Noite

31 O Assassino parte 2


Notas iniciais
Hey, pudins do meu coração! =D Vim prazer uma açãozinha nesse parte 2! Não falei nas notas do cap passado, mas dividi "Assassino" em tr~es partes. Enfim, boa leitura, enjoy! p.s.: Tks, Eddy!

Desci correndo os degraus e quase escorreguei ao pular no telhado do acabado do quartinho do zelador — ou almoxarifado, como estava escrito na placa afixada a porta.

Passei rápido pelos corredores estranhando o silêncio. Primeiro, ao perceber que as salas estavam vazias, senti um medo quase sobrenatural me invadir. Por um segundo, até alienígenas abduzindo vacas e estudantes do Colégio Silvana Batista pareceram muito lógicos, mas logo me acalmei e apenas concluí que todos deveriam ter sido liberados para ir para casa.

Cheguei ao pátio e não vi nenhum segurança.

Geraldo ainda segurava a mesma barra de ferro, Hugo parecia apavorado e Cristina apenas observava imóvel e sem expressão, enquanto o silêncio era preenchido por um dueto de ganidos que lembravam risadas.

Olhei para os lados em busca de alguma arma, amaldiçoando-me por ter deixado a porcaria do revólver em casa e, como não visualizei nada melhor que um galho, tratei de esconder-me atrás da árvore a minha frente ao ver a aproximação do mesmo cara que me deixara um tanto apavorado ontem quando pretendia comparecer às atividades da equipe de natação: o tal amigo-não-tão-inocente-assim do Toni. Ele agarrou Geraldo e imobilizou-o com uma facilidade assustadora. Quase me viu em uma súbita ideia de virar a cabeça para a direita. Meu coração deve ter batido alguns segundos mais rápido enquanto eu sentia todos os meus músculos tensos e me recostava mais à árvore, desejando, como se não houvesse amanhã, me fundir com aquele tronco de madeira.

Contei até dez e voltei a espiá-los pelo outro lado da árvore, devagar... Peguei um vislumbre do amiguinho do Toni empurrando Geraldo para dentro da piscina coberta e fechando a porta, então, presumi que o Hugo e o outro cara já estivessem lá, já que só a Cristina permanecia no pátio, mergulhada em uma espécie de estado de choque.

— Lobisomens? Vampiros? — perguntei-me, olhando o céu que se tingia com os tons do por do sol, sem saber o que fazer. Certamente o Hugo e o Geraldo iriam morrer se eu não fizesse nada, no entanto, minhas pernas pareciam travadas assim como os meus pensamentos.

Comecei a andar em direção à professora mais detestada de todos os tempos no mesmo instante em que ela resolveu que seus músculos ainda funcionavam. Seus passos foram cada vez mais rápidos e firmes à medida que ela se aproximava da piscina coberta. Ouvi nitidamente o som do seu salto atritando nas lajotas de pedra e me dei conta de que ela estava indo atrás deles! Corri tentando impedi-la e acenei desesperadamente. Quase gritei, mas, se o fizesse, o par demoníaco sairia de lá de dentro e as coisas não ficariam lá tão melhores.

Cristina decidiu voltar seu rosto em minha direção tarde demais. Ela já tinha aberto a porta e, estando a poucos passos de distância, vi seus olhos se voltarem para o interior da área de natação e arregalarem-se. Ela deixou sua bolsa cair no chão e entrou, fechando a porta com uma sonora batida.

Minha cabeça mergulhou em um turbilhão e eu comecei a suar, sentindo meu coração esmurrar com força o peito. Corri até a entrada do colégio e não achei nenhum segurança ou qualquer sombra de alguma alma viva. Olhando de perto o estrago que o acidente descrito pelo professor Ivanildo causou, percebi de imediato o quão brando ele tinha sido na descrição.

Um poste havia tombado derrubando parte do muro do colégio e o outro estava nitidamente torto. Vários pedaços de fios espalhavam-se pelo chão e alguns dos que ainda estavam pendurados faiscavam conforme o vento os agitava. E ainda tinha o fogo... Várias das plantas, que enfeitavam a entrada do colégio, estavam pegando fogo sem que ninguém se importasse em dar um jeito nelas.

— O que diabos...? — murmurei intrigado.

Respirei fundo e comecei a organizar meus pensamentos. Eu não tinha tempo para ficar criando teorias, o Geraldo, o Hugo e a professora megera morreriam se eu não fizesse nada. Bem, eu também poderia cair fora e salvar a minha pele, no entanto essa opção nunca passou de verdade pela minha cabeça. Não que eu estivesse sofrendo com alguma síndrome do herói, nem perto disso... Mas eu não podia mais perder. Se eu fosse embora, seria como admitir que estivesse tudo acabado, que não importava o quanto eu fosse contra... O fim seria ruim.

Pro Inferno com esses desgraçados!, resignei-me em pensamentos enquanto arranjava um pé de cabra, dava uma de maratonista pelos corredores do colégio, e forçava a porta entupida de cupins do almoxarifado. A sombra de uma ideia começava a formar-se em minha cabeça, já que eu não era solidário o suficiente ao ponto de simplesmente ir lá e morrer com os três.

Sentindo os segundos correrem como se fossem minutos, revirei aquele almoxarifado em busca de algo parecido com o que procurava. Foi fácil achar as luvas de borracha, que tratei de vestir assim que peguei um grampeador enorme e empoeirado que, de longe, era a arma mais ameaçadora que eu encontraria depois do pé de cabra.

Corri de lá para cá pelo pátio enquanto fazia os preparativos, sem me preocupar com a possibilidade de ser visto. O colégio parecia estar deserto, não havia nem sequer uma merda de eletricista ou segurança ou professor por ali. Quando finalmente acabei os preparativos, surpreendi-me ao constatar que haviam se passado apenas três minutos desde que o Hugo, o Geraldo e a Cristina haviam sido arrastados para a piscina coberta. Tecnicamente, era tempo demais... Mas era o melhor que eu podia fazer.

Levantei os olhos do que estava fazendo, sentindo meus músculos tremerem pelo esforço de não fazer o menor ruído e nervoso, pois eu estava tão próximo da área da piscina que podia ouvir o choro baixo que imaginei ser da Cristina. Também ouvi algumas súplicas do Hugo e do Geraldo e fiquei um tanto aliviado, isso era bom, significava que estavam vivos.

Depois de fuçar na bolsa da Cristina, pegar seu celular e enganchá-lo em uma das muitas janelas minúsculas, essa, especificamente, afastando-se apenas alguns metros da porta por onde todos eles tinham entrado, vi a Felícia. A garota me encarava espantada, a alguns passos de distância, com seu celular em uma mão e minha mochila na outra.

Mordi o lábio inferior sabendo que não havia mais tempo, eu com certeza já estava salvando pessoas o suficiente para uma vida inteira, não precisava que a Felícia se enfiasse na lista. Portanto, lancei-lhe um olhar incisivo, sinalizei para que ela não fizesse barulho e apontei para o prédio da escola. Ela ficou obviamente confusa, mas pareceu entender o que eu queria depois que eu repeti pela terceira vez o meu conjunto de gestos.

A vi entrar no prédio da secretaria e, então, um pouco aliviado, tentei apurar os ouvidos a espera de não sei exatamente o quê. Ou talvez eu só estivesse me preparando psicologicamente.

Procurei a última chamada perdida no meu celular que estava descarregando. Liguei para o celular da Cristina e, quase que imediatamente ele começou a tocar escandalosamente.

Minha garganta estranha quando não te vejo

Me vem um desejo doido de gritar

Minha garganta arranha a tinta e os azulejos

Do teu quarto, da cozinha, da sala de estar...

Nesse momento, diferentemente do que eu havia imaginado, minhas pernas não pareceram ser feitas de borracha e o nervosismo que me inundou continha certa dose de familiaridade, o que foi estranhamente agradável. A sensação era quase igual a que eu sentia antes de uma competição: a ansiedade fazendo o ar parecer mais denso, o som da minha respiração dando compasso ao tempo, as solas dos meus pés sentindo a superfície do bloco de partida... Era muito parecido. Como um tipo de medo que te enche de adrenalina e expectativa em cima de algo que se quer fazer.

Notei que a porta se abrindo e acompanhei, com os olhos, o perfil da figura taciturna que cheirava o ar fazendo caretas. Fiquei imóvel, incomodado com o suor que fazia minha camisa grudar-se ao corpo.

Venho madrugada pertubar teu sono

Como um cão sem dono, me ponho a ladrar...

O cara virou a esquina, onde eu sinceramente esperava que a Felícia não estivesse mais. Ele não parecia ter pressa, mas xingava como se não houvesse amanhã enquanto chutava um pedaço, ou outro, de pedra que lhe interrompia o caminho. Vale dizer que um desses foi um pedregulho que se partiu em vários pedaços fazendo um arrepio correr pela minha espinha ao imaginar com que facilidade o cara faria o mesmo com a minha cabeça.

Assim que ele sumiu de vista, estiquei o braço e enganchei o emaranhado de fios que eu havia emaranhado na maçaneta da porta, entreaberta, da piscina coberta. Assim como havia arranjado antes, o resto do fio escondia-se no arbusto onde eu estivera escondido até um instante antes, sendo visível apenas o montinho de cobre desprovido de seu invólucro de plástico preto.

Andei rapidamente até a outra esquina e puxei, com força, a parte do fio que eu ainda segurava, fazendo a porta se fechar com o barulho alto do aço batendo contra o batente. Sabia que isso por si só já era um ótimo chamariz, mas acionei também o play da playlist do meu celular e ouvi, engolindo em seco, o som de um solo de guitarra repercutir pelo pátio vazio.

Uns dois segundos depois, a voz da Ana Carolina que vinha do celular da Cristina cessou, assim como as vozes dentro da piscina coberta. Rapidamente, com as costas contra a parede, escorreguei até o chão. E tudo aconteceu tão rápido que eu só consegui compreender porque eu mesmo tinha orquestrado a coisa toda.

O sequestrador A veio correndo a toda velocidade e foi recebido, no momento exato, com um golpe do pé de cabra logo abaixo de seus joelhos. No instante em que seu corpo começou a projetar-se para frente em sua perda de equilíbrio, levantei-me e acertei sua cabeça. O som oco que o atrito causou misturou-se com o choro frenético da guitarra que tocava em um volume escandaloso até que, em uma sincronia quase arrepiante, meu celular emitiu um bip e desligou ao mesmo tempo em que um barulho forte, vindo da porta, como se alguém tivesse dado um forte encontrão com ela, encerrasse momentaneamente o embaralhado de sons.

Inspirei tenso e me endireitei. Sabia que não tinha muito tempo, afinal, qual seria a resistência dessas criaturas a cargas de eletricidade, por mais altas que fossem? Eu com certeza não estava disposto a pagar para ver, lembrava-me muito bem da cara do Wagner reconstruindo-se milagrosamente depois de praticamente derreter.

Olhei para o cara a minha frente, o mesmo que quase tinha espancado o Hugo na frente da escola, e dei-lhe outros três golpes antes que ele pudesse pensar no que estava acontecendo. No entanto, não posso dizer que isso o impediu de arreganhar suas presas. Seu maxilar soltou um estalo alto enquanto suas mandíbulas começavam a aumentar ao passo que suas bochechas rasgavam-se conforme a abertura de sua boca tornava-se algo impossível de ser sustentado por uma aparência humana.

Ele pulou em cima de mim e, enquanto, com muito custo, consegui deter suas presas com o pé de cabra, afastando sua bocarra com todas as minhas forças; sentindo seu hálito quente no meu rosto, suas mãos apertavam firmemente meus ombros. Eu sentia suas unhas crescendo e sabia que se afrouxasse um milímetro que fosse os braços, diminuindo a distancia entre nós, suas garras me fariam em tiras.

Já estava mais do que à beira do desespero quando o chutei. A súbita pressão em seu ponto de gravidade o fez desiquilibrar-se, levando-me junto, agarrado por suas unhas, conforme caía com as costas no chão. Achei que era o fim, achei mesmo... Mas, assim que ele rugiu e colocou para fora uma língua enorme que veio de encontro ao meu rosto e me cegou, eu perdi o pouco controle que tinha sobre meu próprio corpo, estabacando-me desajeitadamente por cima dele, com o pé de cabra enfiado em sua garganta.

Ao contrário do que se poderia esperar, ele ainda estava vivo. Dividido entre o desespero por estar afogando em seu próprio sangue e um ódio que escurecia seus olhos, ele começou a apertar meus braços com força, tentando livrar-se da barra de ferro que eu mantinha cravada com toda a minha determinação.

— Desgraçado... — ele soltou, já nem se importando mais comigo, apenas agarrando loucamente o próprio pescoço e a barra de ferro — Eu v-vou te matar!

— Acho que não. — Sorri.

Vi seus olhos perderem o foco e seus movimentos pararem. Respirei fundo algumas vezes e caí de lado, ofegante, com os olhos pregados na porta da piscina coberta.

Um já foi, pensei enquanto corria até a porta e desenganchava o fio que fumegava.

Ao entrar, deparei-me com Geraldo e Hugo sujos de sangue. Ambos arregalaram os olhos para mim e ergueram armas improvisadas. Hugo completamente cômico com uma prancha de isopor na mão e Geraldo com uma expressão um tanto irada com uma cadeira erguida acima da cabeça.

— Vocês estão vivos! — soltei com um alívio maior do achava possível sentir e tentei abrir mais a porta, sem sucesso.

— Foi você que f-fez isso? — Hugo perguntou arregalando ainda mais os olhos e apontando para o corpo inconsciente que consegui visualizar melhor depois de me espremer para dentro pela pequena abertura já que tanto Geraldo quanto Hugo não pareciam muito dispostos a aproximarem-se da criatura inconsciente.

— Vocês estão bem? — perguntei despindo as luvas de borracha e sacudindo as mãos suadas para que pegassem ar.

— E-Estamos.

Geraldo continuou quieto, com a cadeira ainda erguida enquanto me fitava. Hugo abraçava a prancha e tremia levemente, seu olhar indo para todos os lados, como se esperasse que algum ser demoníaco fosse brotar do chão. Procurei por Cristina, meus olhos correndo pelos bancos, pilhas de pranchas e boias, vestiários com as portas entreabertas e, por fim, detendo-se na piscina.

Meu estômago se revirou e eu senti um cansaço tão grande me inundar que, minha manhã relativamente tranquila e bem humorada, parecia ter acontecido há muito tempo. Voltei a encarar Geraldo e Hugo que demonstravam ter captado meu entendimento da situação e bufei.

— Ei, me diga que sabe o que está acontecendo. Eles não podem fazer isso, isso não seria... — Hugo disse para as minhas costas, sua voz quase inaudível, conforme eu me aproximava de onde o corpo da Cristina estava.

Ela flutuava. Seus cabelos castanhos ondulando, conforme a água balançava suavemente, eram bonitos. Aproximei-me da borda e estiquei o braço, tentando reter algum traço de esperança de que ela estivesse viva já que não havia sangue. Comecei a puxá-la, devagar, com a ajuda da água que tornava seu peso nulo inicialmente e, em seguida, erguendo-a com um pouco de dificuldade.

Ofeguei pelo esforço e vi Geraldo, agora sem a cadeira em mãos, puxar o que faltava de suas pernas para a borda seca da piscina. Sua expressão era dura e um tanto distante, de certa forma, isso foi uma das coisas que mais me fez sentir mal naquele instante... Eu sempre julguei que ele fosse o tipo de cara que sorriria como um idiota em qualquer tipo de circunstância.

— Há quanto tempo ela está aí? — perguntei tentando sentir seu pulso e, logo depois, começando a fazer massagem cardíaca.

Uma, duas, três, quatro, cinco... , fui contando mentalmente.

— Não sei — Hugo respondeu agachando-se ao meu lado, o pavor dando lugar a uma preocupação muda em sua expressão. — O Matias — começou e, vendo que eu não reconhecia o nome, ele apontou em direção à entrada.

— O peso de porta?

— É, é. Então, o Matias disse para que ela entrasse assim que ela veio atrás da gente querendo reclamar por ainda estarmos aqui e querendo impedir que eu fosse surrado pelo Hector ou algo do tipo. — Ele pareceu encolher-se. — Mas quando ela entrou... E... E... E começou a obedecer tudo o que o Matias disse, uma sombra esquisita surgiu do nada e...

— Entrou dentro dela — completou Geraldo que, pelo canto do olho, percebi estar novamente próximo à porta.

— É — concordou Hugo. — Foi aí que começou a tocar uma música da Ivete Sangalo... Eles ficaram um pouco alarmados e o Hector saiu correndo lá para fora — Hugo franziu o cenho como se tudo fosse complicado demais para ele verbalizar.

— Ok, não importa... — eu disse desistindo de fazer a massagem cardíaca na Cristina e fechando, com a mão um pouco trêmula, seus olhos que permaneciam abertos contemplando o nada. — Podemos conversar depois, temos que sair logo daqui.

— Esse cara está morto? — ouvi Geraldo perguntar, parecendo temeroso enquanto dava um chute leve no sujeito que não se moveu sequer um milímetro.

— Não faço nem ideia, temos que sair daqui. — Levantei-me e forcei-me a andar, mesmo que minhas pernas estivessem dormentes e minha mente uma confusão — Pode haver mais... — comecei e percebi a pergunta em suas expressões. Não sabia o quanto tinham visto, mas, certamente, foi o suficiente para que soubessem que além de não estarem no hit homo sapiens de ser, não eram exatamente bons samaritanos. — E eu não quero estar aqui para descobrir.

— E esse aqui — começou Geraldo afastando-se um pouco de Matias —, o que a gente faz com ele? E se ele vier atrás da gente depois?

Meu estômago revirou-se mais e mais os vendo me encararem com expectativa. A verdade é que grande parte do tempo eu não sabia muito bem o que estava fazendo e, querendo ou não, eu era para lá de sortudo por estar vivo considerando-se tudo o que aconteceu — ainda que eu não me sentisse assim. Fitei o tal Matias incomodado com a ideia de matá-lo a sangue frio enquanto ainda estava inconsciente, ao mesmo tempo em que esquadrinhava o lugar à procura de algo que pudesse tornar o serviço mais fácil. Provavelmente o método mais confiável seria arrancar a cabeça, mas não era como se tivéssemos ao nosso dispor uma cerra elétrica, facão, canivete ou mesmo, um cortador de unha.

— A cabeça... — soltei debilmente. Voltei o rosto em direção à Hugo, prestes a dizer que aceitava sugestões quando a surpresa estampada em seu rosto chamou-me a atenção para um novo convidado.

Segurei firme o grampeador e o puxei de dentro do bolso, virando-me para a porta. De esguelha vi Geraldo procurando freneticamente algo mais nocivo do que a prancha que Hugo ainda segurava até tropeçar na perna de Matias e cair aos pés de uma Felícia visivelmente apreensiva e com os lábios entreabertos.

— Meu Deus, não me assuste assim! — eu disse quase deixando o grampeador cair.

— D-Desculpe, eu... — ela deu um passo à frente e estava prestes a dar outro quando a porta fechou-se bruscamente, separando-nos do que quer que Felícia quisesse dizer. Não me preocupei com o baque forte que a porta produziu ao ir e encontro com o corpo da garota, agora do lado de fora, pois eu estava ocupado demais tentando reagir a uma cobra gigantesca que se materializava onde um segundo atrás estava Matias, inconsciente.

— Meu Deus, isso não estava no livro de biologia! — ouvi Hugo resmungar e jogar a prancha que segurava contra a cobra que começava a enrolar-se nas pernas de um Geraldo em estado de choque.

Olhando mais atentamente, era possível ver a camisa do uniforme do Colégio Silvana Batista e o jeans rasgados escorregando pelas escamas conforme a cobra parecia tornar-se maior e maior e maior. Só consegui mover meus músculos quando percebi o segundo e inútil ataque de Hugo à cobra/Matias, ao acertar-lhe com um dos bancos de plástico branco bem no meio da fuça.

Soltei um grunhido inarticulado e comecei a golpear com força, usando o grampeador, a parte do corpo da cobra que envolvia e apertava o corpo do Geraldo. Não vendo nenhum resultado satisfatório vindo dos meus golpes, comecei a acionar o gatilho deixando um caminho de grampos grandes e fortes fincados em sua pele escamosa e esverdeada. Ainda que não fosse muito, Matias afrouxou um pouco o aperto e Hugo se aproveitou da situação para puxar Geraldo.

Ambos estatelaram-se para trás, a apenas alguns segundos do Mister Vou-acabar-com-suas-existências. Já eu, me defendi o melhor que pude da boca cheia de dentes que veio em minha direção, ao enfiar-lhe o grampeador pesado com todas as minhas forças entre seus olhos. Como um pró, posso dizer que é verdade que a cabeça da cobra começou a sangrar... Mas, também não acho que posso omitir o fato de ter sido pego pela cauda que se enrolou em minha perna, girou-me no ar, e atirou-me alguns metros à frente; em cima de uma pilha de boias em formato de macarrão.

Não tínhamos a menor chance, percebi, me esforçando para levantar e ficando um tanto satisfeito ao ver Geraldo e Hugo se virando relativamente bem contra a porcaria do réptil que deveria ter quase dez metros de comprimento e um diâmetro de quase cinquenta centímetros. Decidi parar de calcular o que quer que fosse, isso apenas aumentava drasticamente a minha vontade de mijar nas calças ainda que não fosse ser digno ou salvar minha vida.

— Hugo, os fios! — gritei tentando sobrepor-me ao chiado estranho que a cobra emitia e repercutia na área fechada.

— O quê? — Hugo gritou de volta enquanto corria para o outro lado da piscina junto com Geraldo que o arrastava pelo braço.

— Os fios! Os fios! — berrei de volta na esperança de que ele pudesse entender, sentindo o tornozelo que tinha sido atingido pelo Wagner, alguns dias antes, doer conforme apoiava meu peso nele. — Putz, cara... — Irritei-me e berrei: — O fios, merda!

Não sei se ele entendeu mesmo, mas tive a impressão de vê-lo assentir brevemente olhando em direção à porta entreaberta. Peguei uma rede de limpar a piscina e segurei-a com força, vendo a coisa acabar de contornar a piscina ao ir atrás do Hugo e do Geraldo, que se provavam muito bons corredores enquanto tomados pelo desespero.

Quando chegaram até mim, ergui o cabo cumprido da rede e capturei seu focinho, jogando totalmente o meu peso sobre o cabo, na esperança de que Matias tivesse a cabeça jogada contra a porta de algum dos vestiários.

Não deu muito certo.

A força da cobra gigante era simplesmente descomunal demais! O entrelaçado fino da rede rasgou-se e, ao invés de ser jogada para o lado, a cobra ficou furiosa ao descobrir-se com a cabeça atolada dentro do aro da rede que lhe apertava cada vez mais conforme ela debatia-se com os movimentos limitados, devido ao cabo longo que eu obviamente tinha soltado, já que não fazia parte dos meus planos ser jogado por aí.

Geraldo pareceu petrificar-se encarando a coisa gigante que jogava o pescoço para lá e para cá soltando chiados cada vez mais altos, mas despertou ao notar que Hugo tinha se soltado do seu aperto e corria a toda velocidade em direção à porta. A atitude pareceu deixá-lo um pouco surpreso, e imaginei que ele fosse sair correndo também se eu não lhe chamasse a atenção com um estalar de dedos.

— É a nossa chance! — eu disse apontando para a piscina. — Temos que dar um jeito de enfiar nem que seja o rabo dessa coisa aí.

— O quê? — Geraldo deu um passo para trás e voltou a encarar-me cheio de pavor e espanto.

— Anda! — eu esbravejei enquanto juntava três bancos compridos e encostava-os à parede objetivando usá-los como uma espécie de alavanca para que tivéssemos alguma chance de mover o corpanzil da tal cobra grotesca. — Anda, seu idiota! — berrei de novo, jogando uma das boias de macarrão em cima dele. — Você quer morrer?

Acho que ele pareceu dar-se conta de que a cobra não teria um ataque cardíaco nem cometeria suicídio e que, portanto, éramos nós que deveríamos dar um jeito. Então começou a me ajudar, ainda que obviamente estivesse confuso com o que quer que eu estivesse fazendo, foi empurrando o banco, assim como indiquei, já que eu, ao menos, parecia saber o que estava fazendo.

Começamos a empurrar o corpo da cobra e ela voltou a considerar nossa existência como algo digno de atenção. Tentou arrancar mais uma vez o aro que se enganchava em sua cabeça, sacudindo o cabo comicamente para lá e para cá e acertando uma vez a cabeça de Geraldo que soltou um gemido, mas manteve-se firme empurrando os bancos comigo — ainda que notasse seu evidente esforço em não olhar em direção a Matias que começava a dar cabeçadas na gente.

Meus braços logo ficaram dormentes, mas me muni de uma nova energia ao perceber que parte do seu rabo balançava de lá para cá dentro da água. Voltei a encarar Matias, tomando-o por uma nova perspectiva, antes achava que ele só não havia avançado com tudo para cima da gente por... Sei lá, algum milagre. Mas agora eu podia ver mais claramente: parte do seu corpo não só embolava-se próximo às portas dos vestiários como eu achei inicialmente, também adentrava algum dos boxes cravando de pedaços grossos e pontudos de cacos de vidro àquela parte de seu corpo que ainda parecia enganchado em alguma coisa.

Fui inundado por uma animação quando percebi isso e sorri, esperançoso, fazendo Geraldo lançar-me um olhar aterrorizado que fingi não perceber. Aumentando ainda mais o embalo, ouvi o rangido da porta se abrindo e tive certeza de que era Hugo. Concentrando-me um pouco, consegui ouvir o atrito do fio com a porta de metal.

— Felipe! — Hugo gritou e, pelo canto do olho, o vi vestindo o par de luvas que eu havia largado na entrada e segurando o mesmo fio que eu usei para nocautear Matias pela primeira vez.

— Joga! — berrei, minha voz rouca e quase ininteligível. — Joga! — repeti e ele jogou o fio amarrado em uma pedra, no fundo da piscina. Assim como imaginei, o cumprimento mal deu para que o cabo chegasse até a piscina, mas a pedra foi uma sacada inteligente. Se Hugo não tivesse tido a ideia de amarrá-la, provavelmente o fio mal encostaria na água, já que, tensionado como estava, ficava apenas alguns centímetros abaixo da superfície da água.

No instante em que o fio encontrou a água a cobra gemeu e contorceu-se, fazendo seu enorme rabo jogar água para todos os lados. Eu e Geraldo nos abaixamos, um tanto gratos por termos uma pilha de bancos de plástico nos separando do corpo da cobra.

— Deu certo? — perguntei ao Geraldo já que ele estava na ponta e tinha uma visão melhor da situação.

— Sim... — ele começou a dizer quando um baque me assustou e me empurrou para frente conforme as cadeiras de plástico eram empurradas para frente. — Não! Não, cuidado!

Geraldo pulou para o lado, evitando por pouco ser arrastado pela pilha de cadeiras junto comigo. A cobra caiu com a cabeça por cima de mim, não me esmagando apenas por causa do encosto de um banco que sustentou seu peso enquanto balançava loucamente, dando mostras de que logo cederia. Soltei um grito apavorado até perceber que Matias estava desmaiado e que o que me arrastava para frente e, em seguida, em direção à água era o seu corpanzil descomunalmente enorme que se empilhava no fundo da piscina e servia de âncora para o resto.

Não deu tempo de pensar em muita coisa, achei mesmo que fosse morrer conforme fui batendo contra as cadeiras e sentindo a queda eminente. De fato, de certa forma, caí. Quero dizer, meu corpo projetou-se para frente e eu ia meter a cara no meio de toda aquela água quando os portões do além foram fechados pelo bastão de madeira que, ainda preso à fuça da cobra, enganchou-se na escada da piscina.

Minha testa e o resto do corpo, bateram com tudo contra o bastão, fazendo-me, em um instante surreal, fitar o rosto da cobra como se fosse o meu reflexo na água por um meio segundo que pareceu passar devagar demais, enquanto meu corpo era puxado e estava prestes a mergulhar.

Foi aí que um par de braços me agarrou pela cintura e me puxou para trás com força. Bati a cabeça no chão e tudo de que tive consciência por uns instantes delirantes, foi de como eu preferia ter mergulhado na água a sentir aquele latejar angustiante.

“E morrer, idiota”?, ouvi a voz zombeteira de Gregório questionar em alguma parte da minha cabeça e abri os olhos, assombrado.

— Você me salvou — eu disse arregalando os olhos para Geraldo, que ofegava ao meu lado.

— Não pareça tão surpreso — ele resmungou vagamente ofendido e, um tanto receoso, acrescentou: — e ainda estou preocupado com a ideia de que aquela coisa vá abrir os olhos e vir atrás de nós de novo.

— Na verdade... — comecei a dizer, suspirando ao me deparar com a figura conhecida na soleira da porta, novamente aberta — Talvez eu devesse ter trancado... — acrescentei me forçando a ficar de pé e sem nenhuma carta na manga, consciente demais da baba espessa e dos dentes afiados.

Hugo acompanhou o meu olhar e moveu-se rápido demais, escorregando e se aproximando de nós meio que engatinhando. Geraldo pareceu ficar rígido e vi seus olhos correrem pelo espaço a procura que algo que pudesse servir de arma assim como eu tinha feito não muito tempo antes. Tipo, muitas vezes.

— Eles são imortais? — minha voz ainda estava meio rouca.

A criatura grotesca que, supostamente, eu tinha matado antes de entrar na piscina coberta se transformou ainda mais quando seus olhos me focaram. A pele parecia algo entre o cinza e o preto, as presas foram descendo para além de seu queixo e suas mãos ficaram maiores e cheias de garras. O processo todo não durou nem dois segundos, mas foi o suficiente para que nós três ficássemos imóveis, hipnotizados e apavorados.

Não havia para onde fugir e não havia armas. Tudo o que poderíamos arranjar era tempo. Apertei o braço de Geraldo e olhei rapidamente em direção aos vestiários. Ele pareceu captar a mensagem e, agarrando o braço do Hugo, correu atrás de mim em direção a eles no mesmo instante em que a coisa parada na porta decidia avançar.

Eu praticamente derrapei ao entrar vestiário adentro e fechei a porta assim que Hugo e Geraldo se jogaram, ao mesmo tempo, para dentro. Senti o encontrão da besta, do lado de fora do vestiário, com a porta. Firmei as pernas e pressionei o ombro com todas as forças, já que não havia tranca. Geraldo logo veio me ajudar e Hugo parecia procurar algo que servisse para travar a maçaneta já que estávamos aguentando a duras penas.

Do outro lado uma voz divertida dizia:

— Hugo... Você gosta mesmo de envolver seus amiguinhos, não é? Gosta de fazer do jeito difícil, é?

Senti um arrepio correr pela espinha ao imaginar aquela voz, tão humana, saindo daquela mandíbula bizarra. E não foi por menos que, quando a porta abriu o suficiente para que a mão cheia de garras do cara agarrasse o braço do Geraldo, eu nem pensei e já meti uma pisada tão forte na mão do bicho, que até esqueci que aquele era meu tornozelo machucado, e tão pouco previ a dor dos infernos que se sucedeu conforme meu pé bateu desajeitadamente acertando a parede e a mão.

— Não tá dando, não tá dando... O que a gente faz? — Geraldo começou a sussurrar cheio de pavor e expectativa.

— Eu não sei, ok? Eu não sei.

Hugo trouxe uma mangueira e tentou fazer uma trava não muito eficiente, mas que pareceu ajudar um pouco. Estávamos exaustos quando um silêncio incômodo se instalou conforme o cara parou de tentar arrombar a porta.

Troquei um demorado olhar com Geraldo que me indagava silenciosamente o que isso significava, mas, putz, eu não fazia nem ideia!

— Sério, eu cansei — ouvi a voz debochada de uns minutos antes dizer, de forma mais animalesca, alguns instantes depois de um arranhar ensurdecedor começar a estraçalhar a porta de metal.

Eu e Geraldo pulamos para longe da porta na mesma hora e olhamos, embasbacados, as garras que se enfiavam no metal e o rasgavam como se fosse um pedaço de manteiga. Não era muito difícil imaginar aquilo chegando até a minha garganta e eu sabia que aquilo seria o fim. Tipo, O fim definitivo.

Olhei para Hugo que ainda estava à esquerda da porta, segurando a mangueira firmemente. Aquilo era tudo que ainda mantinha a porta fechada... E não por muito mais tempo. Foi aí que três sons baixos e secos pareceram cortar o ar... E tudo parou. As garras cravadas na porta, à apenas alguns passos de nós, ficaram imóveis. O ar tornou-se mais denso, como chumbo, e o som de passos ditou a passagem do tempo...

— Felipe? — ouvi uma voz contida chamar e só então percebi que mantinha meus músculos tão rígidos e meus pés tão firmes no chão, que chegava a ser doloroso em todos os aspectos.

Sorri, aliviado e dei um passo em direção às garras.

— Estamos aqui, Bagdá.

— Sei que está aí, mas está bem? — sua voz parecia um misto de alívio e bom humor, foi reconfortante — Espera, quantos estão aí?

Dei uma risada e olhei para ambos, Hugo e Geraldo, ainda imóveis mas vagamente mais relaxados.

— Mais dois. Só mais dois — respondi vendo as garras voltarem, lentamente, a tornarem-se dedos. — Ele está morto?

— Eu espero — ele disse, e ouvi o baque seco do cadáver sendo jogado para o lado.

Vi os olhos pequenos do Bagdá, espiando-nos pelas frestas deixadas pelo Hector anteriormente e dei um passo em direção à porta.

— Pode soltar, Hugo — eu disse suavemente, tirando a mangueira de suas mãos que tremiam e abrindo a porta — Muito bom ver você. — Sorri para o velho senhor careca enfiado em seus trajes antiquados e trazendo, em mãos, uma pistola equipada com um silenciador.

— Obvio que é. Estão feridos? — ele perguntou, seus olhos correndo de cima a baixo por cada um de nós.

— Não e-estamos. Mas o que foi isso? O que aconteceu? — Hugo soltou tão rápido que quase não o entendemos. Geraldo permaneceu quieto, mas eu via, pelo jeito que encarava Bagdá, que aguardava as respostas tão ansioso quanto o Hugo.

— Nenhum palpite? — Bagdá sorriu de um jeito esperto para Hugo e então começou a arrastar o corpo do cara que até um minuto atrás os fatiaria.

— Ei, ei... Espera... Bagdá, e a garota que estava na entrada agora há pouco? — saí depressa até o vestiário — A Felícia...

— A loira, né? Sossegue, ela está bem. Está meio tonta e com o nariz sangrando, mas bem — ele disse amarrando firmemente os pulsos do monstro tecnicamente morto (não dava para confiar) com uma correntinha fina e prateada. — Felipe, me ajuda a tirar aquele da água — ele meio que ordenou e eu tirei os sapatos, seguindo até a borda da piscina, onde o Matias agora flutuava. Vi o cadáver da Cristina e fiquei enjoado, voltando novamente meu foco para o Matias e me certificando de que o fio descascado não estivesse mais lá quando eu fosse entrar na água.

— E vocês — acrescentou Bagdá —, fiquem de olho nesse aí.

Geraldo assumiu um olhar compenetrado, encarando indiscriminadamente o nosso quase assassino e se afastando meio passo, enquanto Hugo respondeu mais firme do que eu poderia supor:

— Sim, senhor.

Mergulhei fazendo careta, não era bem assim que eu queria entrar na piscina... Puxei o corpo inconsciente para a borda e vi Bagdá puxando-o habilmente para fora e amarrando-o também com um fio fino e prateado.

Impulsionei-me para fora da piscina e senti o peso das minhas roupas, assim como o meu tornozelo voltar a doer. Eu tinha mais do que ferrado com ele. Suspirei, sacudi os meus membros e vesti a camisa seca que eu havia tirado antes de mergulhar.

— Você! — Bagdá apontou para Geraldo — Venha comigo, me ajude a carregar esse aqui.

Geraldo não discutiu. Andou quase correndo até Matias e ergueu-o pelos braços enquanto Bagdá fazia o mesmo com suas pernas.

— Vocês dois, fiquem de olho nesse aí.

Olhei desanimado para Hector e não disse nada. Não estava a fim de fazer mais nada, já tinha sido muito para uma vida. Levantei-me e, para o meu desgosto, manquei até a porta. Felícia estava apagada, recostada na parede a dois passos da porta que levava ao caos.

— Será que ela viu alguma coisa? — Hugo apareceu atrás de mim e começou a pressionar um pedaço de pano no nariz de Felícia, que sangrava.

— Nem ideia — suspirei e então travei. — Putz, tá ouvindo? É a polícia!

— Pode ser uma ambulância também... — Hugo disse e ergueu um pouco a cabeça da Felícia como se isso fosse ajudar o sangue a parar — Será que ela pode ter dificuldade pra respirar se eu virar a cabeça dela assim?

— O quê? — olhei para o Hugo e franzi o cenho. — Ah, sei lá. Tá ouvindo? É a polícia — comecei a sussurrar: — Vamos nos esconder.

— Ei, espera... O quê? Por quê? — Hugo também começou a sussurrar enquanto eu começava a tentar erguer Felícia pelo braço e, de esguelha, via um certo movimento no portão traseiro.

— Me ajuda aqui — ordenei, jogando o outro braço dela sobre o ombro dele. — Vem, vamos carregar ela até aqueles arbustos.

— Sem ofensas, mas... é um esconderijo muito ruim.

— Meu tornozelo tá ferrado aqui, ok? Nem a pau que eu conseguiria carregá-la mais longe que isso.

— Hã... — Hugo e eu içamos Felícia ao mesmo tempo e, por uns instantes, achei que ele fosse cair para o outro lado com o peso dela. — Ela é pesada...

Fomos o mais rápido que conseguimos até o esconderijo pretendido e nos abaixamos.

— Eles vão nos achar e aí vai parecer que somos culpados.

— Hugo, olha... Sei que você é inteligente, mas... Pensa só: e se os amiguinhos do Hector e do Matias ficarem sabendo que nós somos as únicas testemunhas/coautores das mortes deles... O que acha que eles vão fazer?

— Bom, tecnicamente, eles não morreram... E, cara, é a polícia... Meu tio...

— Hugo, cala boca. Estão vindo. — Abaixei a cabeça dele contra a grama sem cerimônia e espiei através da sebe bem aparada — É o Borges e àquela escudeira dele.

— Ah, está falando da Dona Normélia?

— Eles acabaram de entrar na piscina coberta — sussurrei ainda mais baixo.

Passaram-se uns dois minutos com ambos os policiais correndo de lá para cá. Borges parecia furioso e o ouvi mencionar o meu nome mais de uma vez. Ele estava prestes a arranjar uma força tarefa para me achar, quando comecei a engatinhar pela lateral da piscina coberta, para enfim contorná-la e aparecer do outro lado com a cara e a coragem.

Hugo não estava concordando muito com a ideia de nos escondermos, mas também não pareceu aprovar a minha ideia. Em resposta às suas sobrancelhas franzidas, dei de ombros e chamei o delegado Borges. Não haveria nenhum sentido em continuar me escondendo se ele, de alguma forma, tinha certeza de que eu estivera envolvido... Acabaríamos sendo encontrados de qualquer forma.

E foi assim que eu fui parar na viatura, que fedia a alho, do delegado.

Notas finais
Sei q num ando muito criativa com os nomes dos caps, mas espero que estejam gostando do conteúdo msm assim. =D Bjus, att^^