Noir

12 O novo Jake



Jake

— Por que eu? – Perguntei para Dlevin. Ele havia deixado todos os outros presos, só havia eu sobrando.
— Porque você sobreviveu à mim uma vez. Não pretendo deixá-lo viver uma vez mais.
Dlevin estendeu as mãos e os anéis em seus dedos tornaram-se uma esfera gigante de ferro. Afinal, ouro valia muito mais do que ferro., e suas transmutações eram calculadas com base no valor monetário.A esfera foi arremessada para o meu lado. Desviei por poucos centímetros. Então me virei para o lado onde ela havia caído. Aquilo devia pesar pelo menos umas 3 toneladas. Então ele estalou os dedos novamente,
— Mas o quê... – Praguejei, quando a esfera se tornou uma infinidade de estacas. Do jeito que foi no dia em que ele me torturou, só que não eram agulhas. Eram estacas tão grossas quanto o meu braço. – O que você fez?
— Expandi a matéria. Surpreso? – Ele deu um sorriso sádico para mim enquanto as estacas voavam em minha direção.
Eu desviei da maioria, porém uma rasgou minha mochila. Então um par de estiletes muito familiar caiu da mochila. E seria impossível lutar com eles, assim como seria impossível pegá-los durante o combate.
Tirei os estiletes da mochila e os abri até o final. Eles se tornaram o par de espadas de braço que eu amava usar. Elas se ajustavam ao meu antebraço para se tornar como que uma extensão cortante como uma navalha do mesmo. Eram a arma perfeita para mim.
— Agora acho que podemos lutar de igual para igual. – Anunciei.
— Vejamos. – Dlevin estendeu as mãos do mesmo jeito que fazia quando queria transmutar algum metal, e apontou para as minhas espadas. Aproveitando a oportunidade, corri até ele e desferi um golpe contra sua mão esquerda. Se ela fosse arrancada, ele não seria tão bom mais, seria?
— Como você...
— Quem disse que são de metal? – Ri da cara de Dlevin.
— São de que então?
— Depende do caso. – Tirei as espadas e as juntei. Elas se tornaram um par de pequenas adagas de bronze celestial. Girei o cabo das adagas e elas se tornaram as espadas de braço novamente. – No momento? Diamante.
— Filho da... – Praguejou Dlevin. Ele esticou a mão que ainda restava, parecendo não se importar com a mão cortada. As estacas presas no chão se tornaram um bocado de lâminas. Elas voaram em mim, de todas as direções imagináveis. A maioria não me acertava por milímetros, mas uma ou duas acertaram-me. Virei o braço para uma à tempo de fazer com que a espada de braço nele parasse uma das lâminas. Notei que Dlevin estava ficando um pouco cansado.
— Dlevin, você não tem mais 19 anos como eu. Desista. É uma questão de tempo até você cair de cansaço. Vamos lá, tenho certeza que te receberiam no Acampamento.
— Para me jogar em um asilo para semideuses? Não, Jake! Não! Você morre! Aqui e agora!
Dlevin levantou as mãos, e as lâminas que estavam no chão se transformaram em uma infinidade de fios, finos como grafite. Os fios dançaram em minha volta. Imaginei que fossem me prender, mas não. Um dos fios veio na direção da minha barriga e a atravessou. A dor era terrível. Atordoado com um dos fios, nem vi os outros vindo. Mas eles viram. Me ajoelhei no chão, a visão começando a ficar turva. O sangue escorria pelo meu corpo.
— Ganhei. – Disse Dlevin. Ele não estava em situação muito melhor do que a minha. Então eu me levantei. Não sei como, não sei o motivo.
— Por que você não simplesmente se deita e aceita a morte, Jake? – Disse Dlevin, com as palavras intercaladas por respirações ofegantes. Com certeza o esforço era demais para um senhor de 80 anos.
— Eu me recuso. Tem alguém que quer ter um filho comigo. E eu pretendo dar um filho para ela. – Caminhei, com passos errantes e tropeçantes em direção à Dlevin. – Eu não serei mais um risquinho na sua lista de mortes. – Juntei as espadas de braço, e elas se tornaram o par de adagas. – Pela minha mão você vai expirar. Descanse em paz, Dlevin. – Desejei à ele, antes de cravar a espada em seu estômago.
— Parabéns... Jake. A propósito... O garoto... Jesse... Ainda vive. Ele pode ser salvo. Você não. – Confirmou Dlevin. Ele agarrou meu pescoço e então eu senti meu sangue queimar. Cada pedaço do meu corpo pedia por ajuda. Mas eu não podia parar. Caminhei até a mochila, peguei o pingente que Cronos, e vi, que por milagre, estavam todos livres da prisão de Dlevin. Caminhei até Jesse, e vi que, por algum milagre, ele ainda respirava.
— Venham cá. – Vomitei as palavras. Todos vieram. – Quando chegarmos no acampamento... Eu não tenho salvação. Jesse tem. Levem-no até a enfermaria. – Enterrei o pingente no jardim de rosas, chamei Cronos, e a última coisa que senti antes de fechar os olhos pesadamente foi um puxão enorme no corpo inteiro.


Fael

Aterrissamos no Acampamento Meio-Sangue. Bem na frente da casa grande. Seria sorte?
— Quíron! – Berrou Celine. Acho que metade do acampamento acordou, porque ela gritou muito alto e devia ser bem tarde, já que não havia ninguém fora dos chalés. Quíron surgiu na porta um segundo depois, junto com vários campistas que acordaram e vieram conferir.
— Deuses, o que aconteceu com esses dois? – Perguntou Quíron, olhando para Jake, que gotejava um suor esquisito, metálico, prateado. Jake se contorcia no chão, arranhando a garganta, como que para fazer com que o ar entrasse em seu corpo à força. Então ele se virou para Jesse, ainda com a rosa dourada no peito. – Vamos, o que estão esperando, filhos de Apolo?
Eles levaram Jake e Jesse para dentro da Casa Grande. Cinco minutos depois, um homem e uma mulher apareceram do nada. Eu imaginava que Jake e Cheryl seriam o casal mais lindo de todos. Mas ao ver os dois, desisti da ideia. Eram os dois à minha frente.
— Apolo, Afrodite. À que devo essa honra? – Apolo estava usando um traje social, com o cabelo loiro alinhado, seus olhos dourados brilhando. Afrodite estava com um vestido grego lindo, branco, sem mangas. Ela era a mulher que me entregou a faca para matar Matt. Mas isso era um assunto para mais tarde.
— À Jesse e Jake. Onde está Dionísio? – Perguntou Apolo.
— Aqui. – Respondeu Dionísio.
— Temos todos muitas coisas à discutir. Porém não agora. – Definiu Afrodite. Todos ficamos em silêncio por uns 5 minutos antes que um enfermeiro de Apolo surgisse e se dirigisse à nós.
— Jesse ainda pode ser salvo. A rosa atravessou o pulmão direito dele. Uma sorte que não tenha atravessado o pulmão esquerdo e o coração. Bem, ele deve demorar um pouco para se recuperar totalmente, mas está fora de perigo.
— E Jake? – Perguntou Cheryl, esperançosa.
— Ele é um caso... Er... Eu sinto muito. – O médico olhou para baixo. Cheryl ficou paralisada por uns 5 segundos até notar o que havia acontecido. Então ela enterrou o rosto nas mãos.
— Não, não, não, não! Você está mentindo para mim. – Chorou Cheryl. Então ela voou no menino, o jogou no chão e gritou com ele. – Pare de mentir!
— Cheryl... – Começou Celine. Então ela segurou o braço de Cheryl, que estava indo em direção ao nariz do filho de Apolo. – Acalme-se. – Pediu. Cheryl ainda tentou se largar de Celine, mas ela não deixou. Então se dirigiu ao filho de Apolo. – Não podemos ouvir uma segunda opinião? – O filho de Apolo balançou a cabeça:
— Eu realmente sinto muito. – A única coisa ouvida depois disso foi um grito de dor de Cheryl.
— O que aconteceu, exatamente? – Perguntou Dionísio. Ele não conseguia esconder o nervosismo com a morte do filho, por mais que tentasse.
— Eu não sei. Há algo prateado no sangue dele. E se expande com o calor, impedindo que o sangue circule direito. Vocês querem... Ver? – Perguntou.
— Eu vou. – Me levantei e fui. – Pai. Não deixe que Cheryl saia daqui.
Apolo fez um gesto com a cabeça e eu segui em frente. Ao entrar na sala vi Jesse, deitado em um sofá. Havia um furo em seu peito, mas ele parecia bem. Estava desacordado, e sua respiração era superficial e entrecortada. Como se doesse respirar. E devia doer mesmo.
Mas a cena mais chocante foi ver Jake. Ele parecia ter desistido de tentar respirar. Quando olhei em seus olhos, vi que o sangue que deveria haver lá estava prateado... Quando os vasos não haviam explodido e se espalhado pelos seus olhos. Em uma ferida da barriga, havia sangue idêntico ao que havia em seus olhos. A cena era medonha. O sangue porejava de sua pele, como que hematomas que haviam quebrado a barreira da pele.
— O que é isso? – Perguntei, me segurando para não vomitar.
— Mercúrio. Pela perda da cor de seu sangue, eu imagino que quase todo o ferro do sangue dele tenha sido trocado por Mercúrio... Não tem salvação. O oxigênio não é conduzido pelo corpo. Ele é realmente forte de não ter morrido.
— Você pode por favor me dar um minuto com ele? Para me... Despedir. – Pedi. O médico saiu da sala.
Fiquei por bons dez segundos encarando Jake. Então seus olhos tomaram rumo. Ele olhou para mim.
— Fael. – Disse ele, ofegante. – Eu disse que não tinha salvação. Por que tentaram? – Perguntou.
— Jake. Nós não iríamos simplesmente te largar. – Respondi. Jake riu.
— Vocês são demais. Cara, eu mataria por mais uma taça de vinho.
— Você é um idiota. Quase morrendo, e quer uma taça de vinho.
— Vamos lá, não deve ser difícil. Tem uma garrafa logo ali. – Ele apontou para uma mesa. Obedeci, e peguei o vinho. Entreguei à ele. Ele tomou um longo gole, e se sentou na maca. – Fael, há algo que eu quero lhe dizer antes de partir.
— Eu também tenho muito à dizer.
— Eu primeiro. Primeiro, não confie em Eros. Nunca. E segundo. Sabe por que eu aceitei te ajudar em Química naquele dia? – Perguntou.
Era verdade. Eu havia conhecido Jake assim. Eu estava indo terrivelmente mal em química, então a escola mandou Jake para me ajudar. Eu já havia visto ele na escola antes, cheio de amigos populares, não me parecia alguém que iria se dispor a me ajudar. Mas ele se dispôs. Ele tinha 16, eu tinha 13. Isso havia sido há 3 anos. Desde então, viramos melhores amigos.
— Porque seu pai me pediu. Eu admito que me deu desânimo... Mas eu gostei de você. Você se tornou mais que meu melhor amigo. Tornou-se meu irmão. E por favor. Não odeie seu pai. Ele te ama. – Jake tossiu.
— Jake, por favor! Não vai! Eu não consigo! Eu não vou conseguir perder Matt e você ao mesmo tempo! – Pedi, já chorando.
— Sabe Fael, – Começou Jake. – Pode ser difícil. Mas eu sei que você consegue. Você é forte...
— Eu não sou forte, Jake! Eu não quero ser forte!
— Fael, por favor, atenda meus últimos pedidos. – Ele tomou mais um longo gole do vinho. – Cuide de Cheryl. Ame Celine, mais do que eu e Jesse fomos capazes de amar. Teria mais um, mas você já o fez.
— Quando?
— Lembra de quando eu e você brigamos no hotel e eu mandei você virar homem?
— Lembro.
— Pois é. Você conseguiu. Com honra. — Jake esvaziou a garrafa, e fechou os olhos.
— Jake! – Gritei, em dor. – Jake! Por favor, não vai! Você não merece!
Passei quase dez minutos me lamentando e chorando ao lado de Jake. Então voltei para onde estava Cheryl.
— Ele está morto. – Anunciei. Cheryl começou a chorar, e eu fui confortá-la. Então Apolo olhou para nós, tirou o blazer, arregaçou as mangas da camisa e olhou para nós.
— Não, ele não está. Fael você vem? – Perguntou. Eu não fui. Apolo seguiu em frente mesmo assim.
Assim que ele entrou na sala, ouvi um pequeno estalo e Jake gritando de agonia.
— Afrodite. O que Apolo está fazendo? – Perguntou Cheryl.
— Eu não sei. Mas ele sabe o que faz. Acreditem, por favor.
Passamos cinco minutos apreensivos, tentando nos manter calmos mesmo com os gritos de agonia de Jake. Então Apolo chegou:
— Ele vai sobreviver. – Anunciou. Cheryl pulou em cima de Apolo e o encheu de beijos.
— O que você fez? – Perguntou Afrodite.
— Bem... Eu troquei o sangue dele por... Ícor. – Respondeu Apolo. Afrodite e Dionísio ficaram boquiabertos.
— Você o quê?! – Grasnou Afrodite, tampando a boca com as mãos. – Apolo, você sabe que é proibido! Zeus não deixa!
— Afrodite. Hora de contar algo às crianças... – Anunciou Apolo. Afrodite suspirou.
— Crianças... Quando nós os mandamos de volta no tempo... Não era para buscar a cura para Atlas. Ele já está de volta. Era para matar Dlevin e... Matt.
— Como assim? – Perguntei. Eles já sabiam desde o início que eu teria de matar meu filho?
— Bem... Matt, caso crescesse, seria aquele que derrotou Atlas. Victarion.
A notícia foi um choque. Victarion era meu... Filho?
— E precisávamos de vocês para matar Dlevin. Sem ele, aquela família não andaria. Mas digamos que Cheryl meio que... Fez mais do que queríamos. Com uma ajudinha de Fael, claro. Acho que Ares gostou da matança. Agora vamos ao que Apolo fez... Bem, a história começa com o meu bebê, Eros...
Então alguém abriu a porta. O bebê de Afrodite, pai de Celine, o maior idiota de todos os tempos. Eros.
— Oi. Fael. – Ele disse meu nome como se fosse a pior ofensa possível. – Apolo. – Ele disse “Apolo” no mesmo tom que usou para dizer “Fael”. – Celine! – Disse ele, indo abraçar Celine. Mas Afrodite o parou, furiosa.
— Nós temos muito que conversar, bebê! Muito! – Disse ela, quase espumando. Que cena medonha. – Sobre o que você fez! Só porque brigou com Apolo, resolveu descontar no filho dele. Belo homem você está me saindo! Agora vou ter que te vigiar também?
— Mamãe...
— Nada de “mamãe”! Você mandou eles para o Vale por nada, manipulou os sonhos deles para que parecesse que eu e Apolo concordamos em manda-los para lá... E mesmo sabendo que eles não sobreviveriam, e que iriam para lá por nada, já que eu já havia pegado a foice! Você está de castigo Eros!
— Mas...
— Sem “mas”! Em casa nós conversamos!
— Mas... – Então Afrodite deu um tapa na cara de Eros. A cena arrancou risos de Apolo.
— Eu disse sem “mas”! – Lembrou Afrodite. Eros se calou. – Agora podemos conversar. Bem, quando esse encosto aí se apaixonou por uma mulher, ele quis leva-la para o Olimpo. Geralmente quando alguém que não seja um deus ingere néctar ou ambrosia, ele queima. Se for um semideus, em pequenas quantidades chega a curar, mas em grandes quantidades também queima a pessoa. À menos que esse alguém tenha sangue puramente divino em suas veias. Foi isso que Apolo fez. Trocou o sangue de Jake pelo seu Ícor, e então o deu ambrosia e néctar em quantidades normalmente fatais para semideuses. Por ser um deus, Não faz diferença para Apolo perder algum sangue. Por isso Jake deve sobreviver.
— Porém ele não é um deus ainda. Ele ainda pode morrer em batalha. Mas digamos que o processo é... Um pouco doloroso. A febre dele deve ultrapassar os 80ºC por um tempo... Bem, eu irei instruir meus filhos à cuidar somente da febre dele... O resto vai passar. Dor de cabeça intensa, dor no corpo, ele vai preferir morrer. Mas vai sobreviver, eu espero. – Concluiu Apolo. Era meio que um alívio saber daquilo. Jake ainda gritava de agonia dentro atrás da porta.
— Vocês devem estar cansados. Vão dormir, será melhor. – Disse Dionísio. — Tenham uma boa noite... Heróis.
Saímos da Casa Grande. Assim que saímos Afrodite veio atrás de mim.
— Fael, meu querido... Era eu em seu sonho. A faca ainda está com você?
— Sim. – Tirei a faca da mochila e a entreguei
— Ah, maravilha. Eu peguei essa faca de Annabeth... Ela ia odiar ficar sem ela. Bem, obrigada. E... – Ela se ajoelhou e me deu um beijo na bochecha. – Você é demais. Matt está enterrado no Alasca. Longe da influência dos deuses, assim como eu creio que você iria querer.
Fui embora. Celine me agarrou pelo braço, esperou Cheryl ir embora e falou comigo
— Sabe, Fael... Jesse não entrou na sua frente por nada. E o que ele disse é uma verdade. Acho que nós fomos feitos um para o outro. Não se pode parar o amor.
— Celine... Por favor, entenda. Não é que eu não te ame. Eu simplesmente não quero... Eu não estou com... – A frase não saía. Era difícil descrever a angústia de ter de matar o próprio filho com palavras. Mas Celine entendeu.
— Então acho que eu vou ter que esperar. Mas quando você superar... Eu estarei aqui, ok? – Ela me pegou pela mão, e me levou até o Chalé de Apolo, onde ela pegou minhas coisas que ainda estavam lá, e então me conduziu ao Chalé de Apolo. – Sabe, acho que eu vou cuidar de você então. – Disse ela, sendo fofa. – Hoje eu vou ser sua enfermeira.
— Celine, por favor, não. Eu acho que... Não estou com ânimo pra isso. – Me deitei na cama e dormi.
Espero não ter magoado Celine.
Sonhei com Eros.
— Vai se arrepender de ter dormido no meu chalé, moleque...
Então eu acordei com uma queimação terrível na mão esquerda. Então vi que Celine tinha sua mão sobre a minha. Maldito Eros.