Noite

30 O Assassino


_10 de Fevereiro _

Acordei ainda recostado à mesma parede. Minha primeira certeza foi de como não tinha sentido nenhuma falta do meu celular nesses dias em que o tinha deixado na casa da Ângela. Ouvia-o fazer coro com o despertador da minha mãe, já que eu havia me esquecido de desprogramá-lo, e trincava os dentes de irritação. Levantei sentindo cada músculo do meu corpo reclamar e chutei a arma para de baixo da cama, após encará-la com certa amargura por um meio segundo.

Entrei no chuveiro e tomei um banho demorado, gostando do toque frio da água na minha pele. Nunca me senti tão cansado após acordar. Era diferente da minha rotineira necessidade de continuar na cama de olhos fechados até que as pálpebras se fundissem. Parecia que algo apertava meu cérebro e tornava os passos difíceis. Eu estava esgotado.

Bufei e concentrei-me em esvaziar minha mente por alguns momentos, sem qualquer êxito. Um turbilhão de emoções contraditórias instalava-se cada vez mais fortemente dentro de mim. Me sentia quase eufórico e o êxtase que começava a tomar conta de mim parecia deixar uma sensação boa na boca do estômago. Eu podia estar um caco, mas isso era insignificante, afinal, eu lembrava-me dos lábios dela, do pescoço delicado, dos cílios longos, dos cachos que escapavam do coque... Cada detalhe era tão vívido e tão real que parecia errado. Vários foram os momentos em que vi a minha linha de raciocínio desviar-se da pilha de problemas potencialmente mortíferos para os breves momentos da tarde de ontem. Tentando entender... Querendo arranjar um jeito de alcançá-la de alguma forma.

No fim,, admiti com um sorriso derrotado enquanto sentia os pontos atrás da minha orelha arderem pelo contato com a água, tudo parece ter você no centro, Tabhita.

Mais tarde, tomei meu café da manhã vagarosamente. Meu pai tinha chegado de madrugada, de um plantão, e estava dormindo. Meus tios não tinham se levantado ainda, então, apenas nós dois, nos sentamos à mesa e comemos em silêncio. Até mesmo minha mãe, que normalmente tenta mostrar-se alegre e animada, parecia distante. Vi-a colocando mais açúcar que o normal no café e estudei seu rosto sem expressão. Percebendo que eu a encarava, ela apenas sorriu como de costume e perguntou-me se eu me sentia bem, se precisava ir ao hospital. Neguei e, em seguida, sem querer me demorar mais no assunto, rumei à casa do Bagdá assobiando baixo.

O sol estava brando e aconchegante. Por um tempo, dediquei-me a contemplar os resquícios de vermelho que ainda adornavam a cidade, mesmo com o fim do festival. Era como se cada poste, casa ou pedra se lamentasse pela brevidade do evento. A cidade estava notavelmente mais vazia, e as pessoas já não ficavam acordadas até tarde aproveitando as serestas, os brinquedos, as apresentações e competições.

Dei várias voltas e certifiquei-me de que não era seguido antes de finalmente parar em frente à porta oval da casa do velho detetive. Senti-me meio idiota fazendo isso, mas não me incomodei. Peguei a aldrava e bati várias vezes, como não obtive resposta, acabei por ir embora frustrado. Queria muito mostrar aqueles números ao Bagdá e ouvir sua opinião sobre o conteúdo. O cara parecia estar praticamente incomunicável, não podia arranjar um celular, não? Eu já estava começando a ficar com raiva da vozinha feminina da caixa de mensagens.

Dei várias outras voltas ao sair de lá e fui ao cemitério. Os muros de pedra e o portão enferrujado pareciam ter outro aspecto sob a luz fresca da manhã. Estava pensando em dar uma olhada nas lápides mais antigas, só para matar o tempo, quando ouvi um pigarrear rouco que teria me assustado se eu não estivesse ganhando imunidade recentemente.

— Ah, é você, João. Bom dia — cumprimentei ao avistar a figura enorme, musculosa e constrangedoramente encapuzada.

— Olá — ele resmungou rapidamente antes de começar a andar, fazendo um sinal para que eu o seguisse assim como fiz ontem.

— João e essa máscara? — disse para suas costas que começavam a embrenharem-se na mata. — Você não acha que é realmente esquisito andar com isso na cara?

Ele não respondeu, e eu não tentei mais puxar assunto. Com o João as coisas eram assim, falar só quando necessário. Não era tão desconfortável, era mais questão de acostumar-se, o que não foi difícil já que não costumava conversar muito com as pessoas. Já me disseram que eu seria um perfeito ouvinte de monólogo se tivesse a cara certa. Ainda me pergunto o que isso quer dizer.

Chegamos à clareira e, depois de algumas rodadas tentando acertar uma árvore de tronco ainda mais fino que a de ontem, João achou que já era hora de tentarmos algo mais dinâmico. Ele me entregou algumas balas para que eu pudesse recarregar o revólver e fez o mesmo com uma pistola, pontuando seus movimentos com comentários sobre prestar atenção na postura do adversário e em seus olhos.

— Repare em sua expressão — ele dizia enquanto montava a arma mecanicamente. — Se você estiver mais calmo, mais concentrado, souber dizer onde ele vai atirar e tiver sorte, a vitória é sua.

Muita sorte.

— Não acho que vampiros usem pistolas ou revólveres — Opinei e, mesmo não podendo ver as variações nas feições de João, pude jurar que ele sorriu — Aliás, por que eu não posso usar uma semiautomática também?

João me mediu com o olhar e deu de ombros.

— Bagdá acha que você pode acabar se matando.

— Ele me deu um revólver — Frisei como se fosse bastante esclarecedor.

— É, ele te deu, não é? Ele queria que você pudesse se defender, não que fosse atrás de confusão. — ele falou e pareceu ponderar. — Uma arma é uma arma, não importa o que digam ou como enfeitem a situação com motivos e circunstâncias. Foi feita para machucar, para matar... Seja um revólver, uma pistola ou uma metralhadora. Tenha isso claro em sua mente. — Sua voz parecia ter certo peso e eu soltei um suspiro ao encarar a .38 que parecia dotada de novas cores. Me senti um verdadeiro garotinho ao ouvir João destrinchar um tema que vinha evitando desde que, impulsivamente, havia pedido à Bagdá para que me ensinasse a atirar. Eu realmente ficava nervoso ante a possibilidade de atirar em alguém, mas, em igual intensidade, sentia uma incrível necessidade de fazer o que estava fazendo. Nenhuma parte de mim duvidava do quanto eu, provavelmente, me arrependeria caso não tentasse fazer nada.

Se eu deixei ou não transparecer meus pensamentos através da minha expressão, João não demonstrou. Em um tom mais ameno, disse:

— Pistolas eles usam, o que eles não fazem é hesitar.

— Então como posso ser mais calmo, concentrado e isso e aquilo? — perguntei depois de demorar uns dois segundos para perceber que ele estava respondendo à minha primeira pergunta. — Putz, eles são vampiros! Lobisomens e, sim, eu sei disso! Não me olhe assim.

— Augusto não me disse o quanto você sabe e isso não me importa, uma boa bala de prata no lugar certo mata até o mais feroz deles — esclareceu com descaso. — É com licantropos que você tem que se preocupar, garoto. — Seu tom era paciente e claro, como se tivesse muita experiência em ensinar adolescentes a atirar em lobisomens e vampiros. — E é aí que a parte de ser calmo e concentrado entra — ele pareceu se animar, começando a falar antes que eu pudesse perguntar qual era a diferença entre um lobisomem e um licantropo. Não era a mesma coisa? — Vampiros não hesitam e são um tanto frios, mas licantropos... licantropos, não. Eles têm o mesmo desprendimento da noção de consciência e de culpa que os vampiros, mas eles são mais volúveis. São presunçosos, raivosos, incontroláveis e sádicos.

Arqueei as sobrancelhas comparando a descrição com as minhas lembranças do Wagner. Eu tinha certeza de que ele era um vampiro, mas ele parecia ser tudo isso... Raivoso, incontrolável, sádico, presunçoso...

— Isso não faz sentido. Vampiros também são assim.

— Sim, são... às vezes. No entanto eles são mais insensíveis que licantropos. Em um licantropo as características que citei costumam ser regra, já em vampiros, são circunstanciais. Obviamente, há vampiros raivosos e loucos, mas a maioria sequer franze os lábios de desagrado. Eles não costumam ter expressões... Eu diria que isso faz parte de morrer. Valores, consciência, amor, sonhos... Tudo isso se perde. Tudo o que há de bom em ser humano. Só resta a fome.

Não se encaixava. Wagner era um cretino, era o escárnio puro, totalmente repugnante, mas não era... indiferente. Porém, a ideia de que ele fosse um licantropo, ainda que as características batessem, parecia sem nexo. Ele era um vampiro, ele havia bebido meu sangue.

— Isso continua meio confuso — comecei a dizer tendo plena consciência de que minha cabeça começava a latejar, provavelmente algum efeito da hipnose do Wagner por tentar expor o pouco conhecimento que eu tinha sobre o assunto. — Se só há fome, por que eles se esconderiam? Indo por essa linha... Eles são pouco mais que monstros, não é? Por que se importariam? Se fosse em BH ou São Paulo, cidades maiores, quem sabe... Mas estamos em Martina, uma cidade minúscula! — Parei alguns segundos, organizando meus pensamentos e imaginando quantos estariam morando na mansão no meio do mato. — Eles não parecem ser poucos... Não seria mais fácil apenas não se esconder? A única ameaça que a cidade ofereceria viria por parte da polícia e o Delegado Borges mal parece saber onde é o próprio nariz! Por que não optar por apenas sair e se esbaldar com o sangue de todo mundo?

João pareceu considerar minhas palavras por alguns segundos até que respondeu dizendo:

— Eu disse que só resta fome, Felipe, mas os sentimentos não desaparecem, que dirá a razão! É mais fácil morder pelas beiradas e deixar o centro achar que está tudo sob controle do que pegar o centro e perder o domínio das beiradas, compreende? Estou longe de entender o que toda essa corja pensa, eles são diferentes dos outros que conheci. Eles são mais numerosos e estão juntos. Mas não duvide quando digo que eles não se importam. Não são afetados. Tudo o que resta do que foram são desejos e gostos distorcidos. E tudo isso para quê? Para preencher o vazio, o vazio da fome.

Sustentei seu olhar perguntando-me o que tinha acontecido com ele, obviamente tudo o que ele parecia saber não era fruto de um hobby perigoso e cheio de adrenalina. Eu podia dizer pelos círculos castanhos que pareciam cada vez menores ao envolverem as pupilas que se dilatavam mais e mais conforme seus sentimentos tornavam-se claros em suas palavras.

Ele tinha raiva, muita raiva.

Deixei mais uma vez minha mente deslizar para a tarde de ontem, para os sorrisos e o toque quente da Tabhita. Eu sabia que ela não era mais humana, seria impossível que ainda fosse. Talvez ela até tivesse essa mesma natureza torpe enraizando-se em sua personalidade... E, no entanto, lá estava eu cerrando os punhos e deixando-me enganar, permanecendo em silêncio enquanto via João recompor-se. Indaguei-me o que ele diria se soubesse que, provavelmente, jamais passaria pela minha cabeça delatar ou abandonar a Tabhita, mesmo que talvez ela fosse apenas um esboço mal feito do que havia sido quando viva.

Não importava, ainda havia o talvez. Sim, o talvez! Recusava-me a lidar com a situação seguindo pelo caminho mais lógico quando a voz de João pareceu penetrar em meio ao meu conflito interno, e eu forcei meus pensamentos a focarem-se nele: a figura enorme e musculosa que me lançava um olhar incisivo.

— É por isso que é importante prestar atenção na expressão de quem vai atirar. Vampiros raramente mostram qualquer abertura, mas é fácil mexer com a cabeça de um licantropo e fazê-lo perder o controle. Se estiver com raiva o suficiente, por mais inteligente que seja, vai largá-la e avançar com tudo para cima de você.

— Daí eu posso ser dilacerado e morrer...

— Ou meter um tiro bem no meio da cabeça — completou apontando o indicador para o ponto entre as suas sobrancelhas, aparentemente satisfeito.

— É.

João provavelmente gastou toda a sua saliva durante aquela súbita inspiração que me levou a entender algumas coisas. Posteriormente, abriu a boca só para instruir-me sobre as melhores alternativas de movimentos e como proceder com um alvo móvel. Nada muito complicado, no fim das contas, a maioria era instinto. A função do treino era ajudar meu cérebro a ter um norte quando o medo entrava na conjuntura. Basicamente, quando a coisa era real. Passamos o resto da manhã assim, perdi a conta de quantas vezes João derrubou-me no chão, imobilizou-me e apertou o gatilho.

— Morreu — ele sempre dizia quando enfiava minha cara na terra seca —, de novo.

Fui embora sentindo mais nitidamente meu corpo inteiro doer conforme o sol foi secando o meu suor e a adrenalina foi se desvanecendo. Putz, eu só lamentava por quem subestimava balas de festim... As porcarias faziam um barulho danado, eu com certeza me sentia meio surdo!

Não comi muito no almoço e não prestei atenção na conversa dos meus tios e dos meus pais. Minha mãe com certeza parecia estar com um humor muito melhor, creio que por causa do raro dia de folga do meu pai. Caíque e Luan, como sempre, pareciam estar montando trincheiras de guerrilha com a comida, totalmente alheios a todo resto. Um dia perfeitamente normal, em família, e lá estava eu me sentindo incapaz de preencher minha mente com pensamentos positivos.

A ansiedade me corroía por dentro, ante a perspectiva de encontrar-me com a minha mãe em frente à delegacia, depois da aula, para uma nova sessão com o agradável delegado Borges. Ah, como eu queria uma piscina... Já estava me decidindo a convencer o estagiário a me liberar para dar pelo menos um mergulho! Ao longo dos últimos anos, sempre que me sentia frustrado ou irritado, eu ia atrás de uma piscina para aliviar a tensão. Não era um hábito do qual eu pudesse me livrar facilmente.

Tive que lavar a louça e aguentar os dois pirralhos, um agarrado em cada perna, enquanto eu andava para pegar as panelas e refratários que a minha mãe tinha colocado sobre a mesa. Eles pareciam estar se divertindo bastante, com os pezinhos descalços apoiados fortemente sobre meus tênis e as mãos, meladas de comida, agarrando minha calça jeans.

Saí de casa e cheguei ao Silvana Batista sem maiores distrações, conversando com a Felícia ao invés de ignorá-la quase 100% do tempo. Não foi tão ruim. Senti-me até mesmo meio malvado por já tê-la deixado falando sozinha várias vezes. Ela continuava com o hábito de discursar sobre bobagens meio estranhas, mas estava carregada de um entusiasmo que não me fez sentir oprimido como acontecia normalmente.

É, isso significa que eu estava sim de bom humor.

O sinal tocou e fui para a sala, meu vizinho de carteira acenou para mim e voltou a conversar com o carinha que tinha dito querer, como objetivo de vida, lamber o próprio cotovelo na primeira semana de aula. Sentei-me e logo vi o professor de geografia, Ivanildo, entrar com aquele jeito simpático dele. Alisando repetidamente o vasto bigode, foi logo descrevendo pela milésima vez como o acampamento seria legal e quais os itens (dentre eles: repelente e baralho) todos deveriam levar para que pudessem se divertir ao máximo. Tinha um jeito meio eufórico demais e um tanto ingênuo, mas achei impossível não gostar dele desde a primeira aula. Até mesmo uma lesma perceberia o quanto ele se importava com seus estudantes, e tenho que dizer que sei muito bem o quão raro são professores assim.

Poderia ter continuado desse jeito, rindo vez ou outra com as piadas sem graça que ele formulava, mas um barulho alto retumbou deixando todos confusos e fazendo-o largar uma frase pela metade. Algo como a conflituosa mescla do arranhar feroz de grossas barras de ferro, guinchando estridentemente, com um desordenado baque seco que pareceu fazer a estrutura do colégio tremer.

Todos pareceram se entreolhar em silêncio. Ouvi os bips emitidos pelo ar condicionado enquanto ele se desligava no mesmo instante em que as luzes fluorescentes se apagavam. Senti um arrepio correr pela espinha. A sala não estava escura, afinal, eram umas duas horas da tarde, no entanto o dia estava nublado, com tênues resquícios de sol em meio às nuvens cinzentas. Somando isso à estrutura da sala que não favorecia a iluminação por meio de luz natural, uma estranha atmosfera espalhava-se; como um anoitecer abafado e carregado de tensão.

— É um terremoto! — ouvi alguém dizer tendo em resposta algumas risadas nervosas e gritinhos apavorados.

— Calma, calma — solicitou Ivanildo, após o inicio do murmurinho frenético que começava a quebrar, aos poucos, o estupor causado pelo susto. — Deve ter havido algum problema com a instalação elétrica. Alguma queda de disjuntor, nada demais... Não se agitem, vou verificar. — Ele tentou explicar, abanando as mãos.

Naturalmente, não fiz nenhuma observação quanto ao barulho suspeito que precedeu à queda de energia. Estava meio apreensivo, a paranoia vinha se instalando no meu sangue, e vagamente divertido com os comentários medrosos ou animados que se destacavam em meio às vozes ansiosas e baixas. Alguns falando de alienígenas e, rindo, outros: defendendo o lance do terremoto, especulando sobre ladrões ou tendo ideias para o acampamento. Isso, e o Hugo que tentava acalmar a todos com um cômico nervosismo embargando sua voz:

— Espera, gente... É melhor ninguém sair da sala... — dizia hora ou outra frustrando os planos de alguém. — Devem ter ligado algum daqueles aparelhos que gastam muita energia no laboratório de química e então o disjuntor desarmou. Não deve ser nada demais. Ou talvez algum fusível tenha queimado, mas não deve ter sido nada demais...

Por um vago instante, nossos olhos se encontraram e eu soube que, tanto quanto eu, ele estava longe de acreditar naquela balela de disjuntor. Isso foi meio engraçado e me fez ter uma vontade quase clínica de saber o que se passava por aquele seu cérebro saturado de QI. Não conseguia imaginar o Hugo dando ouvidos às mesmas teorias de conspiração que eu.

— Provavelmente era um modelo trifásico, mas a construção é velha... Aí então... — continuava mais para si mesmo do que para o resto da turma.

Bem, ficamos enfurnados por uma hora inteira naquela sala, sem que ninguém aparecesse para dizer ou explicar nada. Eu já estava desesperado para sair dali, mesmo estando jogando cartas com o meu vizinho de carteira, com o Sr. Cotovelo, com a Aline e mais dois carinhas; um com mais espinhas do que achava possível existirem no rosto de uma pessoa: Robson, e o outro magrelo demais e pele muito bronzeada: Joaquim.

Aline, que não sabia como jogar buraco inicialmente, junto com sua duplameu vizinho de carteira (que descobri chamar-se Geraldo), ganhava todas as rodadas. Estavam evidentemente roubando, a julgar pelas vezes que vi um ou outro retirando alguma carta da manga do casaco. O cara do cotovelo era a minha dupla e era completamente hilário tentar decifrar os diferentes sinais que ele fazia para mim. No fim das contas, eu apenas sorria como se tivesse entendido e fazia o que achava que deveria fazer.

Suspirava, ouvindo Robson e Aline começarem a discutir pela milésima vez, quando o professor Ivanildo entrou na sala. Só percebi sua presença depois de dois ou três pedidos de atenção de sua parte. Aos poucos, a sala foi ficando mais quieta, todos voltando as cabeças para o professor que, como sempre, parecia uma espécie de pássaro em seus modos irrequietos.

— Aconteceu um acidente — começou e adicionou, imediatamente, a fim de evitar o recomeço do burburinho: —, mas não foi nada grave. Um motorista de caminhão perdeu o controle do veículo aqui na rua da escola e acertou dois postes. Vários cabos estão soltos e a escola está sem energia, mas logo resolveremos isso. Os eletricistas já foram chamados. O motorista também não se machucou muito e já foi levado para o hospital.

Passados uns dois segundos de surpresa e assimilação, o professor passou a ser bombardeado por perguntas até que, por fim, os mais piadistas alegavam ferrenhamente que o motorista do caminhão não dormia há uma semana e que vinha se mantendo na base do rebit.

— É, e que tipo de carga o caminhão carregava para que ele estivesse tão desesperado? — perguntei ironicamente a um dos que teorizavam.

— É óbvio que a polícia já confiscou tudo — disse uma garota.

— É, a polícia sempre confisca tudo, Felipe — Aline riu e eles voltaram às teorias de conspiração.

Ficamos de molho por mais algum tempo, todos loucos de excitação, tentando espiar o desastre pela janela sem nenhum êxito. Com o fim do horário de geografia, o professor Clemente logo apareceu e começou a fazer algumas dinâmicas matemáticas para nos entreter, mas, obviamente, não estava dando muito certo. Apenas algumas pessoas estavam prestando atenção nele enquanto outras continuavam a jogar cartas ou conversar. Passados mais uns quinze minutos, saí de fininho e fui tentar espreitar o que estava acontecendo do lado de fora.

Alguns professores ralharam comigo e me mandaram voltar à minha sala depois de ouvirem minhas explicações terrivelmente improvisadas, mas nenhum deles segurou meu braço e me levou até lá, então... Continuei indo em direção à entrada do colégio, mas desisti quando percebi alguns dos seguranças parados por ali com cara de poucos amigos. Eles não me deixariam passar, era certeza.

Pensei em ir à biblioteca, mas eu não tinha lá muita disposição para frequentá-la em dias normais quanto mais quando um caminhão resolvia derrubar dois postes. Por que isso não poderia acontecer em um dia de prova?

Professor Clemente disse-nos que estávamos dispensados e orientou-nos a sair pelos fundos do colégio. Também frisou mais de uma vez que os seguranças estariam de olho caso algum engraçadinho quisesse se aventurar pela frente do colégio, onde ainda era perigoso por causa dos fios e da parte do muro que quebrara.

— Isso quer dizer que não teremos aula de física, hein! — Geraldo, meu vizinho de carteira, apareceu do nada e comemorou jogando o braço direito sobre meus ombros e sorrindo. — Ir embora sem ver a cara da Cristina — disse sonhadoramente —, posso me acostumar com isso.

— Quem não poderia se acostumar? — concordei tirando seu braço dos meus ombros.

— Ah, quase vi o paraíso quando o Clemente apareceu! — ele dramatizou e eu revirei os olhos.

— É, eu percebi.

— E aí, o que faz por aqui? O Hugo teria um surto, sabia?

— Nada, saí de mansinho... Ele nem deve ter percebido a minha ausência.

— Na verdade... — Geraldo coçou o queixo com um meio sorriso de quem se diverte. — Ele estava começando a fazer a chamada quando saí. É, aquele dali não tem jeito.

— Hmm... E você, o que faz aqui? Não dá pra ver a bagunça, os seguranças...

— É, eu sei. Acabei de levar uma advertência da Maria Dragão — ele resmungou, ressabiado.

— Maria Dragão?

— A inspetora, sabe? É uma senhorinha de um metro e meio capaz de inventar advertência até pra cadarço desamarrado, nunca vi! Ela está policiando os corredores como um cão, é melhor voltarmos logo pra sala... Não quero uma segunda advertência.

Acenei achando graça.

Saímos da sala, nos juntando ao mar de alunos que rumava relativamente animado pela suspensão das aulas do dia. Não posso negar que fiquei um pouco desapontado com o fato já que estava realmente louco para mergulhar naquela piscina. Eu praticamente tinha acordado com esse momento em mente.

— Ah, que azar... Trouxe até a bermuda! — cruzei os braços e Geraldo, ao meu lado, ergueu uma sobrancelha.

— Mudando de assunto, Hugo me disse que você está na natação. Sério, isso? — Geraldo perguntou como se estivesse adivinhando meus pensamentos.

— E isso é estranho? — perguntei sem entender onde ele queria chegar.

— Por que você não entra no time de futebol? Estamos precisando de um goleiro já que o nosso se formou ano passado — ele colocou novamente o braço sobre meus ombros e me puxou um pouco mais para o canto do corredor, continuando em tom confidencial: — O que acha?

Franzi as sobrancelhas e abri um pouco a boca, surpreso.

— De onde tirou essa ideia? — debochei e, novamente, tirei seu braço dos meus ombros. — Sou bom em natação, tipo, nadando.

— Bem, é... Mas na equipe de natação já tem bastante gente, o time de futebol precisa mais, e você não é perturbado, sabe... Você é até legal — ele explicou como se realmente tivesse me feito entender algo.

— Como assim... espera, você me achava perturbado?

— Bem, sabe... — ele hesitou um pouco. — Achei que você ia bater em mim aquele dia. Mas não importa, não foi um dia fácil, sei disso... E então, goleiro...?

— Ei, cara! Pausa. Do que você está falando? Quando que você achou que eu iria te bater? — inquiri, cético. Tentei lembrar-me de alguma coisa que eu talvez tivesse lhe dito para que ele tivesse essa impressão, mas nada me veio à mente. Simplesmente não havia razão, eu mal o conhecia. Aliás, fazia apenas umas duas horas que eu tinha descoberto seu nome!

— Sabe, há uma semana... Lembra? Eu ajudei a ... A procurar a Tabhita, eu era do time dela.

Percebi a cautela em sua voz e entendi onde ele queria chegar com todo esse lance de goleiro. Bem, talvez fosse por me conhecer (tecnicamente) que ele sempre me cumprimentava quando nos víamos.

— Não me lembro de você — disse objetivamente e ele pareceu um tanto mortificado com a minha honestidade. — E não duvido que estivesse um pouco fora de mim aquele dia.

— É, um pouco — ele concordou e ri internamente ao perceber que ele certamente achava que um pouco não chegava nem perto de descrever o quão transtornado eu estava. Não podia culpá-lo por isso. — E aí? Ela disse que você era goleiro na sua antiga escola...

— Olha, foi mal aí, Geraldo, mas não. Não daria muito certo.

— Poxa, mas nós... — ele começava a argumentar, e eu vi a Felícia parada alguns passos atrás dele, nos observando recostada na porta de sua sala. Ao perceber meu olhar ela sorriu e acenou. — ...E saíram muitos jogadores por causa da graduação, além de terem alguns que não querem mais participar para que possam dedicar-se exclusivamente às aulas extras pro ENEM. Sério, só existem maníacos por livros hoje em dia? Se perdermos de novo para o Eliza, será uma completa vergonha para... — continuava Geraldo sem se dar conta da minha desatenção.

— Agora — interrompi —, tenho que ir. Valeu pelo convite. Boa sorte em arranjar um goleiro — sorri e dei um tapinha em seu ombro antes de abandoná-lo meio de boca aberta e vagamente decepcionado.

— Oi — Felícia disse, conseguindo sorrir ainda mais e ficando completamente rubra ao acrescentar: — N-Não estava espiando nada!

— Ah, oi — saudei depois de encará-la meio pasmo e soltar uma risada. — Me livrou de um problema, ele não ia me largar tão cedo.

— O-Oh, é? — ela indagou lançando uma olhadela em direção a Geraldo, parecendo mais segura de si. — Ele está te encarando.

— É, deve estar. — Dei de ombros.

— E então? Vai ao acampamento?

— Não sei, mas, de alguma forma, minha mãe descobriu sobre... — dizia e então me interrompi e encarei-a acusadoramente. — Foi você.

Felícia mordeu o lábio inferior e estremeceu um pouco.

— Fui eu. Desculpe — ela falou mexendo nervosamente no cabelo e apressando-se a emendar: — Na verdade, não me arrependo.

— Jeito interessante de se desculpar.

— Você deve mesmo ir. V-Vai ser legal.

— É, vou pensar. Mudando de assunto, você viu o Cássio por aí? — perguntei e acrescentei ao perceber a dúvida em sua expressão: — O estagiário de educação física.

— Não sei dizer, eu não o conheço.

— Ah.

— Por quê?

— Bem, faltei algumas aulas e hoje eu começaria oficialmente a participar da equipe. Seria ontem, mas meio que não deu — expliquei me animando um pouco ao pensar na Tabhita. — Quero só falar com ele e, não sei... É, na verdade, eu não sei.

— Equipe de natação, não é? — confirmei com um aceno de cabeça. — Sabia que tem um rio aqui muito bom para nadar?

Fiz careta ao recordar-me da água cristalina que havia visto correr pelo leito forrado de pedras próximo à toca do clubinho sanguessuga.

— É, eu soube — respondi evasivamente e vendo, de longe, alguns professores se juntando no fim do corredor. — Bem, acho melhor eu ir logo. Não quero levar advertência nem nada...

— É, é melhor — Felícia concordou também olhando paras os professores. — Estranho esse negócio do caminhão, né? Você viu a bagunça? Uma parte do muro caiu...

— Caiu? — ergui um pouco as sobrancelhas.

— É, da minha sala dá pra ver... Mas é melhor você ir — ela advertiu. — Eles estão vindo, até depois da aula.

— É. Tchau — Concordei e acenei sem maiores rodeios. Queria muito falar com o Cássio, mas desisti rapidamente, já que não havia muita finalidade tendo em conta as circunstâncias. O jeito era desejar que as atividades dos clubes prosseguissem normalmente, o que era improvável.

Passei o olho pelo corredor e vi que Geraldo já havia caído fora sem que eu notasse. Fui me afastando em direção à minha sala e peguei o celular, inquieto, rediscando o número do telefone do Bagdá. Era o quê, a quinquagésima vez que eu ligava para ele? Meus créditos já estavam acabando de tanto deixar recados em sua caixa de mensagens. Pior, na caixa de mensagens do seu telefone fixo.

Putz, custava tanto arranjar um celular?!

Estava muito ansioso para descobrir o que as doenças e números significavam, havia a possibilidade de que o Bagdá não pudesse me ajudar e, se isso fosse verdade, eu preferia saber logo para que pudesse tomar minhas próprias providências — ainda que o conteúdo de tais providências ainda permanecesse como um mistério para mim.

Tentei três vezes antes de enfiar o celular no bolso e desistir. O problema em si não era ele não estar atendendo, era ele não estar atendendo desde ontem. Somando isso ao fato de ele ser maluco, fazia com que eu não duvidasse da possibilidade de ele ter enterrado o telefone para não ser incomodado. Ok, era meio improvável, mas... Putz, o cara tinha feito uma TV LCD de suporte para uma cristaleira! Concluí que pudesse esperar tudo de uma criatura dessas... E, se ele não atendia, a solução era eu ir até a casa dele, tipo, de novo.

— Será que estou parecendo um stalker agora?

Girei nos calcanhares e comecei a andar rápido pelo corredor, voltando pelo mesmo caminho que tinha vindo. Passei em frente a minha sala de aula e continuei seguindo em frente, dobrando duas vezes à esquerda até que saísse da construção e me deparasse com um cubículo fechado à chave, mais conhecido como o quartinho do zelador. Vi, do lado do quartinho, os degraus pintados de verde que levavam ao terraço e tinham o acesso bloqueado por um portão trancado à chave. Nada digno de nota, já que bastava o sujeito ter um pingo de imaginação para escalar o quartinho do zelador e então pular direto no lance de escadas.

E então voilà! Portão inútil.

Subi os degraus correndo e sentindo os músculos reclamarem até que pisasse na laje mal acabada que era o terraço. Não havia qualquer cerca de proteção, mas isso não me incomodava. Andei até a beirada, seguindo para o lado que me daria a melhor visão possível do portão do colégio, porém a vista não era exatamente esclarecedora. O prédio da secretaria cobria quase 90% da entrada, me dando uma escassa visão do estrago e substituindo minha curiosidade por frustração.

Ainda arrisquei dar alguns pulos para ver se enxergava alguma coisa, mas me cansei logo. Passei algum tempo sentado na beirada da laje, com as pernas balançando no ar e imaginando como seria uma queda daquela altura. Com certeza seria bom se eu pudesse só cair, digo, cair sem a parte em que eu me espatifava. A sensação deveria ser boa.

A tarde foi passando e não havia nenhum movimento no pátio. Acabei deitado com a cabeça apoiada nos braços enquanto lacrimejava contando nuvens. A Tabhita não saia da minha cabeça e eu queria muito vê-la de novo. Queria ouvir a sua voz e ver o seu sorriso cheio de covinhas. Queria que simplesmente tudo voltasse a ser como antes: seguro. Tinha saudade de nossas conversas e me sentia bem por perceber que isso poderia acontecer de novo, que por mais que tudo estivesse enlouquecendo, eu poderia conversar com ela sobre coisas triviais de novo.

Foi com essa conclusão reconfortante que dormi tão bem quanto não dormia em dias. Nem me lembro direito de sentir-me sonolento, quando dei por mim já estava acordando assustado. Dando fim a minha já tênue paz de espírito, ouvi a voz da professora Cristina, que estava irritada e gritando:

— Eu mandei vocês pararem!

— O que foi agora? — resmunguei me levantando e correndo até a beirada da laje, ainda com os olhos meio grudados de sono.

O céu azul começava a reivindicar o espaço das nuvens cinzentas que se dispersavam, fazendo com que os fachos do sol de fim de tarde iluminassem o pátio. Vi Cristina claramente, a luz frágil tornando evidente a irritação em seu rosto enquanto ela pisava forte, deixando que o som do eco dos seus saltos, carregado pelo vento, chegasse aos meus ouvidos.

Vi o cara que quase bateu no Hugo antes de ontem, prendendo-o com uma chave de braço e o arrastando sem maiores dificuldades enquanto Hugo tropeçava e soltava grunhidos que lembravam vagamente palavras. Correndo em sua direção foi, para meu espanto, meu vizinho de carteira, Geraldo, que usou um pedaço de cano para golpear as costas do cara com todas as suas forças. Isso: uma, duas, três, quatro, cinco vezes... Até estar ofegante o suficiente para que eu visse seus ombros levantando e descendo rapidamente por causa da respiração pesada.

— Não pode ser... Aqui também? — verbalizei, discando novamente o número do Bagdá.