Noir
4 O Vale da Morte
Jake:
Mal havia se passado uma hora no deserto e eu já havia notado que seria a pior viagem da minha vida. Digo, acho que para mim seria pior do que para Fael. Porque enquanto eu sempre viajava para lugares onde a comida e a bebida eram boas, como a França, e Celine viajava para os pontos mais badalados do planeta, como Dubai, Fael preferia destinos mais... Descentralizados. Assim, que tipo de pessoa vai para o Brasil fazer rapel ou sei lá o que na Chapada Diamantina e nem sequer passa no Rio de Janeiro? Fael é esse tipo de pessoa. Juro que não entendo o porquê de preferir ficar fedido e sem calor, sem nem poder tomar um banho, do que ficar deitado no sol das praias do Rio de Janeiro. Menino estranho.
— Fael, qual a primeira coisa que fazemos em um deserto? – Pergunto
— Achamos água. – Me informou ele. – Porém eu acho que aqui não tem muita água... Nesse caso, achamos um camelo.
— Você pretende beber o camelo?
— Não, idiota, é porque eles também precisam de água, e geralmente se dirigem à um oásis. Simples. – Então Fael bateu com a mão na cara. – Porcaria, não existem camelos no Vale da Morte!
Nós andamos por o que eu achei serem vinte minutos, E então eu vi, ao longe um lago. Cutuquei Fael.
— Fael, aquilo é um lago?
— Pensei a mesma coisa. É, pode ser.
Fomos até ele. E era um laguinho mesmo! Pus a mão. A água estava gelada.
— Se quiser tomar banho agora deve ser a última chance em dias.
— Fael, você está esquisito. – Notei. Ok, ele tinha perdido a namorada e tal, mas eu nunca havia visto ele assim. Digo, ele nunca amou ela, amou? Assim, nada contra ele, mas se ele nunca a amou, por que resolveu namorá-la? E, bem, com ele no páreo, quem sou eu? Um bêbado contra o Fael, que faz as meninas suspirarem aonde vá? Bem, modéstia à parte, eu sei que sou mais atraente do que ele. Mas acho que me chamam de cafajeste por aí, sei lá. De qualquer jeito, eu ainda sou a fim de Celine, e muito. Mas acho que as minhas chances zeraram depois do dia da fogueira. Ah, que me importa? Eu tenho de admitir que sou um idiota. Bem, não direi que sou um alcóolatra porque não sou. Eu só gosto de dar uns goles, problemas?
— Jake, Celine não quer olhar na minha cara, e nós estamos em um deserto, sozinhos. Eu deveria estar comemorando?
— Bem... Não, mas eu nunca te vi assim. E outra, se você nunca amou ela, por que foi lá se declarar?
— Jake, eu já falei com você sobre isso. Eu a amava até a hora que ela disse “sim”. – E então eu jurei ouvi-lo murmurando “Maldito Eros”. – Mas nós não temos tempo. Temos que achar a foice. Você vai ou não entrar na água? – Então ele tirou a camisa, os shorts, os sapatos e entrou. Fiz o mesmo. Cara, água nunca me pareceu tão boa. Então ele me olhou, sério:
— Jake, tenho que falar algo sério com você. – Eu já sabia sobre o que era. Bebida. – Nós não teremos um estoque infinito de vinho aqui. Então é bom que você não beba, ok? – Não disse? Que raiva, odeio quando me dizem o que fazer.
— Ok – resmunguei.
Nós passamos uns 10 minutos na água, e então voltamos para as mochilas. E para nosso desespero, a encontramos reviradas. Eu comecei a reclamar de como éramos idiotas por deixar as mochilas lá enquanto estávamos no laguinho. Fael começou a olhar as mochilas
— Parece que foi um lagarto, pelas marcas dos dentes no plástico. Não deve ser nada perigoso, mas eu não sei o que tem na boca dele, muito menos que espécie era. Bem, ele não levou muita coisa... Mas eu não vou comer o que ele mordeu e deixou pela metade. Pode ser perigoso. Então, contando tudo, nós temos alguns biscoitos, uns 100 gramas de carne seca, e algumas frutas. Temos que ser rápidos se queremos sair daqui vivos.
O suplício havia começado. Seria esse tal lagarto um “presente” dos deuses? Fael, mantendo a calma, tirou da mochila com as roupas um prendedor de coques, desses que as mulheres usam. Sabe-se lá o que ele iria fazer com aquilo. Então ele jogou o prendedor para cima e ele se transformou em um arco dourado. Então ele tirou uma caixinha de presilhas do bolso, e elas se transformaram em uma aljava de flechas douradas.
— Onde você arranjou isso?
— Não sei. Só sei o que é... Não me pergunte como. – Ele estava tão em dúvida quanto eu. – Eu não de onde raios isso surgiu. Muito menos sei como eu sabia que virava um arco... Ah, isso está muito confuso.
E então nós descobrimos que realmente era muito quente. Em pouco tempo estávamos suando, e com sede.
— Fael, onde pode estar a foice?
— Não faço a mínima ideia. Bem, as montanhas Sierra Nevadas estão ali... Provavelmente lá...
Então, em um décimo de segundo, Fael olhou para as montanhas, e uma serpente voou nele. Digo, não uma serpente, uma mulher serpente.
Fael e a mulher-serpente começaram a se atracar. Ele conseguiu ficar por cima dela, e a prendeu no chão com os joelhos.
— Eu sabia que você estava aqui. – Disse ele, com raiva. Então ele armou o arco e o apontou para a cara da mulher. Um tiro à essa distância, menos de 10 centímetros, poderia não ser tão forte, mas não iria errar. E eu duvido que a mulher iria se safar de um tiro na testa. – Agora fale logo, de onde você veio?
— Perdão... Não me mate por favor... – A serpente respondeu.- Ssssou uma Dracaena mandada pelo protetor da foice de Cronosssssss... Elesss sssabem que você está perto...
— Não me interessa se estou perto. Onde está a foice? – Perguntou Fael, vermelho de raiva.
— Quilômetrossss à frente... Cinco horassss de caminhada... – Respondeu a serpente.
Fael não teve piedade. Soltou a flecha na testa da Dracaena, que se tornou poeira.
— Hmph. Vamos logo. Não temos tempo à perder.
Esse não era o Fael que eu conhecia. O Fael que eu conhecia era piedoso, nunca iria ter essa reação. O Fael que eu conhecia não gostava de carne porque uma vez foi à um matadouro e viu os bois sofrendo ao morrer.
Fael não havia dito uma só palavra desde que matou a Dracaena. É, pelo visto ainda havia um pouquinho do Fael de antes aí. Depois de umas quatro horas de caminhada, o Sol estava começando a abaixar, e ele colocou uma mão na minha frente, pedindo que eu ficasse quieto. Então ele tirou uma flecha, a encaixou no arco e a jogou ao longe. Corremos até o destino da flecha, para encontrar um lagarto morto.
— Belo tiro. – Elogiei. Ele tirou uma faca afiada da mochila e começou a desmembrar o bicho. Ele ficou branco ao fazer isso, como se tivesse horror de desmembrar lagartos. E tinha mesmo.
— Acenda uma fogueira... Por favor... – Disse ele, como que segurando o vômito. Ele também tinha pavor de sangue, pelo visto. Até onde eu sabia, ele não se importava de ver sangue, desde que não visse o sangue escorrendo. Ele estava tremendo. E então ele cortou o braço com a faca sem querer. Assim que ele olhou para o corte, pelo qual era possível ver sua carne e o sangue fluindo, ele desmaiou.
Então, à partir daquele momento, até uma hora indeterminada, era eu e o Fael desmaiado contra o que quer que viesse do deserto.
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