparado, em meio aquela confusão de produtos de limpeza e a segui até um dos quartos. Não estavam sujos, apenas precisavam ser arejados e ter a poeira limpa.

— Ei, Lipe, vá para outro quarto! Se entrarmos os dois em um quarto só e um fizer o serviço enquanto o outro observa, não acabaremos nunca!

— Tá, tá... Ok. — eu resmunguei seguindo até o próximo quarto, largando o pano de chão e começando a sacudir os lençóis e travesseiros e rearrumando-os em seguida.

Paramos para almoçar e depois passei o resto da tarde seguindo a Tabhita em mais uma e mais uma e mais uma e mais uma... Tarefa de suma importância antes que todos os turistas chegassem, tendo em vista que uns cinco deles chegaram no horário do almoço.

— Eu estou detonado... — murmurei me jogando no piso de madeira de um dos quartos que acabara de limpar.

— Hmm... Eu também trabalhei por uma vida. Mas ainda não trabalhei o suficiente para querer dormir aí! — ela disse sentando-se ao meu lado.

— Hmm... Nem eu.

— Hmm.

— Hmm.

— Viu o Joy?

— Vi, não espere meus agradecimentos.

— Não sou tão ingênua, sabe... — ela disse me dando um tapa na cabeça.

— Ai!

— Ei, me deixa cortar seu cabelo? — Tabhita perguntou depois de uns dois minutos em silêncio. Eu estava deitado no piso de madeira, de olhos fechados, quase dormindo e não achei a proposta nenhum um pouco atraente.

— Já passei por essa experiência antes, não acho uma boa ideia. — eu disse ainda de olhos fechados, torcendo para que ela desistisse. Sério, a Tabhita já tentou cortar meu cabelo uma vez! Eu, em minha ingenuidade infantil, deixei e como resultado... Fiquei parecendo alguém que caiu no pau com uma tesoura cega. Não gosto nem de lembrar! Fiquei quase um mês indo para a escola de boné e a vice-diretora acabou liberando depois que viu a tragédia que estava na cabeça da minha humilde pessoa.

— Dessa vez eu sei mesmo cortar! Eu não tenho mais onze anos, Felipe!

— Hmm.

— Ei! — ela disse sacudindo meu braço e, quando finalmente abri os olhos, tive vontade de rir de suas sobrancelhas azuis franzidas.

— Você está sendo infantil... — cantarolei.

— Poxa, desse jeito eu nunca vou cortar o cabelo de ninguém! Eu até fiz um curso...

— Hmm.

— Então o que acha, — ela começou a dizer com os olhos quase faiscando — eu vou cuidar do Caíque durante TODO o tempo que ele estiver aqui! Hmm? Hmm? Proposta irresistível, não? — ela provocou, mas devo admitir que era mesmo. Cara, eu não sou nenhum tipo de odiador de crianças nem nada, mas por algum motivo elas tendem a gostar de ficar pulando em cima de mim. Elas deveriam ter uma psicologia como a dos cachorros, né?! Do tipo, você olha feio e eles não perturbam! Finito!*

— Ok. — eu concordei alguns segundos depois de ponderar os benefícios. — Mas nem pense em cortar mais do que três dedos de comprimento do meu cabelo, ok?! Ou eu fazer uma peruca com esses seus fios azuis, aí!

— Hmm... Sério, Lipe, você não tem orgulho? Foi tão fácil te subornar...

— Eu ainda posso voltar atrás.

— Ok. Ok. Eu entendi, tá? — ela disse se levantando com um sorrisinho. — Vou lá pegar a tesoura.

— Você vai cortar agora?

— Claro! — ela disse, já na porta. — Ou você pode desistir!

Com certeza não seria uma boa ideia, mas eu estava me sentindo estranhamente bem. Essas conversas cotidianas estavam se tornando cada vez mais naturais. Não que não fossem antes! Porém, antes de vir para Martina, eu morava à uma hora da casa da Tabhita. Estudávamos no mesmo colégio, mas não tínhamos muito tempo para conversarmos no intervalo e eu ainda tinha um trabalho de meio expediente á tarde. Com isso, víamos-nos, basicamente, aos fins de semana ou quando ela dava a louca de dormir na minha casa.

Não que fosse uma rotina ruim, longe disso. Sinto falta de algumas coisas, às vezes. Mas quando percebi como as coisas começaram a transcorrer desde que vim para Martina, inconscientemente, — ainda que eu oficialmente deteste – comecei a não achar tão péssimo morar aqui e passar os dias do jeito que tenho passado.

Quando a Tabhita finalmente voltou, trouxe um kit inteiro de utensílios para cabelo. – algumas das coisas, eu nem faço ideia de para quê servem – Sempre achei que algum cabeleireiro cuidava do emaranhado azul dela, mas talvez ela mesma o customizasse... Se fosse assim, talvez, não fosse uma ideia tão terrível ela cortar meu cabelo... Ok. Parei! Para falar a verdade, em nenhum mísero momento eu pensei algo assim! Traumas de infância são muito mais fortes do que qualquer cabelo azul ou parafernália que ela carregue na bolsa.

— Você tem consciência de que vai, só, cortar o meu cabelo, não é?!

— Só cale a boca, Lipe. — ela disse e começou a cantarolar Pet Sematary de Ramones.

I don't want to be buried in a Pet Sematary,

I don't want to live my life again.

Comecei a assoviar e ela pausou a música rindo, antes de retomar o refrão imitando a voz do Joey Ramone. Aquilo foi meio bizarro, não só porque quase morri de tanto rir, mas porque não deixei de perceber que ela estava enfiando algumas daquelas presilhas no meu cabelo na tentativa de fazer sei lá o que.

I don't want to be buried in a Pet Sematary,

I don't want to live my life again.

Quando a Tabhita finalmente acabou, devo admitir que não ficou tão terrível como eu supus, na verdade, ficou muito bom. Ela repicou meu cabelo, de um jeito que a parte do meio ficava um pouco mais cumprida. Tipo um protótipo de moicano, sem de fato raspar as laterais da cabeça.

— Ficou ótimo, não é?! Queria muito tentar fazer esse corte quando o vi ontem em um blog. Não é tão difícil, é só prender o centro do cabelo, cortar as laterais um pouco mais curtas e depois levantar a parte que prendi e cortar de forma...

— Ok. Acho que entendi. — eu interrompi, sem querer ouvir a teoria por trás da técnica de um cabeleireiro e tentando esquecer a parte em que ela afirmou, basicamente, que eu sou só a cobaia que teve a sorte de não se ferrar. — Obrigado.

— Vem, vamos mostrar para sua mãe! — ela disse pegando no meu braço.

— Depois eu mostro, ela deve estar recepcionando os turistas....

— Hmm.

— Quer dar uma volta?

— Vamos, mas eu ainda estou suada e...

— Ok, bom que nenhum idiota chega perto... — eu disse rindo e me dirigindo para a entrada da pousada.

— E você se importa, é? — Tabhita perguntou, fechando o portão atrás de mim.

— É... — eu comecei a dizer antes que nossos olhos se encontrassem — Talvez... Um pouco.

Andamos por um tempo sem dizer nada. Já deviam ser umas sete da noite e a brisa fria se chocava confortavelmente contra o meu corpo. O céu estava salpicado de estrelas e as ruas estavam relativamente vazias, afinal, em Martina todo mundo se recolhe até no máximo umas oito horas. – Mas, obviamente, eu mal estava reparando na noite; na brisa; no morcego; ou qualquer merda que fosse... Já que eu estava ocupado demais olhando a Tabhita pelo canto do olho.

— Ei, Lipe... — ela começou a dizer, olhando para o céu — Às vezes me pergunto por quanto tempo poderemos ficar assim...

— Assim como? — eu perguntei sabendo exatamente o que ela queria dizer, ou eu meio que achava que sabia.

— Não sei... Assim, sabe? — ela disse parando na minha frente e segurando minha mão esquerda entre as suas que estavam quentes, ao contrário das minhas. — Eu não disse nada antes, mas meus pais querem se mudar para Madrid. — Ela disse pausadamente, sem tirar seus olhos dos meus.

— Madrid? — eu repeti estupidamente.

— Meu pai recebeu uma proposta irrecusável, sabe... Vamos no meio do ano.

Sério, eu deveria ter desconfiado. As coisas simplesmente estavam boas demais para ser verdade. A Tabhita voltou a andar do meu lado, sem soltar a minha mão e permanecemos em silêncio enquanto andávamos sem rumo noite afora. Pensei em mil besteiras... Do tipo, e se eu pedisse para ela ficar? É óbvio que as coisas não são tão simples, a Tabhita parecia não estar gostando da ideia tanto quanto eu, porém, tanto ela lá quanto cá... Continuaria sendo a Tabhita, não é?! As coisas não mudariam... Eu acho. E mais... A Tabhita é a minha prima de quinquagésimo nono grau, uma hora ou outra, cada um tomaria seu rumo...

Grr... Sério, me odeio nessas horas! Eu só estava tentando não admitir. Quantas vezes eu simplesmente tentei ignorar? Sou um puta covarde dos infernos, isso sim!

— Lipe? — ouvi a Tabhita chamar e percebi que já estávamos quase em frente à pousada, novamente. Uma senhora estava parada á nossa frente e parecia ter dito algo que eu não captei ao longo de meu pôquer mental.

— Desculpe incomodá-lo. — ela disse com um sorriso gentil.

— Ah, oi, Dona Margarete. — eu cumprimentei espremendo meu cérebro para me lembrar do nome dela; era a mãe do Wagner e tia do Zeca, meu amigo fujão.

— Oi, meu filho. Vim perguntar aos seus pais e a vocês se vocês não viram o Wagner esses dias? Vocês são amigos, não é?

Ok. Errou drasticamente.

— Hmm. Quase, acho... — eu disse, depois de um demorado olhar não fale merda da Tabhita.

— Por quê? Onde ele está? — quando a Tabhita verbalizou a pergunta, eu sabia muito bem onde ela queria chegar e o que aquelas palavras queriam dizer;

Ele sumiu? Há quanto tempo?

Você acha que ele foi devorado por usos ou teve seu sangue drenado até a morte por algum vampiro porra louca?

— Mais ou menos isso. Ele não atende o celular e não dá notícias... Às vezes ele vai para a cidade vizinha, em algumas festas e dorme por lá, mas quando é assim... Ele avisa.

Troquei um olhar com a Tabhita e franzi o cenho, com certeza eu não tenho nenhum apresso pelo Wagner, mas aquilo não soava bem. Comecei a pensar naqueles caras do vídeo... Eu não disse à Tabhita, mas estou pretendendo ir na casa de pelo menos algum deles, amanhã. É verdade que não tenho nada haver com o assunto e que só estou me enfiando em merda alheia e etc. etc. etc.... MAS, algo está realmente estranho nessa cidade e meus pais parecem se afeiçoar a ela cada dia mais. Eu ainda não colei muito com essa história da diretora do Silvana Batista. A Tabhita comentou comigo que elas conversaram e minha mãe decidiu ir lá ao Colégio, mas minha mãe disse que só a viu... Que espécie de diretora sai distribuindo vagas remanescentes quando alguns de seus estudantes estão desaparecidos? Talvez, pelo menos no caso da vampira... Ir ao Colégio seja a chave... Mas que droga véih... Não estou nem raciocinando direito! Como não percebi antes? A Tabhita desde o início disse que passaria seis meses aqui. Seis meses! Madrid... Grrr... Sério não tiro isso da cabeça!

— A última vez que o vi, foi há uns dois dias... Quando fui procurar o Zeca. Desde então não o encontrei, me desculpe... — eu disse automaticamente, sentindo minha dor de cabeça aumentar e me recordando dos olhos esverdeados do cara de ontem. Não sei por que estava tão confuso hoje. Acho que aquele desmaio enferrujou algum prego do meu cérebro.

— Não, tudo bem. — ela disse com um sorriso que tentava soar despreocupado. — Eu já vou indo então, vou tentar ligar para ele mais algumas vezes. Não seria a primeira vez que ele some assim. Obrigada, eu já vou indo... — ela disse com um ar cansado, passando por mim e pela Tabhita e voltando para sua casa.

— É... Felipe, tenho a péssima impressão de que isso vai sair no jornal.

Eu tenho certeza de que isso sairá no jornal e... Que merda, Madrid?

Notas finais
*Música By The Way de Red Hot Chilli Peppers
*Finito: fim, acabado em italiano.
O q acharam? o/
Bjus"