Noite
2 Guarda Chuva Vermelho
_24 de Janeiro_
Querido Diário — acho que é assim que devo começar, não é?
Estava entediado, imaginando se o calor poderia causar uma espécie de crise epiléptica. O ventilador tinha queimado com uma queda de energia que teve ontem, e a internet estava mais do que morta e enterrada há uma hora. Ainda continuava meio chateado por ter tido o combo que eu tinha acabado de iniciar com o meu avatar, o pistoleiro, interrompido. Mais um pouco e eu teria finalizado a quest, evitando minha sexta morte naquele RPG... Mas não, a internet tinha caído, eu teria que percorrer aquela parte da floresta de novo.
Bem vindo ao interior!
Passei algum tempo me remoendo e sentindo que até meu cérebro derreteria com um clima daqueles até, finalmente, decidir ir comprar as coisas que minha mãe havia pedido mais cedo. Desci os degraus de madeira aos tropeços quando me dei conta de que estava sem camisa. Não, eu não poderia ir ao mercado sem camisa. Bufei e voltei correndo até o meu quarto, vestindo a primeira que achei. Uma verde em que se lia: “Dormir é para os fracos”.
Fui até a cozinha e arranquei a lista de compras da geladeira. Passei o olho pelos itens e ergui uma sobrancelha com o fato de que, aparentemente, minha mãe confiava em mim para escolher legumes.
“Não é uma boa aposta, Dona Marina!”.
— Leva o guarda chuva, Júnior! — ouvi minha mãe gritar da sala.
Estiquei o pescoço para que pudesse ver o céu através da janela, entreaberta, acima da pia. Estava nublado e vez ou outra um trovão iluminava as nuvens cinzentas. Não era a toa que estava tão abafado... Juntando aquele sol todo de mais cedo com a chuva que se anunciava, o resultado era aquela sensação irritante de estar confinado em uma estufa.
— Ah, não precisa, mãe! — disse voltando-me em direção à sala de estar, sem nenhuma disposição para procurar um guarda chuva no meio das coisas ainda encaixotadas da mudança. — Volto rápido — afirmei, reparando no romance que ela lia. Um daqueles bem melosos e clichês, ela estava viciando nisso.
Claramente, eu era o único antissocial da família. Nos últimos dois meses, enquanto eu estivera ocupado demais praguejando e querendo ir embora, meus pais já haviam dado um jeito de conhecer a cidade inteira! O que não era exatamente um trabalho de Hércules, já que estávamos em uma cidadezinha de 3000 habitantes.
Enfim, minha mãe havia se tornado uma assídua participante de dois grupos de bairro, o do livro e o do tricô, e simpatizava abertamente com outros; lamentando-se por não ter mais tempo para participar desses também. E quanto ao meu pai... O que dizer? Em meros dois meses, o cara já tinha começado a construir um laboratório de pesquisa próprio junto a um consultório, no primeiro andar da pousada — sim, pousada!
Ok, ok. Vou dar um replay na coisa toda pra ficar entendível.
Há dois meses, minha avó morreu. Aconteceu toda aquela coisa: ficamos tristes, choramos, comemos sorvete, choramos de novo. Não gosto de pensar nessa parte, portanto, não vou entrar em detalhes. O lance importante é que, com a morte dela, viemos para Martina. Uma daquelas cidadezinhas de interior que ninguém nunca ouviu falar.
Minha avó tinha uma pousadinha aqui, com fontes termais e tudo, tipo aquelas em Goiás. No fim, o que seria uma visita nostálgica e triste, acabou por resultar em nos mudarmos para cá. Com direito a uma pousada de 10 quartos — para mim, até hoje é um mistério: como raios a minha avó se sustentava com uma pousada em uma cidade de 3000 habitantes, não turística?! — e a recente aquisição de um laboratório e um consultório por parte do meu pai. Os pedreiros quase me deixaram loucos com todo aquele barulho, logo no início da construção.
Tentei argumentar sobre a súbita decisão de nos mudarmos para Martina, mas meu pai já estava encantado com o lugar, qualquer argumento para cairmos fora dali seria inválido; e quanto a minha mãe... Ela amava a natureza, fontes termais e livros. Preciso dizer mais alguma coisa?! Ela achou muito promissora a oportunidade de morarmos em um ambiente saudável e sem poluição, além de desenvolver teorias em relação ao meu convívio social, alegando que em um lugar tão pequeno eu arranjaria amigos e desenvolveria laços afetivos sólidos. Imagino de qual livro ela copiou essa ideia.
E eu?! Eu, bem... Eu reclamei que nem uma velha rabugenta na primeira semana. Depois resolvi calar a boca, ser o estraga prazeres da família, cansa.
— Pois deveria levar! Larga de preguiça, Júnior — ralhou minha mãe sem se deixar enganar.
— Ah, mãe! Não sei onde está! Depois procuro — disse bocejando, estava me sentindo meio grogue. — Estou indo! — Peguei o dinheiro em cima da mesa da sala.
— Júnior...
— Não tema, senhorita! Eu já volto — forcei uma voz mais grave e lancei-lhe uma piscadela cheia de provocação. Às vezes não resisto e faço algo assim quando quero encher a paciência, já que li um pedaço de um de seus romances favoritos em que o cara fala: “Não tema senhorita, eu a protegerei!” e dá a fadada piscadela! Ri tanto quando vi isso que ela quase me bateu.
— Vai logo, menino! — ela mandou meio sem graça, disfarçando um sorriso.
Enfiei os fones de ouvido nas orelhas e selecionei uma das mil playlists do meu celular. Fiquei satisfeito com a qualidade dos fones novos assim que a música começou a soar. O vocal e os instrumentos começando a tomar forma e a harmonizarem-se no ponto certo de sincronia, sem estar agudo demais como nos meus fones anteriores. Já fazia um tempo que eu não ouvia Civil War — de Guns —, tive muita vontade de pegar o meu violão e começar a tocar. Para a minha felicidade, um dos itens perdidos na mudança.
Logo cheguei ao mercado e fui divagando enquanto circulava por entre os corredores. Estava de mau humor, com preguiça, sono e tentando achar os itens listados no pequeno papel que tinha arrancado da geladeira. Sem falar na minha dificuldade na hora de procurar os tais legumes. O ápice da tarefa, foi quando tentava decidir se os gengibres estavam todos bons ou se era normal todos parecerem meio estragados. No fim, uma senhora teve piedade de mim e me ajudou a escolhê-los. Fiquei sinceramente grato por ela não ter rido da minha cara.
Terminadas as compras, peguei aquele monte de sacolas recicláveis e fui até a porta, só para descobrir que estava chovendo. Achei melhor esperar e só percebi o quão sábia foi a minha decisão quando, após dois minutos fitando a chuva branda, vi-a engrossar drasticamente ameaçando derrubar a fina cobertura de ternite que resguardava a frente do mercado.
Foi então que, interrompendo meus pensamentos ouvi aquela voz baixa e carregada de escárnio, perguntar:
— Esperando a chuva passar, Júnior?
Admito que foi realmente tentadora a possibilidade de ignorá-lo totalmente e concentrar-me em bancar o surdo, no entanto lá estava eu virando-me para encará-lo e submetendo-me ao sofrimento visual que a decisão causaria.
— É, estou — confirmei.
Wagner estava fechando o guarda chuva molhado e eu voltei a concentrar-me em encarar a chuva, desejando com todas as minhas forças que ele entrasse logo no mercado. Obviamente ele não fez isso, é claro que não faria. De acordo com o longo período de dois meses em que eu conhecia o Wagner, descobri que ele tinha uma enorme e estranha propensão a me encarar. E dessa vez não foi diferente, o cara continuou ali, paradão, me encarando.
Passaram-se uns longos e desconfortáveis cinco minutos. Tentei distrair a minha mente pensando em como, sempre, por mais que o sol estivesse à pino, minha mãe acertava quando iria chover. Mas foi meio difícil, já que eu não podia deixar de estar incomodamente consciente de como o Wagner continuava me encarando! Afinal, eu não podia deixar de ter visão periférica, não é?!
Já havia até tentado indagar o porquê desse estranho interesse dele por mim algumas vezes, mas ele sempre se desviava do assunto ou me ignorava e ia embora. Simples assim!
— As aulas já vão começar... Você vai estudar no Eliza, né? — ele perguntou de repente.
Não que eu tivesse outra opção. Em uma cidade de 3000 mil habitantes era um luxo existirem dois colégios, fora a pré-escola Recanto Feliz. Aparentemente, o Colégio Silvana Batista abrira há uns três anos e todos os que estudavam lá, tinham bastante dinheiro e um ego maior que a cara. Já o Eliza Martina, era público mesmo e devia ser tombado pelo patrimônio histórico de tão velho! Uns cem anos de tradição, educação, civilidade, consciência, poeira, mofo e teia de aranha ... Algo assim ou, pelo menos, foi o que eu sintetizei do enorme discurso da minha mãe sobre os bons costumes e um monte de eteceteres.
Não entendi muito o porquê da estranha rixa entre os estudantes do Silvana Batista e do Eliza Martina. Em geral, pelo o que vi pessoalmente, os estudantes do Silvana Batista gabavam-se de estudarem na única escola particular de Martina — só eu que não via nenhum pró nisso? — enquanto os do Eliza Martina os taxavam de filhinhos de papai. Acho até que os que mais davam algum crédito a todo esse dilema eram os velhinhos que ficavam sentados em frente à padaria, fofocando sobre tudo o que se pudesse imaginar. Eles achavam um supra desenvolvimento e motivo de orgulho que o Silvana Batista tivesse vindo para Martina; além de reprovarem piamente meu estilo de roupas e cabelo — um deles até me mandou cortar o cabelo certa vez.
— Sim, vou — respondi mal humorado.
Normalmente não fico cuspindo ódio nas pessoas, por mais detestáveis que sejam. Apenas tenho uma enorme tendência a não disfarçar quando não estou gostando de alguma coisa. Simplesmente fecho a cara e deixo minha expressão falar por si só. Minha mãe costumava dizer que eu iria criar uma ruga permanente entre as sobrancelhas, de tanto franzi-las.
No entanto, nos últimos tempos eu estava tentando ser mais positivo e receptivo a mudanças, assim como tinha recomendado inúmeras vezes aquela terapeuta; e o que eu menos queria era que minha mãe me arrastasse até o consultório dela novamente. Portanto, resignei-me a neutralidade que o silêncio pode proporcionar e comecei a me concentrar em uma goteira poucos passos à minha esquerda.
— Hmmm... Não acho que irá gostar.
Franzi as sobrancelhas, perguntando-me o porquê da chuva não parar.
— Hmmm... Vou pensar nisso.
— Então... Por que veio aqui?! — “Não! Por que você veio aqui?”, meus olhos certamente diziam isso quando voltei a encará-lo, irritado. Por que esse cara insistia em perturbar a minha pouca paciência, desenvolvida com muita concentração em manter pensamentos positivos? Poxa, eu nem conseguia ter pensamentos positivos direito e ainda aparecia esse troço como uma daquelas provações tão anunciadas nos canais evangélicos.
— Compras — respondi objetivamente.
Meu pai uma vez me disse, que se você não tiver uma boa alimentação até os sete anos de idade, período de formação e desenvolvimento do cérebro, você poderia desenvolver algum tipo de retardo mental. Tive certeza de que esse era o caso, Wagner devia ter comido muito daquele chiclete azul no palito, que ele tanto gostava, desde que nasceu. Aí um pedaço do cérebro dele ficou azul e não funcional.
— Ah — foi tudo o que ele disse, como se esperasse eu continuar. Talvez ele quisesse me ouvir descrevendo minuciosamente minha deficiência para escolher gengibres.
Passados alguns segundos, aumentei drasticamente o volume dos meus fones de ouvido ao ponto de achar que eles fundiriam-se às minhas orelhas. Afundei-me em meus próprios pensamentos e, começando a sentir meu estômago doer de fome, procurei dentro das sacolas de supermercado até achar uma barrinha de chocolate que tinha comprado. Abri-a e dei uma boa mordida, com certa satisfação.
Depois de mais alguns minutos, eu já deveria estar com a minha melhor expressão de suplica, implorando mentalmente à chuva para que parasse logo, quando vi: um guarda chuva vermelho que entrou no meu ângulo de visão rápido demais para que eu pudesse captar qualquer detalhe, seguido de uma cascata de cabelos azuis e um abraço que quase me fez dar o último suspiro. E tinha também erva doce, aquele cheiro suave e familiar de erva doce.
— Tabhita?! — espantei-me arregalando os olhos quando ela finalmente me largou. — O que está fazendo aqui? — em resposta, vi-a abrir um sorriso que iluminou seu rosto e destacou seus olhos que, como sempre, possuíam aquele estranho brilho cheio de confiança.
Fale com o autor