Noir
3 Victarion
Notas iniciais
Fael
Então era culpa de Eros. Por causa dele, minha namorada (ex, agora) ficou triste, por causa dele eu não consigo amá-la. Não sei o porquê de não ter voado nele ainda. Celine havia saído correndo. Eros suspirou.
–Era esperado. Temo por ela, devo visita-la depois. Ou melhor, mandar alguém que vá ter certeza de que ela está bem, ela não deve estar com ânimo para me receber. Jesse, vá acha-la. – Ele apontou para um garoto do chalé de Afrodite, e ele se levantou. Ele voltou-se para todos nós. – Estão todos dispensados, menos você, Fael. Temos muito a conversar. – Todos se levantaram e foram embora. Jake pegou uma garrafa de vinho e foi para o lado dos chalés. Eu e Eros ficamos.
– Então, ainda tem algo a dizer? – Perguntei, desafiador.
– Sim. Digamos que seu pai não ficou nem um pouco alegre quando soube da maldição. Então, ele brigou comigo. E os deuses não estão com paciência para rixas entre nós. Desde que Percy recusou a imortalidade, eles estão de muito mau-humor. Então, foi proposto que você acabasse com esse mau-humor. Estamos com um problema. O céu está se comportando de forma estranha. Há algo errado. – Já haviam me explicado sobre a ocidentalização dos deuses gregos, o Olimpo ser no Empire State... Mas eu nem sequer imaginava o que eu deveria fazer. Eros pareceu ler meus pensamentos. – Você irá ao Vale da Morte, na Califórnia, procurar a foice de Cronos, a mesma que derrotou Urano. Rumores dizem que depois que Cronos foi derrotado, a foice foi levada até lá. Se conseguir, lhe será devolvida a capacidade de amar. Além disso, Atena acredita que a foice poderá ser importante. E se Atena fala, nós ouvimos. Compreendido?
– Sim. Mas... Por que a foice será importante?
– Bem... Acho que vocês não deveriam saber disso, mas... Victarion. Há um homem chamado Victarion solto por aí. Extremamente poderoso. Até mesmo nós, deuses, o tememos. Ele deve ser morto, e Atena crê que a Foice é a única arma que seria capaz de matá-lo à esta altura.
– Eu irei sozinho? – Perguntei.
– Não, idiota. Você irá levar Jake. – Ele disse, despreocupado. – Eu tenho destino melhor para a minha filha. França. Ela irá para lá, aprenderá a se portar como uma real dama, para lhe esquecer. Fael, você só irá ver a minha filha quando encontrar a Foice. – Aquilo me soou bastante detestável. Eu achei que não devia fazer o que fiz. Eu larguei Eros falando sozinho e fui ao chalé de Apolo. Vários campistas me perguntaram o que Eros queria comigo, mas eu simplesmente desviava do assunto. Cheguei à cama que passaria a ser a minha e me deitei.
Sonhei com Eros e Apolo brigando. Eu era o centro da briga.
– Deixe meu filho ficar! Você sabe que nem ele nem Jake irão sobreviver ao suplício que você está impondo!
– Eu não tenho nada com isso. Apolo, você sabe que eles têm de fazer isso. Além disso, você deveria saber que eu nunca admitiria que um filho seu namorasse a minha filha! É absurdo!
– Lembre-se, se ele sobreviver, você deverá cumprir sua promessa! Dionísio já está ciente de tudo isso, bem como Quíron. Fael pode sair em missão quando quiser
Então outra pessoa se manifestou. E só então eu notei que eles estavam no Olimpo. Devia ser Afrodite, pela beleza que irradiava.
– Então vamos deixar o suplício deles mais simples. Vamos fazer o seguinte: transmitimos este sonho à eles. Bebê, você já fez demais. Agora Apolo poderá dar um presente à seu filho assim que julgar necessário. Que tal? – Todos os deuses concordaram, e Eros tentou reclamar. Mas Afrodite o olhou e ele silenciou-se.
Apolo suspirou e eu acordei. Jake tivera o mesmo sonho. E, talvez, Celine também. Eu havia decidido. Eu partiria agora. Arrumei minhas coisas rapidamente.
Corri até o chalé de Dionísio, e Jake estava pronto, na porta.
– Você é muito previsível. – Ele riu para mim. Ri também, e fomos até o limite do acampamento. Lá, Dionísio nos esperava.
– Então vocês irão mesmo? – Perguntou, estressado.
– Sim. Não vai tentar nos impedir? – Perguntei.
– Não. Por que haveria de tentar? – Ele respondeu. Fazia sentido. Ele nos entregou duas mochilas. Era comida, água e afins. – Afrodite convenceu o piloto de um bimotor a leva-los até o Vale. Está esperando colina abaixo. E me convenceu a ser gentil. Urgh. Vão logo antes que eu desista. – Ele disse, estressado.
Não contestamos. Descemos a colina e encontramos o tal bimotor. O piloto parecia avoado, longe da Colina. Imagino o que Afrodite fez com ele. Mentira, não imagino não. Assim que entramos no avião, sem dizer uma palavra, ele ligou o avião e nos levou em direção ao Oeste dos Estados Unidos.
– Jake – Chamei. Ele se virou para mim.
– Fala. – Ele estava remexendo a mochila. Provavelmente procurando vinho ou algo assim. Secretamente, eu até torcia para ter. Eu não queria ver Jake em uma crise de abstinência.
– Você realmente quer ir? Digo, você nem sabe o que nós vamos fazer! Ou sabe? – Perguntei
– Eu não quero ir, se você quer saber. Mas eu não posso te largar sozinho no meio do Vale da Morte... Digo, olha o nome! – Ele riu. Só ele para fazer piada com essa situação. Achei por bem informa-lo do que iríamos fazer lá.
Acho que foi a pior coisa que eu já fiz. Ele se desesperou. Pelo visto, não queria ir para um deserto, no meio do nada, cheio de monstros, atrás de uma foice. Eu não podia culpa-lo.
A viagem foi até rápida. Chegamos no Vale da Morte em apenas algumas horas. Descemos do avião, e o piloto logo foi embora.
E a partir daquele momento eu e Jake estávamos abandonados no deserto, abandonados à sorte.
Celine
Acordei no outro dia, provavelmente após a hora que deveria. Olhei para o lado. Jesse ainda estava lá. Eu o sacudi.
– Jesse. – Ele olhou para mim, com sono. – Acorda, nós não estamos atrasados?
– Celine, hoje é domingo. Não temos atividades. – Ele falou, obviamente controlando a irritação.
– Ahn... Desculpe. – Falei, constrangida. Ele riu e disse que não tinha problemas. Então eu fiz uma pergunta à ele. – Jesse, você já... Já passou pelo que eu estou passando?
– Bem... Não. Mas no chalé de Afrodite alguns têm que fazer algo parecido...
– Como?
– Bem, Drew chama de rito de passagem. Drew é uma vadia. Ela diz que para sermos verdadeiros filhos de Afrodite nós temos que fazer alguém se apaixonar por nós... E depois partir o coração dessa pessoa. Eu nunca faria algo assim, é um absurdo.
– Jesse... Se você não fosse meu tio... Você seria meu namorado? – Perguntei, mordendo o lábio. Acho que não é uma boa pergunta a se fazer.
– E por que não? Digo, você é bonita, adorável, gentil... Qualquer um iria querer isso. – Ele disse, sendo sincero. Então nós ficamos um longo tempo sem falar nada. Até que ele falou. – É melhor nos apressarmos. O almoço deve começar daqui a pouco.
Olhei no relógio. Ainda eram 10 horas. Ele estava fugindo de mim. Eu o chamei. Ele me encarou.
– Você está apaixonado por mim? – Perguntei. Ele me olhou longamente e perdidamente antes de me responder. Ele suspirou, e ficou muito vermelho.
– Sim. – Sussurou. E foi embora. Nesse momento eu fiquei de saco cheio. Peguei o travesseiro. Mordi. E gritei, gritei até não poder mais. Para isso eu tinha pegado o travesseiro. Para que o acampamento não me ouvisse gritando. Para abafar meus gritos. Não bastava descobrir que meu namorado nunca me amou, mas agora meu melhor amigo e o meu ex me querem. Que ódio! Por que tudo comigo? Porque eu sou bonita? Ótimo, isso era fácil de resolver. Peguei uma tesoura e fui ao banheiro. Encostei a tesoura no meu cabelo. E o cortei do pior jeito que consegui imaginar. Totalmente desigual, desfiado, descabelado, horroroso. Peguei as roupas horrorosas do acampamento. Coloquei. E me sentei esperando a hora do almoço. Roí as unhas, tirei a maquiagem, fiz tudo que podia para ficar feia. E quando chegou a hora do almoço, fiz questão de passar na frente de Jesse. Ele me olhou com a maior cara de surpresa do mundo. Ótimo. Mas aí ele me ofereceu o lugar ao lado dele. Ótimo, até seria melhor para fazer ele me odiar. Sentei. A primeira coisa que ele fez foi sussurrar para mim:
– O que você fez com você mesma? – Ele perguntou, assustado.
– Mudei. – Respondi mal-humorada.
– Isso é tudo por que eu disse que sou a fim de você?
– Sim – Respondo.
E antes que ele dissesse qualquer coisa, na frente das mesas, havia uma mesa com Dionísio, Quíron e... Minha mãe?
– O que minha mãe tá fazendo ali? – Perguntei a Jesse.
– Ela fará as honras da casa hoje. Sabe como é, meio que um discurso e essas coisas.
– Ah sim.
Então minha mãe se levantou.
– Olá campistas. Talvez tenham notado. Mas há dois campistas faltando. Fael e Jake. Chegaram ontem. Foram em uma missão perigosa, sozinhos. Eles foram encontrar a foice de Cronos para...
Então tudo aconteceu em uma fração de segundo. Quando ela falou Cronos, eu ouvi um zunido. E então apareceu uma flecha dourada. Que acertou o pescoço da minha mãe. A última imagem que tive antes de sair correndo até ela foi o olhar de surpresa dela para mim. Então eu corri até ela. Desesperada, chorando, feia. Quando cheguei lá, ela estava tentando falar algo comigo. Mas a flecha havia a atingido direto na traqueia. Ela não iria conseguir falar.
– Mamãe... – Ela fechou os olhos. Minha mãe estava morrendo. E a última imagem que ela teria da filha era eu toda descabelada e horrorosa. Que presente.
– Quem foi o... – Eu iria terminar perguntando quem havia matado ela. Então eu vi. Atrás do pavilhão, havia alguém com um arco e uma capa dourada. Fui atrás desse alguém, porém assim que dei dois passos, Jesse me parou.
– Celine, não. É perigoso. Você não conhece quem jogou a flecha. – Eu levantei a mão e dei um tapa nele. O tapa mais forte que eu já dei na minha vida. Eu pude ver o sangue escorrendo do lindo rosto dele.
– Escute aqui, Jesse. – Comecei, explodindo com ele. – Eu NÃO te dei o direito de me parar. Quem morreu aqui é a MINHA mãe, não a SUA mãe. Então eu vou até onde EU quiser, até porque eu SEI o que eu estou fazendo. – Ele encostou a mão no rosto. – E tem MUITO mais de onde veio esse, escutou? – Ele me olhou incrédulo, e eu olhei a minha mãe. Havia somente uma flecha dourada. Corri até a floresta.
Para falar a verdade, acho que a pessoa que atirou na minha mãe queria ser encontrada. Honestamente, uma capa dourada em um dia de Sol não é a melhor escolha, ela praticamente brilha no meio das árvores. Assim que achei o arqueiro, pulei em cima dele. Ele rapidamente se desvencilhou e me segurou pelos pulsos. Então o capuz caiu, revelando sua face.
Eu nunca havia visto nada tão inquietante, ou tão pavoroso.
– Não adianta. Sua mãe já está morrendo. – Disse ele, na voz mais sedutora e hipnótica de todas.
– Por que você... Por que a matou? – Consegui gaguejar, entre um soluço e outro.
– Acredite em mim, Celine... Eu não queria. Somente estou atendendo ordens superiores... Você irá encontrar meu mestre. Mais cedo ou mais tarde, não importa o tanto que ele tente evitar isso. E eu não deveria estar lhe falando isso. Tome. Isso pode ficar com você. – Ele tirou a capa, a aljava e o arco, e me entregou, revelando a roupa que tinha por baixo da capa dourada. Ele estava com uma armadura que parecia feita de vidro. E se movia como se estivesse vestido em seda. Então ele tirou o capacete e revelou o cabelo. Grande, sedoso, negro como a noite. – Meu nome é Victarion. – Então ele tirou uma adaga da bainha, que também aparentava ser feita de vidro. – E eu sinto muito por isso. – Ele encostou a adaga em minha barriga, e fez um pequeno corte. Assim que o fez, eu comecei a ficar tonta. Até cair no chão.
Sempre que leio relatos sobre pessoas que passaram por isso, eu imagino que seja bom, traga uma sensação de paz de espírito... Mas comigo não foi assim. Foi a pior sensação do mundo. Cada um dos meus músculos gritava em dor, mas eu não conseguia me mover. Minha cabeça estava parecendo ser feita de concreto, e eu sentia como se ela estivesse explodindo.
Então eu fechei os olhos, pensando que talvez, a morte não seja tão ruim, sabendo do que veio antes.
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