Noite

28 Clássicos


Notas iniciais
Nekos, desculpem pelo atraso! =D Nesse capítulo algumas informações interessantes começam a aparecer. P.S.:Eddy, como sempre, muito obrigada!

_ 9 de Fevereiro_

São duas e dezoito — tecnicamente já é amanhã, dia 10, segundo a cronologia do meu diário. — Está chovendo. Estou com frio e não consigo dormir.

Continuo sem lembrar direito o que aconteceu depois que apaguei na casa da Ângela. Na verdade, nem sei como apaguei. Quando abri os olhos novamente, pisquei várias vezes até me acostumar com a escuridão que inundava o quarto. Não precisei me perguntar se tudo tinha sido só um sonho, pois o cheiro podre alcançava o meu nariz sem o menor empecilho. Acendi as luzes e fechei as cortinas logo depois, com medo de que algum vizinho acabasse me vendo na cena do crime.

Para o meu desapontamento, não havia sinal da Tabhita em lugar nenhum, entretanto a agenda estava lá no chão, no mesmo local onde me lembrava de vê-la caindo. Abaixei-me para pegá-la e, novamente, afundei-me em um quebra cabeças sem fim. Todas as páginas estavam preenchidas com anotações e desenhos que pareciam se referir a vampiros, transformações e variantes. E mesmo não tendo nenhum nome na contracapa, soube imediatamente que não pertencia à Ângela, porque eu conhecia muito bem aquela caligrafia caprichada; quase feminina.

Era do Zeca.

Acordei cedo, sentindo um estranho alívio por ter conseguido dormir. No dia anteior, ao deitar na cama, foi como se meus olhos nunca mais fossem conseguir se fechar em um sono tranquilo novamente, mas a exaustão me venceu e, após algumas horas remoendo os acontecimentos, me enfiei em um sono sem sonhos.

— A Tabhita está viva.— Saboreeo o som das palavras e, sentando-me na cama, estudei as linhas das palmas das minhas mãos, incomodando-me com a estranha angústia que parecia se enraizar cada vez mais no meu peito. Fitei a gaveta do hack do meu computador, onde me lembrava de ter guardado a blusa que ela tinha deixado para trás, cheia de sangue em uma das mangas.

E ram tantas as perguntas...

Tentei ordenar um pouco meus pensamentos e enfiei a cara na agenda do Zeca que encontrei nas coisas da Ângela. Eu nem fazia ideia de que eles se conheciam. Comecei a folhear as páginas e a ler as palavras que pareciam mal conectadas, procurando analisar os desenhos inconscientemente pela milésima vez, deixando minha mente vagar... Na Tabhita. Tinha certeza absoluta de que a vi naquele quarto. A voz, o perfume, o olhar, até aquela minúscula pinta sob o lábio inferior, no canto esquerdo, estava lá! Abri e fechei a mão algumas vezes, lembrando-me de quando ela a segurou.

A quele calor foi... real.

O que me levava ao ponto principal: ela estava mesmo viva...? Por mais que isso fizesse meu coração se acelerar, abraçando fortes sentimentos de euforia e esperança, eu teria que ser realista e descobrir exatamente quem era a Tabhita agora.

Não me senti nenhum pouco aliviado depois de pensar honestamente sobre o assunto após uma noite inteira evitando-o. Tabhita veio e foi embora como uma brisa de verão. Por um bom tempo me perguntei se eu não estava voltando aos velhos tempos; aceitar isso talvez desse às coisas uma possibilidade real de resolução... Mas sempre que todas aquelas pessoas mortas me passavam pela cabeça, eu acabava por me recusar a crer na via supostamente mais racional — a que não envolvia sangue e tripas, pelo menos.

Após alguns suspiros derrotados frente ao placar de 1x0 para a agenda, acabei por tacá-la na parede, irritado, e me jogar na cama. Encarei meu celular, disposto sobre a mesa de cabeceira, e considerei ligar para o Zeca e... perguntar? Não consegui imaginar a cena, mas procurei o número dele na agenda do celular e liguei. Como em todas as outras vezes, depois de várias chamadas, caiu na caixa postal.

Verdadeiramente frustrante.

Continuei deitado, não tendo a mínima vontade de me mover, apesar de saber que, em menos de uma hora, eu tinha que encontrar o Bagdá para as minhas aulas matinais. Foi quando me lembrei dos presentes que minha mãe havia mencionado e que ainda permaneciam ignorados. Fui virando o pescoço vagarosamente, esquadrinhando o quarto até achar alguns embrulhos sobre a cadeira do computador. Eram dois: um azul com bolinhas brancas e um menor, com o embrulho totalmente vermelho.

Abri o menor e deparei-me com uma pequena caixinha de plástico preta, sorri ao abri-la e encarar uma correntinha de prata que pertenceu à minha avó. Era um item bem simples, mas as memórias que o acompanhavam me enchiam de um reconfortante sentimento de saudade, mesmo com o nó que se formava no meu estômago. Ainda me lembrava com clareza do dia em que o Greg tentou usar o pingente, de osso de elefante, para escrever seu nome em uma árvore.

— Achei que tínhamos perdido naquele dia... — murmurei virando o osso cor de marfim que parecia recém-polido. Logo percebi a frase, que não estava ali há dez anos e que se estendia em um espaço mínimo, com uma caligrafia caprichada.

O Infinito.

Mordi os lábios e briguei com a minha mãe mentalmente. Putz, pegando no ponto fraco...

— Covardia, dona Marina.

Demorei um longo minuto estudando cada mínimo detalhe do presente, deixando-me afundar em lembranças, e, por fim, coloquei a correntinha no pescoço e escondi-a sob a camisa que vestia. Finalmente disposto a dedicar alguma atenção ao presente de embalagem azul, que supunha ser o da Célia, franzi a testa especulando o que ela poderia querer me dar. Ela sempre foi muito gentil comigo, mas nunca trocamos mais do que algumas frases em um mesmo momento. A ideia de receber um presente dela foi-me estranha até que eu terminasse de rasgar o embrulho e me descobrisse segurando um exemplar de O Apanhador do Campo de Centeio, de Salinger.

— Isso é covardia dupla. — Foi tudo o que eu pude dizer ao deslizar os dedos pela lombada, sabendo que aquele presente estava longe de ser da Célia. Ao virar a capa e contemplar a folha de rosto do livro senti minhas pernas meio bambas ao ler a dedicatória em um rabisco semi-ilegível.

Feliz aniversário, Felipe!

Se você não vai até Salinger, Salinger vai até você!

Folheei as páginas do livro, pescando algumas frases aqui e ali sem saber o que pensar. Nem me lembrava de quantas vezes a Tabhita havia me mandado ler esse livro, e a simples ideia de tê-lo em mãos, assim, tão de repente, em meio a toda aquela tragédia, me fez achar morbidamente engraçada a perspectiva de parar para lê-lo. E posso dizer que a impressão só reforçou-se, aumentando o autêntico sorriso que surgia nos meus lábios, quando encontrei uma nota fiscal — contendo o nome da livraria, a data, o preço, o troco e todas as informações que costumam ser do intento de uma nota fiscal — perdida entre as páginas.

Inicialmente, assim que desembrulhei o livro, supus que a Célia deveria tê-lo encontrado quando guardava as coisas da Tabhita para levá-las à BH, para sua casa. Imaginei que ela mesma o havia embrulhado após ler a dedicatória, mas, alternando o olhar entre o embrulho azul e a nota fiscal... Simplesmente concluí que parecia mais certo assumir que a própria Tabhita esqueceu a nota ali. Provavelmente, em meio a algum de seus acessos de entusiasmo, tinha resolvido embrulhar o presente muitos dias antes do meu aniversário e, assim, cometeu o engano. Nada mais do que a Tabhita sendo ela mesma.

Desci logo depois, sem apetite nenhum para a vitamina de abacate que a minha mãe alegremente batia no liquidificador. Vi o Luan e o Caíque esperando ansiosamente ela terminar, com os pés balançando, sem conseguirem encostá-los no chão enquanto sentavam-se, animados, à mesa. Cada um segurando seu próprio copo colorido de plástico.

— Bom dia — saudei sem uma real esperança de que minha voz fosse sobrepor os gritos animados dos meninos ou o barulho do liquidificador.

— Meninos, sosseguem um pouco! — ralhou meu tio surgindo atrás de mim de muito bom humor, provavelmente por causa da alta da tia Lídia. — Oi, Felipe... Me ajuda, aqui?

— Ah, claro. — Peguei algumas das sacolas que ele segurava e as coloquei em cima da mesa, de modo que não atrapalhasse a farra da minha mãe com os dois endiabrados. — A tia Lídia já foi à delegacia?

— Sim, fui com ela — ele respondeu fazendo o mesmo que eu, porém, de forma mais atrapalhada. — Ocorreu tudo bem, ela parou na padaria aqui perto... Se bem que tudo aqui é perto! Já deve estar chegando — ele afirmou e soltou uma risada caricata ao reparar que Luan o encarava com um bigode de vitamina.

Pelos minutos que se passaram, ocupei-me, aéreo, com a tarefa de guardar tudo. Assim que acabei, imediatamente, alarmei-me com a hora. Eu estava atrasado para o meu encontro com o Bagdá.

Estava saindo e dizia por cima do ombro, para a minha mãe, que voltaria antes do almoço, quando ela me lembrou do celular e eu voltei ao meu quarto para pegá-lo, já que a Felícia, assim como havia prometido, veio devolvê-lo (junto com a mochila) ontem. Minha mãe disse que conversou com ela, mas na hora eu não dei muita atenção já que, logo que cheguei da casa da Ângela, não estava conseguindo prestar atenção em nada que não fosse a aparição milagrosa da Tabhita.

E ainda tinha a cereja do bolo: a agenda do Zeca. Eu só havia conseguido passar da primeira página. Ontem por mais que eu tentasse raciocinar com as frases que pareciam estar em diferentes línguas e com os desenhos malucos, sempre acabava, sem perceber, relendo a mesma coisa mil vezes... Até que, por fim, desisti e dormi, exausto. Reconheço uma causa perdida quando vejo uma — na maioria das vezes.

Com a agenda em um bolso — enfiada com muita dificuldade, já que eu não queria levar a mochila só para carregá-la e ainda precisava mostrá-la para o Bagdá; talvez ele tivesse alguma ideia — e o celular no outro, andei sob o sol escaldante de Martina. Havia cogitado levar a arma que Bagdá me deu, mas, após meio segundo de reflexão, abandonei a ideia. Seria arriscado e desnecessário.

Segui em direção ao endereço que ele havia me dado e parei em frente a um cemitério. Depois de ir parar em muitas ruas erradas, procurei a conhecida silhueta baixinha e gordinha do Bagdá ou, talvez, a enorme e entupida de músculos do João. Não achei nem uma nem outra. O cemitério era bem ao norte da cidade e aquela rua estava deserta. Quase não havia casas por ali e as que se apresentavam tinham muros tão enormes que fiquei realmente perplexo, era bem diferente dos padrões receptivos de Martina.

Procurei uma sombra onde pudesse me refugiar do sol e esperar, estavam mais atrasados do que eu. Tive tempo o suficiente para estudar a fachada cinzenta do cemitério do outro lado da rua, Cemitério Boa Esperança. Era uma construção simples e bem aberta, rodeada por muros de um metro e meio e resguardada apenas por um portãozinho velho e enferrujado. Imaginei que fosse uma espécie de patrimônio histórico da cidade, depois de observar por um tempo as lápides que pareciam bem antigas e os montes de construções de pedra que adornavam o lugar, mas, em minha opinião, eram enfadonhas demais para estarem em um cemitério e mal cuidadas demais para serem apreciadas.

Supus que as pessoas de Martina não enterrassem mais seus entes queridos ali, mesmo depois de reparar que algumas lápides não pareciam tão abandonadas quanto as mais ao fundo, onde a ponta esquerda do perímetro retangular do cemitério perdia-se nas sombras de alguns ipês que cresciam fora do terreno dos mortos, mas estendiam sua copa por sobre as lajes escuras.

Ao perceber que não só já tinha contemplado cada rachadura que encontrei na parede irregular como já estava contando o seu número de pedras, cansei de ficar em pé sob a árvore que me servia de abrigo na calçada oposta ao cemitério e me sentei. Já estava cansado de esperar e o incessante canto dos grilos somado ao sol infernal só contribuíram com o meu crescente mau humor.

Sentado ali, eu conseguia perceber até mesmo as ondulações que o calor provocava no ar. Me arrependi de não ter levado uma garrafa de água, e já estava sonhando com uma piscina, quando divisei uma figura vestida de preto, sustentando um guarda chuva da mesma cor sobre a cabeça e vindo pela calçada do cemitério. Decepcionei-me, imediatamente, por não ser o Bagdá e limitei-me a acompanhar com os olhos o homem vestido demais, para o meu gosto.

Por alguns segundos, antes que ele parasse bem em frente ao portãozinho enferrujado e entrasse, fantasiei com a possibilidade de que ele fosse um vampiro. Explicaria a roupa pesada e o guarda chuva, mas, ao reparar no buquê de flores que ele carregava, acabei por descartar a ideia. Além do que, não fazia sentido... Eu estava só projetando minha ansiedade em um homem que viera chorar a morte de alguém. Chorar a morte de alguém em um cemitério decadente no meio do nada.

— Aff... Esperar. Esperar. Esperar — reclamei para o ar e acompanhei com os olhos o homem ir em direção a uma das lápides mais ao fundo, até não consegui-lo distinguir mais em meio ao estranho contraste do sol, que ofuscava a minha visão e fazia meus olhos lacrimejarem, com as sombras das árvores frondosas.

Ele não demorou muito. Passados poucos minutos, o vi sair e nossos olhares se encontram. Sua pele era de um tom de negro bem escuro, assim como seus olhos que me examinaram por alguns segundos antes de... Bem, antes de ele atravessar a rua e vir na minha direção. Senti-me totalmente pego no ato, quero dizer, não era como se ele pudesse ler pensamentos e saber que eu vinha imaginando-o como uma espécie de criatura noturna e sanguinária... Mas essa foi exatamente a sensação que eu tive até vê-lo parar ao meu lado e curvar suavemente os lábios, em um sorriso manso.

— Minha mãe foi enterrada aqui há um tempo — ele disse tirando seu paletó e revelando uma fina camisa de ceda branca. — Venho visitá-la todos os anos, no aniversário de sua morte.

— Ah. Sinto muito.

Eu acho, pensei.

Vi-o tirar um maço de cigarros do bolso, pacientemente pegar um e acender com um isqueiro cheio de adornos para, finalmente, tragá-lo demoradamente. Costumo me incomodar profundamente com cheiro de cigarro, mas apenas virei meu rosto sutilmente para a esquerda e fiquei quieto.

— Não sinta — ele pediu de repente e eu precisei de meio segundo para perceber que ele estava respondendo a minha vã tentativa de ser educado —, minha mãe não foi uma boa pessoa.

— Mas era sua mãe — concluí automaticamente.

Surpreendentemente ele sorriu mais uma vez, mostrando, desta vez, uma fileira de dentes brancos que contrastavam com seus lábios escuros.

— É, não se pode mudar isso. Você me faria um favor?

Hesitei por alguns instantes.

— Se eu puder... — respondi sem que parecesse realmente disposto.

— Se um homem de meia idade, pele alva, olhos azuis... Aparecer aqui, espreitando o cemitério, você pode avisá-lo que não pude esperar? Não se preocupe, não é nada demais. Ele é só um homem que contratei para dar uma melhorada no lugar, as pessoas dessa cidade são muito supersticiosas e abandonaram o cemitério há alguns anos quando houve um incêndio mal resolvido. Ou assim dizem... — ele deu de ombros, seu olhar parecia admirar memórias distantes.

— Sim, posso avisar, mas não vou ficar aqui por muito mais tempo.

— Não se pode fazer nada quanto a isso, apenas faça-me esse favor caso ainda esteja por aqui, sim?

— Ok — concordei meio desconfiado, vendo-o colocar o paletó debaixo do braço, erguer novamente o guarda chuva e ir embora com um aceno e um rápido inclinar de cabeça. — Isso sim foi estranho.

Meia hora depois, João apareceu. Ele surgiu do fim da rua com aquela máscara preta envolvendo seu rosto e fez-me ter uma espécie de déjà vu com alguma cena de filme que não soube identificar. Provavelmente um sobre algum terrorista. Só faltavam as metralhadoras e bombas.

— Você sabe que está uma graça com esta máscara, não sabe? — não resisti à vontade de fazer uma provocação.

— Olá, Felipe — ele cumprimentou daquele mesmo jeito estranhamente contido de que eu me lembrava. — Vamos, temos uma trilha pra percorrer.

— Você está atrasado, não tenho muito tempo e cara... Tenho aula — comecei a dizer, mas ele continuou andando. — Sério que você vai ficar andando com essa máscara na cara? Isso é muito estranho, vou te seguir do outro lado da rua, ok? — eu disse fazendo menção de ir para a outra calçada. Foi então que ele resolveu parar de andar e voltar seus olhos castanhos em minha direção, destinando-me alguma atenção.

— Aconteceu alguma coisa? — sondei sentindo uma tensão que não estava lá ontem.

— Vai me seguir ou não? Não sei o que deu no Bagdá para me fazer de babá! — bufou.

— Estou te seguindo, ué. Mas se vamos para aquela mesma clareira de ontem e você estiver sob o efeito de alguma substância química ilícita, você tem que me dizer — afirmei tentando dar certa seriedade às minhas palavras.

Aparentemente João não era muito bom com piadas. Seu olhar mantinha o mesmo aspecto calmo e indecifrável e seu rosto parecia permanecer imóvel e impassível sob a máscara.

— Acha que posso brincar de tiro ao alvo com você, é?

— Exatamente! — tentei soar bastante enfático enquanto arqueava as sobrancelhas.

— Que figura, viu... — ele pareceu soltar um risinho abafado e foi andando, sem se importar em responder às minhas perguntas. Fui atrás e não demorou muito para que entrássemos na floresta. Enquanto estávamos na trilha foi fichinha, mas aí ele começou a seguir por seu próprio caminho mata fechada adentro e foi meio complicado segui-lo. Nessas horas eu gostaria que as florestas brasileiras fossem iguais àquelas europeias em que as árvores parecem ficar a uns três metros umas das outras. Com certeza teria evitado muitos arranhões, plantas batendo na minha cara, carrapichos grudando-se nas minhas calças e nos meus tênis, mosquitos e todo tipo de carrapato.

Quando afinal chegamos à mesma clareira de ontem, concluí que, definitivamente, lá devesse ser algum tipo de base secreta para que o Bagdá fizesse todo esse alvoroço para que eu não descobrisse onde era, ainda que eu tivesse alguns bons palpites sobre sua localização*. Enfim, fiquei muito mais tempo atirando. João parecia estar mais estressado e foi mais exigente. Todas as vezes que eu me distraía, posicionando-me de forma errada ou demorando a recarregar o revolver, ouvia alguma reclamação irritada. Porém, mesmo que a atmosfera fosse desconfortável, acho que isso me ajudou a melhorar a minha pontaria e a não pensar, bem, em tudo... E claro, na Tabhita. Até posso dizer que acertei bem no meio, da árvore onde mirara, algumas vezes. Portanto, agora era só uma questão de pedir ao Wagner que ficasse parado até que eu conseguisse acertá-lo.

Saí de lá esgotado e acabei por não perguntar pelo Bagdá. Fiz uma nota mental para que eu me lembrasse de ligar para ele depois da aula, se eu conseguisse chegar a tempo. Tudo o que fiz, ao entrar em casa, foi tomar uma chuveirada de água fria e correr feito um desvairado para pegar o ônibus. Nem deu tempo direito de ouvir a bronca da minha mãe por chegar em cima da hora e não almoçar. Ela quase me amarrou na cadeira para que eu comesse, alegando que eu havia acabado de sair do hospital e não iria ver um filho seu morrendo de anemia. Também enfiou uns papeis em minhas mãos assim que percebeu que não iria conseguir me sentar àquela mesa e sorriu como sempre fazia.

— Vá com Deus, cabeça de vento!

Joguei-me na cadeira do ônibus sentindo todos os meus músculos reclamarem. Não havia feito nenhum exercício físico propriamente, no entanto fiquei a manhã inteira com os braços esticados e em pé sob o sol. Não tinha dado tempo de me olhar no espelho, mas pelo reflexo na tela do celular eu pude ver a tira vermelha que se espalhava pelo meu nariz e bochechas.

Quando parei para prestar atenção nos papéis que minha mãe havia me entregado, reparei que era a autorização da ida ao acampamento assinada e as cópias do meu CPF e do dela.

— Ok — paralisei encarando o que via. Tinha certeza de não ter mencionado nada sobre o acampamento. Certeza absoluta, já que eu não iria ao acampamento. — Como ela descobriu?

O sol continuava forte e o ônibus só foi ficando cada vez mais abafado conforme os estudantes iam entrando. Quando finalmente chegamos ao Silvana Batista, fui um dos primeiros a sair do veículo e respirar ar fresco. Se isso foi um alívio, mal posso descrever a felicidade de entrar naquela sala de aula com ar-condicionado..

Assim como ontem, o dia se arrastou. Não sei dizer se as aulas foram chatas ou não, porque estava concentrado demais na agenda do Zeca. Folheava as páginas e anotava algumas coisas no meu caderno, tentando entender a lógica das anotações e associar os desenhos, números e diferentes palavras em outras línguas que havia traduzido (ou tentado) hoje de manhã com a ajuda do Google. Sem falar no fato de que às vezes era meio difícil me concentrar, já que eu me pegava imaginando se já haviam encontrado o corpo da Cris...

Expulsando as lamentações desnecessárias forcei-me diversas vezes a concentrar-me no que era importante. O que mais me intrigava era o contínuo aparecimento da frase em espanhol: gusano de bruja (verme de bruxa) sempre que havia um desenho diferente, a maioria era de larvas achatadas, com o corpo cilíndrico e dividido em anéis. Algumas delas até mesmo tinham dentes afiados e ocupavam uma página inteira. Mas havia também alguns rabiscos humanoides que possuíam linhas traçadas de diferentes cores percorrendo todo o corpo, bem, todo o corpo do rabisco. Algumas delas eram azuis e outras vermelhas ou verdes, nunca as três juntas. E nunca azuis e vermelhas juntas. As únicas que pareciam entrelaçar-se sempre com as linhas vermelhas e, às vezes, com as azuis, eram as verdes.

Perdi todo o primeiro horário de matemática tentando entender o que as linhas significavam. De alguma forma tinha certeza de que entender o que significavam e o que era o tal do verme era a chave para compreender o que as anotações queriam dizer. Não foram poucas as vezes em que pensei em simplesmente abandonar a agenda como obra de algum retardado, mas sempre me lembrava de que de retardado o Zeca não tinha nada e de que, em vários momentos, palavras como: strigoi, vampiros, vrykolakas e hematófagos, se repetiam. Todas eram sinônimas de sanguessugas cretinos nas mais diversas e inimagináveis línguas e civilizações. Notei que estas palavras, especificamente, apareciam somente quando os fios verdes estavam juntos aos vermelhos. Quando eram os fios verdes juntos aos azuis, as palavras chaves eram sempre: cinan, zoan, lican, phagein, demônio. Além de demônio, a única palavra que parecia ter um significado mais concreto para mim era phagein, que descobri ter algo haver com comer, em grego. Também tinha uma teoria para o que poderia traduzir esse conjunto de palavras, mas sempre acabava por descartar a possibilidade... Seria desgraça demais!

No início não entendi muito bem como o segundo grupo de palavras poderia se diferenciar do grupo dos sinônimos de vampiro, entretanto a inegável diferença entre o Toni e o Wagner insistia em me encher a paciência. O Toni engoliu a carne do jogador de futebol com uma fome bizarra e o Wagner sugou meu sangue, também com uma fome bizarra... Mas eles eram diferentes. Comiam coisas diferentes. Os fios azuis e vermelhos poderiam representar duas diferentes raças de vampiros. Faria sentido, se eu não tivesse sido atacado na frente da minha casa há mais ou menos uma semana por um par de seres que pareciam ser incapazes de articular uma palavra sem rugir e babar. E aí surgia um terceiro ponto, talvez representado pelo fio verde...

— Grr... Ai meu cérebro!

— A dor no seu cérebro não parece ter alguma coisa haver com o problema que passei no quadro — disse rispidamente uma voz que vinha em minha direção, fazendo eu me dar conta de que o professor do primeiro horário já havia saído.

Escondi rapidamente a agenda do Zeca e levantei os olhos bem a tempo de ver a expressão desgostosa da professora de física. Ouvi seu salto bater firme contra o piso transpondo o restante da distância que a separava da minha carteira, enquanto vasculhava minhas memórias tentando lembrar-me do seu nome.

— É, esse assunto é mesmo difícil — eu disse voltando meus olhos para o monstro de fórmulas e contas que parecia ganhar vida própria no quadro branco, tentando identificar o conteúdo.

— Você acha? Porque não me diz sobre o que são suas dúvidas para que eu possa ajudá-lo — ela desafiou ajeitando os óculos de aros roxos.

Seu rosto era bonito, mas não pude deixar de pensar no quão perversa ela era. Nas últimas aulas, ela sempre escolhia alguém que não sabia bem os assuntos para que fosse fazer os exercícios de revisão no quadro. O povo se cagava de medo dela, literalmente. Até eu percebia isso, mesmo tento perdido um monte das suas aulas. Ou talvez ela fosse uma vampira... Ok. Não... Mas que me fez relaxar potencialmente com a súbita vontade de rir que me deu, ah, isso eu não posso negar.

— Bem — franzi o cenho, alternando meu olhar entre ela e o quadro —, aquela parte ali — apontei para frente, mais consciente do que gostaria de que toda a classe nos encarava em silêncio. — A do meio.

Ouvi algumas risadinhas mal contidas e aguardei a fera explodir.

— Muito bem, você quer fazer piada — ela disse jogando seus cabelos, muito lisos, para a esquerda. — Provavelmente a diretora vai adorar ouvir as suas piadinhas também, Felipe. — Um sorriso brincou em seus lábios e ela fez um sinal para que eu a seguisse.

Levantei-me a contragosto e vi a careta que o meu vizinho de carteira fazia para as costas dela. Parei ao lado de sua mesa, ouvindo o resto da sala cochichar freneticamente e aguardando a nota que ela escrevia furiosamente em um pedaço de papel. Realmente senti falta da minha antiga escola nesse momento, ninguém costumava te perturbar se você não estava perturbando ninguém. Os professores chamavam atenção, mas não inventavam moda.

Suspirei e peguei o papel que ela me estendeu. Logo ao fim da nota, que não fiz questão de ler, encontrava-se o nome: Patrícia Fontes Vargas. Saí da sala e ia direto para a sala da diretora quando parei no meio do corredor, me sentindo meio besta.

— Ah, tá! Por que raios eu iria à sala da diretora?

Arraste-me até lá da próxima vez, pensei.

Explorei a escola para matar o tempo, fingindo estar concentrado demais nos meus próprios pensamentos e carregado daquele ar de seriedade que pessoas atarefadas parecem ter, quando encontrava algum professor. Ninguém pareceu desconfiar, o professor de matemática até sorriu para mim e me cumprimentou quando nos esbarramos no pátio perto da entrada.

Ao cabo de alguns minutos, vi-me em frente à cantina da escola. O dia estava sendo estressante com tantas coisas que eu não conseguia entender e, como eu não havia comido nada desde ontem, meu estômago não parava de roncar. Espreitei o lugar e me animei ao reconhecer o rosto da garçonete que me deu um banho de suco de laranja no meu primeiro dia de aula.

— Oi — cumprimentei assustando-a e interrompendo o jeito meticuloso que executava a tarefa de limpar as mesas.

— Ah, é você, oi. — Ela me estudou por alguns segundos e voltou a limpar a mesa.

— Esperava outra pessoa?

— Não — ela negou, recolhendo o pano, parecendo ter terminado, e indo para trás do balcão.

— Estou morrendo de fome, qual é a especialidade da casa? — perguntei fitando os salgados da estufa e escutando o barulho de água corrente que ela fazia ao lavar as mãos.

— O intervalo é só daqui a uma hora — ela informou se voltando em direção ao balcão e secando as mãos com um pano de prato. — Você está matando aula?

— Sim. Não. Quero dizer, mais ou menos. — Dei de ombros.

— Não recomendaria nenhum desses salgados, vou fazer um sanduiche natural — ela disse, abaixando-se e pegando um saco de pão de forma. Dispôs quatro fatias sobre um prato grande e foi até a geladeira pegar um pote de margarina cheio de patê de atum, o qual ela espalhou generosamente pelas quatro fatias, resultando em dois apetitosos sanduíches. — Só dessa vez, hein! Porque a dona Vanda não está aqui. Não podemos vender lanches para os alunos fora do horário. — Ela colocou os dois sanduíches em um pratinho e me serviu suco de cajá.

— Ah, se você soubesse como está salvando o meu dia! — exclamei de boca cheia, após sentar-me no banco alto em frente ao balcão e dar umas duas mordidas no primeiro sanduíche que minhas mãos tocaram. — Só espero que não custe mais do que cinco reais, porque só estou com isso hoje.

— Hum, não! Não precisa pagar. — Ela riu. — Enxergue isso como um pedido de desculpas pelo outro dia.

Com o desenrolar da conversa, descobri que seu nome era Fernanda e que ela estava trabalhando na lanchonete do Silvana Batista para juntar dinheiro e voltar à Goiás e terminar a faculdade de biotecnologia que havia trancado. Passamos a próxima hora conversando e ela me contou que teve que adiantar a sua volta à Martina porque sua mãe começou a desenvolver Parkinson e a doença estava avançando muito rapidamente. Ela não disse, mas pude perceber, por seu tom evasivo, que ela sabia que sua mãe não viveria muito mais. Senti-me esquisito, mas compreendi perfeitamente o que ela sentia. A angústia de desejar desesperadamente que algo não fosse embora estava me consumindo e, quando achava que estava aceitando bem a realidade, que estava lidando bem com a coisa toda... Então tudo parecia ter ficado mais e mais confuso.

A incômoda verdade é que eu não queria desejar, não queria poder desejar que fosse verdade. Recordava-me muito bem do que senti depois da morte da Tabhita, aquela esperança se aflorando... Tornando toda a minha determinação de seguir em frente e lidar com a realidade, inútil. E também me recordo das palavras da Ângela...

E agora está morta. Ela não se transformará.

Ouvir essas palavras havia sido tão assustador que era quase como se a Tabhita tivesse morrido outra vez, como se estivesse novamente vendo seu corpo estendido sobre a mesa da cozinha da minha casa... E agora, quando, finalmente, achava estar começando a aceitar a situação de novo... Lá estava aquela ponta de expectativa e ânsia desesperada, formando-se novamente.

Logo depois de escutar a sineta do intervalo tocar, pedi mais um sanduíche para Fernanda e fiz algumas piadas idiotas tentando animá-la. Tentei pagar pelo terceiro sanduíche, mas além de não aceitar o meu dinheiro, ela disse que o sanduíche não estava no cardápio e me despachou para que pudesse atender a multidão faminta que se juntava.

Com o fim do meu passeio pelo colégio e o anúncio das últimas aulas, voltei à sala. Meu vizinho de carteira veio me perguntar o que a diretora havia dito, se eu havia pegado uma advertência ou algo do tipo, mas apenas sorri e neguei com a cabeça. Em seguida, Hugo, o representante de turma, apareceu e balançou a cabeça várias vezes como sinal de sua aprovação ao ver que eu tinha a autorização assinada e as cópias dos documentos em mãos.

Notas finais
E então, gostaram? Próximo cap: Clássicos Parte 2. Trarei uma surpresinha pra vcs! =D Bjus^^