Noite
22 O Mistério de Mina
Notas iniciais
_ Ainda 04 de fevereiro_
23:58
Não consigo dormir.
A chuva parou já tem algumas horas, tudo o que ouço são alguns grilos que parecem deslocados no silêncio quase espectrante. Estou me sentindo como uma espécie de semimorto que teve a infelicidade de encontrar um daqueles Shinigamis* que giram a manivela do filme da vida de uma pessoa diante de seus olhos, fazendo-as reviver cada pedacinho de sua própria existência, em alguns segundos.
Não sinto que vou morrer, mas o dia de hoje repete-se na minha cabeça como um replay irritante. Com um cheiro de chuva e terra, irritante. Com vislumbres de lágrimas irritantes. Com fios azuis...
Depois de alguns minutos fitando os olhos eternamente fechados da Tabhita, minha atenção direcionou-se para a base de seu couro cabeludo. Seus fios azuis tingiam-se de rubro e manchavam o lençol pardo quase imperceptivelmente.
— Coagulou... — murmurei debilmente, passando os dedos por seus fios de cabelos frios e detendo-os no líquido espesso e ressecado.
Imediatamente travei o maxilar e respirei fundo. Pensei em Toni, o cara deveria estar morto há pelo menos uns dois dias. O meu maior suspeito morrera há dois dias e lá estava a Tabhita indiferente sobre a mesa da cozinha.
O sangue mal tinha coagulado, então, a Tabhita morrera há alguns minutos...?
Voltei-me para os dois homens, que pareciam estranhamente confortáveis em meio ao luto alheio, e lancei-lhes um olhar avaliador. Certamente teria feito alguma besteira se minha atenção não tivesse se focado em um terceiro homem. Seu bigode era enorme, o terno destacava sua barriga proeminente e, acrescentando-se o chapéu coco, ele era um perfeito personagem de novela de época.
— Arnaldo! — ele gritou tirando o chapéu encharcado pela chuva e sacudindo-o na cara do homem que carregara... A Tabhita. — Você é leso, homem? Eu disse para não mexer! Não mexer! É tão difícil assim? Estamos falando de uma cena de crime, idiota!
Estudei em silêncio a figura baixinha e antiquada — em outras circunstancias, eu o teria achado divertido — Acho que o meu olhar o atraiu, pois conforme notou minha mãe e minha tia chorando e eu o encarando, ele endireitou-se e andou solenemente na minha direção.
— Detetive Augusto Bagdá, garoto! — ele apresentou-se apertando minha mão energicamente. — Respeito a dor da perda que devem estar sentindo — ele disse olhando para minha mãe —, mas eu, como policial, devo cumprir o meu dever. — ele disse fazendo uma mesura para a minha mãe, do mesmo jeito em que se vê em filmes épicos.
Ao ver o homem, Augusto, andar em direção ao... Ao corpo da Tabhita, me irritei por alguns instantes, mas contive-me. Vi-o mexer delicadamente no corpo e resmungar uma porção de coisas consigo mesmo até ter a ideia de descobri-la totalmente.
Assim que vi os cortes, retos e paralelos. Perpendiculares aos dedos. Dois em cada pulso. Feitos com o esmero de uma faca cega... Senti um amargor familiar na boca e a confusão que tomava conta da minha cabeça intensificar-se.
Forcei-me a não desviar os olhos.
Encarei o sangue seco que desenhava linhas até a palma de ambas as mãos, com fria determinação. Tudo o que pude fazer, em meio a minha impotência, foi travar o maxilar para que eu não vomitasse ou voltasse a chorar.
— O que diabos aconteceu? — eu inquiri, com raiva, fitando os cortes suturados em meus braços.
Não demorou para que o resto da polícia, o Victor e o meu pai chegassem. Todos eles já sabiam o que tinha acontecido. Victor tinha uma máscara rígida em seu rosto, o que não se estendia aos seus olhos que pareciam perdidos em algum lugar bem distante. Meu pai não estava muito melhor. Ele estava abatido e, ignorando o delegado nervoso, abraçou minha mãe e deu-lhe um beijo terno antes de encarar o... Bem, antes de encarar o corpo da Tabhita.
— Mexeram na minha cena de crime! Bando de incompetentes! Não me formei em São Paulo para morrer nesse fim de mundo com um bando de incompetentes! — o delegado estava tão vermelho que achei que fosse estourar. — E você! — gritou incisivamente ao mirar Augusto. — O que está fazendo aqui, seu...
— Delegado... — uma policial de tez franzida disse em um tom calmo, pousando a mão sobre seu ombro. — Não é apropriado. — ela repreendeu baixinho, mas, olhando o movimento de seus lábios e ouvindo parte de seu sussurro enfático, compreendi o que ela dizia.
O delegado Borges fitou-a meio irado por um meio segundo e depois, levando-a em consideração, acalmou-se.
— E aí? O que me dizem? Pedro? Cleber? — inquiriu o delegado trocando olhares com o meu pai e, em seguida, com outro médico que levantava a cabeça da Tabhita para ver melhor o corte.
— Vê os cortes irregulares em ambos os pulsos? — ouvi meu pai dizer em um tom normal, mas conseguindo atrair a atenção de todos os que o encaravam com expectativa.
— E daí? O que significa? — perguntou o Delegado Borges ansioso.
— Significa que houve momentos de hesitação durante o corte. — continuou meu pai, cruzando brevemente seu olhar com o meu e voltando a encarar o delegado rápido demais.
— E o que isso significa? — perguntou a mulher que acalmara o delegado meio minuto atrás.
— Que ela pode ter cometido suicídio, sabe? Toda essa cultura pop de cortar os pulsos... — disse Cleber com uma risadinha aguda e nervosa — Só não entendi o porquê de cortar duas vezes, paralelamente em cada pulso.
— Isso não explica o desaparecimento dela. — disse meu pai rispidamente. — É óbvio que ela faleceu há poucas horas. E todo esse tempo desaparecida? Para onde ela foi? Não foi um suicídio!
— É, ela tem uma paulada na cabeça! Um suicídio pode ter sido facilmente forjado, merda! — disse Augusto sacudindo as mãos.
— Não estamos em um filme, Detetive Augusto... Oh, não! Creio tê-lo destituído do cargo, não?
— Borges... — chamou suavemente a policial.
— Entendi, Normélia! Entendi! — disse Borges respirando fundo. — Você chegou lá primeiro... Aliás, o que você estava fazendo lá, Augusto?
— Eu estava na busca também. — disse Augusto como se o mundo não estivesse desabando. — O Sr. Arnaldo estava me acompanhando, ele costuma... costuma... Enfim, ele é muito bem familiarizado com a mata.
— Você foi afastado das investigações. Terei que soletrar?
— Eu estava lá como civil, delegado. — continuou Augusto. — Creio que não haja nenhuma restrição quanto a isso.
— Se foi lá como a porcaria de um civil, poderia pelo menos ter feito o trabalho direito! — disse Borges passando a mão pela barba mal feita. — Leve Joshua e Lauro até lá! Rápido! Procure, procure qualquer coisa que não pareça um monte de mato no meio da floresta!
— Está me reintegrando, delegado? — perguntou Augusto com a menção de um sorriso.
— Não, Bagdá! Claro que não! Você vai lá como civil!
— Ei, delegado. E o corpo? — interrompeu Cleber. — Acho que uma autópsia seria uma boa opção, podíamos mandar ela para BH...
— Não seja idiota! — disse o delegado com um ar debochado.
— Ninguém vai mexer no corpo da minha filha! — posicionou-se Victor que até então estudava a situação em silêncio.
— Sim, sim. Claro! — disse o delegado apaguazidoramente. — Levaremos a vontade dos pais em consideração. O Cleber é só um recém-formado cheio de ideias na cabeça, não dê muita importância!
— Eu não sou... — começou a dizer Cleber cruzando os braços.
— Não podemos continuar essa conversa em um lugar mais adequado? — disse meu pai, interrompendo-o, mais com o tom de quem solicita do que o de quem pede. — Minha família está aqui, delegado.
— Oh, oh. Claro! — disse Borges olhando para Victor que tinha uma expressão amedrontadora e para minha mãe e Célia que soluçavam baixinho, uma tentando consolar a outra.
Depois disso, assim como o meu pai sugeriu, moveram o corpo da Tabhita. Uma ambulância a levou embora e toda a comoção se desfez. A bancada da cozinha estava vazia novamente e antes que pudesse me dar conta, minha mãe já estava me abraçando.
— Não precisa se segurar, Júnior. — ela disse me apertando. — Eu estou aqui, ok?!
Do outro lado no cômodo, por entre os fios de cabelos castanhos da minha mãe, pude ver Victor entregando um copo de água para Célia. Ambos tinham os olhos meio inchados e avermelhados. A única diferença é que eu não vi o Victor chorar, enquanto que a Célia parecia uma cachoeira.
Tentei me concentrar em pequenas coisas. Como os murmúrios da minha mãe ou o desconsolo da Célia. Eu queria que, ao prestar atenção na dor dos outros, eu pudesse ignorar a minha.
Não funcionou. Acabei por corresponder ao abraço da minha mãe e fitar a cozinha em silêncio. O que mais poderia fazer? A tia Lidia estava internada no hospital, a Tabhita está morta... Não era como se pegar uma metralhadora e sair bancando o vingador por aí, não fosse tentador... Agora, eu e que exército de exorcistas faríamos isso?
Lembrei-me do que o médico, Cleber, dissera: ela pode ter cometido suicídio, sabe? Esse tipo de possibilidade é totalmente absurda, a Tabhita não é do tipo que tenta resolver seus problemas se matando! Normalmente ela simplesmente vai e diz tudo que a está incomodando e as coisas, de alguma forma, se resolvem. Sempre foi assim, desde que eu me lembro. Mas lá estava eu com uma ponta de dúvida.
Por que?
Porque a blusa da Tabhita, suja de sangue, ainda estava pendurada no meu cabide. E, um de seus braços estava rasgado e sujo de sangue. O assassino não passaria na minha casa para devolver a blusa da Tabhita. A Tabhita sim, mas porquê? Se esse fosse o caso...
Que merda, se esse fosse o caso... A Tabhita tentou se suicidar mais de uma vez e só conseguiu hoje?
— Cortes irregulares... — resmunguei ainda abraçando minha mãe. — Talvez não tenha sido só dois cortes em cada pulso, mas cortes sobrepostos....
— Felipe? — chamou minha mãe me soltando. — O que disse?
— Nada, mãe. — suspirei. — Vou dar uma volta, ok? Prometo que vou ficar bem, preciso apenas... Apenas...
— Por favor, não demore. — ela disse acariciando meus cabelos.
Corri, literalmente, até a casa da Ângela. — Acho que as esperanças mais estúpidas é que movem o mundo. — Toquei a campainha umas mil vezes, até que, finalmente, Ângela abriu a porta com uma enorme interrogação na cara.
— Felipe? Você está bem?
— Não. — eu disse ofegante, entrando em sua casa sem que ela me convidasse.
— Ângela. — eu disse olhando para seu pescoço cuidadosamente coberto pela gola polo da camisa do Uniforme do Silvana Batista.
— Senta e respira antes de falar alguma coisa, está bem? Não quero um cara morto na minha sala.
— Eu preciso saber. — eu disse controlando minha respiração e o meu desespero. — Como um vampiro bebe sangue? Ele corta o braço da vítima?
— O quê? — exclamou Ângela que acabara de sentar-se no sofá.
— O seu pescoço... A Gabriella te mordeu?
— Gabrielle. — ela corrigiu e, vendo que eu não estava me importando, continuou: — Felipe, eu não estou autorizada a dizer. Há muitas coisas que eu não posso dizer. — ela disse meio aflita.
— E, suponho que uma das coisas que você não pode dizer é o porquê de você não poder dizê-las. Estou certo?
— É, você já sabe de tudo pelo visto.
— Vamos fazer um quiz. — eu disse sentando-me no sofá também. — Eu pergunto e você responde com a resposta que acha que se encaixa, ok?
— Ok. — disse Ângela parecendo curiosa.
— O que te impede de me contar o que quero saber, também te impede de contar o que te impede de me contar. Certo?
— Si... Espera, o quê? Que saco, dá pra não tentar dar um nó no meu cérebro?
— Certo? — insisti.
— Certo. — ela concordou, amuada.
— Mas não te impede de me dizer como te impede, não é?
— Bem... — disse Ângela passando a mão nos cabelos, pensativa. — Me impede de dizer o que acontece. Não disse nada sobre como...
— Hmmm... Não disse nada sobre como... — eu repeti com um ar satisfeito. — Falou, não é?! Então Gabrielle é diferente do Tony. Ela meio que te hipnotizou com uma ordem verbal?
— Você é menos burro do que parece. — ela disse e, parte de mim, teve certeza de que aquele era um tremendo elogio vindo da Ângela.
— Ok. Quando você assiste Drácula...
— Eu não assisto Drácula. — me interrompeu a Ângela, me encarando como se eu fosse um idiota.
— Eu também não, mas apenas pense na droga do Drácula. Você, pelo menos, sabe que ele é um vampiro, não sabe?
— Vá direto ao ponto.
Se eu pudesse ir direto ao ponto, não estaria fazendo isso!
— Quando você pensa que o Drácula estava com fome... Como você pensa que ele iria comer?
— Ele correria atrás de uma pessoa, óbvio. Não imagino o Drácula devorando patinhos por aí.
— Ângela, eu estou tentando burlar a droga da hipnose! Apenas esqueça seu sarcasmo por alguns minutos, ok? — eu disse tentando conter minha irritação.
— Vai, continua. — ela disse depois de me avaliar por um breve segundo. — Você parece estar em uma fria, hein? Ouvi dizer do que aconteceu na sua casa. Sobre os cadáveres. Não vai me dizer o que houve?
— Acredite, Ângela, essa foi a parte boa da história. — eu disse tentando me forçar a não pensar na Tabhita. — Voltando ao Drácula. Se ele sequestrasse alguém e estivesse com fome, como ele...
— Bom, pra sequestrar alguém, acho que teria que ser a tal da Mina, né? Ele é meio que obcecado por ela. Quanto a como ele...
— Como ele...? — eu insisti me sentindo frustrado, se eu não arrancasse nada da Ângela, não me restariam muitas opções amigáveis. — Ele meteria os dentes no pescoço dela? Cortaria os pulsos dela? O que ele faria?
— Não complique, Felipe. Não importa de que vampiro estamos falando, eles gostam de sangue quente. Sangue direto da veia.
— Então o Drácula beberia direto do pescoço. — suspirei.
— Acho que é. Mas e aí? Fui útil?
— É, de certa forma. — respondi desanimado.
— E o que aconteceu?
— Você estava certa, só isso. A Tabhita morreu. — eu disse me recostando no sofá e encarando o teto.
— Ah... Eu, bom... Eu disse. — ela disse com um fiapo de voz, me arrisco a dizer que estava pensando no irmão dela.
— Você deveria dizer sinto muito.
— É, eu deveria. E agora? O que vai fazer?
— No momento estou tentando definir se estou lidando com humanos ou vampiros.
— Dos vampiros você não pode fugir, talvez devêssemos começar uma revolução.
— É, seriamos internados em algum hospício. — eu disse voltando meus olhos para ela com um pouco de relutância e percebendo que ela não estava brincando.
— Um hospício parece bom. — ela disse após alguns segundos.
— Eu vou indo, Ângela. — eu disse me levantando.
— Se quer saber o que estou pensando que quer saber, me encontre amanhã, meia noite, aqui em casa.
— O quê?
— Vamos descobrir se foi o Drácula que pegou a Mina ou não! — ela disse com fria animação. — Mas não hoje, hoje é lua cheia e eu não gosto de luas cheias.
— Vampiros gostam de lua cheia, é? — perguntei meio confuso. — Não me diga que eles ficam ainda mais fortes na lua cheia... — eu disse lembrando-me de quando Tony quase me sufocou com aquelas mãos enormes.
— Isso não vem ao caso. — ela disse me incentivando a sair de sua casa. Por que essa garota sempre me expulsa da casa dela? — Amanhã vamos descobrir se a Mina vai ter vontade de ter um jantarzinho...
Parei do lado de fora e encarei a Ângela inquisitivamente.
— Você não está falando sério.
— Você vem pensando nisso desde que soube da morte dela, Felipe. Admita!
— Mas é impossível! Ontem, eu vi... Tinham dois vampiros. Um deles se transformou em questão de minutos, não tem como a Tabhita...
— Você está em negação. É normal, mas lide com isso na sua casa, ok? Até amanhã. — ela disse fechando a porta na minha cara.
— A Tabhita não...
— Ei, Felipe. — disse Ângela após abrir a porta bruscamente. — Deixei as coisas que você esqueceu aqui com a... Loirinha, sabe? Uma que vi com você esses dias.
— A Felícia?
— É, acho que é ela. Tá tudo com ela, ok? Tchau. Vá dormir que ajuda! — ela disse fechando a porta na minha cara, novamente.
— É, acho que essa visita não fez muito sentido. — eu disse para o céu nublado. — Que merda de Drácula inútil... — resmunguei saindo da entrada da casa da Ãngela tentando não admitir que ela estava certa.
A perspectiva de a Tabhita ainda estar... Viva, bem... Como uma sanguessuga, mas viva... Encheu-me de um confuso misto de ansiedade, esperança e desolação. Totalmente ambíguo e legítimo.
Aff! Que merda! Queria que meus problemas voltassem a se resumir aos dias escaldantes de Martina, não a essa droga de roteiro hollywoodiano!
Passei o dia fora. Fazendo nada. Andando. Pensando. Respirando. Andando. Andando. Andando... Quando voltei para casa, achei policiais lá, de novo.
Estou começando a odiar policiais!
Entrei na pousada, — nem sei se ainda tem algum turista aqui! — vi meu pai falando com um deles. Eram dois. Todos pareciam mais calmos, Victor e Célia conversavam com o outro policial e a minha mãe estava brincando desanimadamente com Caique e Luan.
— Mãe? — me aproximei e Caique abraçou minhas pernas com uma alegria que contrastava com o quão deprimido eu estava.
— Deu certo! — cantarolou Caique. — Conte ao Luan, ele não acredita! Eu sou um super herói vampiro!
— Sim, você é um super herói vampiro. — eu disse fazendo cosquinhas nele para que ele me soltasse.
— Mãe? O que houve? Por que eles estão aqui de novo? — perguntei depois de, finalmente, me livrar dos moleques querendo brincar comigo.
— Ah, Júnior. — ela disse passando a mão no meu rosto. — A Tabhita não foi sequestrada. Há uma testemunha, ela foi vista ontem... — ela hesitou. — ela foi vista andando sozinha e parecendo estar bem.
— Está dizendo que ela... fugiu? — perguntei sem achar qualquer sentido nessa possibilidade.
— Felipe, a Tabhita se suicidou. Acharam as testemunhas, as evidências, a carta...
— A carta? — eu disse debilmente, com uma voz que soou meio rouca.
Minha mãe levantou-se do sofá e foi em direção a Célia, pegou um papel amassado das mãos dela após trocarem algumas poucas palavras e, em seguida, veio até mim e estendeu-me o papel meio borrado pela chuva.
Desdobrei-o e me senti pior a cada palavra cuidadosamente grafada pela letra que eu conhecia tão bem.
Eu queria ter ficado com vocês por mais tempo, mas eu não conseguiria. Ir à Martina foi o pior erro que cometi. Os dias são sufocantes e não quero ter que continuar a sorrir artificialmente para as pessoas que amo, por isso decidi que já era hora...
Não fiquem tristes! Pelo menos, assim, vocês se lembrarão dos bons momentos comigo. Da minha parte boa e não da que venho tentado esconder loucamente nos últimos tempos. Estou longe de ser alegre e despreocupada como imaginam, lamento por isso.
Tudo o que posso dizer é que tentei, tentei mesmo! Tentei com todas as minhas forças ser o que todos queriam que eu fosse. Mas no fim... Sou apenas eu. Apenas eu e a minha fraqueza. Apenas eu e o meu mundo cinza idiota. Cinza como uma lápide fria, sob a sombra de uma árvore abandonada pelo tempo... É assim que encaro.
Os meus olhos se fecham
Eles se negam
Não querem ver o horror
O vazio
Desculpem-me,
Tabhita Amaranto.
— Cinza como uma lápide fria? Que merda de piada horrível é essa? — eu fitei minha mãe e ela me lançou um olhar de desculpas e me abraçou.
Droga, a Tabhita não se suicidou!
E cá estou eu repetindo essa mesma frase incontáveis vezes. Parte de mim tem certeza de que ela não faria isso, de que ela apenas chutaria qualquer merda de problema que viesse perturbar... Mas, não posso negar que parte de mim se pergunta se eu não estou dizendo isso para mim mesmo, só para não me sentir culpado pela sua morte. Ela disse! Ela disse que não aguentava mais, que queria ir embora... Ela deu tantos sinais! Eu ignorei, droga! Eu ignorei!
Agora tem um maldito e se travando minha garganta.
Dormir seria um verdadeiro presente, Ângela.
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