Noite
23 Lanterna dos Afogados
Notas iniciais
_05 de Fevereiro_
Quando tá escuro*
E ninguém te ouve
Quando chega a noite
E você pode chorar...
Há uma luz no túnel
Dos desesperados
Há um cais de porto
Prá quem precisa chegar...
Acho que já era a quarta vez que eu acordava ou, talvez, ainda estivesse dormindo. Não me importei. Pelo menos, eu não quis me importar. Determinei-me a deixar a voz suave e cheia de riso me preencher pelo máximo de tempo possível. Pelo maior tempo que eu conseguisse segurar a linha entre o sonho e a realidade.
Eu tô na Lanterna
Dos Afogados
Eu tô te esperando
Vê se não vai demorar...
— Por que está rindo? — eu perguntei ao ouvir o silêncio insinuar-se junto às notas que meus dedos produziam ao dedilhar o violão.
— Não estou rindo. — Tabhita disse com um dar de ombros.
— A música é meio triste, entre no clima! — eu disse estreitando os olhos.
— Quer que eu chore? — ela disse com um estalar de língua e gestos exageradamente teatrais.
— Não.
Uma noite longa
Pr'uma vida curta
Mas já não me importa
Basta poder te ajudar...
Ela cantarolou, deixando a última frase desmanchar-se em um sorriso.
— Você continua rindo. — eu disse com um ar de quem não quer nada.
— Encarando essa sua cara, quem não riria? E outra — ela disse fazendo um gesto para que eu não a interrompesse. — Não é triste.
— Hum?
— A música, Lipe. A música. Ela não é triste. — ela disse mais para si mesma, em um sussurro pensativo.
— Lembro-me muito bem da parte dos desesperados...
— Que seja. Todos somos um pouco, não é? Digo, desesperados... Mas acho que fé é o que importa. Esperança e essa música tem de sobra...
— Hum. Tipo, esperança de que você irá terminar de cantar a música antes de começar a analisar a letra dela, pelo menos uma vez? Acho que entendo. Isso me motiva a sair da cama, sabe...
— Ah, cale a boca, espertinho! — ela disse me dando um tapa no braço.
Quando finalmente abri os olhos e fitei o teto do quarto, senti meus olhos arderem e minha visão meio embaçada. Não sei se pelas lágrimas que começavam a se formar ou pelo sono. Acho que os dois.
E são tantas marcas
Sentei-me vagarosamente, estudando os cantos escuros do meu quarto. Esperando que a Tabhita saísse de algum buraco. Que ontem tivesse sido só um pesadelo. Que eu não estivesse louco...
Que já fazem parte
Do que eu sou agora
Mas ainda sei me virar...
Porém, conforme as últimas palavras morreram, deixando um tênue eco para trás... Meu quarto preencheu-se pelo som do chuvisco e um ranger suave e característico do assoalho, assim que meus pés tocaram o chão.
— Talvez eu esteja doido... — eu resmunguei, tendo consciência que parte de mim queria ficar louca logo. Queria simplesmente desligar e não se importar.
A loucura parece tentadora.
Desci as escadas, descalço, tentando ignorar meu braço que doía. A enfermeira havia me dado a amostra grátis de um antibiótico que ajudaria a entorpecer a dor, mas não estava afim de procurar onde minha mãe o enfiara. Contraditório o ser humano, não?
Fitei o relógio da cozinha, em seu tic tac manso, e estremeci ao ver a meia noite já mais do que anunciada. Mordi o lábio, estava atrasado, mas não me importei. Peguei um guarda-chuva e segui rapidamente até a casa da Ângela.
Hoje não foi um dia exatamente especial. Foi uma merda, na verdade. Mas, em algum momento depois que acordei, acho que algo dentro de mim decidiu apenas encarar o que viesse.
Ou tentar.
Ótima decisão, dia ruim.
Munido com essa tentativa de acalmar os nervos, avistei a Ângela com uma expressão de poucos amigos na porta de sua casa.
— Você está atrasado.
Fale com o autor