Noite
25 17
Notas iniciais
_7 de Fevereiro_
Minhas pálpebras estavam fortemente fechadas e meus dentes trincados enquanto eu tentava manter minha respiração ritmada e continuar ignorando. Ignorando aquela maldita voz que não insistia tanto em me atormentar havia um bom tempo.
— Você não vai acordar, não?
— Já estou acordado! — eu disse com uma ponta de irritação, bocejando.
— Está atrasado.
Abri vagarosamente os olhos, completamente derrotado, e bufei.
— Você não deveria estar aqui.
— Nem você — ele sorriu e isso me irritou. Aquilo sempre me irritou. Aquele sorrisinho que nunca parecia se desfazer. — Por que está aqui? Você está ferrado, não está? — ele perguntou com uma animação quase infantil enquanto tirava os fios negros que lhe caiam sobre os olhos e os jogava para trás. — Sinto saudades dos dias em que pedia a minha ajuda...
— Droga, Gregório... — trinquei os dentes me sentando na cama e encarando sua expressão franca e familiar. — Achei que já tinha superado isso. Eu. Definitivamente. Não. Quero. Voltar...
— Na Dra. Alzira? Ah, com certeza eu sei disso — ele riu. — Não se preocupe, não precisa dela. Você não está surtando.
— Não estou?! — eu disse com o ceticismo em sua forma mais afiada.
— A não ser que você sinta falta dos biscoitos do escritório dela...
— Greg...
Ele parou de rir e pela primeira vez me olhou com o que parecia ser seriedade.
Parecia, já que eu tinha certeza de que ele soltaria alguma de suas piadas infames e começaria a desviar-se de qualquer assunto que eu iniciasse para algo tão banal quanto possível.
— Você sabe que dia é hoje, não? — ele perguntou, seus olhos negros encarando-me com expectativa.
— O dia em que você nunca mais vai aparecer, talvez? — sugeri, sem muito ânimo.
— Felipe, isso é um sonho. Eu estou autorizado a aparecer nos sonhos, não estou? Não é exatamente anormal, sabe...
— Um sonho... — eu resmunguei voltando a encará-lo meio incrédulo e tentando me lembrar... — Ângela — eu disse antes que percebesse.
— Ah, sempre desviando a conversa para coisas trágicas — ele reclamou em uma encenação barata de desapontamento.
— Cala boca, Greg... — eu comecei a dizer pouco antes de tudo começar a se dissolver e uma incrível dor de cabeça tornar-se mais real que o idiota sentado ao lado da minha cama.
Abri os olhos com um estranho estupor tomando conta de mim. Não conseguindo pensar em nada especificamente, apenas tremendo um pouco de alívio por ter sido só um sonho. Por um longo tempo não soube dizer se estava começando a odiar o Greg e isso me aterrorizava mais do que todo o resto. Então, continuava a tentar esquecê-lo, ignorá-lo e deixá-lo fora até mesmo do meu passado, ainda que isso fizesse eu me sentir o pior... Era isso, ou ele voltaria.
Senti mais claramente o talo na minha garganta e pisquei desesperadamente, tentando evitar que as lágrimas que começavam a se formar rolassem pelo meu rosto. O Greg não voltará!, pensei convicto, enquanto tentava tornar o mundo mais nítido, novamente, conforme esfregava os olhos e respirava fundo.
Não o reconheci o teto.
Era branco, assim como as paredes e as minhas novas roupas: uma blusa e uma calça. Fiquei um pouco mais tranquilo ao verificar que não estava pelado... Ou parcialmente pelado, enquanto trajava uma daquelas camisolas de hospital. Seria bizarro. Havia outras duas camas com pacientes no quarto. Pareciam estar dormindo e, a julgar pela luz branda do sol que inundava o recinto, imaginei que deveria ser de manhã, o que significava que havia se passado algumas horas desde que eu e a Ângela encontráramos o convidado inesperado perto do hospital.
— Ai, que droga — resmunguei massageando as têmporas.
— Não deveria dizer isso. — Surpreendeu-me uma enfermeira com um sorriso riscando seu rosto. Já disse que enjoei de sorrisos, ultimamente? — Que bom que acordou! — ela exclamou alargando ainda mais o sorriso e me encarando com uma expectativa que não entendi. Talvez ela esperasse que eu sorrisse também? — Sua mãe e seus irmãozinhos acabaram de sair, eles vão ficar felizes em saber que você finalmente acordou!
— Ah, claro — eu disse sem muito ânimo, vendo-a sair junto com a minha oportunidade de conseguir informações sobre o estado da Ângela.
Brilhante!
Minha mãe, acompanhada do Luan e do Caíque, entrou uns dois minutos depois.
— Oh, meu Deus! — Foi o que ela disse quando nossos olhos se encontraram. Acho que “Oh, meu Deus!”, é realmente aceitável dada à situação. — Luan... Caíque... — ela chamou em tom de repreensão, tentando não se juntar as risadas que os dois moleques davam.
— O que foi? — inquiri fungando, enquanto esfregava mais uma vez os olhos, torcendo para que não ficasse evidente o meu quase choro de meio minuto atrás.
— Oh, nada de mais, Júnior. Apenas um presente de aniversário inesperado... — ela disse sentando-se na beira da minha cama e revirando a própria bolsa para, em seguida, me entregar um daqueles negocinhos de maquiagem com espelho. — Olhe você mesmo o nível da arte.
— Ah... Estou sem palavras — falei estudando meu reflexo com uma ponta de humor que provavelmente soou forçada. Havia um bigode verde logo abaixo do meu nariz e corações rosas por todo o meu rosto. — Isso é canetinha? — perguntei fazendo careta.
— Uhum!— Confirmou Luan pegando uma das balas que enchiam um pequeno pote disposto sobre a mesinha ao lado da minha cama. — Caíque teve a ideia.
— Mas a canetinha é do Luan. — Caíque riu pegando algumas balas também. — Mas o preto acabou, então o bigode é verde — ele disse me encarando com um ar de importância.
Sério, eu ri. É engraçado como essas coisas sempre acontecem quando acho que vou me afogar em mau humor.
— Meninos, achei que as balas também fossem parte do presente — disse minha mãe.
— Mamãe disse que sempre temos que dividir e quando eu estou doente ela não me deixa comer bala — justificou-se Caíque enfiando umas quatro na boca.
— Acho que é um ótimo presente de aniversário... — tentei sorrir. — Mas é amanhã, né?
— Não, Júnior — minha mãe disse, paciente. — Hoje é dia sete, você chegou aqui ontem de madrugada.
— Ah... — Tentei não calcular por quantas horas estivera desmaiado naquela cama. — Mãe, e a garota que estava comigo? Como ela está?
— A garota com quem você estava quando foram atropelados às duas da madrugada? — perguntou cheia de reprovação. — Ela teve uma contusão séria na cabeça. Não sei muito sobre o assunto... — ela dizia quando foi interrompida por seu celular que vibrou, fazendo-a quase pular de susto antes que pudesse ler a mensagem. — É o seu tio. Lídia está recebendo alta do hospital hoje, ele está pedindo para que eu leve os meninos lá no quarto dela — sorriu. — Vou e volto em um instante, não se preocupe — ela terminou levantando-se rapidamente e beijando minha testa.
— Ok. Ainda estarei aqui! — Eu disse sem prestar atenção na sua breve conversa com os meninos antes de vê-los saírem e forçar um sorriso em resposta aos seus acenos alegres. — Não vou a lugar algum — resmunguei passando a mão pelo pescoço, lembrando-me de quando o Wagner enfiara os dentes ali... — Péssima lembrança. — Cutuquei de leve o curativo que escondia a marca da mordida e que me incomodava. Aquela merda pinicava.
— Voltei — ouvi minha mãe dizer bem quando começava a me indagar sobre o arranjo que Wagner deveria ter feito para que dissessem que eu e a Ângela havíamos sido vítimas de um acidente de carro.
— Sério que hoje já é dia sete? — eu perguntei sem saber bem o que dizer.
— Uhum. Nem imagina como fiquei preocupada, moleque! — ela disse voltando a se sentar na beira da minha cama. — O que fazia com aquela garota em frente ao hospital àquela hora, hein, Felipe?
— Mãe...
— Bem, vamos deixar isso para outra hora — ela me interrompeu com um tom de voz vagamente animado enquanto voltava a fuçar em sua bolsa, só para tirar de lá um daqueles bolinhos de chocolate da Bauducco. — Não é todo dia que se faz dezessete anos! — ela disse com um sorriso que preencheu seus olhos.
Franzi o cenho e cruzei os braços com um pouco de dificuldade, já que tinha um fio injetando soro na minha veia.
— Felipe — ela me chamou, estava parecendo cansada. Captando a mensagem, disse-me: — já está na hora de você voltar a comemorar...
— Achei que não falássemos sobre isso, mãe.
— Você é um menino tão bonito. — Ela passou a mão nos meus cabelos. — Muito bonito aqui também — ela disse colocando a mão sobre o lado esquerdo do meu peito e lançando-me um sorriso. — Não vamos estragar isso, ok? Já está na hora de seguir em frente.
— Mãe, está tudo bem, eu só... — segurei sua mão e deixei o silêncio invadir a conversa, sem saber o que dizer.
— Sei que você, por mais que tente enganar sua astuta mãe, não está nem um pouco bem, principalmente com o que aconteceu com a Tabhita. Mas...
— Mas?
— Sei que parece difícil e é, mas você precisa continuar. Eles não nos deixaram, só fazem parte de nós de uma forma diferente agora.
— O Victor e a Célia já foram, não é? — perguntei, mudando de assunto.
— O enterro foi ontem à tarde — disse minha mãe meneando a cabeça brevemente. — Eles saíram bem cedinho. Não podiam adiar mais. Deixaram um presente de aniversário.
Lancei-lhe um olhar enviesado.
— Sabe que não temos nada para comemorar, não é?
— Pelo menos você gosta desses, não é? — ela perguntou cerca de um minuto depois, balançando o bolinho diante dos meus olhos e jogando-o para mim antes que eu pudesse responder. — Trate de comer, pelo menos. Um pouco de açúcar fará bem para essa sua cabeça oca.
— Queria que todos os meus problemas fossem resolvidos com açúcar — eu disse, abrindo a embalagem sem muita vontade.
— Você voltaria a ter cáries com esse tipo de solução.
— Já tem um tempo que aprendi a escovar os dentes — eu disse com a boca cheia de bolinho.
— Detalhes — ela deu de ombros.
— E o pai?
— Ah, Júnior... — minha mãe respirou fundo e tentou disfarçar o súbito desânimo. — Seu pai ficou muito preocupado, mas ele tem estado muito atarefado ultimamente... Tenho certeza de que irá passar aqui assim que puder.
— Claro — eu disse não muito convencido.
— Claro! — minha mãe repetiu balançando a cabeça para cima e para baixo, enfaticamente, e me arrancando um sorriso.
— Você não existe, mãe... — disse dando a terceira e última mordida no bolinho.
— Divas são raras, não inexistentes — ela sorriu, parecendo um pouco aliviada com a atmosfera mais leve.
— Não posso competir com esse argumento.
— Sra. Marina? — a mesma enfermeira sorridente de mais cedo chamou, interrompendo o silêncio confortável que começava a se insinuar. — Infelizmente o horário de visitas acabou.
— Ah, já?! — minha mãe disse com uma careta. — Aquela pousada está deprimente só comigo e a Rosa lá — sussurrou para mim. — Vou ligar para o seu pai para que ele te leve para casa hoje, se estiver tudo bem — ela disse, piscando para mim e beijando minha testa novamente.
— Tchau, mãe — eu disse, vendo-a sair.
Voltei a esquadrinhar o quarto, só que, dessa vez, sem processar adequadamente as informações que meu cérebro recebia. Wagner havia falado algo sobre me fazer lembrar, ontem.
“Vim apenas devolver um favor, sabe... Pelo primeiro dia que você pisou aqui nessa cidade maldita e ferrou com a minha vida. Eu vou fazer você lembrar...”
— Lembrar. Lembrar. Lembrar — murmurei ajeitando os travesseiros para que eu não tivesse que ficar deitado na cama.
Lembrar o quê?
Se eu tivesse visto o Wagner no meu primeiro dia aqui em Martina, eu me lembraria, certo? Certo? Certo?
— Hipnose? — inquiri para o ar. — Será? Não, isso seria...
— Você está falando com quem? — uma voz infantil interrompeu meus pensamentos.
— Hã? — foi tudo o que eu disse, voltando meus olhos para um garotinho de cabeça raspada e estranhas veias muito dilatadas pelo lado esquerdo da cabeça. Elas percorriam parte de seu couro cabeludo e se juntavam aos montes em torno de seu olho, fazendo uma estranha conjuntura com sua retina azul e seu sorriso inocente. Devia ter uns dez anos no máximo. — Oi.
— Oi — ele disse sorrindo ainda mais e rodeando minha cama, aproximando-se da mesinha. — Posso pegar umas balas? — pediu cheio de expectativas.
— Oh, pode... — eu comecei a dizer quando me lembrei de que estávamos em um hospital. — Ei, espere! Qual foi a última coisa doce que você comeu? — perguntei sem querer soar como: Ei, por acaso você é diabético ou algo assim?
— Eu, por quê?
— Porque sim.
— Porque sim não é resposta — ele disse com um ar entendido e eu sinceramente me perguntei o porquê de toda criança responder desse mesmo jeito.
— O quê? — estreitei os olhos. — A pergunta é muito difícil para uma criança como você?
— Claro que não! — o moleque disse cruzando os braços. — Eu sou quase adulto!
Ah, qual é! Todas as crianças são iguais no seu complexo de: já tenho idade o suficiente.
— Ah, claro, Sr. Quase Adulto.
— Uhum — ele pareceu aprovar e eu segurei uma risada. — A última vez que eu comi um doce, foi ontem. Quando a enfermeira Cindy e a Sra. Fada me deram um pirulito depois do almoço por eu ter me comportado na hora dos exames — ele disse com uma expressão de orgulho.
— E você jura pela sua honra de Sr. Quase Adulto que uma tal de Sra. Fada lhe deu um pirulito?
— Ela e a enfermeira Cindy, sim! — ele disse convicto. — Eu juro!
— Então está tudo ok. Leve o pote embora, se quiser. Divida com a Sra. Fada.
— Ah, sério? — ele perguntou já pegando o pequeno pote de balas que estava pela metade.
— É todo seu — eu afirmei, ouvindo a porta se abrir e vendo a enfermeira sorridente entrar de novo. Suspirei de desânimo ao vê-la, e reparei em seu crachá afixado à sua blusa, em que se lia: Cindy M. Freire.
— A Sra. Fada está dormindo no meu travesseiro agora, mas vou guardar algumas balas para ela — sussurrou para mim com uma piscadela cúmplice.
Sinceramente nem sei que cara fiz.
— Está fazendo amizades, Eduardo? — Cindy perguntou para o garoto, cheia de uma complacência que eu não soube dizer se era tão artificial quanto o sorriso.
— Estávamos tendo uma conversa de quase adultos — eu disse piscando para o Eduardo que ficara incomodamente quieto desde que a enfermeira parara ao lado da minha cama.
— Hum, quase adultos, é?
— Eu não quero o remédio, Cindy... — resmungou Eduardo segurando com firmeza o pote de balas.
— Eduardo, está na hora. Você não quer ficar bom logo e ir brincar com os seus amigos?
Eduardo não parecia muito convencido, mas segurou a mão da enfermeira quando ela a estendeu e deixou-se guiar até seu próprio leito. Só então, reparei que ela trazia uma pequena cesta branca consigo, de onde retirou uma seringa e um frasco de vidro cheio de um líquido incolor.
— Não vai doer nada, lembre-se de que você é um bom menino! — ela disse enquanto enchia a seringa com a dose necessária e administrava-a com a ágil destreza de quem já está acostumado. — Viu, não doeu, doeu?
Não ouvi Eduardo responder. A Enfermeira Cindy ajudou-o a se deitar, recolheu todos os objetos que tinha usado, devolveu-os a sua cesta e voltou-se novamente em minha direção.
— É um remédio forte, ele vai dormir por um tempo.
— Ainda é de manhã — foi tudo o que eu disse.
— Nem todos têm a sua sorte, Felipe. Eduardo já está aqui há dois meses, saiu da UTI há poucos dias e são essas doses que estão permitindo que ele ande pelo quarto e tagarele por aí sobre como é um quase adulto — ela disse fitando o garoto que parecia ter adormecido e, em seguida, voltando seu olhar para mim com uma ponta de amargura. — Você pode não entender muito bem, mas são pessoas como o seu pai que fazem isso possível.
— Está dizendo que o que ele tem é...
— Estou dizendo que garotos como você não deveriam sair aprontando de madrugada quando existem tantos outros lutando desesperadamente para viver. Deveria dar um pouco mais de valor para a vida que tem — sua voz, anteriormente calma e compassiva, estava cortante e irritadiça. Limitei-me a sustentar seu olhar em silêncio até que ela terminasse.
— Entendo seu ponto, enfermeira — eu disse pausadamente, esforçando-me para não soar grosseiro. — Mas não pode me dizer como devo viver a minha vida, tão pouco tem como saber as minhas razões para sair aproveitando de madrugada.
— Tem razão — ela disse depois de me estudar em silêncio por alguns segundos. — Tudo o que eu faço é costurar moleques insolentes, ajudar a engessá-los, verificar se tomaram os remédios e, eventualmente, descobrir que morreram — ela continuou, fazendo-me engolir em seco com o rumo sombrio da conversa. — Garoto, você saiu somente com um tornozelo torcido e uma anemia. Mas isso foi dessa vez.
Franzi o cenho lembrando-me de que, assim como a minha mãe dissera, oficialmente eu estava no hospital por causa de um acidente de carro. Perguntei-me novamente como a Ângela estava e tive a nítida sensação de que talvez a enfermeira soubesse mais do que aparentava.
— Você... — comecei, passando os dedos pelo curativo no meu pescoço.
— Tenho que cuidar de outros pacientes, se me der licença...
Cindy mal terminou a frase e já estava saindo do quarto com passos rápidos e silenciosos; deixando-me sozinho — ou tão sozinho quanto se pode ficar em um quarto com duas pessoas dormindo—, mas, mais uma vez, com a minha mente barulhenta.
O dia transcorreu lenta e tediosamente. Eduardo continuava dormindo e o outro leito era ocupado por um senhor que não se mexeu à tarde inteira. Tentando me distrair, reparei que tinham tirado alguns dos pontos resultantes das minhas recentes incursões. O corte que ficava atrás da minha orelha era um dos únicos que pareciam intocados, além de me encher a paciência com o tanto que ardia.
Tentei dormir algumas vezes, mas sempre me deixava distrair pelo incômodo silêncio que nivelava aquele quarto ou pelos últimos acontecimentos. Em certo momento, peguei-me pensando no Greg. Tive a impressão de vê-lo, pelo canto do olho, sentado ao meu lado. Foi aí que eu desisti de tentar dormir, não querendo admitir para mim mesmo que além de estar inquieto demais para pegar no sono, também não queria me encontrar com o Greg de novo depois de tanto tempo tentando me livrar dele.
— Ah... — Suspirei encarando o teto, já tendo decorado até a localização e formato das menores falhas na pintura. — Por que meus aniversários sempre são uma droga?
Lá pelas sete horas, eu acho, julgando pelo fato de que fazia mais ou menos uma hora que anoitecera, meu pai apareceu e, sem muitos rodeios, entregou-me uma muda de roupas e mandou que eu me trocasse e o esperasse em frente ao hospital para que pudéssemos ir para casa juntos.
Vesti a camisa cinza e o jeans velho com certo alívio, não aguentava mais aquele lugar. Tudo o que eu queria era ir para casa e inventar alguma solução milagrosa. Dei uma última olhada para o quarto parcialmente escuro e detive meus olhos na cama do Eduardo por alguns segundos antes de passar pela porta, andar até a entrada e retribuir o aceno que a recepcionista me lançou.
Respirei fundo o ar noturno, sentindo-o meio úmido e com um vago cheiro de grama e terra. Martina em geral tem esse cheiro em dias nublados e, honestamente, eu gosto. Dias assim parecem calmos.
Não demorou muito para que eu percebesse Wagner escorado em um carro próximo, estudando-me sem qualquer reserva.
Durante boa parte da tarde, pensei no que faria. Como me livraria dele, quantos socos lhe daria na próxima vez que o visse... Mas, quando percebi sua presença, o único sentimento que me invadiu foi repugnância. Nesse instante, percebi que não era mais a hora de tentar ser sutil e não atrair a atenção das seculares criaturas do submundo para mim e minha família, porque se continuasse assim, não sobraria ninguém. Era só uma
questão de tempo até que o anúncio de outros funerais acontecesse e eu, definitivamente, não queria ver mais nenhum cadáver.
— Pelo jeito que me olha, está decepcionado por não ter ido ao enterro da sua namorada. — Wagner se aproximava sem muita pressa e eu não movi um músculo. Fitei o céu por alguns instantes e voltei a sustentar seu olhar que parecia querer enfiar facas no meio da minha testa.
— Ficou mudo?
— O que você quer, Wagner? — solicitei rispidamente, com uma confiança que não estava nem perto de ter. Tudo o que me inundava era cansaço e um desejo silencioso de que meu pai demorasse um pouco mais para terminar seja lá o que ele estivesse terminando.
— Achei que você pularia no meu pescoço assim que me visse — ele mostrou sua fileira de dentes em um sorriso canino e eu quase parei de respirar tentando parecer calmo. Admito que esse nunca foi meu ponto forte.
— Também achei.
— Passei aqui para te dar o recadinho clássico e fazer jus à regra. Obviamente você não pode falar sobre mim a ninguém. Nem sobre qualquer coisa que saiba ou desconfie a respeito. E é claro que não pode fugir — sua última frase terminou em um sorriso e eu franzi o cenho, nenhum pouco surpreso.
— As paredes do meu quarto vão sentir saudades dos meus detalhados relatos diários sobre você — disse com a voz carregada de desprezo.
— Você não sabe em que merda se enfiou, não é? — debochou Wagner. Sua voz era quase um sussurro e o tom irreverente deu lugar a uma ameaça velada que, estranhamente, me fez esboçar um tênue sorriso.
— Você me odeia, Wagner, mas você quer algo — eu supus estudando suas pupilas que pareciam aumentar ou diminuir conforme o estado de seu humor. — Você não vai me matar aqui, porque quer algo. Algo que tem haver com o que eu supostamente esqueci. Você não viria atrás de mim só porque me odeia — eu finalizei forçando um ar despreocupado e torcendo para que ele não pudesse ouvir meu coração acelerado. Na verdade, eu meio que tenho certeza de que ele viria atrás de mim do mesmo jeito, é o que cretinos fazem... Mas não custava nada blefar um pouco a fim de arranjar alguma informação.
— Hum, temos um detetive aqui — ele disse depreciativamente, mesmo com o semblante vagamente afetado. — Isso não muda nada, Júnior. Porque eu faço o que eu quero. E agora, você também.
— O que você quer, Wagner? — perguntei mais uma vez.
— Não se preocupe com isso, tenho meus interesse com você, mas isso não muda o fato de que você é só a isca — ele sorriu novamente e virou-se, indo embora à passos lentos enquanto assobiava uma música que não reconheci.
Engoli em seco.
— Dizer estou ferrado é pouco — resmunguei vendo sua silhueta desaparecer à esquerda. Mas, pelo menos, eu tinha certeza de que havia muita merda de baixo do pano ainda. Wagner mencionara algo sobre regra, portando, lidar com ele era só a ponta do iceberg. Se haviam regras, significava que haviam também outras peças no tabuleiro. Peças organizadas o suficientes para terem regras. E se haviam regras, deveriam haver punições para a quebra de tais regras.
Senti certa excitação com a perspectiva de novas possibilidades se mostrando e fitei o céu noturno, desprovido de qualquer estrela ou pedaço de lua aparente. Imaginei o que a Tabhita diria se estivesse aqui. Como sorriria e como seus cabelos se bagunçariam ao vento, fazendo-a resmungar irritada. Sorriria com a ideia se não estivesse ocupado me achando muito estúpido por estar completando dezessete anos um dia depois do enterro da garota que eu gostava.
Meu pai apareceu poucos minutos depois. Ele parecia ausente e tinha mais rugas de cansaço do que eu lembrava. Vendo-o descer os cinco degraus que separavam a recepção do hospital do estacionamento, senti que estava perdendo-o de alguma forma. Mesmo quando sorriu para mim, logo depois de abrir a porta do carro, percebi o quanto aquela cidade pesava sobre ele. Pensar no quanto ele estava se esforçando com todos aqueles casos incomuns no hospital, apenas me fez especular quanto ao envolvimento de algum sanguessuga nos ocorridos. Era evidente que Martina não era uma cidade normal e, mais evidente ainda, que as pessoas pareciam estar apenas sendo manipuladas constantemente.
Acho que foi aí, estudando a expressão confusa do meu pai ao ver-me encarando-o sem qualquer disfarce ou palavras, que decidi que, fosse por bem ou por mal, eu tinha que fazer aquela merda acabar.
— Felipe? Você está se sentindo mal? — meu pai, que tinha aberto a porta do carro, fechou-a e foi em minha direção.
— Não, estou bem — tentei disfarçar dando de ombros e evitando seus olhos. Estava mais do que saturado de mentiras. — É só o meu tornozelo que está latejando um pouco — eu disse, o que não era mentira.
— Eu estou levando um analgésico aqui, quando chegarmos em casa você toma e vai dormir, está bem? Não deve demorar a melhorar, estava mais inchado quando você chegou ao hospital. Calculo que em uma semana, no máximo, você já vai poder apoiá-lo no chão adequadamente.
— Ah... Que bom. — eu disse tentando soar animado com a perspectiva de parar de mancar.
— A propósito — meu pai me estudou por alguns instantes e sorriu mansamente. — Feliz aniversário, Felipe — ele disse depois de ter rodeado o carro, transposto a distância entre nós no estacionamento e me abraçado.
Ficamos em um silêncio confortável durante todo o caminho até em casa. Pela janela do carro eu via muitas pessoas de vermelho caminhando animadamente pela calçada. Senti um aperto no estômago ao contemplar suas felicidades, então apenas fechei os olhos e comecei a massagear as têmporas até que o carro finalmente parasse em frente a pousada que parecia estranhamente mais familiar do que eu me lembrava. Ou talvez fosse só o alívio de sair do hospital — o verdadeiro templo dos desinfetantes.
Na sala, vi minha mãe cochilando no sofá com os óculos escorregando do rosto assim como uma vasta papelada de suas mãos. Meu pai não demorou a ir em sua direção com passos leves e acordá-la com certa delicadeza.
Vi ambos subirem não muito depois, após alguns murmúrios sonolentos da minha mãe, e me senti estranhamente normal como não me sentia há muito tempo. O relógio na parede marcava oito horas. Eu não tinha feito nada o dia inteiro, mas me sentia esgotado, então me abaixei para recolher a papelada antes de subir e ir dormir também. No entanto, meus olhos se detiveram no meu próprio nome e eu mordi o lábio inferior, percebendo que se tratava de uma solicitação para que eu comparecesse na delegacia assim que obtivesse alta.
— E o delegado Borges ataca novamente — eu disse sem muito ânimo para ir à delegacia amanhã. Entretanto, não posso dizer que o delegado Borges não tenha as suas utilidades, mesmo que seja um maníaco obsessivo com distintivo.
Peguei o número da delegacia e liguei com o telefone da cozinha, sentindo minha adrenalina subir com a ideia que começava a se formar na minha cabeça. Demorou apenas duas chamadas para que eu ouvisse uma voz feminina e entediada atender.
— Boa noite. Posso falar com o Detetive Bagdá? — indaguei já imaginando o que ela responderia e concluindo que não tinha nada a perder.
— O detetive Bagdá está afastado há algum tempo.
— Hum... Você tem o telefone dele? É importante e é só com ele — tentei parecer levemente desesperado, o que não foi muito difícil e a mulher do outro lado da linha pareceu acreditar.
— Bem, um momento...
Depois de conseguir o que queria, encarei o telefone por alguns segundos antes de discar o número do detetive. Eu precisava ter certeza do que eu queria para convencê-lo a ter certeza de me ajudar, afinal. Ou algo próximo, o que já servia.
Algumas chamadas depois, ouvi uma voz mais grave do que me lembrava ter ouvido. Respirei fundo, já estava na hora de virar o jogo.
— Detetive Augusto Bagdá?
— Eu mesmo, com quem falo? — imaginei-o com aquele chapeuzinho horroroso e perguntei-me sinceramente quando havia abandonado meu bom senso para fazer o que eu estava prestes a fazer.
— Felipe Derrá, senhor — disse ouvindo um resmungo de reconhecimento e prosseguindo antes que eu perdesse a coragem. — Preciso que o senhor me ensine a atirar.
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