Noite
32 O Assassino parte 3
Notas iniciais
Fui sentado no banco de trás tentando me lembrar, pelo menos, como tinha sido a mentira que havia contado sobre a morte do turista tcheco. Fingia estar calmo, mas minhas mãos suavam de nervosismo e ora ou outra, eu pegava o delegado Borges me encarando pelo retrovisor. Seus olhos um tanto esbugalhados pareciam confiantes assim que nossos olhares se encontravam, e ele voltava sua atenção à estrada novamente, como se estivesse com um belo segredo na ponta da língua.
Estava com um pouco de frio por causa das roupas úmidas, mas Borges não pareceu se importar com isso (porque, com certeza, ele reparou). Me guiou até seu escritório e indicou a mesma cadeira da última vez. Me sentei ereto e aguardei, o silêncio começava a se tornar doloroso enquanto ele fingia ler um papel em sua mesa.
Ele só está querendo me deixar nervoso, eu dizia para mim mesmo enquanto fingia ter alguma curiosidade para com as medalhas dispostas em uma prateleira acima de sua cabeça, ele só quer me deixar tão desesperado que não seja capaz de pensar. R.E.S.P.I.R.E!
Quando o ouvi limpar a garganta para atrair minha atenção, segurei meu olhar ainda uns dois segundos em um certificado antes de encará-lo.
— Já faz um tempo, rapaz. Soube que Victor Amaranto está em Belo Horizonte — seus lábios se curvaram em um sorriso cheio de satisfação.
Nunca quis tanto que o Victor estivesse por perto.
Aff.
— Sim, ele enterrou a filha recentemente — retruquei com certo desdém.
— Bem, rapaz... — ele apoiou os cotovelos na mesa e começou a dizer em um tom incisivo: — Mais uma vez você estava em um lugarzinho interessante em uma hora bem oportuna, hein. E então, o que me dirá?
Sustentei seu olhar e mantive-me impassível tanto quanto podia.
— Apenas aconteceu — disse por fim e acrescentei: — O horário marcado seria daqui a mais meia hora, não podemos esperar até que a minha mãe chegue?
— Sim, poderíamos... Mas você não tem nada a temer, não é, rapaz? Lugar errado, hora errada. Agora me diga, o que aconteceu?
E eis que ele fez a pergunta que eu estava tentando evitar desde que havia sentado naquela maldita cadeira que parecia deixar minha bunda dormente. Que porcaria tinha acontecido? Não fazia nem ideia do que ele sabia sobre o assunto ou como ele e o Bagdá haviam aparecido magicamente por lá, o jeito era jogar com uma mentira fajuta mesmo. Uma que não soasse impossível, que não me mandasse para o manicômio.
— Vi alguns garotos brigando...
— Seja mais exato.
Estreitei os olhos com raiva e continuei:
— Não os conhecia. Eram quatro e estavam com raiva uns dos outros, pareciam estar prestes a iniciarem uma briga. — Fui narrando enquanto pensava em como Geraldo e Hugo foram arrastados e tentando tornar a situação o mais próximo da realidade possível. — Vi eles entrando na piscina coberta, nem imaginei o que iriam fazer lá. Vi a professora Cristina indo atrás deles e achei que ela fosse acabar com o que quer que estivesse acontecendo. — Tentei não pensar muito no corpo que havia tirado da piscina ou em seu comportamento estranho antes que entrasse naquela cobertura. Lembrava-me de não ter visto nenhum machucado aparente... Será que ela havia sofrido? — Então fui atrás...
— Você foi atrás? — Borges pareceu achar graça. — Por quê?
— Porque eu estava curioso. — Dei de ombros.
— Ah, sim, claro. Como não pensei nisso? E como a professora Cristina morreu?
— Eu não sei, eu não vi. — Bom, isso era totalmente verdade. — Quando entrei, os caras que estavam lá já tinham ido embora e ela... Ela estava boiando na piscina, eu apenas a tirei de lá. De imediato não pensei que estivesse morta...
— Isso parece muito conveniente. Você a viu entrando, viu os supostos assassinos... E depois achou o corpo. Por que devo acreditar nisso? Os alunos haviam sido claramente dispensados. Um caminhão descarrilou deixando o local perigoso. Por que você estava lá? E porque devo crer que havia mais outros quatro garotos?
Esse velho está blefando pra ver no que dá, pensei enquanto tentava adivinhar rapidamente o que ele esperava que eu dissesse; o quanto ele sabia sobre a situação. O deboche em suas palavras me deixava nervoso e, sem saída, sabia que minha mentira não era boa... Mas também não era péssima, era? Eu certamente não poderia dizer que dormi no telhado...
— Eu estava esperando a Cristina, ela queria falar comigo... — Tentei soar confiante. — Estava indo atrás dela quando a vi entrando na piscina coberta. Fui dar mais uma volta, esperando ela voltar... Mas como ela não vinha, eu fui até lá...
— Por que estava curioso?
— É. E então a... a achei e, bem... É. É isso.
— Tudo isso parece muito oportuno. Você está dizendo que a sua professora morta era o motivo de ainda estar na escola, hmm... Certamente, ela não pode desmenti-lo, não é? — O escárnio estalou em sua língua e eu não pude de deixar de pensar em Wagner, conforme ele levava a conversa de modo a fazer eu me sentir desprezível.
Respirei fundo.
— E então...? — Borges incitou-me.
— E então o quê? Acho que já falei tudo. — Tentei achar uma posição mais confortável naquela cadeira. Por que minha mãe não aparecia? Será que eu pareceria muito culpado se caísse fora alegando que aquilo era abuso de autoridade?
— O que ela queria com você?
— Ah... — hesitei por alguns instantes, tentando pensar em uma razão que não fosse descabida. — Eu não estava com um rendimento muito bom em física...
— Mesmo? Suas notas em física me parecem muito boas — interrompeu Borges, ansioso por quebrar minha linha de raciocínio. Após mexer por um breve momento na pilha de papel que repousava a sua frente, retirou um envelope pardo com o emblema da minha antiga escola em BH e o balançou diante dos meus olhos.
Putz, o cara tinha até meu histórico escolar, é?
— Eu estava lendo na última aula dela. Não estava prestando atenção e fiz piada quando ela chamou a minha atenção.
— E ela queria falar sobre isso com você hoje, por quê? O mais óbvio seria que ela tivesse feito isso no dia em que o advertiu.
— Ela tinha me dado uma nota para que eu fosse até a diretoria, provavelmente pegar uma advertência ou algo do tipo... Mas eu não fui. Na verdade, eu só matei o resto da aula dela e fingi que nada tinha acontecido — confessei.
Borges pareceu se divertir com a minha resposta. Me avaliou por alguns segundos antes de soltar meu histórico no topo da pilha novamente e voltar a levantar algum questionamento.
— Então você não gostava dela.
— Não — respondi, convicto. Acho que nem o Hugo gostava dela.
— Então você poderia ter atraído sua professora até a piscina e então tê-la afogado, quem sabe. É um nadador experiente — ele bateu com seus dedos duas vezes sobre a pilha de papeis enquanto eu deixava meu queixo cair, processando a acusação. — Não seria difícil, seria?
— Não! — eu disse bruscamente. — Quero dizer, por que eu faria isso? Lógico que não a matei!
— Você não gostava dela.
— Não é tão simples, eu não saio matando as pessoas de quem não gosto — exaltei-me, controlando-me apenas o suficiente para que não começasse a gritar com aquele delegado insistente.
— Mas isso te dá motivo e oportunidade, sabe... — ele acariciou a pilha de papeis e sem me olhar acrescentou: — E há muito mais aqui do que seu histórico escolar. Gosto do meu trabalho bem feito, foi só eu cavar um pouquinho para achar...
— Isso não tem nada haver — intervi, sabendo perfeitamente bem ao que ele se referia e começando a achá-lo mais do que cretino por estar mesmo pretendendo usar isso como argumento. — É isso o que tenho a dizer, pare de tentar me fazer admitir ter feito o que eu não fiz!
— Então, talvez... Se não foi você, foi o seu cúmplice?
— Não, claro que não! — Jumento!
— Então temos um problema aqui... Aparentemente os assassinos têm o hábito de chamá-lo para que encontre os cadáveres — ele riu de sua própria piada e pegou uma pasta que estava à sua esquerda, abrindo-a sem pressa e alinhando meia dúzia de fotos à minha frente — Olhe.
Foquei os olhos nas fotografias ainda com os dentes trincados de irritação.
— O que... — soltei após alguns segundos, meus olhos se prendendo na foto da última garota. — O que significa isso?
— Familiares? — Exibiu seus caninos em um sorriso esperto que me fez pensar que ele até poderia ser um vampiro se não futucasse as circunstâncias com tanto empenho. — Ana Clara Silva Gonçalves. 16 anos. Segundo ano do Colégio Eliza Martina. Gostava de livros e sempre era voluntária na biblioteca pública da cidade. Extrovertida e generosa — ele disse com o indicador apontado para a primeira foto.
Meus olhos estavam fixos na garota indicada e, assim como tenho certeza de que o delegado Borges acompanhava cada movimento meu como uma ave de rapina, não faço nem ideia de qual era minha expressão. A fotografia do rosto do cadáver da garota morta e de cabeça raspada despertou em mim certa curiosidade mórbida seguida de uma desesperada compreensão dos fatos.
Eu não acredito! Não! Não! Não!
— Não a conheço — soei mais firme do que me sentia e nunca fiquei tão grato por isso.
— Vamos refrescar a memória... Vamos, vamos... — ele moveu o indicador, apontando-o para a segunda fotografia. — Sandra Pereira Mustafá. 17 anos. Terceiro ano do Colégio Eliza Martina. Gostava de livros e, segundo amigos, andava sempre com um à mão. Muito paciente e animada, ajudava na arrecadação de alimentos para a doação junto com os amigos de sua Igreja.
Observei a segunda garota. Seu rosto bonito, seus lábios cheios e por fim: a mesma cabeça raspada. Tentei parecer calmo e completamente alheio à situação, mas um turbilhão de pensamentos me invadia e eu não sabia se me sairia muito bem tentando defender a minha absoluta ignorância sobre a situação.
— Não...
— Mercedes Bertoledo Braga — interrompeu-me já apontando para a terceira garota. — 17 anos. Segundo ano do Colégio Eliza Martina. Gostava muito de música clássica sonhava em sem uma violinista. Um tanto acanhada, mas extremamente gentil com todos. Gostava de criar poemas e os escrevia frequentemente em um caderno que mantinha sempre consigo. — O delegado quase nem respirou após acabar a descrição da terceira garota de cabeça raspada e pular para a próxima: — Rafaela Costa Coltinho. 18 anos. Ensino médio concluído. Trabalhava na creche da cidade e ajudava frequentemente com os roteiros das peças de suas amigas do Colégio Silvana Batista, de onde é ex-aluna. Extremamente falante e aficionada por literatura clássica.
Cruzei meus olhos com os de Borges e pude sentir a dureza que eles carregavam. Ele se importava profundamente com cada uma dessas garotas, percebi. Talvez não fosse o mais perspicaz ou o mais controlado dos delegados, mas passei a respeitá-lo por isso ainda que parecesse insignificante em meio a conjuntura.
Respirei fundo, voltando a estudar a quarta garota. As maçãs altas de seu rosto e as sobrancelhas bem feitas. Era bem mais magra que a terceira e a aparência pálida somada à cabeça raspada me fez refletir se ela soaria assim tão triste... viva. Comecei a imaginar a cor de seus olhos e quais teriam sido seus últimos pensamentos... Medo, provavelmente.
— Meire Costa de Andrade. 16 anos. Segundo ano do Colégio Silvana Batista. Gostava de cinema, fotografia e poesia. Muito animada e extrovertida, era um verdadeiro gênio em ciências humanas e tinha muitos amigos.
Fitei a foto da garota que tinha postado a gravação no Youtube com o nick ‘Frogy”, mesma gravação que tinha me levado a conhecer a Ângela e a começar a suspeitar... bem, de tudo. Eu não a havia reconhecido de primeira, com a cabeça raspada e sem a maquiagem que aparecia usando nas fotos de “procura-se pessoa desaparecida”. Lembrei-me do livro na casa do Wagner que continha o seu nome... Um souvenir. Era isso que os livros eram, souvenires das garotas que ele matava.
Quantos livros mais haveria naquele quarto, representando garotas com as quais ele havia brincado?
Senti uma angústia me invadir o peito e tentei sobrepor a lembrança da Tabhita chorando, enquanto me abraçava no corredor, pelo sorriso fácil do dia anterior. Não, eu não podia me deixar encher de raiva com o Borges me observando. A Tabhita não havia tido o mesmo fim, não sabia o que o Wagner tinha em mente, mas ela estava bem, em algum lugar... Ao meu alcance novamente. Eu apenas teria que esperar que ela se sentisse pronta para destravar o que quer que tenha acontecido e então, enfim, me contasse tudo. Não sabia quando nos veríamos novamente ou como ela estava, só podia torcer e tentar não me consumir pela culpa por não ter percebido nada. Por não ter reparado no que a porcaria do Wagner andava fazendo.
— E por fim — Borges interrompeu meus devaneios —, a Srta. Tabhita Silva Amaranto. 18 anos. Terceiro ano do Colégio Eliza Martina. Gostava de música, poesia e livros. Era animada, cativava facilmente e era muito gentil.
Borges não apontou para a última foto e eu encarei, desanimado, a foto do rosto do cadáver da Tabhita. Seus cabelos estavam lá, azuis e opacos. Ver novamente sua pele muito pálida e sua expressão sem vida me deu arrepios, então eu apenas recostei na cadeira sem me importar mais no que quer que Borges estivesse reparando. Nada estava funcionando mesmo.
Observei sua estrutura corpulenta e aguardei.
— Conhece essas garotas?
— A última.
— Sabe o que é muito curioso... — não demonstrei interesse, mas ele continuou como se o tivesse feito: — Todas elas tiveram as cabeças raspadas.
— Percebi.
— Sabe o que o assassino fez? — ele me fitou como se compartilhássemos um segredo. — Por alguma razão que desconhecia até recentemente, pintou o cabelo delas de azul.
Como permaneci em silêncio, ele prosseguiu:
— Eu me perguntava o porquê... Por que pintar o cabelo delas? O que elas tinham em comum? Idade? Aparência? Gostos? Todas tinham certa propensão à arte. Todas eram garotas bonitas. Todas tinham uma personalidade sociável e eram cativantes a seu próprio modo.
Engoli em seco.
Todas tinham algo em comum com a Tabhita...
— Não percebi até recentemente, até o momento em que encontraram o corpo da Amaranto. Nesse ponto, eu já estava mais do que investigando os envolvidos nas mortes que aconteceram na sua casa e então... os fatos apenas se cruzaram naturalmente e se tornaram óbvios. Sabe onde eu quero chegar?
Lógico! Você acha que eu sou o culpado.
— Não — respondi sem esconder a amargura.
— Sabe que dia a primeira mocinha, Ana Clara, desapareceu?
A pergunta pareceu retórica, já que era mais que evidente que ele a responderia de qualquer modo, mas balancei a cabeça negativamente mesmo assim.
— Dia 17 de outubro. Logo depois do seu turno, à tarde, na biblioteca pública.
— E o que tem isso? — perguntei sem saber aonde ele queria chegar.
Ele não poderia me acusar, eu não estava em Martina nessa data. Havia chegado só no dia 25 do mesmo mês. Mas, se ele não queria me acusar, o que ele queria de mim? Eu entenderia se ele tentasse arrancar de mim algo sobre os dois cadáveres na pousada ou sobre a Cristina, mas o que eu tinha haver com as garotas fora o meu vínculo com a Tabhita? Cogitei as possibilidades de que ele desconfiasse do Wagner, soava improvável e mais improvável ainda que ele, de alguma forma, tivesse me lincado a tal indivíduo ao ponto de achar que eu tivesse alguma informação sobre o assunto.
Torci para que o delegado não estivesse nessa linha de raciocínio, porque eu não iria delatar o Wagner. De que adiantaria? O que impediria o Wagner de ir atrás de mim e, depois, do delegado? Isso, na melhor das hipóteses, se ele não decidisse se vingar e ir atrás da minha família ou algo assim... Era verdade que eu havia concluído que pareciam ter certas regras que tornavam a convivência de vampiros, lobisomens, cobras gigantes e o que mais fosse ocultos dos “humanos”, mas eu estava longe de saber até que ponto eu poderia usar esses limites. Com certeza não era o Wagner que tinha algo a perder.
— Nesse mesmo dia, às 8h da manhã, chegou um ônibus da empresa São Francisco à rodoviária de Martina. O ônibus vinha de “Pouso Alegre” onde foi escala de um dos ônibus da viação ‘hahha’, vindo de Belo Horizonte.
— Vá direto ao ponto — solicitei, impaciente e, lembrando-me que ele era uma autoridade, acrescentei sem a cortesia que pretendi: —, por favor.
— Você, sua mãe e a Amaranto estavam em ambos os ônibus.
— O quê? — soltei uma risada sem humor. — Você está louco? É claro que não estávamos! Chegamos no fim do mês e a Tabhita... A Tabhita veio só há alguns dias atrás!
Pela primeira vez, o delegado Borges pareceu considerar algo que eu dizia. Ele enrugou a testa, suas sobrancelhas grossas se unindo, e tirou um papel do topo da pilha. Examinou-o cuidadosamente. Pelo movimento de seus olhos, vi que ele leu duas vezes antes de estendê-lo a mim.
— Você parece ter uma memória ruim.
Peguei o par de papeis e li, atônito, a lista de passageiros da linha do ônibus de Martina e do de Belo Horizonte. Em ambas as listas estávamos eu, minha mãe e a Tabhita assim como ele havia dito... Mas não fazia sentido!
— Isso está errado, nós chegamos aqui no fim do mês — eu repeti por fim, começando a escutar um ruído baixo que parecia vir de fora.
— A lista das duas linhas rodoviárias está errada? — ele disse pegando os papeis que eu estendi e achando graça. — Sabe o que é mais curioso? Há uma loja de eletrônicos ao lado da biblioteca pública de Martina. Há câmeras lá, filmando cada transeunte que passa em frente àquela loja. E depois de exaustivas horas assistindo e reassistindo essas filmagens... Quem eu vi passando por aquela calçada em direção à biblioteca exatamente no dia 17 de outubro? Sim, você... Você que supostamente nem estava aqui. Como explica isso?
— Você está blefando — acusei, já começando a me incomodar com o ruído estranho que parecia vir da minúscula janela entreaberta que ficava atrás da mesa do delegado. — Que barulho é esse?
— Exatamente às 16h, esse foi o horário em que a câmera captou você — Borges prosseguiu, ignorando minha pergunta. — Ana Clara saia todos os dias às 17h. E então? Ainda continuará negando? São muitas cenas de crimes, rapaz... O par de mortos na sua casa, a professora Cristina, a Bibliote...
— Não, não! Eu não fiz nada. Eu nem sequer fui a essa biblioteca! Se segure em suas especulações, delegado, por favor — soltei em um misto de raiva e deboche. — Eu nunca estive nessa biblioteca e não tinha nem tenho motivos para matar ninguém! Eu não sou nenhum assassino e suas teorias são para lá de falhas! Por que eu iria a uma biblioteca? Por que mataria uma estranha? Sabe qual foi a última vez que estive em Martina antes de vir morar aqui? Seis anos, seis anos atrás! Como você acha que eu simplesmente chegaria e já teria tudo pronto para cometer um assassinato? Putz, eu nem estava aqui nessa droga de cidade ainda...
— Então você admite que foram necessárias certas preparações? — Borges, ao contrário do que eu tinha presenciado outras vezes, era a imagem do autocontrole. Me senti ridículo surtando ali com ele e caindo em seu jogo.
— O assassino raspou o cabelo das garotas, algumas preparações teriam que ser necessárias... — falei percebendo meu deslize na hora.
Alguém me mate!
— Não me recordo de ter dito que o assassino raspou a cabeça delas — ele brincou com uma caneta entre os dedos. — Talvez você não saiba, rapaz, mas, por vezes, os cadáveres têm a cabeça raspada em necropsias.
Ah, sim, eu sabia... Que merda, claro que eu sabia!
— Mas é lógico que ele fez isso... — tentei arrumar a situação já cansado e com dor de cabeça. As fotos das garotas haviam sido tiradas dos ombros para cima. Era evidente que as garotas estavam nuas e sobre uma superfície de inox ou algo do tipo. Entendia bem o porquê de Borges achar que eu tinha sido pego no ato. Tecnicamente, eu tinha, já que não poderia dizer que eu já havia deduzido alguns dos hábitos do assassino para com suas vítimas ao ligar o que achei no quarto do Wagner com as fotos que Borges havia me mostrado.
— Vamos, admita! Tudo aponta para você, garoto! Você é menor de idade e tem esse problema... — ele sorriu. — Não se preocupe, é óbvio o seu desequilíbrio mental. Olhe para essas jovens! — ele bateu com o dedo indicador em uma das fotografias. — Me certificarei de que a instituição socioeducativa onde vá ser internado...
— Delegado — chamei-o, sentindo certo prazer por vê-lo calar a boca e observando-o por uns instantes antes de dizer: —, o senhor está blefando demais hoje.
Recostei novamente na cadeira e esperei, impassível, que ele continuasse.
Ele soltou um suspiro irritado.
— Não foi você, você continua firme. Como sabia que o assassino foi o responsável por raspar o cabelo das garotas, então? Eu, pessoalmente, tive certeza de que a ligação entre as mortes permanecesse em segredo.
— Evitando o pânico, é?
— Homem. Jovem. Carência afetiva. Introspecção social — listou ele apertando com força a mesma caneta com a qual brincava instantes antes. — O perfil do nosso assassino. Eles costumam gostar de atenção, sabe? Tentei frustrá-lo um pouco, vê-lo cometer erros... — ele largou a caneta e alisou o queixo, me estudando. — Esperava que ele tivesse algum tipo de aparência repugnante pelo modo como agiu. Parecia idolatrar as garotas: foram todas encontradas trajando vestidos caros e com estampa de flores. As garotas estavam maquiadas e não havia indício de violência sexual. Todas elas foram mortas depois de dois dias em cativeiro. Os corpos foram achados em locais isolados, após recebermos ligações anônimas ou correspondências falando sobre sua localização. O assassino se arrepende.
— Basicamente um cara carente que sequestra e mata garotas.
— Todas as garotas eram atenciosas, bonitas... O que as ligava? Então o que entra na linha? Tabhita Amaranto desaparece! — ele ergueu as mãos como se estivesse sendo observado por alguma plateia e ele estivesse no clímax da apresentação. — Cabelos azuis. Extrovertida. Gostos que em muito se assemelhavam ao das outras garotas mortas. O que pensar sobre isso? O maníaco atacou de novo... Foi assim, pelo menos, até que o corpo dela fosse achado. Melhor, até que eu reparasse em você naquela fita da loja de eletrônicos.
Ele esperou que eu fizesse algum comentário, mas como eu continuava quieto, com os olhos grudados nos seus, ele prosseguiu:
— Suicídio. Não combinava com a morte das outras vítimas... Havia uma carta, uma testemunha que a viu indo até uma loja de doces um dia após o seu desaparecimento — franzi o cenho com a nova informação, mas permaneci calado — e uma carta. Caligrafia autêntica. Cortes feito sem muita precisão com momentos de hesitação... Deve doer. — Borges encenou a ação descrita fingindo que a caneta era uma faca e alternando caretas de dor com breves hesitações, como se estivesse prestes a deixar a caneta cair na mesa.
— Você é ridículo. Havia uma pancada na cabeça! Vai dizer que ela meteu a própria cabeça em uma árvore como método alternativo de suicídio?
Borges soltou uma risadinha esganiçada.
— Ela caiu. Cortou os pulsos, deixou a carta e caiu... Segundo as testemunhas que acharam o corpo, a carta estava a uns cinco passos do corpo. Sua cabeça estava sobre uma pedra, ela se desequilibrou e perdeu a consciência com os pulsos cortados.
— E o sumiço? Como explica isso?
— É ótimo que esteja acompanhando! Onde ela esteve? Onde se escondeu antes de desaparecer? A conclusão é clara: ela passou esses dias no esconderijo do assassino. Ela descobriu que você era o responsável pela morte das outras garotas e, pior que tudo isso, era oriundo de uma obsessão por ela. Por que mais o assassino pintaria o cabelo das outras vítimas de azul? Ele tentava fazê-las se assemelharem a ela! Ela era o objetivo! Mas essas garotas — ele passou a mãos sobre as fotos com certo desgosto — jamais seriam ela, quer ele pintasse seus cabelos de azul ou não! Em certo momento ele se fartava e em um acesso às matava asfixiadas — ele tomou fôlego, parecendo cansado. — Eu sei que foi você, rapaz. Ela não teria desaparecido e aparecido em público logo depois se não estivesse com alguém conhecido. Isso significa que ela quis ir, que ela foi com alguém que conhecia. Já não é o suficiente que tantas meninas tenham morrido? Que a própria Tabhita tenha cometido suicídio? Você se arrepende, certamente, se culpa pelo suicídio dela, não? Se entregue e dê um pouco de tranquilidade à memória dessa garota...
— Delegado... — comecei. O chiado que ouvia anteriormente se intensificando a medida que meus nervos pareciam estourar. — Você é retardado?
De todas as respostas que eu poderia dar, essa foi a pior e certamente deixou Borges surpreso e desconcertado à julgar pelo jeito que se mexeu na cadeira.
— Para começo de conversa, a Tabhita não se suicidou! Se alguém enfiasse uma arma na sua cabeça, se alguém colocasse uma faca na sua garganta, você não escreveria a porcaria de uma carta de suicídio muito convincente? — ele abriu a boca parecendo querer dizer algo nada educado, já que seu rosto começava a ficar tão corado quanto um tomate, mas continuei sem lhe dar vez: — Toda essa história aí é muito bonitinha — o chiado aumentou —, mas é estúpida demais! Está dizendo que a Tabhita se suicidou porque descobriu que eu sou um assassino? Você ao menos anotou nesse seu bloquinho de notas aí que tipo de personalidade ela tem? Pelo menos reparou que as porcarias dos cortes paralelos nos pulsos dela eram muito fundos para que ela mesma tivesse feito? Para que ela mesma tivesse feito quatro vezes! Quatro vezes! E daí se havia hesitação no modo como o corte foi feito? Qualquer um que já tivesse visto uns episódios de CSI na vida poderia ter inventado algo do tipo! Qualquer um com neurônios! Não me venha com suas teorias! Posso muito bem lidar com sua desconfiança, com seus interrogatórios sobre essas pás de mortes que andam acontecendo, com suas ameaças de me mandar... pra onde? Para uma instituição socioeducativa! Mas, putz, não me venha com essa de que você simplesmente se convenceu de que a Tabhita resolveu tirar a própria vida para a conveniência de sua própria teoria!
Limpei o suor das minhas mãos na minha calça úmida, foi quando eu comecei a entender de onde raios vinha o tal chiado que estava me irritando há já algum tempo e com o qual Borges parecia não se importar.
Eram ratos.
Centenas deles. Todos gordos e enormes, do tamanho das palmas das minhas mãos. Dei um verdadeiro pulo da cadeira ao vê-los entrando pela janela como se fossem um só, guiados por alguma espécie de flautista de Hamelin.
Devo ter gritado também, principalmente quando o chão do escritório começou a se inundar com eles. Já começavam a chegar à altura de minhas canelas quando fiquei de pé em cima da cadeira e vi Borges me olhando, espantado, enquanto os ratos corriam em minha direção, desviando-se dele como se fosse apenas uma barreira a ser contornada entre a pequena janela e eu.
Borges apoiou os cotovelos na mesa e massageou as têmporas como se pensasse em algo, enquanto o mar de ratos só parecia aumentar, chegando cada vez mais próximos de me alcançarem.
— Faça alguma coisa!
— Uma dessas garotas era filha de um amigo — Borges me ignorou, pegando as fotos e dispondo-as mais próximas de si. — Ele está tão arrasado, o mínimo que posso fazer é encontrar o assassino e me assegurar de que ele tenha o que merece. O que acha? — seus olhos escuros se estreitaram e seus lábios mostraram a repulsa que sentia por mim. — Todas elas morreram e você fica nervosinho por causa de um suicídio? Porque a droga de uma garota resolveu tirar a própria vida enquanto todas estas queriam pelo menos terminar o ensino médio! — seu tom foi aumentando à medida que as palavras eram cuspidas cheias de raiva — Não brinque comigo, garoto! — ele berrou e levantou-se da cadeira.
Os ratos foram abrindo passagem para que ele se aproximasse de mim e eu estremeci, sem saber o que esperar. Na verdade, isso não importava muito, pois no mesmo instante um caminhão colidiu contra a parede do escritório. A força do veículo empurrou a cadeira, a mesa e o próprio Borges para frente, fazendo-os bater contra a parede dianteira da sala fechada.
Eu não fui atropelado junto, porque caí para a direita antes que o caminhão me acertasse. Achei que seria devorado vivo por um exército de ratos, mas eles não se encontravam mais em tão grande quantidade perto de mim. A maioria deles correu para junto de Borges, escondendo-o totalmente debaixo de seus corpos gordos e repugnantes.
Olhei, incrédulo, do enorme buraco na parede para o caminhão e então novamente para o delegado Borges. Quais eram as chances de dois acidentes de caminhão acontecerem assim, no mesmo dia, no local onde eu estava?
Levantei devagar e congelei ao ouvir a porta ranger ao ser aberta às minhas costas. Temi pelo pior e me virei bruscamente, mas era só... Era só a Tabhita.
— Meu Deus, o que aconteceu aqui? — ela vestia o mesmo vestido florido que usava na última vez que tínhamos nos encontrado, apenas seus cabelos estavam diferentes: soltos desta vez.
Olhei mais uma vez para os ratos que guinchavam descontroladamente.
— Não faço ideia, como chegou aqui? — perguntei e, tomando coragem, fui até o caminhão em busca de um motorista precisando de ajuda ou algo do tipo. Para meu espanto, não havia ninguém.
— Nunca estou muito longe de você, Lipe — ouvi-a dizer suavemente e virei-me, ansioso para ver sua expressão.
— Oh, então quer dizer... — começava a dizer, inquieto, quando deixei a sentença pender ao observá-la segurando firmemente um dos ratos — O que está fazendo?
Seu semblante era sereno e tinha o mesmo toque ensolarado de que eu me lembrava.
— Nada — ela disse jogando o rato em direção à Borges. — Esse aí está morto. — Estalou a língua e deu alguns passos em minha direção.
— Morto? — olhei novamente para os ratos que se mexiam e guinchavam como loucos. — Tem certeza?
— Não, mas não seria melhor assim? Se ele estivesse morto?
Meu coração vacilou e eu encarei-a, esperando que ela dissesse que o que havia acabado de dizer era só algum tipo de brincadeira.
— Tabhita...
— Não faça essa cara de paspalho, Felipe! — ela envolveu meu pescoço com seus braços animadamente. — Você achou que eu tivesse passado para o lado das trevas, não foi? — ela riu. — Não seja tão pragmático, prometo ser uma boa vampira! — ela disse e piscou.
— Ah.
— Só uma coisa... Você precisa saber o porquê — nossos narizes estavam quase se tocando e o castanho de seus olhos era hipnotizante.
— O porquê de quê?
— Por que ainda estou aqui.
— O quê, como assim?
— Por quê, Felipe? Por quê? — o aperto de suas mãos se tornou mais forte e eu pude sentir suas unhas pressionando meus ombros, mas não me mexi — Por que eu morri? — ela sussurrou e eu a contemplei em silêncio, estático. — Os meus olhos se fecham. Eles se negam. Não querem ver o horror. O vazio.
Estremeci ao ouvi-la pronunciar os versos que tinha escrito em sua carta de suicídio e engoli em seco.
— Tabhita, eu...
— Por que eu morri? — ela perguntou novamente, um sorriso manso se desenhando em seus lábios róseos. — A pergunta não é essa, sabe... — ela esclareceu aproximando seus lábios da minha orelha esquerda. — Pergunte-se se eu morri. Pergunte-se por quanto tempo quer os mortos batendo à sua porta. Pergunte-se... — ela disse voltando a me encarar e segurando meu rosto com ambas as mãos — por quanto tempo vai se afogar em seu próprio ego.
A cadência de suas palavras soou opressora, quase dolorosa. Me mantive firme, em pé, acho que mais por ela estar segurando meu rosto com força do que por propriamente me sentir confiante sobre alguma coisa. De alguma forma, eu sabia que tinha voltado. Martina de alguma forma tinha trazido de volta essa angústia que tinha me consumido por tanto tempo. E o que eu podia fazer? Naquele lapso de realidade, tudo o que eu ouvia era o som do meu coração unindo-se ao guincho dos ratos e a respiração dela. Tudo o que eu desejava era que a Tabhita que eu conhecia, que fazia meu estômago girar, voltasse.
Observei-a deslocar seu polegar esquerdo até o meu lábio inferior e tentei me desvencilhar quando ela pressionou-o com força até que eu abrisse a boca. Vi seus olhos tornarem-se fendas iguais às da cobra que quase havia me matado mais cedo e senti um arrepio correr pela minha espinha à medida que seu rosto tornava-se mais próximo, suas presas cresciam e uma língua rósea e bifurcada dançou para fora de sua boca.
Soltei grunhidos e tentei empurrá-la com as mãos, mas ela não se afastou, pelo contrário, pareceu sorrir antes de me puxar para um beijo. O gosto dos seus lábios lembrava metal e eu tentei morder sua língua à medida que o beijo se prolongava de forma dolorosa e eu sentia meus pulmões arderem por não conseguir respirar.
Meus olhos encheram-se de água e eu os fechei bem firmes, sentindo aos poucos o mundo despedaçar-se e o desespero tomar conta de mim.
— Felipe! Felipe! Calma, Felipe! Calma! — a voz da minha mãe me atingiu como um tapa e eu relaxei, ao perceber que eram dela os braços que me envolviam e que eu não precisava mais me debater.
Olhei ao redor, o caminhão vermelho não estava mais lá. Dois paramédicos imobilizavam Borges de forma eficiente e não havia qualquer sinal da Tabhita ou de ratos. Sentia as lágrimas escorrendo pelo meu rosto, sem parar, e assim continuei, chorando ainda mais quando minha mãe voltou meu rosto para ela e me envolveu com mais força.
— Mãe, a Tabhita...
— Eu sei, Júnior... Eu sei. — Ela acariciou meus cabelos e eu chorei como há muito tempo não fazia, deixando toda a minha frustração e desespero transformarem-se em lágrimas. Sentindo-me completamente patético e estúpido por me deixar levar... de novo.
— Mãe, eu quero ir à BH.
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