Noir
13 De volta ao acampamento
Celine
Fael havia entrado em depressão. Digo, ainda não era confirmado, mas eu tinha certeza de que sim. Matar um filho é algo que não se deve obrigar alguém à fazer... Quando acordei, Fael estava do meu lado.
– Bom dia, Fael! – Desejei, beijando-o na bochecha. Ele pareceu contrair um pouco a bochecha, mas devia ser normal estar averso à mim. Peguei o iPhone de Fael na mesa de cabeceira. Havia cento e cinquenta e sete mensagens desesperadas da mãe de Fael... Quanto tempo nós havíamos passado no passado? Olhei a data. Era dia 27 de Julho... Aniversário de Fael! – Fael! Fael! Hoje é seu aniversário!
– Legal. – Disse ele, virando a cara. Suspirei.
– Por favor, Fael. Eu tenho que ligar para a sua mãe. Finja que está bem. Por mim. – Fiz minha cara mais fofa para ele. Ele ensaiou um sorriso.
– Você pode melhorar. Vou ligar para a sua mãe.
– Isso não era proibido no acampamento?
– É. Mas tente dizer à sua mãe. – Respondi, colocando o telefone na orelha. A mãe de Fael respondeu desesperada do outro lado. Passei uns 20 minutos acalmando a mãe de Fael, mas ela só descansou quando ouviu a voz dele. Ela o desejou feliz aniversário, e ele devolveu o telefone para mim. Ela agradeceu e desligou.
– Eu vou também, estou morrendo de fome. Quer que eu traga alguma coisa para você?
– Não. – Fael se virou e dormiu. Era realmente terrível vê-lo assim. Peguei uma jaqueta e a coloquei sobre o ombro, estava frio, eu provavelmente precisaria dela. Então andei até a Casa Grande, onde eu imaginava que encontraria Jesse e Jake. Quando cheguei na porta, Quíron estava sentado em sua cadeira de rodas.
– Você veio visitar seus amigos, certo? – Perguntou ele. Eu assenti. – Bem... Jake não está muito bem, mas Jesse já está acordado. Se quiser pode ir vê-los.
Entrei na sala. Jesse estava lá, sem camisa, todo enfaixado, sentado na cama. Jake estava na outra cama, pingando de suor, ainda ofegante.
– Parece que alguém veio me visitar. Bem, eu te abraçaria, mas mandaram não esticar os braços e... Ah, dane-se. – Ele esticou os braços e me abraçou.
– Você está melhor do que eu imaginava.
– Você que pensa. – Ele tirou parte das faixas, revelando um pequeno buraco no peito. O buraco o atravessava do lado direito do peito até revelar um dos pulmões. – Por mais que os médicos tentem, não quer fechar. Digo, não sangra nem nada, mas fechar ele não fecha.
– Dói?
– Bastante.
– Tinha uma rosa aí... O que foi que vocês fizeram com ela?
– Está ali. Está meio murcha. Ah sim... Tem uma coisa que eu quero fazer. – Jesse se levantou, com uma certa dificuldade, caminhou até a mesa onde a rosa dourada repousava e a tomou nas mãos. Ele quase caiu umas 10 vezes em um trajeto de menos de cinco metros.
– Jesse, você não devia...
– Não, há algo que eu tenho que fazer. Acho que... Seria uma devolução do presente de mamãe para mim... Ela me deu a vida duas vezes, uma no meu nascimento e outra agora. Acho que ela merece algo. – Jesse tomou a rosa na mão, se ajoelhou em minha frente e estendeu a rosa. – Acho que eu deveria ter te dado uma rosa em outra hora... Você merece. É sua.
– Jesse, por favor... Levante-se. – Eu peguei a rosa e o ajudei a se levantar. – E não me entregue outra rosa. Por favor.
– Entrego. Vou lhe entregar quantas rosas você quiser. Celine, amar não é só querer alguém só para si... É querer o melhor para alguém. E Fael é o melhor para você. Mas enquanto eu puder fazer você se sentir especial, enquanto você precisar de um ombro amigo... Eu estarei aqui. Eu quero estar aqui. Eu sempre vou estar aqui. – Jesse me abraçou. O abraço dele era... Confortante. Jesse tinha um cheiro delicioso... Play, Givenchy. Eu amava esse perfume. Os braços fortes de Jesse me envolviam de um modo confortável, era possível sentir o seu coração batendo. Então eu senti algo escorrendo pela minha blusa. Desvencilhei-me delicadamente de Jesse para ver o que era. Sangue.
– Jesse...
– Nós temos um problema. – Concluiu ele. Eu o ajudei a chegar até a cama.
– Porcaria... Olha a situação da minha blusa... – Olhei para baixo. Ela estava vermelha de sangue. – Eu não posso sair assim. Hm... Vou colocar a jaqueta. Olha pra lá! – Tirei a blusa e coloquei a jaqueta. Quando me virei Jesse ainda olhava obedientemente para o outro lado. – Pode olhar. Vou lá chamar os médicos. – Quando chamei os médicos, o sangramento já havia diminuído.
– Ele está fechando. Que ótimo! – Sorriu um dos filhos de Apolo. Ele recolocou as faixas em Jesse. – E ele? – Perguntei, olhando para Jake.
– Podemos fazer muito pouco. Bem, ao que parece meu pai trocou o sangue dele por ícor... Espero que ele sobreviva. A febre dele passa dos 50ºC. Isso é muita coisa.
Jake estava agonizando ao lado. Ele estava suando terrivelmente, ainda ofegante. Os médicos se retiraram.
– Ele passa o dia inteiro assim. Mas parece que piora de noite... Às vezes eu consigo conversar com ele... Ele diz que é terrível estar cansado e não conseguir dormir. Digo, ele está caindo de exaustão, totalmente fatigado e não consegue dormir por causa da dor. Apolo me explicou o que estava acontecendo. Cada caloria de seu corpo, cada grama de gordura que devia haver está sendo transferida para a adaptação do seu corpo para o ícor. Ele está se sentindo como se estivesse correndo dez maratonas ao mesmo tempo. Os médicos tem que colocar os nutrientes na corrente sanguínea dele, porque nem mastigar ele está conseguindo direito. Só consegue beber água. Bebe praticamente três galões por dia. Está muito magro, coitado. Perdeu gordura, músculos, tudo. Pobrezinho.
– Jake. – Chamei. – Eu sei que você consegue falar. Vamos, fale comigo. Só diga que está tudo bem. Peça uma taça de vinho. Me chame de pequena idiota. Qualquer coisa. – Pedi. Jake mexeu os lábios fracamente.
– Você é muito desesperada. – Disse Jake. Ele riu. Eu ri. Jesse riu.
– Eu tenho que ir. Hm... Hoje é aniversário de Fael, se quiserem ir lá depois... Aliás, se conseguirem... E, Jesse. Essa rosa te pertence.
– Bem, se eu pegá-la de volta você me faz um favor?
– Claro. Qual?
– Hm... Eu tenho até vergonha de pedir, mas... Será que você poderia pegar meu Nintendo DS no chalé de Afrodite? Eu estou louco para jogar Pokémon. – Pediu ele, envergonhado. Eu ri e fui até o chalé de Afrodite. Eu já havia estado lá antes. Entrei na casa da Barbie que estava na minha frente. Quando entrei lá, havia uma garota asiática me esperando.
– Ah, você deve ser a tal filha de Eros. Olá sobrinha. – Disse ela.
– Você é...
– Normalmente eu faria as perguntas, já que você está no meu chalé. Quanta descortesia. Uma verdadeira filha de Afrodite nunca faria isso.
– Você deve ser Drew. Já me falaram bem de você. – Disse eu, irônica. Jesse havia dito que ela é uma vadia. – E eu não sou filha de Afrodite. Só vim aqui para pegar o jogo de Jesse.
– Uh, Jesse. Nem me fale! Sabe, eu realmente não gosto dele, mas ficaria com ele numa boa... Ele é um gato. Só não é mais do que aquele Jake... Agora, me responde uma coisa? Você vai fazer o rito de passagem? Porque convenhamos, você é muita areia para o caminhão do Fael... Você com certeza está com ele só para quebrar o coração dele e se provar digna de ser descendente de Afrodite... Certo? – Ela estava sendo persuasiva. Eu quase senti a tentação de terminar com Fael. Mas não, nunca. Eu amava Fael.
– Isso tudo, – Comecei eu. – É recalque? Sinceramente, olhe para você. Entenda, você é a filha de Afrodite mais idiota que eu já vi. Se Afrodite é a deusa do amor, que sentido faria terminar com um namorado e mostrar que não existe amor? Sinceramente, Drew. – Assim que terminei de falar, uma garota sentada em uma das camas de cima de um beliche começou a rir.
– Drew, saia daqui. Você não é mais a conselheira do Chalé de Afrodite. Isso cabe à mim. Vamos lá, vá fazer alguma coisa, deixe-me conversar com ela. – Pediu a garota. Drew saiu e a garota levantou-se da cama. Ela estava com um short preto e uma camiseta larga com a bandeira da Inglaterra. Certamente não eram roupas que valorizavam seu corpo, mas ela não precisava daquilo. Era muito bonita
– Acho que eu te devo desculpas por isso... Não nos leve à mal, Drew é irritante mesmo. Mas nem todas as filha de Afrodite são assim. Aliás, nenhuma é, só Drew.
– Prazer, Celine.
– Piper. Piper McLean. – Se apresentou ela, me abraçando. – Você vai visitar Jesse? Uh, bem, eu gostaria de ir, mas eu tenho coisas à resolver agora... Drew deixou este chalé uma confusão enquanto era conselheira... E isso já tem um tempo, convenhamos. Bem, a cama dele é logo embaixo da minha. As coisas dele estão ao lado da cama. E será que você poderia entregar isso para ele? – Perguntou ela, me entregando um broche dourado e um bilhetinho. Abri o bilhete. “Com amor, para o meu irmãozinho. Piper.” – Nós não somos namorados, não confunda, por favor. Eu tenho de ir. Se Drew lhe causar problemas mais uma vez me avise. Ah sim, e deixe Drew longe de Jesse. E... O que aconteceu com a sua blusa?
– Tive um pequeno problema com sangue quando abracei Jesse.
– Ah, sim... Então você não está com uma blusa por baixo da sua jaqueta. Bem, pode pegar uma minha. É a porta da esquerda do armário ao lado da minha cama. – Piper saiu do chalé, e eu fui até a cama de Jesse. Ao lado dela, havia um armário, com as coisas de Jesse. As roupas de Piper ficavam na porta da esquerda e as de Jesse na da direita. O chalé estava vazio, então não me importei de pegar uma blusa verde de Piper e a colocar lá mesmo. Abri o armário de Jesse. Era tudo muito organizado. As roupas estavam separadas por cor. Camisas do lado direito, calças do lado esquerdo, jaquetas e camisas com botão nos cabides. Acho que nem eu tinha um armário organizado como aquele. Abri todas as gavetas procurando o jogo, e só o encontrei na última. Estava ao lado de uma carta com a águia dos Estados Unidos. Abri a carta:
“ Os pêsames do governo à Jesse Melyn, por seu pai, Lewis Melyn, falecido no incidente das Torres Gêmeas. Visto que o destinatário desta carta não tem parentes vivos, este será enviado a um orfanato, pago pelo governo, até que complete a maioridade e possa receber a herança do pai. “
Por que é que Jesse ainda guardava aquelas cartas? Então vi outro envelope, meio amassado, ao lado da carta com o selo do governo:
“ Filho, sei que um dia você irá ler esta carta. A torre ao lado da minha acabou de cair. Não devo ter muito tempo para escrever esta carta, estou com pressa. Na verdade, nem sei se terei tempo. Mas se a minha torre cair e eu morrer, saiba que eu te amo mais do que tudo. Eu realmente rezo para que você chegue em paz ao Acampamento. Lembre-se, eu sempre estarei vendo o que você faz, mas jamais o repreenderei por nada. Chegará um dia em que você beijará uma garota pela primeira vez, o dia em que terá sua primeira namorada – E, por que não, a primeira noite com uma mulher? – e o dia em que eu terei netos. Eu daria tudo para estar junto com você nestes momentos, mas anote o que eu digo: Sua mãe está com você. Ela sempre esteve. Não crie raiva dela. E existe algo que eu quero dizer. Você tem um irmão, e ele deve ser encontra “
E a carta terminava ali. Então por isso Jesse era tão... Inseguro. Ele precisava de tantos cuidados quanto um bebê. Digo, ao ver sangue ou algo mais forte ele se desesperava. Parecido com Fael, mas ele não chegava a desmaiar. Fiquei com dó dele. Mas, eu não podia ficar me demorando. Peguei o jogo e a carta de Piper e fui até a Casa Grande. Quando cheguei lá, Drew estava entrando também. Esperei um pouco antes de entrar também. Encontrei com Cheryl na entrada.
– Eu não gostei dessa menina – Afirmou Cheryl.
– Não é sua culpa. Ela é detestável. Vamos logo.
Quando entramos, Drew estava sentada ao lado de Jake, sussurrando em seu ouvido. Eu realmente esperava que Jake não estivesse ouvindo. Ela estava meio que... Seduzindo ele? Uh-oh.
– O que é que está acontecendo aqui? – Berrou Cheryl. – Não ouse chegar perto do meu namorado, vadia! Suma daqui! Vai embora.
– Desculpe, gracinha. Mas o namorado é de quem ele quiser. – Drew sorriu cinicamente.
– Eu vou te ensinar com quantos murros se arranca maquiagem de vadia! – Cheryl agarrou Drew pelo colarinho e começou a espancar Drew. Drew já estava quase pedindo penico quando chegou um filho de Apolo. Bem, ele riu ao invés de ajudar, mas Jesse resolveu que era melhor parar com aquilo antes que Quíron chegasse e expulsasse as duas do Acampamento. Então Dionísio apareceu pela porta:
– Só? Achei que a menina fosse perder quatro dentes... Leneu, você ganhou! Ela só perdeu um! Vamos lá, agora separem as duas antes que Quíron chegue.
Jesse sentou-se outra vez, e eu puxei Cheryl. Ela estava espumando de raiva.
– Se você chegar a menos de 20 metros do meu namorado outra vez... Eu juro... Juro pelo Estige... Que você vai implorar para morrer... Eu vou quebrar no minimo três dedos, um braço, uma perna e o seu nariz! Anote o que eu digo, vadia! – Cheryl saiu de lá pisando duro. Drew foi logo atrás, ultrajada.
– Jesse, Piper pediu para entregar isso para você. – Entreguei o jogo e a carta para ele.
– Ah, Piper é demais... Mande um abraço para ela, sim? Vou estar ocupado jogando. – Ele ligou o jogo. – Meus bebês, quanto tempo!
– Eu vou ver Fael, ok? – Beijei o rosto de Jesse e fui ver Fael.
Quando cheguei lá ele estava com um pedaço do vidro do banheiro encostado no pulso.
Sabe, quando eu digo isso as pessoas pensam que eu me desesperei e comecei a gritar loucamente. Mas não. Eu simplesmente tirei o caco da mão dele.
– Fael, por favor. Eu sei que é difícil. – Comecei. Então eu peguei a mão dele. – Mas você pode passar por isso. Eu sei que pode. Nós podemos. – Beijei ele. – Não pense que a sua vida vale pouco. Porque ela não vale. Não para mim, não para nós.
– Não é um suicídio... É só que... Eu acho que eu matei o meu filho... Olho por olho, dente por dente. Eu tirei a vida dele, devo pagar com a minha.
– Não, você não deve. Agora dorme. Eu vou esperar. – Beijei a testa dele, e me ajoelhei no chão para catar os cacos. Eu guardei o que estava na mão de Fael dentro do meu estojo de maquiagem. Eu realmente não queria que Fael morresse. Não mesmo. Então eu havia decidido, que nem que eu passasse o resto da vida cuidando dele como um bebê, ele continuaria vivo. Mas não no acampamento. Eu não queria ficar lá. Não queria ficar em um lugar onde meu pai poderia me ver tão facilmente. Ou perto de Drew. Saí do quarto assim que Fael dormiu e fui procurar Jake.
Entrei na Casa Grande. Jake parecia um pouco melhor, pois já conseguia falar direito.
– Jake, nós temos que voltar para Chicago. Temos que levar Fael à um psicólogo! Ele quase se matou hoje!
– Ele o quê? – Desesperou-se Jake.
– Tentou se matar. Se eu chegasse um minuto depois ele já estaria morto. É sério. Fael precisa de ajuda.
– Voltamos para Chicago amanhã. Não importa o que vá acontecer comigo. Jesse, você vem?
– Eu não tenho para onde ir além desse acampamento. Vou sim.
– E, de qualquer jeito, nós precisamos de alguém para vigiar Fael nas aulas de educação física. É separada da das meninas, então Celine não poderá vigiá-lo por lá. Mas você pode. Garantir que ele não faça nenhuma besteira. E... Bem, acho que só vocês dois não irão conseguir vigiá-lo. Só tenho de arranjar um jeito de entrar naquela escola também. Jesse, você tem problemas com a escola?
– Não pense que eu sou um gênio, mas também não pense que eu tiro 0 em tudo. – Pediu ele. Então Afrodite surgiu na sala.
– Boa novas crianças! – Ela beijou a testa de Jesse. – Eu ouvi tudo! E adivinhem só? Convenci o diretor à contratar Jake como novo professor de Química para vocês! E... Aquela garota, Cheryl. Ela é a nova diretora. Tem cara de ser mais velha. Hm... Foi um pouco difícil convencer o diretor de abdicar do cargo logo após contratar Jake, mas... Nada que eu não pudesse fazer. E, Jesse, sua vaga está garantida. Vocês voltam no próximo dia letivo! Maravilha!
– Mamãe... Jake mal se mexe.
– Ah, hoje é sexta-feira! Vocês tem até segunda de manhã para se recuperar! Conseguem com certeza! – Animou-se ela. Ela foi embora, ainda saltitando de felicidade.
– Conclusão: Estamos ferrados. – Disse eu.
– Eu dar aula? Cheryl coordenar um colégio? Ela está louca.
– Ah, vamos lá. Pelo menos vamos poder ficar de olho em Fael. – Animou-nos Jesse.
– Sim. – Concordei. – Eu estou com fome, vou comer.
Saí de lá, conseguindo pensar em somente reatar uma vida normal com Fael... Ou o mais próximo disso possível.
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