Noir

9 Mercúria


Fael

– Para onde estamos indo? – Perguntei, com medo da resposta.
— Você vai ter uma... Hm... Aulinha. E depois vai responder algumas coisas. Entre.
Entrei. Lá dentro, uma mulher e um garoto me esperavam. Ela parecia simpática, e ele assustado. Devia ter uns 10 anos.
— Olá. Você deve ser o tal de Fael. – Começou ela. – Prazer. Sou Amerícia. E esse é Tunggie.
— Tunggie?
— Não é o nome de batismo dele. O verdadeiro nome dele é Pharrel. Mas digamos que o nosso patriarca resolveu que guardar nomes é muito difícil...
— Hã?
— Bem, temos uma família bem grande, e moram todos nessa mansão. Nosso patriarca, Dlevin, está meio... Velho. E é um gênio. Então, para não ter que guardar novos nomes, exige que sejamos chamados pelo nome dos elementos da Tabela Periódica. É um saco, admito, mas ele nos alimenta, nos abriga... É o mínimo que podemos fazer. Bem, alguns pegaram nomes decentes, como eu ou Xénon. Mas Tunggie não teve tanta sorte... Dlevin o chama de Tungstênio. Coitado. Bem, vamos ao que importa... Sabe por que está aqui?
— Não.
— Bem... Digamos que a minha família é um pouco complexa... Começou com Dlevin. Bem, vamos à aula que eu tinha de dar. Dlevin é um... Herege. Ele sabe dos deuses gregos... Ele é filho de um. Filho de Hades.
— Isso torna ele um herege?
— Não. Seus ideais o tornam. Fael, ele presenciou a Segunda Guerra, a incapacidade dos deuses de evitar um conflito tão sangrento. Viu a chacina que foi. Viu tudo. Ele perdeu os sentimentos. Perdeu tudo. Por causa dos deuses. Isso com apenas 23 anos.
“Então ele teve uma ideia. Ele se reuniu com uma amiga sobrevivente da guerra, também semideusa, filha de Ares, e teve um filho com ela. Ele iniciaria uma nova geração para governar sobre o mundo. Então ele anda procurando filhos de todos os deuses olimpianos que podem ter filhos. Ao... Hm... “Cruzar” os filhos e descendentes de tantos semideuses, uma hora chegaria à um filho perfeito. Ele seria capaz de derrotar Zeus, e assumir o Olimpo, começando uma era de paz entre todos os seres. Dlevin é um gênio. Bem, mas não tem tempo para decorar nomes, por exemplo. Você entendeu isso tudo?”
— Sim. Mas onde eu entro?
— O único deus que falta na linhagem é Apolo. Seu pai.
— Está me dizendo que...
— Você terá que ter um filho com uma de nós, sim. Depois eu lhe apresento ela. Chama-se Mercúria. Você deve gostar dela... É muito gentil... Mas vamos ao que importa. Por favor, não me leve à mal, mas você não tem opção que não seja ter esse filho. Ou então eles torturarão os seus amigos até você o ter. Meu trabalho é só lhe explicar isso. Hm... Você sabe como os bebês nascem, não sabe?
— Sei. Não, pera! Você está me dizendo que eu vou ter que...
— Dormir com Mercúria, sim. E mais. Até ela ficar grávida.
— Isso é nojento.
— Sim... É. Pode ir embora. Vocês começam hoje mesmo. E, por favor. Não guarde rancor de ninguém. É pelo bem do planeta. Da humanidade. De todos.
Eu saí do quarto arrasado. Ok. Entendido. Eu teria de perder a virgindade com uma mulher que eu nunca havia visto, para ter um filho que pode acabar com o mundo... Mas... E o que nós fomos buscar? Imaginei que não fosse a hora certa de perguntar.
Entrei no quarto, onde Celine, Jesse e Jake me esperavam.
— O que aconteceu lá? – Perguntou Celine. Expliquei tudo para eles, do modo mais resumido possível. Eu não queria falar sobre aquilo. Todos se surpreenderam. – Isso é... Terrível!
— Pois é, eles têm nomes de acordo com a Tabela Periódica! Imagine só, alguém se chamar “Ununpêntio”!
— Ununpêntio? – Perguntou Celine.
— Bem, ainda não é confirmado, mas imaginam que exista o Ununpêntio. Vai saber. De qualquer jeito, eu não gostaria de me chamar Zircônio.
— Jake, esse é o menor dos problemas. – Disse Jesse.
— É, eu sei. Só queria desviar o assunto um pouco. Será que poderiam me deixar ter um papinho com Fael?
— É, pode ser. – Concordou Jesse. Ele e Celine se retiraram para o closet.
— Me explica isso tudo aí. Agora.
— Simples, eu vou ter que ir pra cama com uma mulher que eu nunca vi todo dia, durante um mês, ou até ela ficar grávida. Olha que lindo.
— Deve ser horrível. Você pode fazer algo sobre isso?
— Não. Infelizmente.
— Hm... Sinto muito. Nós podemos tentar fugir, você sabe.
— Jake, não adianta. Amerícia já me explicou o que acontece se nós fugirmos.
— O quê?
– Algo pior do que deve estar acontecendo com Cheryl... Ei, Cheryl!
– Ela vai ficar bem. É mais esperta do que você imagina. — Tranquilizou-me Jake. – Ei, eu vou dormir. Cansei de ficar acordado. Não temos nada para fazer mesmo.
– Eu também. Boa noite. – Despedi-me. Fui dormir, com a consciência pesada.

Acordei no outro dia, ainda com sono. Jake me acordou, um criado nos chamou, disse que se chamava Rutherford, e nos levou até um salão enorme. Só havíamos nós. Rutherford disse que os moradores do lugar tomavam o café mais cedo. A mesa estava muito bem posta, mas eu não comi quase nada. Todos os outros também não. Então Cheryl chegou, carregada por dois homens enormes. Um eu reconheci sendo Árgon do dia em que chegamos. Ela estava péssima. Ainda muito bonita, mas péssima. Ela estava com o lábio inferior rachado e ensanguentado. Em sua testa havia um enorme hematoma, estava ofegante e tremendo. Cheryl tremendo. Tem noção do tanto que essa cena é sinistra? Ela foi jogada brutalmente na sala do café. Ela se levantou e foi até a mesa. Sentou-se ao lado de Jake.
– Cheryl, você está bem? – Perguntou Jesse.
– Sim, ótima. Melhor do que vocês.
– Não, você não está. – Concluiu Celine. Cheryl se levantou, retomou a postura ameaçadora de antes e falou com Celine:
– Claro. Vocês, todos mauricinhos e patricinhas, nunca viram alguém na pior. Sempre foram mimados, arrumadinhos. São crianças de vidro. Não podem ver alguém com um hematoma que acham que está morrendo. Não podem ter um hematoma que correm para o hospital com medo de uma hemorragia. Escute aqui, Celine. Se você estivesse no meu lugar, já estaria chorando há muito tempo, e eles gostariam disso. Você pode até ter 16 anos, mas é tão frágil quanto uma menininha de 10. Se a vida lhe pede que você tenha 10, tenha 10. Se a vida lhe pede que você tenha 15, tenha 15. O problema é que você não entende que a vida ultimamente só está lhe pedindo para ter mais de 12. E você não a ouve. Quando seu aniversário de 16 anos foi estragado, ouvi que você ficou arrasada. Eu nem tive aniversário de 16. E agora estou tendo o pior aniversário de 22 que eu posso imaginar. Então me faça um favor, fique na sua. – Apelou Cheryl.
– Feliz... – Começou Jake.
– Não me deseje feliz aniversário! – Gritou Cheryl.
– Por quê? – Perguntou Jake. Então notei ele discretamente colocando algo no bolso dela.
– Porque não é feliz! É péssimo! Jake, eu nunca tive uma festa de aniversário, nunca tive presentes, nunca tive nada!
– Não precisa ser grossa por isso... – Murmurou Celine. Ela não devia ter a intenção de deixar Cheryl ouvir, mas ela ouviu... Vish. Cheryl se levantou da cadeira, e chegou tão perto de Celine que devia dar para sentir sua respiração.
– Escute aqui, sua patricinha. Eu não sou grossa, você que me estressa. Você me dá raiva. Talvez eu devesse ter deixado o Xénon atirar em você. Ou ter te arrancado da despensa no dia em que eu achei vocês, e te matado à sangue frio. Meu sangue é mais frio do que você pode imaginar, pentelha. Você devia estar lá, não eu. E eu queria ver o que você não faria para fugir. Eu poderia ter dito mais do que vocês imaginam, poderia ter falado sobre a família de todos vocês. Eles só sabem de Fael, e por ser boazinha, eu não falei nada de vocês. Então me agradeça e cale essa maldita boca cheia de batom de marca. – Celine virou a cara, se levantou e foi embora.
– Não precisava falar assim com ela, Cheryl! – Começou Jesse.
– Quer que eu fale assim com você então? – Perguntou Cheryl. Jesse se levantou. – Tá olhando o quê? – Perguntou, olhando para Jake.
– Você é muito idiota. – Jake se virou para um pedaço de pão e o colocou na boca, indiferente. – Fael, alguma consideração?
– Sim, não precisava ser grossa assim.
– Bando de idiotas. Vou pedir desculpas para a patricinha então. Satisfeitos?
Fizemos que sim. Cheryl suspirou, terminou de comer e foi embora.
– Cheryl está esquisita. – Observou Jake.
– O que você pôs no bolso dela?
– Não te interessa.
O assunto morreu ali. Eu e Jake éramos assim. Contávamos tudo um ao outro, porém um não é um não. Não insistíamos muito em algo que o outro não queria falar. Terminamos de comer e fomos até o quarto. Ficamos lá, quietos, Jake com um livro na mão, eu, Celine, Jake, Jesse e Cheryl jogando banco imobiliário. Jesse deu uma surra em nós. Quando terminamos, fomos almoçar. Sem nem uma palavra, e voltamos. Jogamos banco imobiliário mais uma vez, e era hora do jantar. Comemos normalmente, porém na hora de voltar, me levaram até um quarto. Eu já sabia o que teria de fazer.
– Você é Fael? – Perguntou a mulher, que devia ser Mercúria.
– Sou.
– Terei que ter um filho com você, certo? Bem... Deve ser sua primeira vez, sim? – Perguntou ela. Eu assenti. – Hm, olhe, eu sei que deve ser difícil... Mas, por favor, colabore. Acredite, vai ser pior para você se não o fizer. Para dizer a verdade, eu quero tanto ter um filho quanto você. Agora vamos lá, quanto menos laços tivermos mais fácil será.
— É?
— É. Depois que o meu filho nascer, você vai embora. Vai ser mais fácil nos deixar se você não criar laços. Agora, por favor, podemos ser rápidos?
Eu desabotoei a camisa. Eu realmente estava fazendo aquilo? Desabotoei a calça. Sim, eu estava fazendo aquilo. Fiquei nu entrei debaixo das cobertas.
Sabe, quando dizem que a primeira noite é sempre a mais mágica, ou mil coisas legais. Bem, quando você não é obrigado a tê-la. Como eu deveria me sentir? Ou melhor, o que deveria sentir? Prazer? Não, não senti prazer. Magia? Pff, não mesmo. Acho que a palavra certa seria... Repulsa. Nojo. Nojo de mim mesmo, de quem estava me obrigando a fazer aquilo. E até de Mercúria, sei lá por quê.
Quando terminou tudo, nem olhei para Mercúria. Me vesti e fui embora. Quando cheguei no quarto, estavam os quatro me esperando, acordados.
— Não quero falar sobre. – Adiantei.
— Você manda. – Concordou Jake. Os outros três fizeram que sim com a cabeça. – Vamos jogar banco imobiliário outra vez?
— Temos mais alguma coisa para fazer? – Perguntou Cheryl.
— Não. – Respondeu Jesse. Ele pegou o jogo e começou a distribuir as notas.
— Eu vou tomar banho. – Disse eu.
Sabe, eu nem tinha notado muito o quarto onde estávamos. Só agora. Ele era enorme. Na verdade, devia ser do tamanho do apartamento onde morávamos. Era preparado para alguém morar lá, óbvio. Havia uma geladeira, fogão... Era enorme. Digo, enorme meeeesmo. O banheiro não deixava por desejar. Tinha uma banheira que mais parecia uma piscina. Deveriam caber umas 20 pessoas com folga lá dentro. Era feita de mármore alvíssimo, com uma fonte no meio, de onde saía a água que enchia a banheira. Na base da estátua, havia um painel onde se selecionava como seria o banho. Apertei alguns botões, e a água escaldante começou a jorrar da fonte. Em 5 minutos, a banheira estava cheia. Tirei a calça, a camisa, os sapatos e as meias, e entrei na água. A água chegava a queimar, mas eu não ligava. Era bom, me livrava daquela... Daquela... Não sei. Daquele sentimento de nojo de mim mesmo. Eu fiquei uns 10 minutos olhando para o nada, na água. Então Jake surgiu.
— Eu imaginei que pelo menos tomando banho eu poderia ficar sozinho. – A minha voz ecoou pelo banheiro.
— Nós temos muito que conversar. E depois, você nem está sem roupas. Qual o problema? – Jake tirou as calças, a camisa, o relógio e entrou na banheira, do outro lado. – E então, como foi a primeira noite?
— Péssima. – Disse, soltando a cabeça para a lateral na banheira. Jake riu.
— Não leve à mal. Acredite, é muito bom. À menos que você seja obrigado, acho.
— Você já foi obrigado?
— Não.
— Jake, o que você e Cheryl tem em comum?
— Nada. Bem, eu conheço ela...
-De onde? – Minha voz ecoou um bom tempo no banheiro antes de Jake respirar fundo e responder.
— Ela é uma ex... Garota de programa. – Jake baixou a voz.
— UMA EX O QUÊ? — Disse eu, e a minha voz ecoou por uns bons 20 segundos antes que Jake respondesse.
— É uma longa história... Bem, eu queria um pouco mais de Celine... E ela não queria dar esse passo. Então nós terminamos. E, logo após, eu... Chamei Cheryl. Foi minha primeira vez.
— Você não tem jeito... – Ri eu. Só Jake para me fazer rir nessas horas. Passamos mais ou menos cinco minutos até voltar a conversar.
— Cara como eu odeio essas cicatrizes.
— Você é pior que galo de briga, devia saber que iriam ficar cicatrizes.
— Hm, eu nem brigo tanto.
— Não, imagina. Jake, você já brigou com um menino porque ele te deu 50 centavos à menos no troco.
— Ah, mas ele era irritante. – Riu Jake. Ri também.
Passamos quase uma hora trocando ideias e rindo. Quando eu saí, estava parecendo uma uva passa.
— Jake, posso te perguntar uma coisa?
— Pode.
— Por que tem uma mecha roxa no seu cabelo?
— Ah, uma longa história. Por favor, não me confunda com os revoltadinhos de mentira. Não, nunca. É só que eu queria que as pessoas me olhassem diferente. Eu não quero que as pessoas gostem de mim porque sou bonito. Quero que gostem de mim mesmo com um topete com uma mecha roxa e um bocado de cicatrizes. Ah sim, e se eu estiver bêbado, que gostem de mim bêbado também.
— Você é esquisito. – Disse eu. Então Jake tirou as ataduras que tinha no olho. Eu não sou muito de ficar com nojo de tudo, mas acho que aquilo era meio... Perturbante. O olho de Jake estava... Podre?
— É... Acho que eu estou um pouco ferrado.
— Um pouco?
— Muito. – Ele recolocou as ataduras. Não demonstrou um sinal de dor hora nenhuma. Jake era muito forte, tanto fisicamente quando emocionalmente. Eu invejava isso nele. E mais, ele não era muito de papo. Então era uma companhia muito boa. Quando voltamos para o quarto, Cheryl havia ganhado mais uma vez a partida.
— Eu cansei disso. Vou dormir. Boa noite. – Cheryl se deitou em uma cama e se virou.
— Eu também vou. – Jesse disse, antes de se jogar em outra das camas. Celine e eu nos olhamos por um minuto, trocamos um sorrisinho e fomos nos deitar, cada um em uma cama.
Você deve estar se perguntando por que nós sorrimos. Simples. Me parecia óbvio que Jake e Cheryl se gostavam. E para Celine também. Então, quando contamos as camas e vimos que só havia quatro, automaticamente notamos que alguém teria que dividir a cama com alguém. O resto você já viu. Jake notou isso. Ele olhou, furioso, para nós dois. Seria uma cena aterrorizante se ele estivesse com o outro olho bom. Mas como um olho estava enfaixado, era só medonha mesmo. Então ele fez a coisa mais engraçada que poderia ter feito. Ele pegou Celine no colo, a colocou na cama de Jesse, e deitou na cama de Celine.
Eu tive que me segurar para não rir. Celine e Jesse olhavam indignados para Jake, enquanto Cheryl ria escandalosamente. Jake desejou boa noite à todos, deu um sorrisinho para Cheryl e se virou. Fui dormir rindo por dentro. Por mais que devesse estar chorando.
Talvez tenha sido por isso que Jake havia trocado Celine de cama.