Noite

24 Noites de Azar


_5 de Fevereiro_

Se eu achava que todas as porcarias possíveis já tinham acontecido... Haha, como a vida é piadista, porque a coisa toda upou.

Foi mais fácil do que supus entrar no hospital. Quero dizer, ter acesso às áreas restritas. Ângela apenas fingiu estar morrendo — o diagnóstico oficial era intoxicação alimentar causada por uma barrinha de cereal vencida. Ok, eu oficialmente não me considero o mais tosco dos mentirosos agora — e a enfermeira, talvez em reação à expressão da Ângela, de quem estava se asfixiando, apenas jogou-a na frente de um médico o mais rápido possível. Bem, isso me dá outra perspectiva acerca de intoxicações alimentares...

Reconheci o Dr. imediatamente, era o tal Cleber. Não gosto dele. Provavelmente tem haver com o fato de ele ter sido o primeiro a dizer que a Tabhita cometeu suicídio. Enfim, não importa muito, mas fez com que eu não me sentisse culpado ao arrastar a Ângela quarto afora assim que ele foi pegar um estetoscópio que não estivesse produzindo ruídos incoerentes. — Segundo ele, pelo menos.

— Eles têm aquelas geladeiras de cadáver aqui? — Ângela perguntou um tanto animada — tipo aquelas de filmes...

— Não faço nem ideia, estamos em uma cidade minúscula e na falta de um IML por aqui... — eu disse com uma voz monocórdia.

O hospital não era grande e não demorou para que achássemos a sala que procurávamos. Os maiores obstáculos foram os médicos que passavam de um lado para o outro ocasionalmente, fazendo com que tivéssemos que nos esconder no primeiro buraco disponível; afinal, infelizmente, não achamos nenhum vestiário transbordando de jalecos médicos para que pudéssemos nos disfarçar. Estou começando a me sentir completamente iludido.

— Isso parece muito nojento. — disse Ângela verbalizando meus pensamentos ao visualizarmos três enormes geladeiras de inox para cadáveres. Tipo, literalmente.

— Viemos por sua causa, você abre. — apressou-se a dizer.

Que sutileza, hein!

Respirei fundo e, após dar uma estudada no ambiente que tinha um forte cheiro de desinfetante, atrevi-me a abrir a primeira geladeira. Havia três prateleiras e em cada uma delas estavam contidos diferentes cadáveres. Com o olhar rápido que lancei, vislumbrei mais detalhadamente apenas o topo de suas cabeças. Nenhum fio de cabelo azul, o que me causou um estranho alívio... de uns três segundos, considerando-se que a Ângela já estava me cutucando para que eu abrisse a próxima geladeira mega enorme.

Abri e constatei que nessa só havia dois corpos. O de um homem, de cabelos loiros e o da Tabhita. Puxei lentamente a esteira e me senti atônito quando a coisa travou. Demorou uns bons segundos para que eu tivesse a ideia de levantar um pouco a gaveta para que pudesse puxar totalmente.

— Essa aí? — cantarolou Ângela.

— É. — eu disse me atrevendo a tirar um pedaço do pano que cobria seu corpo, para que eu pudesse ver seu rosto.

Não foi uma boa ideia.

Sua pele parecia cinzenta e prestes a se desfazer. Seus lábios estavam entreabertos e ressecados. Fez-me lembrar de nosso primeiro beijo. Tinha gosto de maçã do amor, de felicidade... Bem diferente do que eu via olhando para o que parecia ser um rascunho mal feito da garota das minhas lembranças.

— Felipe — disse Ângela me arrastando alguns passos para trás —, vá para trás e vire-se, sim?

— Hum?! — consegui inquirir vendo Ângela jogar sua mochila para o lado e tirar de lá um pedaço de madeira.

— Você não pretende enfiar isso...

— Não. Seria um verdadeiro outdoor dizendo que há gente que sabe que vampiros são os culpados e que estão dispostas a matá-los. Uma péssima ideia.

— Sim, um belo convite para o carnaval. — resmunguei a contra gosto, perguntando-me o que faríamos se constatássemos que a Tabhita realmente havia se tornado uma... Deixei o pensamento de lado imediatamente. Eu havia visto, bem diante dos meus olhos um vampiro se transformar... Fora em questão de minutos... Portanto, se a Tabhita não dera sinais de estar no outro time até agora, que lógica havia para toda aquela incursão que não fosse o meu próprio desespero?

...Que seja. Todos somos um pouco, não é? Digo, desesperados... Mas acho que fé é o que importa...

Ouvi nitidamente a voz da Tabhita dizer. Admito que fiquei em dúvida se era um sussurrar da memória ou um sopro de palavras que chegavam aos meus ouvidos. Apenas fixei meus olhos no corpo da Tabhita e engoli em seco.

— Vire-se de costas, Felipe. Por favor. — Ângela disse de repente, rompendo meu transe.

— Humm... Está falando sério? — eu disse franzindo as sobrancelhas. Tentando me concentrar no que viéramos fazer em plena madrugada no hospital de Martina.

— Uma dama não gostaria que você a contemplasse nua tão descaradamente! — ela disse me virando de costas e só então reparei que ela vestira um par das muitas luvas descartáveis que estavam empilhadas sobre uma das mesas de inox para as quais eu estava de frente agora.

— O que vai fazer? — inquiri não querendo deixar o silêncio invadir aquele cubículo sufocante.

— Não sei se posso dizer.

— Ah, a hipnose. Já estava me esquecendo. — suspirei trocando o peso de uma perna para a outra. — Deixa eu ver... Como acha que Van Helsing faria para descobrir se um vampiro viraria ou não vampiro?

— Depende. Está falando do Van Helsing de Van Helsing ou do Van Helsing de Drácula?

— Ângela...

— Acho que ambos enfiariam a estaca logo, sabe? O necrotério era mais driblável naquela época... Ou eu deveria dizer que ambos os Van Helsing tinham mais recursos?!

— Ângela... — eu disse novamente, tentando controlar minha falta de paciência. Não é culpa dela que um vampiro esteja fazendo a festa com o seu cérebro.

— Aff. Que merda, ok! Apenas descubra logo o que tem que descobrir. Vou ver se não tem ninguém vindo.

— Ei. — ouvi Ângela chamar quando começava a girar a maçaneta. — Felipe, você foi infectado, não foi?

Virei-me imediatamente, meio atônito e lancei-lhe um olhar de dúvida. Ângela não me olhou, apenas continuou a fitar meticulosamente um pequeno frasco de vidro.

— Está falando do quê?

— Felipe — ela repetiu meu nome e me lançou um olhar cheio de amargura. — É oficial, essa garota estava no processo inicial da transformação de um vampiro quando morreu.

— E...? — Inquiri, impaciente, após um longo minuto de silêncio.

— E agora está morta. Ela não se transformará. — Ângela disse cobrindo novamente o cadáver enquanto eu me aproximava vagarosamente. — E você! — ela disse com um tom de voz duro, enquanto segurava uma seringa junto ao pequeno frasco de vidro. — Venha logo aqui!

Estranhei seu tom. Quero dizer, Ângela sempre fala o que pensa e nunca tem qualquer pretensão de amenizar as coisas, mas... Ela não é autoritária. Pelo menos nunca achei que fosse.

— O quê? Por que está me olhando assim? — eu disse me aproximando.

— Fique um pouco quieto, ok? — ela disse examinando minhas pupilas, comparando minha temperatura com a sua e me dando um soco em seguida.

Tipo, um belo de um soco sem misericórdia.

Dei uns dois passos para trás, surpreso e sentindo um gosto metálico. A pior parte, e a mais estranha, foi que comecei a ouvir novamente a Tabhita sussurrar. Na verdade, mais parecia um coro desordenado de crianças cantando Atirei o Pau no Gato. Mas a voz da Tabhita se destacava como a única que berrava a música em meio as vozes risonhas que cantarolavam.

Franzi o cenho e, engolindo em seco, sustentei o olhar exasperado que a Ângela me dirigia. Senti-me cada vez mais confuso. Não era lógico que eu ouvisse a Tabhita cantando Atirei o Pau no Gato. A Tabhita estava morta. Portanto, era menos lógico ainda que a Ângela estivesse ouvindo. No entanto, quando nossos olhos se cruzaram, nem pensei em duvidar. Apenas tentei manter minhas pernas firmes, esperando que a sensação nostálgica fosse embora antes de dizer:

— O que foi isso?

— Porcaria, Felipe! Porcaria!

Ângela empurrou a gaveta com o corpo da Tabhita para dentro da geladeira sem a menor delicadeza. Agarrou meu braço e me puxou para fora do quarto mal olhando para os lados. Quando pensei que ela tinha surtado de vez, que seriamos pegos e que tudo daria errado, Ângela se enfiou na sala de um paciente que dormia pacificamente a fim de escapar dos olhos de um médico que vinha em nossa direção, distraído apenas por sua prancheta.

Obviamente, fui atrás.

— Ei, você endoidou? — sussurrei sem compreender seu olhar meio insano. — Ei, Ângela! — chamei novamente, a criatura estava me ignorando descaradamente.

— Cala boca, Felipe! — ela disse de repente, dirigindo-se à janela. — Eu disse para que você fosse embora, não disse? Que droga! Droga! Droga! Que cara idiota você é! — ela continuou a me xingar enquanto abria a janela do quarto. Resignei-me ao silêncio, no mínimo, começar a brigar com ela enquanto nos escondíamos no quarto de um paciente internado no hospital, não daria bons frutos.

Pulamos a janela sem nenhuma dificuldade, estávamos no térreo e uma chuva fina começava a insinuar-se pela noite sem estrelas.

— É bom começar a falar, Ângela. Claramente, se conseguir. — eu disse assim que passamos pelo estacionamento quase vazio do hospital.

— Ok. Ok. A tal Tabhita está morta, ok? Tudo o que posso te dizer é que ela começou a se transformar em um vampiro. Ou seja, algum vampiro a mordeu, mas... Ela morreu. A causa não foi a transformação. Foi uma morte bem humana, realmente causada pelos cortes e tudo. É o que acho.

— Como sabe que ela começou a se transformar? — perguntei tentando ignorar o fato de que, no fundo, ainda que eu tentasse não pensar na possibilidade, eu ainda tinha esperanças de que a Tabhita pudesse ter... uma chance. Mesmo tendo uma visão bem clara do quão monstruoso Toni era, do quão monstruosos eram os vampiros que quase tinham me matado na minha casa... Ainda assim, lamentei. Também tenho que dizer que me senti muito miserável por isso, é como se desde o início eu quisesse que a Tabhita estivesse viva unicamente para o meu conforto. Para que minha culpa fosse embora. Para que eu não tivesse que parar para pensar em uma vida inteira sem ela...

Foi exatamente aí que a Ângela gritou.

Pela segunda vez desse mal inaugurado dia, essa garota me assustava com algum tipo de ação retardada. Dessa vez, por estranho que pareça, posso dizer que o grito foi pior que o soco. Senti-me imediatamente zonzo e minha cabeça começou a doer ao ponto de a minha visão embaçar por alguns instantes, fazendo-me perder o equilíbrio e ser amparado pela mesma doida que tivera a ideia de invadir o hospital.

— É, cara... É oficial. Estamos igualmente ferrados. — ela disse suspirando enquanto detia os olhos em uma senhora do outro lado da rua, vestida de vermelho dos pés a cabeça, que nos encarava com reprovação. Como se estivesse, silenciosamente, mandando-nos calar a boca em plena madrugada. Ao ver as bandeirinhas, também vermelhas, que saiam da bolsa dela relembrei-me que nem todos em Martina estavam presos no caos. Havia um monte de gente que ainda comemorava animadamente o festival da Batata.

Acho que preciso dormir direito. Lembro-me de ter pensado quando voltei a encarar o rosto da Ângela, vi seus lábios se mexerem, mas não escutei sua voz...

E ela estalou os dedos.

— Está ouvindo, Felipe? — ela gritava em alto e bom som. — Merda, eu devia ter quebrado sua mandíbula naquele projeto de necrotério, viu!

— Ainda me pergunto o que a impediu. — eu disse pensando, estupidamente, no bilhete do Festival da Batata que nem eu e nem a Tabhita tínhamos usado. Ela fizera tanto mistério quanto aquele negócio e no fim...

A benevolência é apenas para alimentar o ego.

Ouvi aquela loli albina dizer e virei-me, imediatamente, para a esquerda procurando-a com o olhar. Ângela calou a boca e esquadrinhou a rua vazia junto comigo até que, ao fim de uns quinze segundos, ela apenas suspirou e pareceu relaxar ao meu lado. Como se estivesse com o mundo nas costas e desejando fortemente me dar outro soco.

E cara, eu sinceramente me irritei.

— Dá pra falar logo? — eu disse voltando a encará-la. — E nem venha com nada estranho de novo — eu disse afastando-me uns dois passos dela — Nada de socos ou berros e nem nada que vá ferir minha integridade física, por favor.

— Felipe, você não é burro. Deve ter percebido. — ela disse sem qualquer exaltação ou sarcasmo pela primeira vez, o que só serviu para me deixar meio apavorado. — Sabe o que faz um vampiro ser um vampiro? Sabe como começa? Não é uma mordida. Não é a perda de sangue, nem a morte. É o veneno.

— Huhum, huhum... — concordou animadamente uma voz que conheci antes mesmo de sentir seu cotovelo apoiar-se no meu ombro esquerdo. — Uma overdose de veneno, pra ser mais exato. — disse Wagner com um sorriso que fez meus ossos tremerem, mesmo depois de afastar seu cotovelo o pôr-me ao lado da Ângela enquanto o via comer aquele chiclete azul no pirulito. Puxando-o com os dentes e esticando-o, para enfiá-lo todo na boca e fazer bolas em seguida.

— Ai, ai. Bem quando a coisa começou a ficar dramática... — ele sorriu brincando com os cachos do próprio cabelo, o que foi tão esquisito quanto parece. — Não aguentei esperar. Como será que aquela cadelinha vai reagir quando souber que eu brinquei um pouquinho com o lanchinho dela?! — ele disse lançando um olhar predatório à Ângela.

— Gabriella? — eu perguntei ainda boquiaberto por ver o Wagner nos olhando daquele jeito.

— Humph! Eu sabia que devia ter marcado de manhã, de manhã... — resmungava Ângela apertando meu braço com muita força.

— Sério que você também faz parte da raça de sanguessugas? — inquiri me achando um verdadeiro retardado por não ter pensado nisso antes. Há não muito tempo atrás o cara tinha desaparecido... Só podia ser...

Lembrei-me de vê-lo no parque, com aquele mesmo visual meio punk. Um som seco e abafado de música sertaneja começou a ecoar na minha consciência. Quase senti o cheiro de pipoca, de grama e... Erva doce. O calor na minha mão era uma memória que gostaria de ter resgatado nesse instante de delírio, mas tudo o que vi foi o sorriso do Wagner se alargar enquanto eu não sabia se o via próximo àquela barraquinha de cachorro quente — Encarando-me. Encarando a Tabhita — ou se deixava minhas perspectivas deterem-se a figura pálida que nos fitava, divertido, enquanto mascava chiclete.

— Seu desgraçado! — eu disse com uma voz esganiçada que assustou até mesmo a Ângela. — Foi você! Você, seu cretino dos Infernos! — eu disse dando um passo a frente.

— Pensei que nunca fosse perceber... — ele riu. — Sabe, foi muito divertido... Pena que o brinquedinho quebrou logo. — ele resmungou com um vago tom de amargura que só me fez achá-lo mais doentio e desprezível. — Ela até mesmo disse seu nome algumas vezes, sabe... — ele começou a falar como não estivéssemos presentes, como se apenas quisesse ser brindado com as próprias memórias. — Mesmo eu lhe dizendo tantas vezes para que dissesse o meu... — ele continuou a resmungar, encarando-me novamente com um ódio que só não me fez recuar, porque sentia meu sangue pulsar como brasa enquanto tentava me lembrar de respirar.

— Felipe. — disse Ângela de repente, passando por mim como um borrão e enfiando uma fina pulseira que parecia de ouro, no meio da cara do Wagner.

Seria um elogio dizer que sua cara só fumegou ou que ele só berrou.

O cara guinchou descontroladamente e atirou a pulseira da Ângela longe enquanto a pele de sua cara derretia. Pude ver suas veias tornarem-se visíveis misturadas a pedaços crus dos músculos de seu rosto e a uma porção de sangue que manchou sua camisa e a calçada. A pior parte foi quando uma de suas pálpebras se desfez... Pude sentir o cheiro agridoce e intoxicante da carne digerindo-se, enquanto seu olho esquerdo parecia prestes a entrar em combustão...

Mentalmente, eu vomitei.

— O que você... — comecei a dizer, incrédulo com o que quer que tivesse causado aquilo tudo, deixando que a Ângela me puxasse para a direção oposta.

Puxasse é apelido, ela quase arrancou meu braço enquanto corríamos o máximo que podíamos morro acima. Yeah! A natureza não poderia estar ajudando mais. Fugindo de um vampiro enquanto corria morro acima. Definitivamente, sorte é uma coisa para caras que não sabem que vampiros existem.

E, bem... Nós, como era previsível, não conseguimos fugir, em uma área aberta, de um vampiro em sua plena forma. — e cara derretida.

Uma barra de ferro acertou meu tornozelo esquerdo com uma força absurda — tenho quase certeza de que ouvi os ossos rachando-se — e eu caí para trás feito um saco de batatas, arrastando a Ângela junto.

Bati meu cotovelo direito na rua de pedra e senti o impacto chegar ao meu pulso. Devo ter gemido feito um filhote de cachorro de tanta agonia. Mas o pior nem foi isso. Ângela conseguiu apenas ralar os joelhos e levantar-se rapidamente, mas Wagner agarrou-a pelos cabelos em uma velocidade tão assustadora que tive certeza do que ele faria a seguir, por uma fração de segundo consegui imaginar Wagner deixando seu sorriso transformar-se em um afiado conjunto de presas enquanto deslocava sua mandíbula e perfurava a jugular da Ângela.

Não pensei, apenas puxei a perna do Wagner com toda a força que consegui, aproveitando-me do efeito surpresa. Ângela foi arrastada para a queda junto com ele, mas antes que pudesse fazer alguma coisa eu já estava em cima dele, pisando com toda a força em cima do braço que agarrava os cabelos dela.

Ângela me fitou de olhos arregalados e afastou-se do Wagner o máximo que conseguiu. Tudo o que vi em seguida foram suas lágrimas de pavor, breves e silenciosas. Tentei mover minhas pernas sem muito sucesso. Minha voz travou em meio ao pavor e tudo o que pude agarrar foi o ar, enquanto estendia as mãos e me estatelava no chão por causa da droga daquela perna ferrada.

Ângela não gritou, não deu tempo. Nossos olhos apenas se cruzaram pelo espaço de uma respiração, enquanto eu tentava levantar-me inutilmente e contemplava Wagner, com seu caráter e rosto desfigurados, agarrá-la pelo pescoço e atirá-la como uma boneca no poste, do outro lado da rua.

O sangue foi a primeira coisa da qual pude ter certeza em meios aos membros confusos da Ângela, que se acomodavam em posições antinaturais sob o céu sem estrelas e a chuva que estiava.

— Que saco! — ouvi Wagner reclamar a minha esquerda, fazendo-me voltar a olhá-lo, lentamente. — Não era pra ser essa bagunça toda, agora vou ter que arranjar um carro... Saco, Saco. — ele dizia, andando sem pressa em minha direção.

Tudo o que fiz foi cambalear até onde a Ângela estava e tentar sentir seu pulso enquanto ignorava com uma convicção férrea o líquido rubro que tingia sua pele pálida e o tremor que mal deixava que eu segurasse seu braço com a eficiência necessária.

— É, cara... As pessoas que te ajudam sempre se ferram, não é? — disse Wagner atrás de mim.

— Você é um completo merda, cara... — resmunguei segurando a mão da Ângela e desejando que o calor que eu sentia não se esvaísse.

— Não é a primeira vez que você me diz isso, Júnior. — ele disse e eu me levantei e voltei a sustentar seu olhar que destilava uma raiva que eu não poderia nem chegar perto de mensurar. — Você não se lembra mesmo, não é?

Em resposta, eu apenas me concentrei em continuar em pé, mesmo com meu tornozelo doendo como os infernos e mesmo que a minha vontade fosse de correr para o hospital agarrando-me a um último resquício de esperança de que talvez... Talvez, pelo menos a Ângela não precisasse morrer também.

— Isso é triste. — ele sorriu. — Você me esqueceu muito fácil, o que uma piscadela da vadia da Stephanie não faz, hein... — ele disse avançando alguns passos.

— O que você quer, Wagner? Por que está fazendo isso? — eu perguntei tentando ganhar tempo, exigindo do meu cérebro uma solução milagrosa.

— Na verdade, nada. Ser humano é muito mais complicado, sabe? — ele disse segurando meu ombro direito e eu tive que trincar os dentes para não lhe dar o prazer de perceber o quanto aquela merda doía. — Há dor, há isso de ser o que os outros querem que seja. Ser o que eu sou é muito mais simples — ele dizia enquanto seus caninos tornavam-se mais afiados e sua pele revigorava-se lentamente —, posso apenas brincar por aí com toda essa força, sem nenhum remorso, sem nenhum limite. Ser forte. Isso você não entende, não é? — ele disse rasgando a gola da minha camisa com a mesma mão que quase esmagava os ossos do meu ombro. Tudo o que pude fazer, foi ver meu atordoamento refletido em seus olhos e engolir em seco. Nem por um milagre eu conseguiria correr, acho que nem queria.

Talvez fosse mais fácil...

— Mas sabe, não se preocupe. Vejo claramente sua expressão de desprezo, seu medo... — ele continuou, com uma risada depreciativa. — Não vou transformá-lo em um monstro. É nisso que está pensando? Humph! Não seja tão pretensioso! — ele disse segurando minha gola com um pouco mais de força. — Vim apenas devolver um favor, sabe... Pelo primeiro dia que você pisou aqui nessa cidade maldita e ferrou com a minha vida. Eu vou fazer você lembrar... — ele disse puxando-me para si e arreganhando a boca. Sem melhores opções, enfiei o braço em seu caminho, antes que suas presas se afundassem no meu pescoço.

Que deprimente seria ter um cara roçando a barba no meu pescoço enquanto bebe meu sangue. Pensei estupidamente.

Quase desmaiei de dor por causa da porcaria daquela mordida e, para a minha alegria, Wagner não teve problemas em se livrar do meu braço; apenas lambeu os lábios sujos de sangue e atirou-o para o lado como um trapo velho antes de jogar minha cabeça para o lado e enfiar as presas no meu pescoço com a delicadeza de um urso passando fome.

E quem foi o idiota que disse que mordidas de vampiros são viciantes, não doem e toda essa merda? Bela mentira dos infernos!

Putz... Doeu!

Uma dor que preencheu o minuto seguinte, enquanto eu ouvia vagamente o som de um sino ao fundo — repetindo-se como um eco — e fitava, com a visão meio embaçada, uma garotinha que me estudava de olhos arregalados do ponto cego do Wagner. Por um momento, tive vontade mandá-la correr, mas, em algum momento, me dei conta de que ela se parecia com a Tabhita... Talvez no jeito em que seus cabelos ondulavam-se e caiam sobre os ombros ou pelo franzir característico de sobrancelhas... Não sei. Não tive muito mais tempo para pensar no assunto, pois não demorou para que eu não a visse mais. Não demorou para que eu não enxergasse mais nada e deixasse minha consciência ir embora, entregue a uma dormência que me foi mais do que bem vinda.

Notas finais
Espero que tenham gostado do capítulo tanto quanto eu gostei de escrevê-lo! =) Creio que alguns mistérios estão sendo solucionados aos pouquinhos...hehe O que acharam? >.