Noite

26 A Tempestade


Notas iniciais
Olá, Nekos! Aqui estou eu de novo com mais um cap! Esta é a primeira parte, postarei a segunda em breve. Alguns avisos básicos... Se passarem o olho nos caps e acharem que tem menos caps do que se lembravam, não estranhem! Eu só juntei alguns caps que narravam o mesmo dia e estavam bem pequenos. O conteúdo é o mesmo. (por enquanto só fiz isso com o cap 1). O cap anterior teve algumas modificações. Nada realmente relevante, mas se quiserem, releiam pelo menos a parte do sonho... Logo no inicio. Coloquei um pouco mais de detalhes e informações. ;) E, por fim e não menos importante, desde o cap anterior estou com um novo beta: Eddy Knut. Muito obrigada pela grande ajuda e enorme boa vontade! =) Well... Boa leitura!

_8 de Fevereiro_

Acordei com o irritante barulho do despertador da minha mãe. O cheiro de chuva inundou as minhas narinas vagarosamente e tudo o que meu corpo desejava era não ter que sair daquela cama pelo próximo milênio.

Sentei-me rápido tentando expulsar o sono e me arrependi imediatamente. Uma vertigem me atingiu e me senti grato por estar sentado.

— Ok — disse comprimindo os olhos e respirando fundo. — Sem movimentos bruscos.

Arrastei-me até o despertador, posicionado estrategicamente do outro lado do quarto, e desliguei-o com um alívio que não tenho palavras para descrever. Verifiquei que eram um pouco mais de quatro horas da manhã e tentei relaxar, pois dia seria longo.

Fui tomar um banho daqueles bem demorados e muscularmente relaxantes, quando me lembrei de que o curativo ainda estava no meu pescoço. Tirei-o com cuidado e examinei o estrago mais surpreso que enojado. Havia uma linha avermelhada, de não mais de dois centímetros, que rasgava a minha carne. Pensei em como Wagner parecia esfomeado e em suas presas longas e afiadas.

— Isso é quase uma assinatura... — Soltei em voz alta, fitando meu reflexo pálido e despenteado, e recordando-me dos dois cortes paralelos e irregulares em cada pulso da Tabhita. Wagner estava escondendo a sujeira debaixo do tapete. Ele cortara os pulsos da Tabhita para esconder as marcas de suas presas e fizera o mesmo no meu pescoço. Talvez porque ele soubesse, tivesse certeza, de que eu e a Ângela iríamos parar no hospital e que mordido por um vampiro não é exatamente uma causa aceitável para um diagnóstico.

Pressionei levemente o ferimento, tentando analisar o dano da melhor forma que eu podia — já que eu não nasci com um olho no queixo. Observando atentamente, dava para perceber dois furos em meio a linha de sangue seco. Dois pontos próximos às extremidades do machucado, supostamente causado pelo acidente, que se destacavam pela maior profundidade da perfuração.

Trinquei os dentes, revoltado comigo mesmo. Como não havia percebido algo tão óbvio antes? Lembrei-me que nos últimos tempos a Tabhita andava sempre de pulseiras e blusas cumpridas. Ela estava escondendo, escondendo as marcas das mordidas... Tentei não imaginar tudo o que Wagner havia feito sem nem sombra de sucesso. Antes que eu percebesse, já estava calculando por quanto tempo ele ficara naquele joguinho doentio com ela.

Depois de certificar-me de que estava realmente acordado e acalmar meus nervos, desci as escadas cuidadosamente, evitando o menor ruído e partindo para a minha nada animadora missão matinal.

A casa do Wagner não mudara nenhum pouco desde a última vez que eu reparara nela. A aparência modesta e o portão vagamente enferrujado pescaram da minha memória algumas das poucas divertidas tardes que eu passara ali, com o Zeca, me entupindo de salgadinhos, compondo músicas sem noção e ouvindo-o contar histórias sobre alguns clientes estranhos da loja onde trabalhava — O que, apesar de não admitir, não achava surpreendente. O estabelecimento em si estava de pé mais por causa da estranha paixão do dono pela atmosfera anos 60 do que pelo lucro em si.

Rodeei a casa pensando em como Martina estava contribuindo fortemente para meu currículo de criminoso júnior — era o quê, a terceira invasão à propriedade da semana? Escalei, com mais dificuldade do que supus que teria, a árvore que ficava ao lado da janela do antigo quarto do Zeca. Tive que parar umas três vezes, apoiando-me em um dos galhos, para respirar e evitar um colapso eminente.

Quando finalmente entrei no bendito quarto — é, aquela janela não trancava porque fora eu a criatura brilhante que quebrara o trinco —, inspirei o ar frio mais algumas vezes e avaliei o cômodo. Não era o objetivo das minhas atividades stalkers, mas me senti profundamente tentado a desistir de todo o plano maquiavélico ao fitar a mobília e os objetos com uma arrumação meticulosa da qual eu não me lembrava... Um miado de gato quebrou o clima. Ele fez uns barulhos enquanto fazia festa nas telhas meio soltas em cima do quarto do Zeca e eu me lembrei dele comentando sobre como aquele gato costumava acordá-lo no meio da noite.

Fui pisando leve pela casa, ainda meio escura, e parei em frente ao quarto do Wagner pouco depois, com o coração e todos os órgãos prestes a serem vomitados de nervosismo. Eu estava ali por puro instinto. Quantas vezes mesmo a minha incapacidade de colocar as consequências na equação haviam ferrado tudo? Desisti de refletir à respeito quando me dei conta de quão grande era a lista e de como o Wagner dissera que eu me lembraria — seja lá do quê — e algo sobre eu ser a isca — sentença realmente animadora, todo mundo sabe que os piores destinos são reservados às iscas. Portando, seguindo uma linha perfeitamente lógica... Eu estava invadindo a casa do Wagner. O quarto do Wagner. Obviamente, uma coisa não levava a outra, mas já que o Wagner me queria vivo, mesmo que não fizesse ideia do porquê, lá estava eu com a cara e a coragem.

Afinal, mesmo se fosse pego... Eu não ia morrer — Provavelmente, quero dizer, talvez...?

Tentei me enganar, estimulando-me a animar-me com essa frágil perspectiva e girei a maçaneta. Nem posso descrever o alívio ao deparar-me com o quarto que, assim como eu havia especulado, estivera desocupado por todo esse tempo. Provavelmente Wagner tinha se afiliado ao clubinho sanguessuga e estava morando no meio da floresta.

Entrei no cômodo examinando tudo, em busca de alguma coisa que pudesse usar contra ele. É bem como dizem, ver o que o criminoso viu para entender como sua mente funciona. Brilhantemente, depois de lembrar-me de alguns episódios de CSI, lá estava eu tentando entender a demência do Wagner. Seu quarto estava tão desorganizado quanto se esperaria de um quarto de adolescente. Também não havia nenhum caixão, nem frases malignas em latim escritas com sangue na parede. Então, aparentemente ele era normal. Nenhuma descoberta.

Fui mexendo em tudo sem o menor pudor e permiti-me soltar uma deliciosa risadinha muda quando achei uma cueca sua com estampa de solzinhos. Oh, que fofo! Eu teria ficado de bom humor pelo resto do dia se não tivesse encontrado, não muito depois, algumas fotos da Tabhita impressas em preto e branco no verso de uma prova de matemática — uma prova de matemática minha, do ano passado — sugerindo que incursões pelo meu quarto não eram uma novidade para ele. Talvez tenha se irritado com a minha impressora sem tinta, por não ter chegado nem perto de imprimir a vivacidade das cores que cercavam a Tabhita, que a definiam.

— Leve um pen drive da próxima vez, otário — meus lábios deixaram a frase escapar e o som da minha voz, meio rouca, rompendo o silêncio daquele quarto, me incomodou.

Continuei a estudar os olhos sorridentes na foto e os cabelos bagunçados, tentando ignorar minha crescente irritação e esforçando-me para entender a obcessão do Wagner. Ele gostava dela. Ele tentara transformá-la em vampira, levá-la para o seu mundo e... Tudo dera errado.

Perguntei-me quanto tempo Wagner demorara a encontrar aquela foto em meio a infinidade de pastas do meu computador; se havia odiado as fotos nas quais eu e a Tabhita estávamos juntos... Se as ficara observando estático, com uma raiva muda transbordando-o, do mesmo jeito que costumava fazer quando nos esbarrávamos na rua. Larguei as especulações percebendo que talvez eu nunca descobrisse o que se passava por sua cabeça se ele mesmo não quisesse. Minha única certeza era de que Wagner não deveria ter entrado no meu quarto por algo tão inocente quanto procurar fotos, eu teria que conferir o histórico do meu navegador para ver se achava algo útil. E provavelmente o do laptop da Tabhita também, se a Célia não o tivesse levado embora...

Suspirei coçando a cabeça.

Se ele, a seu modo, se importasse com ela... Talvez, quando virou vampiro, tenha decidido declarar seus sentimentos amorosos e sua essência psicopata ao mundo. Antes que percebesse, eu já tinha amassado as fotos e enfiado-as no bolso do casaco.

Não sou tão compreensivo!, foi tudo o que pensei.

Alguns segundos se passaram e eu voltei a focar-me no quarto. Remexi em várias revistas e, para minha surpresa, achei também alguns livros que atendiam a gêneros aos quais jamais imaginei que Wagner seria afeiçoado, havia de Machado à Kafka.

— Seria mais fácil lidar com um psicopata burro — resmunguei folheando as páginas de O Castelo sem verdadeiramente enxergar as palavras e achando um pedaço de papel em meio às páginas amareladas. Primeiro achei que fosse um marcador improvisado, mas ao desamassá-lo e ler o que estava escrito, tive certeza de que havia muito mais por trás da catástrofe toda.

Em uma letra alongada e quase ilegível, lia-se:

Não menti ao dizer que não suporto tolos. Sugiro que encontre um modo bem silencioso de morrer e não mexer com o que é meu, porque, nem por um momento, pense que eu hesitaria em fazer de ti uma de minhas adoráveis cobaias.

S.

Reli o bilhete sinistro umas cinco vezes e, ao cabo de alguns minutos, eu estava convencido de que aquele S era de Stephanie. Um nome que eu tivera a infelicidade de ouvir mais de uma vez de bocas nada amigáveis e que eu tinha certeza, absoluta agora, que pertencia a algum tipo de psicopata mor dos vampiros.

Estava prestes a começar a tentar traçar algum perfil psicológico da chefona do mal quando meus dedos roçaram naqueles fios dentro de um livro cheio fotografias feitas por uma antropóloga em várias reservas indígena do nordeste brasileiro, na Bahia. Localizações como: Barra Velha, Serra do Padeiro, Aldeia Velha, dentre outros, legendavam as fotos acompanhadas de algumas observações e descrições mais específicas. Registrei esses detalhes sem muito interesse, minha atenção se concentrava na mecha de cabelos azuis que fora guardada no meio do livro. Não eram da Tabhita, soube imediatamente, pois o cabelo era liso demais, mas não deixei de me inquietar com a descoberta. Não fazia nem ideia do que pensar sobre aquilo, principalmente quando mais duas mechas vieram à tona, escondidas dentro de outros dois livros. Uma delas dentro de um triller policial que não reconheci e que parecia bem velho e tosco com aquelas páginas amassadas de papel reciclado e a outra, que fez meu lábio inferior doer com a força que o mordi, foi A Tempestade, de Shakespeare Eu nunca o lera, mas me acostumara a vê-lo nas mãos da Tabhita e conhecia muito bem aquela legra quase ininteligível e aquele jeito meio torto de escrever o A em Amaranto.

Depois de um minuto inteiro devorando a capa do livro com os olhos, voltei a examinar os outros dois livros com mais atenção. O triller não tinha nenhum nome identificando seu dono como no exemplar de A Tempestade, mas o livro de fotografia... Nele, em letras grandes e legíveis, lia-se: Meire Costa de Andrade. Minha cabeça rodou e meus olhos se arregalaram enquanto meu raciocínio tentava acompanhar os fatos. O livro era da Meire e havia uma mecha de cabelo azul dentro dele... Pior, eu não fazia a mínima ideia do que isso significava.

Faria certo sentido, dentro do mundo dos obcecados extremos, carregar uma mecha do cabelo do objeto de sua obsessão. E eu até poderia tentar entender o fato de o livro da Tabhita estar lá com a mecha de cabelo dela dentro — ainda com aquele cheiro fraco, mas reconhecível, de erva doce —, levando em conta que o cara tinha sérios problemas mentais. Mas e os outros dois livros? Com as outras duas mechas? Eu já havia visto uma foto da Meire, os cabelos dela estavam longe de serem azuis... Então, o que o livro dela fazia ali, com uma mecha azul dentro? Talvez eles se conhecessem, ela poderia ter emprestado o livro para ele, mas isso ainda não explicava as mechas de cabelo. Duas delas eram meio encaracoladas e poderiam até passar pelo cabelo da Tabhita, apesar de uma delas não ter o cheiro certo, mas a terceira era lisa demais. Arrepiava-me pensar nas possibilidades e não me lembrava de ter visto mais ninguém naquela cidade que desfilasse de cabelo azul.

Poderia, e queria, ter vasculhado mais algumas coisas, mas ouvi o som de panelas se chocando no andar de baixo e, portanto, minha pequena sessão de espionagem tinha acabado. Coloquei o bilhete novamente dentro do livro do Kafka e fiz o mesmo com as mechas azuis, guardando-as em seus respectivos livros. Admito que foi meio difícil deixar aquele volume de A Tempestade lá, senti como se estivesse aceitando o quão doentio Wagner era e sendo conivente. Em seguida detive-me, esquadrinhando o quarto, por alguns momentos tentando ter certeza de que aos olhos do Wagner, nada pareceria fuçado.

Desci as escadas, tentando ver a mãe do Wagner na sala ou na cozinha. Analisando as chances que eu teria de correr até a porta e ir embora sem ser notado. Com certeza era um fato que eu não me encontrava em condições de sair pelo mesmo lugar que entrei, já que estava suando frio e me sentindo meio tonto, talvez porque eu tenha perdido no mínimo meio litro de sangue ultimamente. Nada demais.

Depois de uns cinco minutos, praticamente imóvel no meio do lance de escadas, eu já estava achando que me jogar da janela seria a única opção a não ser que quisesse dar um outro motivo para ser convocado à delegacia pelo amável delegado Borges. Foi nessa altura que o telefone tocou me poupando o trabalho de começar a elaborar algum plano de fuga idiota e maluco. Vi a silhueta da Dona Margarete, caminhar, à passos rápidos, em direção à sala e aproveitei a oportunidade para descer os últimos degraus, que despontavam meio que entre a cozinha e a sala, e então engatinhar para que pudesse me esconder atrás do sofá da sala de estar.

Tentei não pensar na distância de uns dois metros que separava a Dona Margarete do meu esconderijo e concentrei-me em desejar que ela voltasse logo para a cozinha, pois assim seria fácil dar um jeito de me esgueirar até a porta e cair fora sem ser notado.

Só não esperava que ela fosse ficar meia hora no telefone! Minhas pernas já estavam meio dormentes quando ela resolveu encerrar a sua longa conversa com, provavelmente, a outra dona de casa do outro lado da linha.

Quando consegui sair de lá, fui imediatamente à padaria da Dona Daura. Ia desmaiar se não comesse alguma coisa, já estava começando a enxergar tudo azul. O relógio na parede marcava 6h e 45min. Estranhei o quão cedo ainda era e, enquanto devorava alguns pães de queijo recém-saídos do forno, perguntei-me quem raios liga para outra pessoa nesse horário. Desisti da questão assim que a abordei e, após um breve interrogatório da Dona Daura, sobre o meu bem estar e o acidente, rumei em direção ao hospital Municipal de Martina.

Não tinha esperanças de ver a Ângela. Pelo menos, não antes das sete da manhã. Ou talvez já fosse sete, não sei. Apenas fui seguindo pela rua até que as marcas no chão, em frente ao hospital, chamaram minha atenção. Era asfalto, uma das poucas ruas em Martina que não era de pedra. Fitei as nítidas marcas de um carro derrapando no asfalto e compreendi perfeitamente o porquê de todos insistirem em acidente de carro como a causa de eu ter sido hospitalizado. Havia até mesmo algumas gotas de óleo perto do poste no qual Wagner lançara a Ângela.

Distrai-me uns instantes revivendo a dolorosa experiência e então me lembrei da pulseira mágica da Ângela. Eu com certeza estava precisando de uma pulseira mágica. Sinceramente, nem tentei me perguntar a razão da pulseira ter derretido a cara do Wagner. Só queria arranjar algo parecido para que eu também pudesse derreter a cara dele. A lógica não importava mais, porque não havia lógica. Só violência e uma frieza que nem escapada de algum livro parecia. Talvez eu estivesse pensando assim porque era real, esse tipo de realidade não é exatamente excitante se não for acompanhada do termo "ficção".

Desci e subi a rua umas dez vezes antes de desistir da maldita pulseira pulverizadora de cretinos. Eu fuçara nos arbustos, no gramado, até mesmo no quintal das casas vizinhas — quando me certificava de que não havia ninguém olhando, é claro — e nada.

Entrei no hospital resmungando e fui até a recepção, perguntei pela Ângela e a mulher — a mesma que enganáramos na noite do fatídico acidente de carro — disse que eu era o primeiro a ir procurá-la depois de todo esse tempo. Vi a compaixão em seus olhos quando ela indicou uma enfermeira para me acompanhar até o quarto.

— Ela vai ficar bem? — perguntei depois de algum tempo de silêncio enquanto a enfermeira Margie, assim como li em seu crachá, me conduzia pelos corredores.

— Ela teve uma contusão grave na cabeça, a pancada causou um sangramento no cérebro. Felizmente conseguimos socorrê-la rapidamente devido a denúncia rápida de uma senhora. Se alegre, ela já saiu da UTI... É um bom passo! — A enfermeira disse abrindo a porta do quarto.

— Então ela vai ficar bem — concluí como se tirasse um peso das costas.

O quarto não era muito grande, mas era bem arejado e confortável. Havia uma única cama, no centro, onde vi Ângela, inconsciente, ligada a um monte de máquinas hospitalares e com a cabeça enfaixada.

— Tentamos contatar seus responsáveis, mas não houve resposta. Tivemos que operá-la, agora, creio que é questão de tempo até que ela acorde.

— Quando fizeram a cirurgia?

— No dia em que ela chegou.

— Não era para ela já ter acordado?

— Ela entrou em coma logo depois da cirurgia — falou a enfermeira após uma breve hesitação. — No entanto, as chances de recuperação são bem positivas!

Fitei a enfermeira por alguns segundos e, em seguida, voltei a estudar a expressão pacífica da Ângela. Aquilo parecia tão errado... Ela apenas estava lá, quase como se tivesse caído no sono... Sem uma única sobrancelha franzida ou a insinuação de um descontente curvar de lábios. Com certeza a situação inteira soava como uma grande piada que não merecia riso.

Aff.

— Tem certeza de que não conseguiram falar com os pais dela? — perguntei voltando a encontrar os olhos da enfermeira.

— Não, mas soube que tentaram bastante. Foi uma confusão aqui no hospital! Ela precisava de uma cirurgia urgentemente e nós não tínhamos todos os equipamentos necessários. Ela teria que ir para a clínica do Dr. José. Na hora, o Dr. Derrá se propôs a pagar os custos, mas acabamos descobrindo que ela tem plano de saúde. Acabou que ele cobriu muito pouco por fora. Mandaram ela de volta porque o Dr. queria ficar de olho.

— Hmmm. — Meu pai, como sempre, cheio de surpresas. — Achei que esse tipo de informação não fosse exatamente pública — soltei sem muitas pretensões, mas me arrependi imediatamente. A enfermeira pareceu ficar da cor de um pimentão em segundos e tentou articular uma justificava sem muito sucesso. — Obrigado por ser honesta — apressei-me a dizer.

— Bom, tem mais. — Margie recomeçou a falar, tomada por um novo ímpeto. — Essa garota não está em uma boa situação, ela está com tegmine ou TE2. Como preferir chamar. Não há cura, tudo o que podemos fazer é retardar os sintomas por um tempo até que a doença chegue aos estágios finais.

— O quê? Teg-o-quê?

— Tegmine. Olhe, sugiro que tente ao máximo entrar em contato com os pais dessa garota. Ela não tem muito tempo de vida, deveria ter vindo ao hospital antes para que pudéssemos ajudá-la mais cedo, ela visivelmente já estava sofrendo com os sintomas. Creio que esse acidente foi uma coisa boa, apesar dos danos que causou, permitiu que descobríssemos sobre sua condição.

Abri e fechei a boca sem saber o que dizer. A Ângela estava morrendo? Não, isso era loucura! Ela estava muito bem e me dera um soco há não muito tempo, ela simplesmente não podia... Estar morrendo.

Não vi quando a enfermeira saiu do quarto, tampouco reparei se disse mais alguma coisa antes de sair. Apenas fiquei ali, parado, sem ter coragem de me aproximar mais da cama da garota, digerindo a notícia.

— Todos parecem estar indo embora de novo, e de novo, e de novo... — murmurei deixando-me cair sobre um modesto sofá disposto em frente à cama e perpendicular à janela.

Fiquei uns bons minutos, ali, sentado. Fitando o sol que se tornava forte, ouvindo os bips irritantes das máquinas do quarto e perdendo-me em meus próprios pensamentos. A Ângela parecia estar sozinha, nunca me perguntara onde diabos estavam seus pais. Apenas tentara arranjar mais informações sobre vampiros todas as vezes em que falara com ela. Eu nem mesmo sabia se ela tinha amigos, do que gostava ou quantos anos tinha. Eu não sabia nada, a não ser que ela era a única pessoa que vinha assumindo riscos para me ajudar nos últimos dias.

Saí do hospital com um vazio no peito, levando a mochila que Ângela carregava antes de ser hospitalizada. Achei-a encostada próxima à sua cama, junto às suas roupas lavadas e dobradas cuidadosamente. Não sei bem porque a peguei, mas imaginei que algumas respostas poderiam aparecer se eu examinasse o que tinha dentro. Porém, não naquele momento, eu não me sentia psicologicamente preparado para invadir a privacidade de uma garota que estava morrendo e com quem eu me importava. Não ainda.

Fui vagando pela Rua Josué de Castro até, de algum jeito, parar em frente de casa. Minha mãe não me viu entrando, acho que ela pensou que eu acabara de descer do quarto quando me lançou um sorriso animado e colocou uma tapioca na minha frente.

— Agora me diga se eu não conheço seus pontos fracos, hein! — ela exclamou pegando a manteiga, o café e o leite quente.

— Ok, Dona Marina, você definitivamente conhece meus pontos fracos! — concordei estranhando como poderia ainda ter fome depois do supra café da manhã que tomara na padaria.

— Dormiu bem? Você parece abatido — minha mãe disse apoiando os cotovelos no balcão americano da cozinha e tirando uma mecha de cabelo dos olhos enquanto me observava atentamente.

— Eu estou bem — disse com a boca cheia, depois de entupir a tapioca de manteiga. — E a Rosa?

— Dona Rosa, Felipe — ela corrigiu. — Tive que dispensá-la. É triste, não? Não há turistas, pelo menos não aqui.

Abstive-me de fazer comentários, sabia muito bem que a morte do cara sueco na entrada da pousada era a causa principal.

— Viu os presentes?

— Hum? Q-Que presentes? — perguntei franzindo as sobrancelhas. Ontem eu apenas caíra na cama com a roupa do corpo, sem nem mesmo ascender a luz e hoje, bem... Eu estava focado demais no lance de invadir a casa de um vampiro para reparar em alguma outra coisa. — Ah, os presentes — fingi-me lembrar, frente a sua súbita expressão descontente. — Não os abri ainda. Não precisava, você sabe disso.

— O seu pai fez questão, Felipe. E a Célia também deixou um para você, ela percebeu como você ficou mal com os últimos acontecimentos e não queria que você se deixasse abater em uma data tão especial. Ela disse que você vai gostar, foi comprado pouco antes de a Tabhita vir para cá — ela disse cutucando-me animadamente.

— Hmm. E ela por acaso disse isso aí, Dona Marina? — inquiri estreitando os olhos.

— Não desse jeito, mas ela quis dizer basicamente isso.

— Hmm. Ok. Vou abrir os presentes mais tarde.

— E qual é a razão dessa cara? Sei que o acidente não foi algo bom, e você ainda me deve uma boa explicação, mas você não parece bem. Está sentindo alguma coisa?

— É a Ângela, mãe. A garota que estava comigo na hora do acidente. Ela está morrendo, sofre de uma doença sem cura — falei com amargura, dando de ombros.

Minha mãe me surpreendeu com um abraço e eu demorei uma boa meia hora para convencê-la de que estava bem e de que ela não precisava se preocupar. No fim, não posso reclamar, eu estava precisando daquele abraço.

Saí de casa novamente logo depois, disse a ela que voltaria antes do almoço e aguardei pacientemente no ponto de ônibus, mesmo que o lugar onde pretendesse ir não fosse muito longe.

Depois de longos dez minutos dentro de um ônibus abafado e com um cara fumando cigarro do meu lado, avistei a silhueta da espalhafatosa residência. Não tinha parado para imaginar como a casa seria, mas, certamente, paredes laranjas e a enorme estátua de um golfinho na frente, nem haviam chegado perto de passarem pela minha cabeça.

Chegando mais perto, passando pelo baixo portão enferrujado e pisando na grama mal cuidada, perguntei-me se eu estava no lugar certo. Considerei fortemente ir embora quando constatei que a porta era meio oval e que havia uma aldrava nela. Tipo, me senti topando com a casa do Bilbo Bolseiro*.

Depois de várias batidas e alguns berros, ouvi o som da porta sendo destrancada e deparei-me com um detetive Bagdá de roupão e olhos vermelhos de sono. Aparentemente, eu tenho essa tendência... De ser inconveniente.

— Detetive Bagdá?

— Eu mesmo. E você é Felipe Derrá, presumo — ele me encarou de cima a baixo sem muito entusiasmo.

— O senhor não está presumindo nada já que eu avisei que vinha.

— É. Avisou que vinha um menino, não um fantasma.

Sorri amarelo e dei de ombros, lembrava-me muito bem do meu reflexo no espelho hoje de manhã.

— Não vai me convidar para entrar? — perguntei já achando aquela situação desconfortável.

— Garoto, você se convidou — ele disse entrando e largando a porta aberta. Segui-o, fechando a porta atrás de mim, e deixando o queixo cair com a aparência surreal da sala de estar. O sofá era de um azul berrante, daqueles que fazem os olhos doerem se não forem vistos pelo canto do olho. Havia muitos troféus em uma enorme cristaleira — me lembraram de alguns dos que tenho em casa, de natação — que estava arranjada sobre uma TV LCD tão grande quanto a que tinha na casa da Ângela.

— Quem raios usa uma TV como suporte para uma cristaleira? — soltei antes que pudesse segurar minha língua.

Detetive Bagdá voltou sua atenção par mim e lançou-me um arrepiante sorrisinho bem entendido.

— Uma porcaria dessas só serve para isso.

— Hmm. Veículo de manipulação ideológica e indução ao consumismo — disse automaticamente conquistando um imediato olhar de aprovação do Bagdá. — Essa frase não é minha — apressei-me a dizer, ficando sério e tentando não reparar nos pedaços de cortina que eram preenchidos com revistas. — A Tabhita costumava falar coisas assim. Montes delas, na verdade.

— E por isso está aqui — ele concluiu enigmaticamente.

— Na verdade estou aqui por mim — dei de ombros. — Vai me ensinar ou não?

— Eu disse que isso era ridículo ontem à noite.

Sorri para ele.

— Você também disse que conhecia um bom lugar para treino, perto da floresta. E uma amiga, há não muito tempo, me falou de um detetive que havia sido afastado por... Como é... — franzi o cenho e fiz aspas com os dedos. — Julgamento inadequado e insubordinação. Se eu fosse chutar, detetive, eu diria que o senhor sabe mais do que admite.

Bagdá ficou em silêncio por alguns instantes estudando-me meticulosamente ao ponto de eu sentir-me incomodado até mesmo por respirar.

— O quão ruim é o problema, garoto?

— Muito.

— Vamos lá, sente-se — disse ele indicando o sofá berrante e sentando-se cuidadosamente em uma poltrona rasgada, mas que parecia muito confortável. — Conte tudo o que sabe e verei como posso ajudar.

Sentei-me e me senti tão animado por alguma coisa estar dando certo que poderia chorar — ok, provavelmente não — Respirei fundo e organizei os fatos brevemente na minha cabeça, querendo expor o que eu sabia da forma menos confusa possível.

Foi aí que... Travou.

Foi totalmente bizarro. Eu abri e fechei a boca diversas vezes, pensando no Wagner. Na sua confissão, na casa no meio da floresta, no ataque em frente à minha casa, no Toni devorando aquele jogador de futebol... E nada saía. Eu começava a falar e o som não saia, eu esquecia o que queria dizer, começava a gaguejar, sentia vontade de tossir e até mesmo uma dor de cabeça começou a me assolar depois de algumas estúpidas tentativas.

— É o suficiente. Pare.

Fitei Bagdá temendo sua reação, mas sua expressão era extremamente calma.

— Eu não consigo dizer — falei após respirar fundo algumas vezes. — Mas é verdade, quero dizer... Não posso dizer o que é verdade, mas é.

Lembrei-me das palavras do Wagner ontem e senti-me estúpido por sequer tentar contar a história toda. Esse lance de hipnose não era uma piada no fim das contas, a Ângela deve ter ficado realmente frustrada por ter tido que lidar com aqueles enigmas idiotas que eu inventava ao invés de apenas dizer tudo claramente.

— Está tudo bem. Acho que isso é um atestado de autenticidade no fim das contas — ele disse e eu me perguntei o quanto ele sabia. Eu especulava que ele soubesse de alguma coisa, fora apenas um chute inicialmente, mas pelo jeito que Bagdá me avaliou e deteve o olhar no meu pescoço, tive mais certeza do que nunca de que ele sabia de muita coisa. Talvez a sorte estivesse começando a sorrir, pensei enquanto estudava suas rugas e nariz meio curvo. — Depois arranjaremos um meio de conversarmos. O quanto antes começarmos suas lições, melhor.

— Ah, ok.

— Mas, é claro, não será aqui. Se você não conseguiu falar é porque já andaram mexendo com a sua cabeça. Para eles é normal, esse tipo de precaução sustenta a zona de conforto deles e faz de nós um bando de baratas tontas — a amargura era visível em sua voz.

Limitei-me a assentir.

— Mas muito me admira que você tenha vindo me procurar, garoto. Já tem um tempo que farejo coisa errada na sua família, mas não achei que viria atrás de mim com um pedido tão absurdo — ele riu.

— Absurdo em circunstâncias normais.

— Humph! Não importam as circunstâncias, ter que ensinar crianças a atirar ainda soa errado para mim...

— Sim, claro que soa. E o lugar aonde você vai me levar?

— Apressado, hein.

— Não sinto que calma vá me fazer viver muito.

— Não exatamente, mas perspicácia sim.

— É. — Dirigi-lhe um sorriso que deve ter sido mais parecido com uma careta. — Por isso estou aqui.

— Olhe, garoto...

— Felipe — corrigi.

— Felipe — ele repetiu sem parecer se importar com a minha intervenção. — É como lhe disse ontem ao telefone, não confio em você e, para todos os efeitos, essa conversa não aconteceu. Portanto, vamos levar as coisas do meu jeito. Você só vai saber o que eu quiser que saiba e, por mais que sinta curiosidade e a oportunidade lhe surja... Você irá se segurar e não tentará descobrir nada, entendeu? O vampiro que te mordeu pode facilmente arrancar informações de você, já estou assumindo um enorme risco só de trazê-lo aqui. Fui claro?

— Cristalino. Mas sabe, detetive... — saboreei as palavras. — Não deixa de passar pela minha cabeça que, talvez, eu estar aqui seja do seu interesse. Você poderia muito bem ter me ignorado ontem.

— Eu ignorei.

— Poderia ter me ignorado com mais vigor. Poderia ter realmente tentado me dissuadir da ideia de que talvez você soubesse de algo e de que talvez pudesse me ajudar. Mas você apenas jogou umas frágeis desculpas cheias de hesitação. Assim que a oportunidade se apresentou... Você me queria aqui, detetive Bagdá. Admita. Só me deixa curioso o porquê.

— Há poucos minutos você estava implorando pela minha ajuda, não estava? — indagou sem estar realmente irritado.

— Ainda estou, na verdade. Mas gosto de deixar claro o que penso — dei de ombros.

— Estou vendo. — Após deixar escaparem essas palavras, ele espreguiçou-se e, ignorando minha presença, andou até um telefone fixo que se encontrava do outro lado da sala. Discou um número rapidamente e trocou algumas palavras sussurradas com seu interlocutor. Não me esforcei para ouvir o que dizia, concentrei-me em respirar fundo algumas vezes. Estava tentando me acostumar com essas malditas tonturas que iam e vinham à duras penas e certamente não queria que o detetive Bagdá cancelasse a minha sessão de tiro matinal.

Depois de largar o telefone, Bagdá foi até a cozinha e me serviu um copo de água. Observou-me com um ar entediado enquanto eu bebia avidamente e enfiou-se em algum dos cômodos, que eu não conhecia, da pequena casa. Voltou trajando um terno semelhante ao que usava no primeiro dia que o vira e com, é claro, o chapéu de coco nas mãos.

— Há alguém vindo te buscar — anunciou enfiando-se na cozinha novamente e, em seguida, surgindo com montes de sacolas, a maioria de supermercados, de todos os tamanhos.

— O que está fazendo?

— Arranjando um jeito de você não descobrir aonde o alguém vai te levar.

— Eu poderia fechar os olhos — sugeri não gostando nenhum pouco das ideias que o detetive parecia estar tendo.

— E eu poderia estar visitando a Serra da Capivara.

— Já aviso que eu provavelmente morreria asfixiado com um saco desses — me apressei a dizer quando ele achou um saco preto e enorme e pareceu dar-se por satisfeito.

— Não faça drama, garoto.

Bufei.

E foi assim que, cerca de dez minutos depois eu fui conduzido até o banco de trás de um carro. Bagdá amarrara uma gravata com cheiro de mofo sobre meus olhos, furara o saco para que eu respirasse e enfiara minha cabeça dentro dele, ignorando todos os protestos e ameaçando me amarrar também se eu não ficasse imóvel.

Ok. Meu orgulho se foi.

Conforme o carro começou a se mover, senti o veículo pular como só faria um carro grande. Supus que fosse uma picape e, pelo número de vezes que quase tive minha cabeça fundida com o estofado da cadeira da frente, tinha certeza de que estávamos em uma estrada de terra. Quando começava a me perguntar o que as pessoas de fora achariam se vissem um cara com um saco na cabeça no banco de trás, o carro parou bruscamente e tive um belo encontro com o papelão que cobria o vidro da janela. Pude perceber pelo cheiro.

Quando a porta se abriu, o motorista misterioso continuou calado. Apenas me arrastou para fora sem muita gentileza e eu desejei que o Bagdá não tivesse me largado à própria sorte com o senhor brutamontes, porque do jeito que o cara me puxava, ele deveria ser alto e forte. Com certeza.

Cinco minutos depois ouvi uma voz rouca e baixa me mandar tirar o saco da cabeça. Arranquei aquele plástico sem muitas dificuldades, senti-me aliviado por finalmente respirar ar fresco e com o rosto empapado de suor. Estreitei os olhos tentando acostumar-me à claridade e absorver o fato de estar no meio do nada. Havia apenas uma daquelas cabanas de sapê no meio de uma minúscula clareira rochosa e rodeada pela floresta. E ainda havia o mais bizarro, o motorista caladão estava parado há uns cinco passos de distância, usando uma máscara daquelas de quem rouba banco.

— Só pode ser brincadeira... — resmunguei, esforçando-me para não rir e tendo certeza de que a ideia fora do Bagdá. Homenzinho complicado.

Meu novo professor de dois metros de altura não me disse seu nome então comecei a chamá-lo de João o que, graças aos Céus, não pareceu incomodá-lo. Aliás, mesmo não podendo ver suas expressões, nada parecia poder incomodá-lo. O cara era a personificação da tranquilidade.

Depois de me fazer aquecer um pouco — com alguns exercícios simples que já estava mais do que a acostumado a realizar por causa da natação — e perguntar-me se eu tinha algum problema físico que ele devesse saber, João finalmente desembainhou o revolver que estava em sua cintura desde que chegáramos. Ele apontou a localização de cada parte da ama, soltando palavras únicas como "cão", "gatilho", "cano"... E enfim, me ensinou a colocar as balas. Apontou para uma árvore há poucos metros de distância e mandou-me tentar atirar.

No início achei que talvez ele estivesse tirando uma com a minha cara. Ele só me falara o nome das partes da arma — às quais, a maioria, eu já esquecera — e já estava me mandando atirar. Sem conseguir tirar nenhuma resposta daquele rosto encapuzado, coloquei a perna direita um pouco mais à frente, desengatilhei a arma, segurei-a com as duas mãos e atirei.

Foi aí que eu tive certeza de que ele estava tirando uma com a minha cara.

Notas finais
Obrigada por chegarem até aqui, espero que tenham gostado. A segunda parte esta cheia de surpresas... hehehe... Me deixem um review, sim? Bjus =)