Noite
33 A Morte é um Presente
Notas iniciais
_11 de Fevereiro_
Acordei ouvindo a chuva.
Fiquei ainda um tempo imóvel, respirando a umidade do ar e ouvindo as contínuas gotas grossas baterem contra o telhado e contra o vidro da janela. Lambi meus lábios ressecados e abri os olhos no mesmo instante em que impulsionava meu corpo para que pudesse me sentar na cama.
Pisquei.
Minha mãe dormia à minha esquerda. Sua respiração era leve e rítmica, e os cabelos misturavam-se à sua expressão adormecida — sem vincos de preocupação. Olhei à volta e me dei conta de que estava no quarto dos meus pais. As paredes pintadas em tons de bege e branco, as cortinas azuis e um montinho de analgésicos empilhados ao lado do porta-retrato. Na foto, dois garotos de olhos e cabelos escuros, que pareciam ter o mundo no olhar, sorriam.
Desci da cama bem devagar, tentando não acordar minha mãe. Meu pai deveria estar no hospital em algum de seus já costumeiros plantões. Me lembrava muito vagamente de ter ido para o quarto deles. Sei apenas, com certeza, que apaguei no banco do carro quando minha mãe me levava para casa. Depois disso, lembro-me vagamente de subir as escadas... Acho que ela deve ter me arrastado para lá, não querendo me deixar sozinho.
— Dona Marina...
Peguei meu celular e descobri que ainda eram quatro da manhã. Bocejei e esfreguei os olhos sem vontade de voltar a dormir. Andei, sentindo o piso de madeira com as solas descalças dos meus pés, até meu quarto e perdi uns vinte minutos instalando a atualização de um MMORPG* que já fazia alguns eons que eu não jogava.
Iniciei alguns combos e fui limpando algumas áreas de caça, coletando EXP*. Avancei um nível, mas não estava com vontade de cumprir com a quest do senhorzinho NPC*, então fui para os arredores das cidades dos níveis mais baixos e fiquei me divertindo enquanto alguns noobs* tentavam PK* contra mim, achando que eu tinha um nível tão baixo quanto o deles. Matei dois carinhas que fizeram isso, um deles, inclusive, com o nick: “demonOfAcre”. Sério, como não rir de um ser desses?
Estava quase espancando o teclado, acionando um combo* de 16 HITs que, na certa, acabaria com os três monstros que tentavam me emboscar, quando um pedido de grupo oscilou no canto da tela, e, de repente, um arrepio percorreu minha espinha. Olhei para a esquerda e um punhado de fios de cabelo brancos roçou o meu rosto.
— O que você está fazendo aqui? — indaguei depois de superar o susto.
— A porta estava aberta. — Melinda aproximou o rosto do monitor e estudou meu avatar ser novamente rodeado por monstros.
— A porta estava aberta? — a descrença transbordou em minha voz.
— Destrancada, na verdade. — Melinda deu de ombros e voltou seus olhos, uma constante interseção entre o vermelho e o rosa, para mim.
— E aí você entrou.
Ela aquiesceu.
Estranho.
— Quantos você já matou? — ela perguntou batendo as longas unhas, pintadas de preto, na tela LED.
Ergui uma sobrancelha e a estudei por alguns segundos. Seu vestido, como de costume, era antiquado e mesclava tons de vinho e preto em um monte de renda e veludo. Não teci nenhum comentário sobre o visual estranho. Levantei meu rosto em sua direção e disse, com a voz meio arrastada:
— Não contei.
— Hmmm... Então você não sabe?
Franzi as sobrancelhas para o rumo esquisito da conversa. Pensando bem... Alguma vez eu já havia tido uma conversa normal com ela?
— Acho que não.
— Hmmm. E é divertido?
— O quê? Jogar? — perguntei indicando o computar com a cabeça. — É. E viciante.
— Hmmm. — Melinda correu os dedos por uma das arestas da mesa, como se a acariciasse. — Você não se importa?
Ergui uma sombrancelha.
— Melinda... Do que você está falando, afinal? É só um jogo.
— Sim, mas... — ela inflou o peito e me lançou um olhar altivo. — Não acha que isso só reflete o que somos? Não é estranho pregar a paz e divertir-se matando pessoas?
— Tecnicamente monstros.
Melinda enrugou os lábios, desgostosa, e resignou-se a um silencio incômodo até que eu finalmente deixasse escapar:
— E pessoas, às vezes.
— Criar algo virtual para que se possa matar o quanto quiser. Ser íntegro e pacifista enquanto cidadão — ela frisou a palavra com deboche — e se comprazer do instinto de tal forma nas horas vagas. Não é irônico?
Cocei a cabeça e não disse nada.
— Tão fascinante, não acha? — ela abriu os braços como se estivesse coberta de êxtase, sorriu brevemente e então voltou a me encarar. — A contradição que nos formenta...
— Melinda?!
— Boas pessoas vão para o céu, as malvadas vão para o inferno. Tão simples! — ela gargalhou e bateu palmas — Mas você acredita nisso? Um ser de natureza tão verdadeiramente encarnada na mentira, de essência hipócrita e egoísta poderia ir realmente para o céu? — Certa amargura mostrava-se em sua voz e em como cravava as unhas na borda da mesa. — A benevolência é sobretudo um vício do orgulho e não uma virtude da alma. — ela pareceu tremer um pouco e seu olhar suavizou-se quando acrescentou: — Marquês de Sadie.
— Você gosta de citações.
Melinda pareceu me ignorar, e continuou:
— Me diga, porque lamentamos tanto nossa existência terrena e efêmera? São tantos os poetas rabiscando sobre ela... Sobre a dor e o sofrimento. É mesmo assim tão ruim? Morrer. Soa bem, não soa? É um presente. — ela umedeceu os lábios e abriu um sorriso enigmático. — Me diga... Onde está o Gregório, Felipe? Ele está no céu? Ele foi um bom sujeito, não foi?! Deve estar no céu! Então me diga... Por que lamenta tanto? O céu é melhor, não é? Você deseja que ele deixe de estar imerso em felicidade no pós-morte para que possa voltar aos seus dias nessa terra podre? — ela soltou uma risada. — Não me faça rir! Você não lamenta por ele, você lamenta por você e apenas por você!
— Melinda...
— Isso é a morte, meu caro. Uma de minhas faces prediletas, devo dizer. O egoísmo de quem fica. Não se lamenta pelos sonhos não vividos ou pelas coisas, mais complexas ou banais, que o sujeito não teve a chance de realizar. O que se lamenta é a perda da chance de se continuar a compartilhar coisas com o dito morto. E você, especificamente, lamenta o que ele representaria na sua vida se ainda respirasse e deseja que sua culpa se dissipe. Vê? A lástima não está na morte em si ou no protagonista dela. Está em você, que a sente, lamenta por ela e clama a Deus para que seu egoísmo seja saciado enquanto disfarçado fajutamente de benevolência.
E então eu acordei.
Pisquei para o meu monitor. À direita, uma luz vermelha piscava indicando uma mensagem recebida. O pistoleiro, meu avatar, estava sendo atacado por monstros e seu HP ia diminuindo sem que eu fizesse nada para evitar sua eminente morte. Apenas observei-o, imóvel, confuso com a ponta de reconhecimento que me invadia ao relembrar as palavras de Melinda.
— O egoísmo de quem fica — pronunciei as palavras sentindo a garganta seca.
Pensei no Gregório. Pensei na minha avó. Pensei na Tabhita.
Ouvi um barulho vindo de baixo.
Retesei meu corpo, receoso até em respirar, e só então reparei na claridade do sol que começava a invadir meu quarto. Levantei, pisando leve, e peguei o revólver esquecido debaixo da cama. Desengatilhei a arma e desci a escada rápida e silenciosamente. Espreitei a sala e não vi ninguém. Caminhei até a cozinha, com a arma erguida, cogitando até mesmo a possibilidade de Matias ou Hector terem invadido a casa em busca de retaliação.
Os azulejos brancos foram mostrando-se à medida que eu virava a esquina e então vi meu pai, de costas para mim, pegando algo na geladeira.
Meu alívio foi enorme, e logo me dei conta de que estava segurando uma arma. Escondi-a atrás do corpo no mesmo instante em que meu pai decidiu olhar em minha direção. Seu olhar cansado me alcançou e o vi encher um copo de água antes de dizer:
— Madrugando, Felipe?
— É-é. Oi, como foi o trabalho?
Ele pegou uma cartelinha de comprimidos para dor de cabeça e mostrou-a com um sorriso desanimado.
— Cansativo.
— Hmm. — Acenei em concordância, rezando para que ele não reparasse na arma que eu estava escondendo.
— Sua mãe falou comigo. — Seu tom tornou-se mais sério e seus olhos castanhos evidenciaram sua preocupação.
Aguardei, tentando não parecer alarmado ao vê-lo aproximar-se de mim, depois de engolir um comprimido.
— Felipe, temos passado por alguns tempos difíceis. A Tabhita se foi recentemente e estamos em Martina não só sem seu avô, mas sem sua avó também — ele pousou sua mão em meu ombro e eu senti meus dedos começarem a adormecer, em parte pela ansiedade em cima do centro daquela conversa e em parte por sua progressiva proximidade. Mais um pouco e ele repararia no revólver. Me concentrei em respirar. — Sei que tenho ficado muito tempo ausente recentemente. Sei que passamos por uma crise financeira complicada em Belo Horizonte e sei que o que aconteceu com o Gregório ainda te afeta, mesmo que você negue. Na verdade, afeta a todos nós. Mas, meu filho, nós estamos superando esses problemas e seguindo em frente, não é?
— Sim, é... Estamos.
Eu acho.
— Sua mãe e eu estamos aqui, e sempre estaremos aqui quando você precisar. Ela me disse que você quer ir à Belo Horizonte e, ainda que eu não saiba bem as razões, estou de acordo. Apenas tenha em mente que pode confiar na gente. Somos quem mais se importa com você no mundo — ele apertou suavemente meu ombro — e não duvide que faríamos de tudo por você.
— Pai...
— Não, espere. Escute. Se algo anormal estiver acontecendo — ele hesitou —, como antes... Não deixe de nos dizer, ouviu?
Respirei fundo. A .38 fria nas palmas suadas das minhas mãos.
— Pai, eu confio. E-E é claro que eu diria se... Se algo estivesse errado — desviei meus olhos momentaneamente, e acrescentei: — Preciso ir à BH, tipo, hoje.
Seus ombros pareceram cair um pouco e sua expressão mostrou uma breve surpresa, que se dissolveu em um sorriso zombeteiro.
— Não seja cara de pau, moleque! — ele deu um tapa na minha cabeça e voltou até a mesa, pegou o copo de água e bebeu o que ainda restava do líquido incolor. — Por que quer tanto ir lá hoje?
— Bem — tentei pensar em uma desculpa plausível —, bem... é.
Meu pai ergueu as sobrancelhas.
— Isso não é resposta — ele coçou a cabeça parecendo desistir dessa questão. — Espere pelo menos até amanhã, seus tios vão até Juiz de Fora. De lá você pega um ônibus até Belo Horizonte. E, antes que você discorde, isso não é uma opção — seu olhar foi sugestivo e eu aquiesci. — Também vou pedir à sua mãe para encaixá-lo em uma consulta com a Dra. Alzira. Ela deve conseguir marcar, mesmo tão em cima da hora.
Fiz careta.
— Isso também não é uma opção — explicou em resposta ao meu evidente desgosto e, mais brandamente, acrescentou: — Não deixe de visitar seu irmão.
Cocei a cabeça e acenei em concordância.
— Agora, vamos fazer um exame de sangue.
— Hmm. Espera, o quê? Até a parte da Dra. Alzira eu saquei, mas o que um exame tem haver com...
— Você está em jejum?
— Estou.
— Ótimo, vamos para o laboratório que eu já faço logo a coleta — concluiu coçando o queixo e, tranquilizadoramente, acrescentou: — Não se preocupe, é só exame de rotina. Também vou falar para sua mãe fazer, aparentemente há um novo vírus se espalhando por aqui. Precaução nunca é demais.
— Você fala da doença da Ângela? A teg-tegline?
— Tegmine — ele corrigiu. — Essa mesmo. Ainda estamos com problemas para descobrir as formas de contágio. Só sabemos que não é pelo ar e que a doença agrava condições preexistentes nos pacientes, assim como desencadeia uma série de novos sintomas.
— Ok. Que tipo de condições?
— Sua amiga, por exemplo, tem parkinson
Arregalei os olhos.
— O-O quê? Você diz Mal de Parkinson? Isso é impossível, a Ângela...
— Isso não é o importante agora, Felipe — meu pai bagunçou meus cabelos do mesmo jeito que fazia quando eu era criança. — Garanto que farei todo o possível por ela. Agora vamos ao laboratório para que eu possa colher logo o seu sangue.
— Ok — concordei a contra gosto.
Dei alguns passos para trás, e vi meu pai virar-se para pôr o copo vazio na pia. Aproveitei o momento para, em um impulso muito doloroso para o meu tão ferrado tornozelo, impulsionar-me até a esquina e esconder o revólver debaixo do sofá.
— Felipe? — meu pai veio imediatamente atrás de mim, com uma expressão interrogativa.
Sorri amarelo, terminando de esconder a arma com o calcanhar.
— O exame, vamos logo fazer isso. Eu estou com fome.
Depois de ver o meu pai enchendo três tubinhos com o meu sangue, devorei rapidamente o café da manhã e saí de casa. Segui pelas ruas estranhamente movimentadas às seis horas da manhã e parei em frente à casa do Bagdá. Fitei a agenda do Zeca por alguns instantes e então esmurrei a porta umas mil vezes apenas para constatar que Bagdá não estava em casa.
— De novo...
Irritado, enrolei por um tempo e fui até o hospital. Estava realmente encucado com a coisa toda, queria ver a Ângela. Lembrei de como a enfermeira havia dito que ela estava em estágio terminal e estremeci. Tudo parecia tão insano... e eu, além de não conseguir imaginar a Ângela com Mal de Parkinson, não conseguia tirar os antipsicóticos, que tinha achado na casa dela, da cabeça.
— Visitas a partir das oito horas — a recepcionista esclareceu em um tom monocórdio e sonolento.
Passei a próxima hora sentado no sofá de espera. O ar recendia a álcool e desinfetante, mas eu estava tão absorto, pensando no que havia acontecido com Borges e do meu encontro... com a Tabhita, que até mesmo esqueci de me irritar com algo tão trivial.
Um. Caminhão. Invadiu. O. Escritório. Do. Borges.
Ok.
Havia muitos ratos.
O-Ok.
E a Tabhita estava...
Suspirei. Não tinha explicação... Que merda tinha sido aquela? O quanto daquilo tinha sido... real?
— Oi! Oi! Oi!
Ouvi a voz infantil e abri os olhos.
— Você não sabe que tem que responder quando falam com você?
Reconheci Eduardo imediatamente, o garoto para quem havia dado um dos meus presentes de aniversário: um pote de balas. Ele continuava com aquele sorriso inocente e, agora, banguela de que eu me lembrava. Porém tinha mais olheiras e sua palidez chegava a ser dolorosa aos meus olhos.
— Oh, oi. Foi mal.
— Você lembra de mim? — ele perguntou com certa expectativa, sentando-se ao meu lado com certa dificuldade enquanto arrastava um carrinho que injetava soro na sua veia.
— Claro que me lembro, Eduardo. — Pisquei para ele.
— A enfermeira Cindy disse que você se lembraria — ele disse sussurrando e, em seguida, dando vez a uma enxurrada de tosse.
— Você está bem? — segurei o garoto, que oscilou no assento, para que não caísse.
— Isso dói — ele choramingou —, mas é normal.
Senti um certo peso me invadir e o vi jogar a cabeça para frente e vomitar.
— Ei, moça! Ele está mal aqui! — gritei e segurei-o firme para que não tombasse para frente. Uma de suas mãos, trêmula e morna, segurou o meu braço e seus olhos cruzaram-se com os meus — Ei, moça...
A recepcionista apareceu com dois enfermeiros no mesmo instante. Um deles, alto e parrudo, pegou uma seringa e injetou o conteúdo no braço fino do garoto, que parecia fazer um esforço descomunal para não chorar. Acompanhei o olhar dele em direção ao próprio vômito e, por um instante, senti o gosto da minha bile ao ver um punhado de larvas cor de leite se remexendo em meio ao líquido espesso.
Voltei a olhar para Eduardo, que parecia estar adentrando a inconsciência, e observei a senhora que, hábil e rapidamente, limpou o vômito do chão assim que o par de enfermeiros levou o garoto para alguma das alas de emergência. A mulher, de expressão distante e cansada, não demonstrou nenhuma reação frente às larvas que se contorciam desesperadamente e eu, atônito, pisquei algumas vezes até me ver, novamente, sozinho na área de espera próxima à recepção.
Uns dois minutos depois a recepcionista anunciou:
— Você já pode entrar para a visita.
Fui para casa.
Queria muito ver a Ângela, mas as imagens das larvas praticamente se fundiam com as do encontro que tive com a Tabhita no dia anterior. A sensação nauseante era a mesma que sentira quando... quando ela tinha me beijado.
Além disso, eu estava fedendo a vômito.
Tomei um banho demorado, achei uma das minhas velhas tornozeleiras e vesti — meu tornozelo estava me matando de dor. Desviei das investidas preocupadas da minha mãe e me esgueirei para a rua novamente.
Parei em frente ao velho cemitério e não demorou nem dez minutos para que eu me entediasse com o atraso do João, que já estava se tornando cotidiano, atravessasse a rua e abrisse o portãozinho enferrujado. Observei com plácida curiosidade as esculturas de anjos, gárgulas e santos. Li alguns dos nomes que ainda eram visíveis nas lápides e gastei meu tempo lendo epitáfios. Alguns deles estavam em latim enquanto outros nem sequer eram mais visíveis pelo desgaste da pedra.
Já estava há uns quinze minutos absorto nesse passa tempo quando parei em frente a um túmulo em que lia-se: “Killari Spinoza”. As copas dos ipês desenhavam as sombras de suas folhas sobre a lápide, e o movimento regido pelo vento fazia com que o contraste de luz e sombra parecesse um amontoado orgânico.
Um buquê de flores mortas cobria o epitáfio e as datas de nascimento e morte. Abaixei-me para pegá-lo e imaginei que o vento deveria ter arrastado aquele punhado de flores de outro túmulo, pois não haveria mais ninguém parar chorar a morte de Killari, uma vez que ela havia morrido em 1710.
Passei a mão pelas letras sulcadas na pedra e imaginei o que estaria escrito. Não era latim nem português, o alfabeto era completamente diferente. Uma série de imagens que lembravam plantas e animais, certamente uma forma de escrita que me fez pensar primeiro nos egípcios e depois na era pré-colombiana.
Voltei a examinar o registro das datas na laje escura. Demorei bem mais tempo para deduzir qual seria o número referente ao nascimento. O terceiro algarismo estava praticamente ininteligível. Havia apenas uma tênue sugestão de que ele havia sido escavado na superfície que não era lisa. Imaginei que fosse 1695. Mas poderia ser 1675 também. Ou 1655. Ou até 1615.
Killari poderia ter vivido 15 anos, 35 anos, 55 anos ou até mesmo 95 anos.
Divaguei em pensamentos por algum tempo e bocejei. Estava prestes a colocar o buquê morto em seu devido lugar quando meus olhos se detiveram em um talho mais forte próximo a base da lápide, à esquerda. Era óbvio que era recente e que tinha sido feito com uma ponta de faca: ETB. Me perguntei o que significava, talvez fossem as iniciais de quem tivera a ideia de deixar sua marca ali. Não me demorei muito mais no assunto, coloquei o buquê no lugar, levantei-me e estiquei as pernas.
Depois de mais meia hora, desisti de esperar e voltei para casa.
O dia passou rápido enquanto eu me distraia com meu violão. Toquei algumas músicas de Engenheiros do Havaí, outras de Caetano e algumas infantis que Caíque e Luan ficaram felizes em cantar. Também fingi não perceber as rugas de preocupação que marcavam o rosto da minha mãe cada vez que ela olhava para mim, furtivamente. Sabia que ela estava quase tendo um ataque de nervos, mas amei-a ainda mais por não tentar me questionar sobre o surto do dia anterior. Pensar no assunto me deprimia e fazia meu estômago se revirar de vergonha.
Já tinha abandonado Joy no canto da sala quando minha mãe, após desencavar um DVD de O Auto da Compadecida, tentava fazer o nosso aparelho de DVD funcionar. Minha tia estava sentada no sofá ao lado do meu tio. Caíque e Luan corriam à minha frente, de um lado para o outro conversando em uma língua própria. Eu estava sentado no chão, sobre o tapete, com as costas recostadas no sofá.
— Pegou, pegou! — minha mãe comemorou depois de um tempo e sentou-se no sofá, com as pernas ao meu lado.
Assisti ao filme até o enterro da cadela do padeiro, que foi quando a campainha soou, alta e clara, e eu levantei-me afim de atender a porta.
— Se for cliente, me chama — avisou minha mãe e eu concordei com a cabeça.
Estalei o pescoço, de ambos os lados, andei descalço até a porta e a abri.
— Oi!
Parados sobre o enorme tapete, em que se lia: “Bem-vindo!”, estavam Hugo e Geraldo.
— Sério? — soltei, desanimado.
— Eu avisei que não era uma boa ideia — Geraldo resmungou para Hugo, que voltou a se pronunciar: — Não posso simplesmente ignorar o que aconteceu ontem.
— É, seria difícil esquecer aquilo. — Sorri e abri espaço para que ambos entrassem — Vamos pro meu quarto.
Passamos pela sala e minha mãe olhou para mim com surpresa e má disfarçada animação.
— Estamos subindo, mãe. São da escola.
Ela piscou para mim e eu revirei os olhos.
Deus, essa mulher deve achar que eu sou um pária!
Subimos as escadas e eu fechei a porta depois de entrarmos.
— Casa legal. — Geraldo elogiou e se jogou na cadeira do computador.
— Era dos meus avós.
— A gente conheceu a dona Maria, costumávamos roubar laranjas daqui — Hugo mostrou um sorrisinho amarelo. — Depois de um tempo ela passou a deixar uma cesta cheia delas em cima da cadeira da porta da frente.
— Eu nunca chegaria nem perto de adivinhar que você já tivesse quebrado alguma regra na vida.
Geraldo riu.
— Eu e meu irmão arrastávamos ele junto.
— Não sabia que eram tão amigos — me joguei na cama e mordi o lábio inferior quando meti o mindinho do meu pé na quina da mesa do computador, de onde Geraldo me olhou cheio de diversão.
— Somos primos. — Hugo deu de ombros.
— Putz, todo mundo é parente nessa cidade.
— Quase isso — concordou Geraldo e então o assunto morreu.
Nos encaramos por alguns segundos e eu aguardei, esperando que eles tocassem no assunto já que as preliminares tinham acabado.
— O que vamos fazer? — Hugo perguntou em um tom mais baixo.
— É, e o que era aquilo? Principalmente a cobra — Geraldo se remexeu na cadeira e ela rangeu.
— Estou na fila pra descobrir — soltei uma risada sem humor. — O que pretendem? Não acho que tenha muito que possamos fazer.
— Meu pai me falou várias vezes desse tipo de coisa quando eu era mais novo — Hugo estreitou os olhos. — Nunca levei a sério, acho que ele talvez saiba de algo. Ultimamente ele anda mais estranho que o normal.
Absorvi a nova informação. Quantas pessoas sabiam e seriam capazes de agir? Existiam mais quantos como Bagdá e João?
— Por agora é melhor não contar a ninguém, não falei nada pros meus pais. — Franzi o cenho. — Foi meio difícil não contar e não sei dizer se é a melhor opção, mas... — deixei a frase morrer.
Geraldo olhou de mim para Hugo e então soltou:
— Há quanto tempo vocês sabem sobre essas — ele hesitou — coisas?
— Acho que já faz quase umas duas semanas. — Assombrei-me um pouco com o cálculo, parecia bem mais tempo.
— Ontem foi a primeira vez — Hugo torceu as mãos e sentou-se ao meu lado, na cama —, eu sempre achei que o que meu pai falava não passasse de invencionice. — Quase sussurrando, acrescentou: — Já tem um tempo que ele toma alguns remédios, minha mãe disse que iria embora se ele continuasse saindo no meio da noite em busca de delírios.
Franzi os lábios.
— Há algo estranho com essa cidade — Geraldo concluiu. — Se for pensar sobre o assunto, muitos desaparecimentos e mor... — seus olhos cruzaram-se com os meus e ele parou. — Desculpe.
Dei-me conta de que ele se referia à Tabhita e tranquilizei-o:
— Não precisa se desculpar, não foi culpa sua. — Querendo mudar o foco da conversa, perguntei: — E a Felícia?
— Logo depois que você saiu, ela acordou — Hugo também pareceu feliz com a oportunidade de mudar o rumo do assunto e emendou: — Seu Augusto nos tirou de lá sem que ninguém nos visse. Parece que foi ela que ligou para a polícia.
— É? — Lembrei-me de vê-la com o celular na mão quando quase desisti de gesticular para simplesmente berrar para que ela caísse fora. — Ela deve ter visto alguma coisa, então.
— Ela estava procurando você e viu a gente sendo arrastado para a piscina coberta — esclareceu Geraldo.
— Ela deve ter mencionado seu nome quando chamou a polícia — Hugo concluiu.
— E do jeito que Borges me ama... Humph, veio correndo!
Geraldo fez uma careta.
— Você reclama, mas eu que fiquei uns vinte minutos escondido dentro de um dos boxes do vestiário, cara, com o cadáver. Vocês se lembram dele? Daquela coisa que quase matou a gente? Daquela coisa que era pra vocês não terem largado pra trás?
Senti vontade de rir, mas me contive.
— Acho que esquecer um cadáver é um novo recorde.
— Seria engraçado se isso não tivesse me impedido de dormir essa noite. — Hugo coçou a cabeça e vi a angústia legítima que o atormentava. — Só consigo pensar em como quero ir embora daqui, mas quanto mais eu penso nisso, mais me ocorre que provavelmente esse... esse fenômeno — ele fez uma careta ao definir dessa forma — não deve existir só aqui. E se assim é: quais são as causas? Como é possível? Quantos são e em que velocidade se reproduzem?
— Você realmente leva tudo para outro nível.
Concordei com Geraldo, mas Hugo estava certo.
— Não são poucos — resmunguei, e Hugo estudou-me.
— A Ângela, a garota do acidente de carro, não foi um acidente de carro, foi?
Não disse nada, e Hugo pareceu encontrar certo significado no meu silêncio.
— Bem, bem... — Geraldo começou a dizer para quebrar a tensão e, sem saber muito bem como continuar a frase, repetiu: — Bem...
— Eu vou para BH amanhã.
Ambos me olharam surpresos.
— Você vai embora? — a cadeira em que Geraldo sentava-se rangeu várias vezes em resposta a sua inquietação.
— Não — uma certeza mais que ferrenha tornou-se líquida em minha voz e eu soube que isso era mais que minha própria vontade. E é claro que não pode fugir, as palavras de Wagner ressoaram na minha mente. — Eu vou voltar.
Os dois sobressaltaram-se um pouco e Hugo começava a dizer mais alguma coisa, no entanto, se calou assim que três batidas rápidas vieram da porta.
— Oi, meninos, querem comer? — minha mãe sorriu, e entrou carregando um balde de pipoca, uma jarra de suco e três copos.
Nos servimos e vi minha mãe sair novamente, cantarolando cheia de satisfação. O assunto não deu novos frutos, Geraldo e Hugo apenas bateram na mesma tecla algumas vezes até que, em uma decisão impulsiva, estiquei o braço e abri a gaveta da mesa do computador. Peguei a agenda de capa de couro marrom e encarei-a por alguns segundos antes de entregá-la à Hugo que me lançou um olhar curioso.
— O que é isso?
— O Wikipédia mais pirado que já vi. — Sorri ironicamente. — Não foi muito o que pude deduzir. Acho que o que vimos ontem é resultado de alguns testes. Talvez as falhas resultem nas mortes e desaparecimentos que o Geraldo mencionou. Dá uma olhada — cruzei as pernas e comecei a estalar os dedos da mão —, talvez você descubra alguma coisa. Algo nesses filamentos de DNA deve determinar a raça ou, tipo, o pedigree daquelas coisas... — bufei. — Com certeza as doenças têm estreita ligação com isso tudo, e eu já passei pro Bagdá uma lista com esses números para ver se ele descobre o que são. Acho que talvez sejam RGs ou algo do tipo.
— Nossa, isso é loucura. Quem escreveu isso tudo? — Hugo foliava a agenda com uma ansiedade quase febril, e eu sorri.
— Um amigo, acho. Basta dizer que é confiável — hesitei e enruguei a testa —, provavelmente.
— E confuso — Hugo acrescentou. — Sobre essa coisa de... de testes, você deduziu isso sozinho?
Cocei a cabeça e pensei na Tabhita, em seu vestido florido e nos raios de sol que alcançavam sua pele clara.
Descobrirei em breve.
— Pelo menos é alguma coisa, né? — Geraldo levantou-se da cadeira e andou até Hugo para que pudesse espiar o conteúdo da agenda.
— É tudo que tenho — esclareci grato por Geraldo ter desviado a atenção de Hugo da pergunta.
Mais tarde, depois de Hugo e Geraldo já terem ido embora, encontrei meu tio cochilando no sofá. Seu ronco era digno de nota, e Caíque e Luan divertiam-se cutucando a barriga flácida do pai que nem se mexia. Tia Lídia conversava com minha mãe sobre os preparativos para a viagem, na manhã seguinte, e meu estômago revirou-se de ansiedade.
— Você vai mesmo com a gente, Felipe? — tia Lídia perguntou ao perceber minha presença.
— Vou, precisa de alguma ajuda?
— Vamos até Juiz de Fora, você sabe, não é? De lá não dá muito tempo até Belo Horizonte. Você vai ficar com quem?
Não tinha pensado sobre isso, mas, de repente, a resposta pareceu-me óbvia demais:
— Com a tia Daniele.
Minha mãe revirou os olhos e, enfim, pronunciou-se:
— Então serão dois desmiolados juntos! Não sei como que o seu tio ainda não fugiu de casa.
Tia Lídia riu e minha mãe, em seguida, fez o mesmo.
— Sobreviveremos, eu garanto.
As duas começaram a contar histórias antigas sobre as loucuras da tia Daniele. Loucuras essas que incluíam desde me esquecer no carrinho do supermercado, quando eu era pequeno, até entrar em uma loja do shopping, de bicicleta, enquanto perseguia um de seus cantores favoritos.
Peguei Joy e me recostei novamente no sofá, dedilhando as cordas ajustadas do jeito que eu gostava. Logo tia Lídia correu para a cozinha levando, de reboque, os meninos que pareciam mais do que mortos de fome pela forma como diziam que queriam comer. Luan como um eco atrapalhado de tudo o que Caíque dizia.
— Biscoito de chocolate!
— Biscoito de solate — tropeçava nas palavras.
— Sorvete!
— Sovete!
Ouvi minha mãe rir e senti suas mãos em meu rosto quando ela segurou-o e voltou-o em sua direção.
— Você era fofo desse jeito. — Suas mãos apertaram as minhas bochechas com força.
— Ai, ai. Isso dói!
— Não seja bobo, Júnior — ela bagunçou meus cabelos. — Vi seus amigos — seu olhar era cúmplice —, e aí? Hein, hein?
— Mãe, sério, isso é estranho, sabia?
Cruzei os braços e os roncos do meu tio preencheram o silêncio por alguns instantes. Lembrava-me do que havia dito a Geraldo e Hugo. Eu não tinha contado nada aos meus pais... Fitei os olhos azuis da minha mãe, os meus eram bem mais escuros, quase pretos. Me perguntei se ela conseguia saber o que eu sentia apenas com aquele momento em que nosso olhos se encontravam. Se ela conseguia enxergar através dos meus olhos tanto quando eu enxergava a inquietação que a dominava através dos seus.
— Ontem... Está acontecendo de novo, mãe... Eu... — vi seu corpo se aprumar e a atenção mais intensa que ela me dedicou.
— Estou ouvindo, Felipe — ela disse suavemente.
E então contei tudo. Tipo, T.U.D.O. Apenas me esgueirei um pouco na história nas partes que se referiam ao Wagner e sobre o meu mínimo conhecimento sobre vampiros. O resto, eu simplesmente despejei quase sem pausas. O beijo na Festa da Batata. O cadáver do Toni. A Ângela no hospital. E cada ínfimo detalhe do que aconteceu ontem.
Ela não perguntou absolutamente nada e sequer fez qualquer menção de me interromper. Apenas ouviu cada palavra pacientemente e aguardou que eu terminasse e assim o fiz, mais rápido do que imaginei que conseguiria.
Os sons familiares que rodearam o meu relato foram quase irônicos: o liquidificador em ação na cozinha, o vento fazendo o sino da porta ressoar e o ronco do meu tio cada vez mais alto.
Por alguns segundos de ansiedade, após eu terminar de falar, seus olhos permaneceram fixos em mim. Aguardei sua reação, mas ela não veio por um minuto inteiro até que a chamei:
— Mãe?
— Estou esperando, Junior. O que ia dizer?
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