Noite
29 Clássicos parte 2
Notas iniciais
No último horário, depois de perceber que eu estava começando a dormir na aula da professora Mariela, resolvi voltar a esmiuçar a agenda do Zeca e, ao pensar no que a Fernanda havia me dito sobre sua mãe, tentei pensar em alguma coisa que pudesse dar sentido a lista de doenças. A maioria de ordem neurológica como: Alzheimer, cefaleia, AVC, insônia, epilepsia, esclerose múltiplas, neuropatias, TDA, hiperatividade, Parkinson, esquizofrenia, toxina butolímica, autismo, dislexia, síndrome de Tourette... ou dermatológica: câncer de pele, catapora, hanseníase, herpes, micose, psoríase, pênfigo, urticária, verrugas, vitiligo... Resumindo, a lista de doenças era tão grande que parei de ler na metade. A maioria delas estava escrita no meio ou no início da página, seguida de vários números, de vários algarismos, separados por barras. Cada número tinha um círculo em volta.
Percebi que a maioria dos números que se encontravam depois de doenças de natureza neurológica estavam circulados de vermelho. Já os números que se apresentavam depois da maioria das doenças dermatológicas exibiam círculos que variavam entre azul e vermelho e quase todos eram marcados por um X. Aliás, olhando de forma mais meticulosa, todos os números que não tivessem o círculo verde acompanhando o azul ou o vermelho, continham o X em cima. Supus que significasse falha ou algo parecido, o que só reforçava a minha ideia de que se eu descobrisse o que significavam as cores, descobriria o porquê de todo o resto. E ainda havia as fórmulas de química nas últimas páginas da agenda...
— Ah... Isso é infinito — resmunguei tendo a atenção fisgada pelo barulho de conversa e cadeiras se arrastando; só então me dei conta de que a aula havia acabado.
Peguei minha mochila, guardei minhas coisas o mais rápido possível e fui barrado na saída da sala por um carinha de cabeça raspada e aparelho, ele tinha um cavanhaque e parecia ter uns vinte e poucos anos.
— Oi. Felipe, né?
— Eu mesmo — confirmei indo mais para a esquerda para que não ficasse empacando a saída.
— E aí? Sou o Cássio, estagiário de educação física e, portanto, um dos encarregados das aulas de natação.
— Ah — foi tudo o que eu disse, minha mãe comentou que o clube de natação já estava garantido, mas... Com os últimos acontecimentos, eu tinha me esquecido totalmente.
— Não diga “ah” — ele sorriu batendo a mão amistosamente nas minhas costas. — Soube do acidente de carro e dos outros incidentes — informou com mais seriedade —, vim só avisar que se você achar que não está em condições de participar das atividades por agora... — Era impossível não notar o olhar levemente curioso que ele destinava aos meus braços que estavam cheios de Band Aid e cortes mal cicatrizados. Além disso, é claro, que eu estava dolorosamente consciente do enorme galo que enfeitava a minha testa. — Não tem problema nenhum em ir só assistir! É bom que você pode aproveitar para conhecer os caras, os novatos já estão treinando bastante!
— Ah, claro — concordei, sentindo-me quase esmagado com a sua animação. — Vou sim. Tem agora, né?
— Sim, sim. Todos os dias, meia hora depois da aula.
— Ah, ok. Te encontro lá então, pode ser?
— Claro. Mas aparece mesmo, hein! — ele disse me dando mais alguns tapas antes de ir embora.
Sério, o cara queria quebrar alguns dos meus ossos.
Fui à cantina, ver se eu comprava um suco antes de ir assistir ao treino alheio. Sério, existe coisa pior que assistir os outros nadando sem poder fazer o mesmo? Não vi a Fernanda por lá, e uma senhora de furiosos cabelos ruivos me atendeu, presumi que fosse a Vanda e notei o quão feliz ela ficou depois que, sem querer, a chamei pelo nome.
Assim que tomei dois copos de suco e comi um pastel — de fato, o sanduíche de patê de atum não estava no menu. Mandei uma mensagem para a minha mãe, avisando que chegaria em casa um pouco mais tarde por causa da natação.
Já estava indo para a piscina coberta, fantasiando com a perspectiva de desenferrujar meus ossos e nadar um pouco depois de quase três meses — é claro que eu sabia que não hoje, infelizmente eu estava arrebentado demais — quando avistei o mesmo cara que vi conversando animadamente com o Toni no meu primeiro dia de aula. Ele ia para o mesmo lugar que eu e isso fez meu coração gelar por uns instantes até começar a raciocinar o quão estúpido seria supor que todo mundo que fala com um vampiro, é vampiro também.
Parei por uns poucos segundos tentando apaziguar meus pensamentos conflituosos e já estava seguindo em frente novamente quando uma mão segurou meu braço, me puxando para trás. Fui guiado até o gramado onde tinha uma placa dizendo: “Não pise na grama”. E lá estava, piscando distraidamente para mim e, como sempre, mostrando sua impecável fileira de dentes brancos em um sorriso.
— Tabhita — eu disse achando que iria engasgar com a minha própria saliva e sentindo o ar fugir dos meus pulmões.
— Oi, Lipe — ela saudou sentando-se na grama. Seus cabelos ondulados estavam presos em um coque irregular que deixava alguns fios escaparem. Seus lábios estavam rosados como sempre e ela usava um vestido despojado que a vi usando somente uma vez. — Não vai sentar? Ficar admirando a minha beleza não vai fazer as respostas brotarem do nada.
— C-Como você... Por que...
— Olha — ela começou, e me puxou para que eu me sentasse também, já que ainda permanecia imóvel feito um dois de paus —, sou eu. — ela disse logo depois de eu basicamente me estatelar no chão e... Me beijou.
Seus lábios eram frescos e eu me vi acariciando seu pescoço antes que pudesse sequer pensar no que estava fazendo, mal contendo o meu êxtase e deixando minha boca formar sorriso logo que ela se afastou um tanto ofegante, mantendo seu rosto próximo, de modo que eu pude sentir a fragrância suave de verão que era o seu hálito.
— Sou eu. — ela repetiu. — Eu estou aqui. Não posso responder às suas perguntas e não, eu não posso ficar, Felipe. Você também não pode falar de mim pra ninguém. Prometa, é importante.
Fiquei confuso por alguns segundos com suas súbitas declarações, mas eu sabia que se ela estava viva... Era impossível que ainda fosse humana, portanto, eu podia compreender o porquê do pedido.
— Tabhita, você... Não achei que você ainda estivesse viva, eu fui confirmar... No hospital... — Seu olhar suplicante me fez parar, engolindo em seco.
— Prometa, Felipe.
Respirei fundo umas duas vezes e disse:
— Prometo. — Estudei os traços do seu rosto e percebi sua expressão suavizar-se com a minha afirmação.
— E a agenda? Você esteve vasculhando-a, não foi? — ela perguntou e eu acenei, surpreso, em concordância, pegando-a de dentro da mochila e lhe entregando.
— A letra é do Zeca, acho que ele sabia muitas coisas... Me pergunto se ainda está vivo.
— Você deveria ter mais fé, sabe... Você é muito pragmático!
— Tabhita, onde você esteve? — perguntei depois de observá-la por alguns minutos.
Ela levantou os olhos da agenda e negou com a cabeça, sem dizer uma palavra. Acabei por não perguntar mais nada, a conhecia bem o suficiente para saber que ela não me diria. Portanto, me limitei a dizer o que eu sabia depois de passar horas pesquisando sobre o conteúdo da agenda e tentando entendê-lo.
— É óbvio que você tem que analisar a combinação de cores. Você tem papel? — ela pediu e eu entreguei-lhe o meu caderno e uma caneta. — Como você já tinha dito... Esses “X” parecem ser algo descartado, mas eu também acho que pode significar algo selecionado.
— Pode até ser, mas você viu as combinações? Não parece certo. Se elas foram feitas para se chegar a um objetivo...
— Que talvez seja X.
— Discordo. Se o objetivo for X, por que não simplesmente deixar o vermelho ou o azul ou o verde, sozinhos? Foram poucas as vezes, mas todas as vezes que havia uma única cor, havia um X riscando o número. Parece inútil se dar ao trabalho de juntá-los só para obter uma falha.
Tabhita deteve os olhos nas páginas da agenda e acenou afirmativamente, concordando.
— Mas, Lipe... Eles podem estar tentando separar o que quer que signifique cada cor.
— Você está dizendo que o objetivo seria só azul ou só verde ou só vermelho?
— É. Essas linhas se entrelaçando me lembram de espirais de DNA. — Acenei, concordando.
— Sim, só pode ser, ou todo o meu raciocínio perderia a lógica, mas... Não acho que separar os genes seja o objetivo. Se se tratasse de algo que só cada um, individualmente, possa resultar... Como que a maioria das combinações misturadas, azul/verde e vermelho/verde, deram em X?
— Ok. Você tem um ponto... Acho que o melhor seria se cruzássemos os dados em porcentagens, para visualizarmos melhor — ela sugeriu, estendendo-me a agenda e o caderno.
— Você sabe quantas doenças são ao todo? — eu disse um tanto indignado.
— Não, mas você sabe.
— Noventa e quatro, Tabhita. Noventa e quatro. Passei a manhã pesquisando doença por doença — disse pegando o meu celular e procurando a calculadora no menu de ferramentas.
— Deve ter sido bem interessante — ela disse com aquele sorriso de olhos.
— Não sabe o quanto — eu disse forçando-me a voltar minha atenção para o cálculo.
— Sabe quantas são dermatológicas e quantas são neurológicas?
— Não, mas marquei as neurológicas com um ponto na frente — informei e a vi pegar novamente a agenda e ir contando quantas doenças tinham a indicação mencionada.
— Vinte e nove. Estranho — ela disse fazendo careta. Imaginei que estivesse se referindo ao fato de as doenças neurológicas apresentarem-se em uma quantidade bem maior.
— Cite algo normal aqui, Tabhita — desdenhei, ouvindo-a estalar a língua e vendo-a me empurrar um pouco ao sentar-se mais próxima de mim, a fim de ter uma melhor visão do caderno. Alguns fios dos cabelos, presos em seu coque, fizeram cócegas no meu pescoço quando ela se inclinou para frente, dando-me a chance de ver melhor o labirinto de veias azuladas que eram quase invisíveis sob sua pele pálida.
— Eu vou contar aqui quantos números têm de cada combinação e você vai fazendo os cálculos — fui saindo aos poucos do estupor e tentei me concentrar no que ela dizia: — Não precisa fazer a porcentagem de quais doenças possuem mais ou menos números a elas atribuídos, acho trabalho desnecessário. Podemos só contar.
— Eu não ia calcular noventa e quatro porcentagens nem se você me pedisse, Tabhita.
Ela sorriu mais uma vez e eu quase me perdi naquele sentimento quente, que começava a invadir cada vez mais o meu peito, sendo interrompido apenas por sua voz que começou a ditar os resultados após fazer a contagem de quantos “X” havia e as diferentes possibilidades de combinação de cores; e então, eu tive que começar a calcular qual era o valor que representava a quantidade de vezes que cada combinação resultava em números marcados ou não pelo X.
Depois de alguns rabiscos e de conferir duas vezes se os resultados estavam corretos. Cheguei aos seguintes resultados:
Vermelho e verde — X em 55% das vezes.
Azul e verde — X em 80% das vezes.
Vermelho e azul. — Não vi essa combinação nenhuma vez, pareciam ser incompatíveis.
Vermelho — X em 100% das vezes.
Azul — X em 100% das vezes.
Verde — X em 100% das vezes.
— Os números riscados com certeza são os erros — conjecturei taxativamente.
— Hmmm... E agora, o que vai fazer? — ela perguntou, sustentando o queixo com os dedos de ambas as mãos entrelaçados e os cotovelos apoiados nas coxas de suas pernas.
— Acho que se descobríssemos o que essas doenças têm haver com as cores... Poderíamos descobrir do que se trata. Existem muitas possibilidades...
— Felipe, eu não estou falando disso e você sabe — frisou abandonando seu costumeiro tom traquina. — Você já sabe o que os fios sem compatibilidade significam, não é? É um clássico! É claro que você perceberia... Agora basta admitir.
Passei a encarar os meus próprios rabiscos, fazendo careta. Da última vez que ouvi a palavra “clássico”, levei uma coronhada na cabeça. E, no entanto, acho que preferia outro galo na testa à possibilidade que a Tabhita estava me forçando a verbalizar.
— Sabe, Tabhita... Quanto mais eu penso nisso tudo, mais absurdo se torna. Com você aqui, agora... Não posso negar que passei a maior parte da minha noite me perguntando se tudo não se dissolveria em um pesadelo se eu engolisse algumas daquelas pílulas — soltei uma risada sem humor e voltei a levantar meu rosto, para estudar sua expressão. — É meio tentador, por incrível que pareça.
Tabhita segurou o silêncio, enquanto eu não conseguia tirar os olhos de seus lábios entreabertos, por um tempo que me pareceu longo demais... Porém, ela não deixou de forçar a intensidade do seu olhar sobre mim e sorrir-me de canto, como se tudo não passasse de uma piada.
— Felipe, a realidade é o que é. O que a torna interessante é que cada um a enxerga de um jeito diferente. E são esses recortes de mundo que fazem de cada pessoa única. Sei que você coloca muitos empecilhos em tudo, se não colocasse... não seria você. — Seus lábios voltaram a esboçar um sorriso. — Mas confie um pouco mais no seu próprio juízo! Ou está com medo? — seus olhos, suas sobrancelhas, lábios... Até mesmo os fios de cabelo que se soltavam do coque... Eram desafiadores e me inundavam de um sentimento de saudade que não soube decifrar, já que ela estava lá, ao alcance dos meus olhos, das minhas mãos, da minha voz.
— É óbvio que estou com medo. Já teria caído fora de Martina se pudesse — dei de ombros. — E, Tabhita, clássicos são muito menos incríveis do que você sempre advoga — detive-me um instante, guardando em minha memória sua expressão atenta antes de continuar: — Preferia o velho clichê vampiros e lobisomens só no cinema — bufei mexendo nos meus próprios cabelos, mal acreditando que eu estava levando a ideia à frente. Parecia perfeitamente plausível, muitas inconsistências deixariam de existir... Como o fato de o Toni andar sob o sol e o Wagner não... Ou simplesmente a dieta do Toni em relação à do Wagner. — Cara, nós com certeza vamos morrer.
Tabhita lançou-me uma piscadela e deu de ombros como se fosse uma coisa muito natural morrer sendo o jantar de alguém.
— Ok. Já que chegamos a esse momento de honestidade, vamos aos fatos práticos. Se azul e vermelho representam, respectivamente, lobisomens e vampiros, precisamos descobrir qual é qual e o que as doenças têm haver.
— E o que verde significa, já que parece ser uma espécie de catalisador — complementei mordendo os lábios enquanto pensava. — Os registros do hospital. Se tivermos acesso a eles, podemos descobrir quem em Martina tem essas doenças...
— E daí bater na porta de uma por uma para perguntar sobre vampiros e lobisomens? Certo — Tabhita disse com uma suposta despretensão.
— Tem plano melhor?
— Não. — Ela soltou sem entusiasmo. — E como vamos conseguir os registros?
— Bagdá — afirmei sem hesitar. — Os contatos daquele cara têm que servir para alguma coisa, afinal — finalizei, voltando às últimas páginas, da agenda do Zeca, que continuavam como um mistério para mim. Várias fórmulas de química, desenhos de símbolos e pedaços de frases que se misturavam sem qualquer sombra de sentido.
Estava prestes a mostrar esses pontos, sobre os quais eu nem tinha teoria, para a Tabhita, mas ao voltar meus olhos para onde ela estava até meio minuto atrás, só encontrei a grama vazia. Frágeis raios de sol poente começavam a alcançar aquele pedaço de sombra e reparei como já era tarde. Cogitei ir para a aula de natação, mas já estava bem atrasado e não tinha mais qualquer cabeça para tal. Eu sabia muito bem o que significava admitir a existência de todas aquelas forças sobrenaturais... Inclusive quando se tratava da Tabhita. Ela parecia ser a mesma e tinha voltado, mas... Com certeza, de humana, ela não tinha mais nada.
Voltei para casa me perguntando se deveria ter insistido mais quando a Tabhita pediu que eu ignorasse as coisas importantes sobre ela. Provavelmente eu estava com medo de descobrir e ela sabia disso.
— Grr... — grunhi, irritado, do fundo do ônibus. Peguei meu celular e tentei ligar para o Bagdá. Mais especificamente para o telefone fixo do Bagdá, já que ele não tinha celular. Depois de ouvir a voz da caixa postal três vezes e tentar ligar de novo ao invés de deixar um recado, deixei uma mensagem sem maiores explicações, pedindo que ele reunisse os nomes das pessoas que deram entrada no hospital com doenças de natureza neurológica ou dermatológica. Também repeti a palavra importante várias vezes, tentando me certificar de que ele levaria a coisa a sério.
Agora estou sentado no chão. Encostado na parede do meu quarto com a .38 que o Bagdá me deu, ao meu lado junto à estaca de madeira que achei na mochila da Ângela, apenas esperando... Esperando que qualquer ruído quebre a sincronia dos grilos, que passos andem pela varanda ou que alguém venha abrir a minha janela. E de novo, não há nada... Transcorre mais uma noite sem que o Wagner apareça e não faço ideia do que pensar sobre isso, mas não consigo dormir. Então apenas estou aqui, sentado, escrevendo... Tentando pensar.
Perguntando-me se realmente terei coragem de estourar os miolos do Wagner quando a oportunidade aparecer.
Fale com o autor