Noite

27 A Tempestade parte 2


Notas iniciais
Olá, desculpem-me pela demora... Passei por alguns problemas aqui! Boa leitura! p.s.: Eddy, obrigada pela leitura! =)

A arma pareceu ganhar vida própria por alguns instantes e bem mais que a única bala pretendida saiu do cano. O recuo me pegou desprevenido fazendo com que eu não pudesse processar o súbito impulso que a fez ter um doloroso encontro com a minha testa. Ok. Eu sempre soube do lance do recuo das armas, mas que aquilo foi estranho foi!

— Ei, você está bem? — perguntou João após ouvir os disparos que ainda retiniam na minha cabeça e ver-me cambaleando enquanto resmungava múltiplos xingamentos.

— Não por sua causa.

— Novatos acham que sabem de tudo — disse ele sem se abalar, aproximando-se de mim e endireitando meus ombros para que obtivesse a postura desejada. — O que você experimentou hoje é um clássico. Você tem que se posicionar dessa forma — ele disse empurrando minha perna esquerda um pouco para o lado com chutes leves —, use seu centro de gravidade a seu favor ou a arma levará a melhor todas as vezes. E, pelo amor de Deus, não aperte esse gatilho todo de uma vez! Essa é uma arma de dupla ação, aperte o gatilho devagar, mirando com calma que você conseguirá. Dessa forma, no modo real que em nada tem haver com esses filmes que inventam, você pode se aproveitar do recuo da arma para continuar atirando, entende?

— Mais ou menos — respirei fundo e segurei mais firmemente a arma, da mesma forma que o João a ajustara em minhas mãos. Concentrei-me em um pedaço de lasca de madeira que parecia estar se soltando daquela árvore esguia e atirei. Não posso dizer que acertei, mas também não consegui um segundo galo na testa, o que já acho uma vitória.

— É, garoto, assim. Atire assim, não precisa ser muito rápido, mas também não seja lerdo. O revolver é a arma mais elementar, com treino você conseguirá dar uns bons tiros com essa 38 — sua animação era quase paternal para com a arma.

O tempo passou rápido e eu até esqueci que estava no meio do mato com um brutamonte encapuzado. Fui ajustando minha postura conforme ele ia apontando os erros e tentei guardar tudo o que ele dizia sobre a arma, mas a maior parte era sobre calibres e coisas assim, portando eu apenas continuei atirando e decidi guardar as perguntas para a próxima.

Na volta, já eram onze horas, ele me entregou a gravata que fedia a mofo e eu a amarrei sobre os olhos tentando não me irritar com a situação. Deixei-o enfiar outro saco preto na minha cabeça, o backup do Bagdá caso a gravata falhasse, e fui conduzido até o carro novamente. Certamente estava escondido atrás da casinha, pois de onde eu estivera treinando tiro não se via nem estrada nem carro. Certifiquei-me de colocar o cinto de segurança dessa vez e, ao cabo de alguns minutos sendo chacoalhado no banco de trás, deixei-me arrastar para fora do carro. Quando finalmente me vi livre do saco e da gravata, já na sala do Bagdá, não havia nem mais sinal do João ou do seu carro.

— E então? — perguntou Bagdá de repende interrompendo meus pensamentos.

— Agora eu sei que o revolver é tipo um canhão, mas com um sistema miniaturizado e com esse negócio aqui de guardar balas, esqueci o nome dele, que evita a necessidade de amassar pólvora todas as vezes que for preciso atirar. — basicamente repeti uma das muitas coisas que João dissera sobre armas. Uma das poucas que consegui absorver enquanto deixava meus pensamentos vagarem e tentava não pensar na Ângela nem na Tabhita. Tarefa complicada.

— Colt foi mesmo muito inteligente.

— Deve ter sido, já ouvi falar muito dele — dei de ombros, encarando o relógio de parede que marcava onze e meia. — Putz. Minha mãe vai me matar — disse levantando-me. — Valeu, detetive. Tenho que ir, volto amanhã.

— Está bem, mas tome isso aqui. — Empurrou um pacote pardo, por sobre a mesa, em minha direção.

Abri-o rapidamente e vi um resolver quase igual ao que usara no treino com o João.

— Faça o favor de não atirar no próprio pé e, pelo amor dos Céus, não vá fazer besteira!

— C-Claro. Obrigado.

— Há um endereço aí dentro, apareça nele amanhã. É arriscado você vir aqui. Agora vá, vá que eu tenho muito que fazer ainda!

Agradeci mais uma vez, sem saber muito bem onde esconder a arma. Andei todo o caminho até em casa com os nervos a flor da pele, como se cada pessoa que olhasse para mim na rua, soubesse que eu estava escondendo um revolver debaixo da camisa. Andava tão rápido que logo tive que parar por causa da dor no meu tornozelo.

Chegando em casa, as coisas ocorreram de forma tão normal que chegou a ser estranho. Fiz uma acrobacia maluca para evitar que minha mãe percebesse o revolver quando me abraçou, logo após uma bronca pelo meu atraso. E foi assim que decidi esconder a arma dentro de uma caixa de sapato, debaixo da cama.

Tomei um banho rápido e vesti meu uniforme, parecia que anos haviam se passado desde a minha última ida à escola. Almocei feito um leão, o que pareceu alegrar minha mãe, e tentei sorrir quando meus tios chamavam meu nome durante a refeição. Aparentemente minha audiência e a da tia Lídia, que também seria hoje, haviam sido remarcadas.

— Sua mãe convenceu o delegado — minha tia sorriu enigmaticamente. — Ela pode ser assustadora quando quer.

— Ora! — Minha mãe cruzou os braços e fez um bico — Esse delegado não tem muito bom senso! Vocês dois acabaram de sair do hospital, precisam de um descanso.

— Sim, sim. — Eu disse quando ela olhou para mim e imediatamente enfiei uma boa garfada de carne na boca, para ter uma desculpa para continuar em silêncio.

— E o Pedro? Não vai mesmo ter um tempinho para passar com a gente? — perguntou meu tio.

— Ele tem estado tão sobrecarregado ultimamente. É plantão atrás de plantão! — minha mãe respondeu cutucando o quiabo em seu prato com o garfo, visivelmente amuada. — Ele me disse que vocês pretendem ir embora daqui a três dias. Têm certeza? Ficaram tão pouco tempo... E você acabou de sair do hospital, Lídia.

— Sim, certeza absoluta! — sorriu a tia Lídia enquanto limpava a boca do Luan que insistia em brincar com a comida. — Tenho que resolver algumas coisas no meu trabalho, tirar uma licença se for preciso. Vou logo falar com o Borges e me livrar disso, não sou de muita ajuda de qualquer forma. Acertaram-me por trás.

— Uns covardes! — Exaltou-se meu tio. — Tenho sorte de ter todos vocês — ele deteve o olhar em mim — bem.

— É — senti-me da obrigação de concordar, lembrando-me muito bem das respostas evasivas que dera às suas perguntas sobre o ocorrido enquanto Caíque chorava desesperadamente e murmurava coisas sobre “o homem mau” ou “o monstro”.

Depois disso segui até o ponto de ônibus. Como ainda estava sem mochila, peguei a da Ângela — que só para constar tem uma estampa jeans unissex —, enfiei meu caderno junto com os montes de bagulhos que ela havia deixado lá dentro e mofei enquanto esperava no ponto, enquanto planejava passar na casa da Ângela e tentar encontrar a Cris. Ela parecia se importar com a Ângela, não fazia sentido que ela não tivesse ido ao hospital.

Ok, nada em Martina faz sentido, mas...

Perdi parte do primeiro horário de química e viajei na outra parte. Para a minha alegria teve um teste surpresa de biologia. Não tenho orgulho de dizer que escrevi tanta porcaria que até entenderia se a professora resolvesse me dar uma nota com um menos na frente. No último horário o representante de turma, cujo nome havia esquecido, me fez milhares de perguntas sobre o acidente, listou uma série de conteúdos que perdi na minha ausência e me entregou um formulário de autorização para o acampamento tão aguardado por todos do Colégio Batista.

— Que acampamento? — inquiri, passando o olho pelo papel que ele me entregara.

— Cara, tenho certeza que você já devia estar sabendo sobre ele. Todo mundo fala disso desde o primeiro dia de aula.

— Lamento por não saber — meu tom monocórdio devia ter delatado meu desinteresse, mas ele continuou mesmo assim.

— Acontece todo ano depois do Festival da Batata.

— Ao longo dos três enormes anos de tradição do Colégio Silvana Batista, presumo — eu disse sarcasticamente, mas conservando uma expressão séria que o representante avaliou cuidadosamente.

— Você só tem que trazer a autorização assinada, uma cópia do seu RG e CPF e também uma cópia do CPF do seu responsável que já entra como beneficiário do seguro. Tente trazer tudo até amanhã. O prazo já passou, mas eu vou tentar dar um jeito de te encaixar.

— Hmm. Isso e o dinheiro, para que tudo isso? — franzi o cenho relendo as informações contidas na autorização que ele me entregara. — Trezentos e cinquenta reais para ir acampar no mato por três dias? Isso é loucura.

— Não fala isso alto não ou vão começar a implicar com você — ele sussurrou em reação a minha expressão incrédula.

— Queria que esse fosse o pior das minhas preocupações.

— Soube da garota que morava com você — ele disse de repente e fiquei particularmente surpreso com a sinceridade que as palavras pareciam carregar. — Deve estar sendo difícil.

Respirei fundo.

— Apenas considere ir à viagem, está bem? É uma boa oportunidade para esfriar a cabeça.

— Ok. Vou pensar, obrigado — disse e vi-o voltar a sua carteira assim que avistou o professor entrando na sala de aula. — Surpreendentemente um cara não tão chato — falei comigo mesmo arrancando uma risadinha do garoto que se sentava ao meu lado.

— Sem essa, cara. O Hugo é chato, quando parece que ele é legal pode crer que é uma ideia passageira.

— Não duvido.

No fim do dia, Felícia apareceu. Sério, estava demorando. Ela estava me esperando ao lado da porta quando o sinal tocou e sorriu para mim de um jeito meio nervoso.

— Oi. Como você está?

— Vivo — respondi colocando a mão sobre os olhos a fim de evitar o sol de fim de tarde que entrava pela janela e batia na minha cara. — Vamos indo?

— Sim! — ela sorriu ainda mais, parecendo animada e foi me acompanhando até o ponto de ônibus. — Fico feliz que esteja bem. Soube da Ângela, não a conheço muito bem, mas... Espero que ela melhore.

Acenei positivamente enquanto evitava um esbarrão de um dos caras do time de futebol.

— Sabe onde estão os pais dela?

— Sei o que todos sabem. Eles são muito ricos e vivem fora, desde o sumiço do Hector. Há um boato de que eles estão desaparecidos, rolando.

— Desaparecidos? — perguntei descrente. — Os pais e o irmão, desaparecidos?

— Eu não sei. Não leve muito a sério, é só um boato — ela disse enquanto ajeitava sua trança.

— Hmm. Espero que sim. — eu disse vendo o Hugo discutindo com um garoto no portão da escola. Por alguns instantes pensei em ir ajudar, o outro cara com certeza lhe daria uma surra. Ele parecia bem mais do que disposto a usar os punhos. No entanto, desisti assim que me dei conta de que, do monte de gente que se juntava incitando a uma briga, saiu um dos seguranças e o meu vizinho de carteira. O segurança arrastou o cara que queria espancar o Hugo e parecia mais vermelho que pimentão e o meu vizinho saiu correndo arrastando o Hugo de lá.

— Sim. — Felícia disse depois de observar, junto comigo, o bolo de gente que se espalhavam com resmungos de descontentamento. Recostou-se na placa que sinalizava a localização do ponto de ônibus e perguntou: — Vocês são amigos, você e a Ângela?

— Mais ou menos — respondi depois de tentar analisar nosso relacionamento por alguns segundos.

— Ela me pediu que lhe entregasse sua mochila há alguns dias. Com os acontecimentos — Felícia hesitou —, eu não quis atrapalhar. Posso ir à sua casa te entregar mais tarde.

— Ok. Obrigado. E, por favor, pare de me olhar desse jeito — tentei soar otimista. — Eu não estou morrendo, sabe... — eu disse antes de perceber o quão horrível soava a piada diante das minhas últimas descobertas.

— Huhum. — Felícia concordou com a cabeça e sorriu fracamente.

No caminho para casa ela permaneceu em silêncio, estudando a paisagem que passava rapidamente pela janela e ignorando alguns caras que insistiam em encará-la, como sempre acontecia.

Quando finalmente parei em frente a casa enorme da Ângela, senti que ela não parecia tão majestosa quanto das outras vezes que eu estivera lá. O pôr-do-sol tingia tudo de uma luz alaranjada que parecia dar o último arremate na atmosfera que respirava solidão.

Aproximei-me da residência rezando para que a Cris ou alguma pista dela estivessem em casa. Planejava tocar a campanhinha e parecer simpático quando ela atendesse a porta, mas como meus planos nunca dão certo... Lá estava a porta arreganhada. Estudei a parte da sala que era possível ser vista do vão da porta e entrei vagarosamente. Estava tudo virado pelo avesso, as fotos destruídas, o sofá rasgado... Não ouvindo nada além da minha respiração, abaixei-me para pegar a vassoura que estava caída em meio a confusão de objetos. Desejei com todas as forças ter trazido o bendito revolver enquanto andava o mais silenciosamente que podia pela mansão.

Cada cômodo que vi parecia estar em estado semelhante: totalmente revirado, os objetos quebrados... Era como se alguém estivesse procurando desesperadamente por alguma coisa e resolvesse sair quebrando tudo por não ter achado.

Depois de espreitar todos os cômodos do andar de baixo, subi cuidadosamente procurando algo que se destacasse em meio a situação totalmente suspeita. Os nós dos meus dedos já estavam doendo por causa da força desnecessária que eu empregava ao segurar o cabo de vassoura. Entrei no quarto da Ângela e lá estava a Cris.

Seus olhos entreabertos não carregavam a familiar desaprovação. Seus cabelos loiros estavam soltos e essa foi a primeira vez que eu os vi assim. A primeira e única vez. Meu ímpeto inicial foi o de correr para verificar seu pulso, talvez ainda estivesse viva... Mas então o cheiro me atingiu e, com a proximidade, eu pude ver com clareza o tom cinzento que coloria sua pele.

— Tarde demais — falei cobrindo o nariz com a blusa do uniforme, odiando minha voz que soou abafada e quebradiça e concentrando-me enormemente na função básica de respirar. Lutei para mandar aquele gosto ácido, que começava a subir até a minha garganta, embora. Fechei bem as mãos tentando conter o tremor que me invadia e tentei enfiá-las no bolso do casaco, esquecendo-me que não estava usando um. De repente eu estava sentindo muito frio.

No momento seguinte pensei em mil coisas. Em ligar para o detetive Bagdá, para a minha mãe, para a polícia... Mas eu simplesmente me deixei cair sobre a cama da Ângela e fiquei lá, contemplando a cara da morte. Foi aí que eu vi os antipsicóticos. Havia três frascos. Um deles estava aberto e espalhava montes de pílulas pelo chão. Peguei os outros dois, que ainda estavam fechados, e enfiei-os no bolso depois de encará-los por alguns segundos.

— O que mais você estava escondendo, Ângela... — eu resmunguei abrindo a mochila dela, que estava carregando até então, sem muita pressa.

Joguei tudo em cima da cama, fora o meu caderno — que eu não usei hoje —, nada me era familiar. Vários frascos com conteúdos de diferentes colorações se espalharam pela cama. Havia também a estaca que eu me lembrava de ter visto a Ângela segurando no dia em que fôramos hospitalizados. Tudo parecia ser tão complicado e eu não sabia como resolver.

Respirei fundo algumas vezes tentando ignorar o cadáver da Cris logo à frente e analisei os frascos. Peguei um deles e abri, tinha cheiro de álcool. Demorei mais um outro minuto tentando identificar o que a Ângela estava pretendendo com essas substâncias e com uma seringa suja de sangue quando um pigarrear familiar quebrou a minha concentração.

— Todos temos segredos — ouvi a voz que eu me recusava a admitir que fosse real, dizer —, Lipe.

Instantaneamente meus olhos encontraram-se com os da Tabhita que se recostava na porta do quarto. Seu sorriso era manso e seus olhos tinham uma vivacidade que quebrou todo o ritmo dos meus pensamentos.

— Isso é loucura — minha voz saiu estrangulada enquanto eu procurava falhas em cada traço do seu rosto, em cada fio azul da sua cabeça e engolia em seco com a autenticidade que cada ínfimo detalhe parecia ter.

— Senti saudades... — ela disse aproximando-se da cama, onde eu estava imóvel, e pegando uma agenda com capa de couro do chão. Seus dedos quase roçaram o sangue seco que se espalhava pelo piso de madeira, mas ela não pareceu se importar. — Você está esquecendo isso. Caiu da mochila — ela disse de maneira simples, estendendo-me a agenda.

Segurei sua mão e ouvi a agenda cair, sem desviar meus olhos dos seus. Havia calor naquele toque e eu senti minha garganta dolorosamente seca sem entender o que estava acontecendo. Minha respiração acelerando-se e meus olhos, provavelmente, levemente arregalados. Foi então que, diante de todas as possibilidades, não sei como... Senti minha consciência esvair-se e tombei para o lado completamente zonzo, já não enxergando mais nada.

Lembro-me muito pouco depois disso. Tenho certeza de que um toque forte e gentil me amparou e ainda mais certeza do perfume suave e nostálgico que chegou às minhas narinas, fazendo-me sentir uma estranha paz.

Era erva doce.

Notas finais
Espero que tenham gostado! O próximo capítulo está caprichado! ;) Bjus^^