Noir
10 Jake e Cheryl
Jake
Tudo certo. Estava dando certo. Se Cheryl havia lido o bilhete, ela iria me esperar às 3 da manhã, no banheiro. Olhei o relógio de pulso. 3:10. Estavam todos dormindo. Era para eu estar também, mas não tem problema. Me levantei, em silêncio, e fui até o banheiro. Cheryl me esperava lá, de biquíni dentro da banheira. — Eu estou aqui desde 2:30. Aí você demorou e eu entrei. É bom ter um motivo para... — Cherry, você me deve uma pelo olho. E pelo resto... — Não me chame de Cherry. Eu te proíbo de fazer isso. E... É...Você esta certo... Como você quer? – Perguntou Cheryl olhando para baixo. — Cherry, você não está pensando que... — Já mandei não me chamar de Cherry! Ou quer perder o outro olho também? E... Não estou pensando nada. – Disse ela, sem me olhar nos olhos. Ela estava linda, com a luz fraca do banheiro. — Tem uma coisa que eu quero fazer. E não quero que você sequer reaja. Era hora de falar para ela. Mesmo que eu tomasse um toco épico, não podia continuar fingindo que está tudo bem enquanto meu desejo, minha paixão, meu amor pro Cherry esmagava meu peito. — Então ande logo por... Por favor. – Soluçou ela, ainda sem chorar. — Cherry... Acho que eu não... Acho que eu não te odeio. – Disse eu, entrando na banheira ao lado dela. A banheira era gigante, mas eu queria ficar perto dela. Nem me dei ao trabalho de tirar as roupas. — Jake o que você está faz... – Começou ela. Eu coloquei meu dedo sobre os lábios dela. – Eu... Acho que também não te odeio... – Disse ela, muito baixo. Ela parecia estar envergonhada com a situação — Sem reações, esqueceu? – Sussurrei no ouvido dela. Me afastei um pouco, deixando o meu nariz à 5 centímetros do dela. Ela balançou a cabeça, tensa, concordando com a minha exigência. – Na verdade... – Eu cheguei um pouco mais perto, e coloquei a outra mão nas suas costas. – Eu acho que te amo. – Cheryl primeiro se enrijeceu. Então ela chegou mais perto, querendo falar algo. – Sem reações. – Disse, eu chegando mais perto. — Não Jake, não! Eu não quero ser só seu brinquedinho! Eu não quero que você me beije! Isso é mentira! Você não me ama! – Eu coloquei a mão sobre a boca dela, com força — Sem. Reações. – Exigi. Então eu a soltei, e me virei. Cheryl parou por um segundo, então ela me puxou com muita força, me colocou contra a parede, prendeu meus pulsos e chegou perto do meu ouvido. — Eu te amo também. – Ela sussurrou, em lágrimas. Então ela me beijou. – Eu te amo mais do que tudo. Eu te amo desde o dia em que você prometeu que voltaria. Eu quero você, Jake. Não quero mais ninguém. Eu não sabia o que responder. Então só a dei outro beijo. Nunca fui bom com frases românticas. Cheryl sorriu para mim e eu me sentei na água morna. Sentado, ela estava no nível do meu peito. Cheryl se sentou sobre a minha coxa esquerda, tomou meu rosto nas mãos, me beijou e me perguntou: — Jake, você sabe o que é amor? – Perguntou ela. — Acabei de descobrir. – Respondi. Uau, soou melhor do que eu seria capaz de fazer. — Mas... Você já fez amor com alguém por amor? – Perguntou ela. — Acho que não... – Comecei. Então realizei que eu de fato havia tentado, por todos esses anos, preencher o vazio de não amar e ser amado com garotas aleatórias. Eu me sentia bem com elas, mas... Podia ser melhor. Eu ainda não sabia como. Mas sabia que podia. — Eu também não... Então nós somos meio... Virgens? — Parece que sim. – Ri um pouco. Cherry me beijou outra vez, e me agarrou pelo colarinho da camisa que eu ainda nem havia tirado. — Acho que podemos ter uma primeira vez. – Ela me agarrou e abriu os botões da minha calça. Em dez segundos estávamos nus, de um de frente para o outro. — Eu te amo. – Disse eu, beijando o pescoço dela. Ela agarrou minha mão, e esticou meu braço junto ao dela. Estávamos grudados, separados por nada mais do que nossa própria pele. Quase um só. Ela se arrepiou um pouco. — Jake. – Disse ela, de olhos fechados. Ouvir o meu nome, vindo da boca dela, era... Incrivelmente incrível. – Chame meu nome. — Cheryl – Chamei, beijando o pescoço dela novamente. — Não Jake, não. Cherry. — Cherry. – Chamei. Ela se arrepiou inteira. – Eu te amo. Ok, acho que fazer amor na água seria meio estranho, mas... Deuses, é tão bom! E dessa vez havia sido... Completo. Maravilhoso. Viciante. Meu corpo, o corpo de Cherry, estar perto do corpo dela, sentir o calor não só da água, mas do corpo da mulher que eu amo. Sentir sua boca em minha boca, sua mão em minha mão. Tudo feito em segredo. Sem que aqueles que estavam no quarto soubessem. O segredo dava um gostinho proibido, o que só deixava tudo mais incrível. Eu podia passar a minha vida toda com Cherry, não importando onde fosse. Eu nunca havia notado a mulher incrível que estava perto de mim há tanto tempo. O vazio dentro de mim... Sumiu. Foi preenchido por seis letras. Cherry, Cherry, Cherry. — Jake. – Chamou Cherry, após o ato. — Cherry. – Brinquei. — Não, eu estou falando sério. Essa foi a nossa primeira. E a nossa última. – Disse ela, franzindo o cenho. Aquilo me caiu como uma bomba. Eu havia passado anos esperando por uma pessoa como ela, e quando me aparece, diz que era a última vez que faria amor comigo.
— Por... Por quê? – Perguntei, desiludido. — Jake, por favor. Entenda. Eu passei muito tempo fazendo isso para sobreviver. Por dinheiro. Não me obrigue a fazer isso outra vez. — Mas aqui... É por amor! Eu te amo, você me ama! O que tem de errado? — Tudo, Jake. Tudo. Entenda, por favor. – Ela mordeu o lábio inferior, se segurando para não chorar. – Eu só quero fazer isso outra vez quando for para ter um bebê. – Eu olhei para ela incrédulo. – Para ter alguém que vai te amar tanto quanto eu. – Ela me beijou, saiu da banheira e vestiu as roupas. Fiquei na banheira por um tempo, até sair e ver que minhas roupas estavam molhadas... Mas Cheryl sempre pensava em tudo. Ela voltou e me entregou novas roupas. Uma camisa polo roxo-escuro, e uma boxer azul-marinho, calças pretas muito justas, um par de meias e um Vans preto. Coloquei as roupas. — Você fica lindo de roxo, sabia? – Disse Cherry. — Você fica linda de qualquer jeito. — Jake, honestamente, você não tem noção da coisas? – Achei que ela fosse me xingar, mas ela só ajeitou a gola da minha camisa e arrumou o cinto da minha calça. Ela apertou a minha coxa. – Você é tão forte... Anda malhando? — Sim. Mas eu não passo o dia inteiro na academia. Acho ridículo. À propósito, são 4 da manhã. Nós vamos dormir? – Cherry riu. — Jake, você acha que eu te daria essa roupa se fosse para ir dormir? – Perguntou ela. Fazia sentido. – Eu escolhi a sua. Agora escolha a minha. Vamos, ande logo. Eu fui até o armário de Cherry. Parecia que aqueles que nos "hospedavam" haviam pensado em tudo. Havia até meias do tamanho certo. Peguei um vestido branco para ela, e um salto alto preto. Eu nunca fui bom com roupas, então peguei uma neutra. Entreguei para Cherry, e ela vestiu as roupas. Então, ela abriu o armário de Celine, pegou as maquiagens e passou no rosto. Por mais que ela não usasse maquiagem, sabia como usar. Ela estava deslumbrante. — Vamos até o jardim. — Deve estar frio, não? – Perguntei, pegando uma jaqueta. — Eu não me importo. Descemos as escadas de mármore até a base da escada, e procuramos o jardim. Ao invés disso, encontramos uma sala bem pequena. Era quase como um museu. No final havia uma pequena redoma de vidro com um único frasco dentro. O frasco era minúsculo, mal devia dar um gole. — Cherry, será que... — Será que isso é o que viemos buscar? – Indagou ela. — Há uma boa chance. Como tiramos isso daí? Digo... Provavelmente há um sistema de segurança de última geração... – Concluí. Cherry riu. — Jake, estamos em 1990. Se eu consegui roubar um museu no século XXI, por que não conseguiria roubar algo parecido em 90? — Você já roubou um museu? — Já. Mania. Ser filho de Hermes dá nisso. – Cherry então tirou uma pequena faca do bolso e a colocou em frente. Eu esperava lasers ou afins, mas não havia nada. Então Cherry encostou o rosto no carpete. Ela puxou um pequeno fio que havia sobre o carpete. – Imaginei. Simples, mas de certa forma pegaria vários ladrões. A maioria deles se prepara para lasers ou coisas piores, como nos filmes de ação ou infiltração. E então se esquecem de olhar o óbvio. Mas, eu sou eu. – Cheryl deu alguns passos lentos e cuidadosos em direção à redoma. Quando chegou lá, simplesmente removeu a redoma e pegou o frasquinho. Ao voltar, ela pegou uma faquinha e cortou vários fios, os segurando na mão. Fez sinal para que eu saísse. Saí de lá e a esperei na porta. Ela amarrou os fios entre eles com nós incrivelmente complicados. Então os passou pela fechadura da porta. Os fios eram finos o suficiente para passar pela mesma. Quando chegou do outro lado, amarrou os fios na maçaneta. Inteligente. Assim que alguém abrisse, o alarme dispararia. Se esse alguém não fosse um dos nossos, seria perfeito. Então nós fomos embora. — Bem... Se nos acharem no jardim, será suspeito. Acho que é melhor ir até o quarto, mesmo. – Sussurou ela. – Vá até lá. Eu irei deixar um... Rastro. Para levar alguém até a sala. — Cherry... Eu não posso te deixar sozinha. – Disse. Eu tinha medo de alguém apanhá-la. — Sim, você pode. Vai logo. – Ela me beijou e se virou. Eu não voltei para o quarto. Eu andei um pouco para o lado para o qual ela tinha seguido. Eu vi um rastro de algo que parecia sangue. Cherry era muito esperta. Então alguém surgiu das sombras. — Che... – Me virei e gelei. Não era Cherry. Era um senhor de idade. Uns 80 anos, diria eu. — Ora ora... Temos um invasor por aqui... – Disse o senhor, em tom de desprezo. Eu estava chocado demais para dizer algo. – Jake, se não me engano. Venha comigo. Eu o segui até uma sala. Era uma sala relativamente pequena, mas toda adornada em ouro e prata. Ele se sentou em uma poltrona de pura prata e me indicou a da frente, igual à dele. — Então, Jake. Você anda espreitando fora do quarto. Devo te punir por isso? Talvez. Ou talvez não. Você tem opções. — Tenho? — Bem... Meu braço direito, Platina, anda meio... Velho. Sua sanidade mental está afetada, pobre dele. E você me atrai muito, Jake. Seu cérebro é algo raro. Já fiquei sabendo sobre você. Me responda: Qual o ponto de ebulição do Urânio? — Quatro mil quatrocentos e quatro Kelvin. – Respondi. — Muito bem. E se uma estrela à 4 mil anos-luz de nós explodiu há 3 mil anos... — Não veremos a mesma explodida até que se passem os 4 mil anos que a luz demorou para viajar. Ou seja, demorarão mais mil anos para que vejamos a explosão. — Estou gostando de você. Se uma cigarra começa a cantar, seus ruídos chegam a atingir... — Cerca de 107 decibéis. — Ótimo. Esplêndido. Por último, como você se previne de energia radioativa? — Chumbo. Embora ele não a bloqueie totalmente. — Seu cérebro é incrível, Jake Rouge. Eu tenho uma oferta muito generosa. — Diga-a. — Venha ser Platina. Seja meu braço direito. – A oferta me pegou de surpresa. — Não, obrigado. Eu gosto de Jake. Dlevin não demonstrou reação. Ele levantou os dedos, então um punhado de prata de uma pilastra próxima se derreteu e formou uma esfera entre seus dedos. A esfera brilhou e se transformou em ouro. — Sabe, Jake Rouge. Eu fui presenteado por sobreviver à guerra. A guerra. A prova de que os deuses são fracos. Na guerra eu perdi tudo. Pretendo dar o troco aos deuses. Eu posso transmutar qualquer metal em qualquer metal. Desde que o valor seja próximo. Ou seja, essa sala pode me fornecer toneladas e toneladas de ferro, já que é feita de ouro e prata. Alie-se a mim e terá isso ao seu lado. Revolte-se e sofra. — Sinto muito. Não posso me aliar à você. Dlevin ficou furioso. Ele estalou os dedos, e placas de metal me prenderam. Ele saiu, e voltou pouco depois com um Fael confuso, uma Celine brava e um Jesse indiferente. Logo atrás, vinha uma Cheryl assustada. — Cheryl. Jesse. Fael. Celine. Quero que tomem como exemplo este homem. Ele me desafiou, acreditando que poderia me vencer. Mostrarei que não. – Dlevin esticou os dedos. Alguns pedaços de ouro da sala voaram para sua mão, e se transmutaram em pequenas agulhas metálicas. – Sofra, Jake. As agulhas começaram a me perfurar. Na primeira era uma dor suportável. Mas após a quinta, eu não me controlei. Todas elas se espetavam fundo em minhas costas. A dor era mais do que excruciante. Era insuportável. Me pareceu uma eternidade quando Dlevin cessou tudo isso. Caí no chão, cansado, torturado e dolorido. Mas, o mais importante havia sobrevivido. O frasquinho que pegamos da sala — Fiquem alegres. Fui piedoso. Cuidem de Jake, ele pode ficar bom. – Dlevin se virou e saiu da sala. Todos correram até eu. — Jake... O que eles... – Começou Cherry, em prantos, rasgando minha camisa para mostrar minhas costas perfuradas. – Você consegue... Andar? Tentei me levantar. Mas assim que tentei me erguer, a dor em minhas costas se multiplicou por um milhão, e eu caí no chão, procurando pelo ar que não vinha. — Calma, calma. – Tranquilizou-me Fael. – Nós podemos te levar. Fael me ergueu por sobre seus ombros. Cada passo que ele dava me causava um espasmo de dor, por isso ele frequentemente tinha que dar uma pausa. Quando finalmente chegamos ao quarto, eu já não aguentava mais nada. Desabei em cima de uma cama. — Nós vamos ter que tirar essas agulhas... — E isso vai doer. – Adiantou Celine. — Talvez. – Falou Fael. Ele agarrou uma agulha e tirou. Doeu tanto quanto quando as agulhas entraram na minha carne. Então ele fez que ia vomitar. Não duvido nada. Ele desmaiou quando desmembrou um lagarto, imagino vendo o meu sangue.
— Nós fazemos isso. – Se ofereceram Celine, Cheryl e Jesse para tirar as agulhas. Fael se retirou. Elas tiraram cada agulha, com direito à um grito à cada agulha tirada. – Deuses, olhe isso. – Jesse me carregou até a frente de um espelho. Haviam vários botõezinhos vermelhos nas minhas costas. Sangue. – É melhor de se mexer agora? – Perguntou Celine. Eu estiquei um braço. Doía muito, mas ainda assim dava para me mover. – Vamos ter que limpar isso. Vai lá, tome um banho. — Eu te ajudo. – Se ofereceu Cherry. Agradeci e ela me ajudou a entrar na banheira e me despir. – Fael! – Chamou ela. – Água quente ou fria? — Quente. – Gritou ele, do quarto. Cherry apertou os botões na base da fonte e a água começou a jorrar. Assim que a água chegou ao nível das minhas costas, comecei a me contorcer de dor. Me ergui sobre a parede da banheira para fugir da água. Cherry se levantou e me segurou. — Doi tanto assim? — Doi. Mais do que você imagina. — Então vamos com calma. – Ela começou a me puxar de volta para baixo. – Isso, devagar. – Disse ela, com a voz doce. Por mais que doesse, era bom saber que Cherry estava lá. Em alguns segundos eu já estava quase totalmente submerso. – Pronto, agora deixa eu pegar a escova. — A o quê? – Perguntei, desesperado. — Nós temos que passar algo aí. Bem... Acho que a escova vai doer demais. Esquece. – Então ela pegou a toalha de rosto e começou a passar nas minhas costas. Quando ela retirou a toalha, ela estava encharcada de água e sangue. – Pronto. Pronto. – Sorriu ela para mim. — Acho que eu te devo essa. — Você não me deve nada. – Disse ela, me beijando – Agora se seque aí. – Tentei me secar, mas não consegui. Me abaixar era muito difícil. – Você está me saindo um belo bebê. – Riu ela. Então — ela me ajudou a me secar. – Ei, desde quando você tem essa tatuagem? – Indagou Cherry. De fato, eu tinha uma tatuagem. Na linha da cintura. Geralmente ficava encoberto pelo que quer que eu use, seja uma bermuda, ou uma cueca, ou um calção de banho. — Desde que eu fiz. Há uns 2 anos. — “Born to Die”. Que depressivo. – Riu ela. — Mas é verdade. Todos nós nascemos para morrer. — Eu gosto mais do Jake alegre. — Então acho que eu vou ser o Jake alegre. – Prometi. Cherry sorriu. Ela tinha o sorriso mais lindo do mundo. Ela me ajudou a colocar as calças quando Fael chegou com uma faixa. — Dei um pulinho lá embaixo. Parece que eles têm uma enfermaria aqui. Fael enrolou a faixa nas minhas costas. — Eu estou parecendo uma múmia. — É, talvez. – Riu Cherry. – Agora é bom ser bonzinho, ou então Dlevin pode fazer a mesma coisa outra vez. O dia passou do mesmo jeito de ontem. Passamos a tarde inteira jogando Banco Imobiliário. E assim que caiu a noite, Fael foi até o quarto de Mercúria. Ele voltou de cabeça baixa. E sempre ia dormir depois disso. Havia somente quatro camas, por isso foi decidido que Cherry dormiria comigo. Era bom sentir o calor do corpo dela junto ao meu, mas torturante não poder fazer mais nada. Nós passamos duas semanas nessa rotina. Celine não reagiu muito bem ao fato de Cherry e eu estarmos namorando, mas não importava. Tudo continuava a mesma coisa, porém Fael ficava cada vez mais triste. Mais cabisbaixo. Até que chegaram os pesadelos. Acordávamos todos à noite para ver Fael tendo pesadelos. E sempre sobrava para eu acordá-lo. — Ei, Fael. – Acordei-o na terceira vez que ele havia tido pesadelos. Antes que qualquer outro pudesse acordar. – Está tudo bem? — Não, não mesmo. – Chorou Fael. – Jake, é terrível. Eu estou sendo obrigado a... – Ele não terminou a frase. — Ah, Fael. Não fique assim. Vai demorar no máximo um mês, e então você poderá ir embora. E aí volta tudo ao normal. Agora dorme. — Jake. – Chamou ele. – Celine... — Fael, esqueça Celine. Por favor. Eu consegui, você consegue também. — Mas eu não quero esquecer. — Dorme. Dorme que é melhor. – Pedi. Fael se virou. Talvez ele não tenha notado, mas eu o esperei dormir para me levantar. Então eu me levantei e fui até a cama de Celine e cutuquei ela. — Ei, Celine. — É alguma coisa com Fael? – Perguntou ela, sonolenta. — Sim. Quero te pedir uma coisa. Será que você podia... Esperar Fael dormir? — Nós podemos revezar. — Não, Celine. Ele quer você. Sente-se do lado dele, espere ele dormir e volte para a sua cama. Simples. — Jake... — Por favor. Por mim. – Pedi. Celine cedeu. — Começo amanhã. – Se virou e dormiu. De fato havia adiantado. Quando Celine esperava Fael dormir, ele dormia melhor e mais rápido. No começo Jesse tinha ciúmes, mas eu conversei com ele, e ele entendeu. Três dias depois eu acordei sem Cherry do meu lado. Não havia nada, somente um bilhete. “Sua namorada está morta. Seja comportado ou o próximo poderá ser um de seus amigos. Nunca mais tente roubar nada.” Meu mundo caiu. De repente nada parecia ter cores, nada mais era bonito. Nada fazia sentido. Nada estava bem. Me sentei na cama, olhando para o vazio. Olhando para o salto de Cherry, como ela ficava bonita nele. Olhando para as roupas em seu armário. Me sentei no carpete, com o vestido que ela estava usando no dia em que nós havíamos pegado o frasco nas mãos. Conferi o frasco. Ainda estava comigo. Celine acordou. — Jake? – Entreguei o bilhete à ela. Ela me abraçou. – Eu realmente sinto muito. — Por que eles fizeram isso só hoje? Para me dar uma amostra de alegria? — Jake... Mais valem um dia de alegria do que dois mil de tristeza. Guarde isso, por favor. Não fique triste. Olhe para mim. Isso. Você ainda tem à nós. Está tudo bem. Nós vamos nos vingar. Eu falo sério. Mas temos que ser pacientes. Muito pacientes. Naquele momento, entrou um criado no quarto, dizendo que Mercúria estava grávida. Ótimo. Agora eram só mais nove meses até que pudéssemos sair daquele tormento.
Fale com o autor