Noir

11 Adeus, Jesse


Fael

Era um alívio saber que não teria mais que dormir com Mercúria toda noite. Mas também um martírio esperar nove meses.
Nós passamos os nove meses como prisioneiros. Cheryl estava morta, e ela fazia muita falta por lá. Especialmente para Jake. Eu nunca havia visto Jake triste, e aquilo era uma cena terrível. Ele não fazia nada além de comer, dormir e tomar banho de vez em quando.
Quando os nove meses se passaram, Mercúria iria ter o bebê. Porém na noite seguinte, eu tive um sonho. Havia uma mulher me entregando uma faca dourada, dizendo que eu deveria matar Matt com ela. E quando acordei, a faca estava ao meu lado. Quem era Matt?
Quando me levantei, vi que todos estavam acordados, embora fosse quase meia-noite. Pareciam ter tido sonhos também.
— Quem é Matt? – Perguntou Jake. – Sonhei com alguém dizendo que Fael iria matar esse garoto.
— Eu também. – Disseram Jesse e Celine.
— Eu acordei com essa faca. Me disseram que era para mata-lo com ela.
— Não me importa quem é Matt. Se é dessa família, ele deve morrer. Ele vai morrer.
Nesse segundo, entrou uma faxineira no quarto.
— Meus parabéns Fael. Seu filho nasceu.
Era o momento que eu temia. Meu filho havia nascido. À partir daquele momento, eu era pai. Pai com 16 anos. Bem, pelo tempo que passamos, eu já deveria ter 17, mas como estávamos em 1990, não contávamos os aniversários passados por lá.
— Eu posso ver meu filho? – Pedi. A faxineira me levou até um quarto, que parecia uma maternidade. Em uma das camas, havia um lençol com duas manchas de sangue, e à um canto estava Mercúria com um bebê no colo.
— Não é lindo? – Me perguntou ela, com os olhos cheios de lágrimas.
— É... Incrível. Ele é lindo. – Disse eu, emocionado. – Como se chamará?
— Dlevin irá escolher seu nome aqui dentro. Porém, lá fora ele se chamará Matt.
Matt. Matt... O Matt de meus sonhos. Eu deveria matar meu próprio filho. Eu parecia ter tomado uma dose muito alta de realidade, pois minha cabeça começou a doer. Dei um beijo na testa dele e voltei ao quarto.
— Como é seu bebê? – Perguntou Celine, alegre.
— Mercúria decidiu que ele se chamará Matt. – Disse eu. Todos se calaram e não disseram uma palavra. Fomos dormir outra vez, às 1 da manhã.
Acordei com alguém me sacudindo.
— Fael. Fael. Eu descobri como tirá-los daqui. – Sussurrou a pessoa que me acordou.
— Cheryl? – Sussurei. Abracei-a. – É tão bom te ver outra vez.
— Também é bom te ver. Mas eu tenho um plano. Vamos, venha comigo. Eu trouxe um arco. Você me ajudará a matar todos aqui dentro.
— Onde você estava?
— Fugi. Fui para Paris. Bem... Eu meio que roubei um pouco, mas isso não é importante. E eu recuperei nossas armas. Estão na mochila de Jake, agora.
Levantei-me da cama, e a segui, com o arco armado.
Foi uma operação simples. Toda vez que eu encontrava um guarda, abatia-o com uma flecha no pescoço para que não gritasse. Truque aprendido com Victarion. Se havia mais de um guarda, deveria ter mais cuidado, mas todos sempre morriam. Eu tenho problemas com sangue, mas desde que não fosse o meu sangue, ou de alguém importante para mim, ou que eu o visse escorrer, tudo bem. Mas eu realmente queria que todos naquela casa morressem, então não ahvia problema matar alguns. Quando achávamos uma sala, Cheryl entrava nela e matava todos que lá estavam. Quando terminamos, voltamos até o quarto. Somente eu entrei. Acordei todos.
— Vamos fugir. E é agora.
— Mas...
— Já não há guardas. Matei todos. Vamos logo, e fiquem quietos.
Quando voltamos, Cheryl estava lá. Jake olhou para ela com os olhos arregalados.
— Cheryl, você...
— Eu tive que fazer aquilo. Ou você me procuraria. Seria terrível. Me desculpe, por favor.
— Você ainda vai tentar arrancar meu outro olho? – Perguntou Jake.
— Seu idiota! – Disse Cheryl, beijando-o.
— Para sempre? – Perguntou Jake.
— Para sempre. – Confirmou Cheryl.
Corremos para a saída.
— Vão para a estação de trem mais próxima. Eu tenho coisas à fazer.
Celine tentou discutir, mas eu me virei e fui até o quarto de Mercúria. Lá estava ela com Matt no colo. Ambos dormindo.
Sabe, matar pessoas ruins não foi tão ruim. Mas matar pessoas inocentes? Custaria minha vida.
Mas eu não sabia disso até enfiar a faca na garganta de Mercúria. Aquilo me doeu mais do que uma facada em mim mesmo. Foi terrível. Me deu vontade de morrer.
— Por favor, me desculpe. – Disse eu. Dei um beijo em sua testa, e encarei a pior parte de tudo isso.
Matt. Nada mais do que um bebê. Um pedacinho de gente. Caberia em meus braços. Eu realmente teria de mata-lo?
— Sim. – Respondeu uma mulher.
— Quem está aí? – Perguntei.
— Afrodite. Fael, se você não matar Matt, ele derrotará os deuses. O mundo se verá em um armageddon. Eu sei que é difícil. Mas você tem de fazê-lo.
Afrodite me deu um beijo no rosto e foi embora.
Eu cortei a garganta de Matt. Não houve sequer tempo para que ele chorasse. Eu nunca havia me sentido pior. Matar um aleatório já era uma atitude repugnante, mas matar um filho... Eu me sentia um monstro. Era terrível. Lágrimas escorreram loucamente pela minha face.
Eu estava com nojo de mim mesmo. Eu estava com nojo dos deuses. Eu estava com nojo de tudo. Matt jazia em minha frente. Então eu me lembrei de quando Jake havia me xingado e me mandado virar homem... Homens choram? Sim. Homens choram. Todos choram. Homens matam os filhos? Não. Isso é algo desumano. Eu me odiava por isso.
Eu precisava ter pelo menos uma atitude decente naquele momento. Eu peguei um lençol, enrolei Matt nele e o carreguei até o jardim. Pedi aos deuses do Olimpo que o levassem até um lugar aonde eu poderia vê-lo mais tarde, e enterrá-lo dignamente. Como seria ser alegre ao lado dele. Como seria bom se desse certo. Mas não havia dado.
Quando cheguei na estação, todos foram me confortar. Porém nada podia melhorar a situação. Pedi que entrássemos logo no trem para ir à Versalhes. Compramos os tickets e fomos até Versalhes. A viagem demorou duas horas, mas eu não estava ligando para tempo. Eu queria morrer. Minha vontade de viver havia ido embora.
Quando finalmente chegamos em Versalhes, procuramos um jardim para enterrar o pingente de Cronos e voltar para nosso tempo.
Encontramos um jardim de rosas brancas, alvíssimas. Porém, assim que o achamos, ouvi algo zunindo. Algo como uma flecha. E então vi que vinha em minha direção. Jesse entrou na minha frente.
As rosas tornaram-se rubras.

Celine

- Jesse! – Gritei eu, indo à seu encontro e me agachando ao seu lado.
— Celine? – Disse ele, ainda parecendo vivo. O sorriso dele, aquele tão lindo sorriso fazia parece que tudo estava bem. Mas não estava. Havia uma estaca de ferro enorme enfiado em seu peito. – Calma. Calma. Pare de chorar.
— Não me diga que está tudo bem. – Ordenei.
— Não vou dizer. Porque não está.
— Por que você entrou na minha frente? – Perguntou Fael.
— Fael... Celine... Venham cá. – Pediu Jesse. Eu e Fael nos aproximamos dele. – Seria uma crueldade separar vocês dois. Fael. – Fael se aproximou mais um pouco. – Você sabe por que eu entrei na sua frente?
— Porque você é estúpido. – Xingou Fael
— Não. Porque eu amo Celine. Fael, amar não é somente desejar a pessoa para si. É querer o melhor para a pessoa. Querer o bem dela. Vocês dois foram feitos um para o outro. Você não pode morrer. Você não pode deixar Celine triste mais uma vez. Faça o que eu fui incapaz de fazer. Ame Celine como ninguém amou. Ame-a do jeito que eu fui incapaz de amar. É meu último pedido. E há outra coisa. Não é um pedido, não é por vocês. Mas vocês têm de fazer um favor para um garoto perdido. Achem o meu irmão. Por favor.
Jesse fechou os olhos e se foi. Então, a estaca em seu peito se tornou uma rosa dourada, e as rosas nas quais o sangue dele caiu se tornaram vermelhas. Um presente de sua mãe, imagino. Então eu tomei-o nos braços e olhei para Fael.
— Eu devia ter ido no lugar dele. – Afirmou ele.
— Não, você não devia. Você tem que ficar aqui do meu lado. – Pedi-o
— Será que vocês dois poderiam parar com isso? Temos um problema aqui. – Pediu Jake. – Acho que Dlevin nos seguiu.
Jake parecia estar certo. Havia um homem, de uns 80 anos, com uma expressão dura no rosto nos olhando. Ele começou a falar.
— Vocês são um grupo de idiotas! – Gritou ele. – Arruinaram o que eu venho fazendo desde que a guerra terminou! Os deuses devem cair, entendam isso!
— Você acha que a Guerra foi culpa deles? – Perguntou Celine.
— Claro que foi! Pensem, garotos, pensem! Se eles houvessem feito tudo direito, se houvessem apenas matado Hitler... Apenas um pequeno desrespeito às leis antigas, não seria tão ruim...
— Espere, o quê? – Perguntei. Até onde eu sabia, Hitler queria exterminar os judeus...
— Idiota, matar os judeus era só uma desculpa. Ele queria reunir semideuses e atacar os deuses, para que eles caíssem. Claro, Hitler era um belo idiota. Ficou fissurado por isso. Hmpf. Admito que ele foi perverso e desumano, por isso eu resolvi criar o semideus perfeito. Se Hitler não houvesse existido, eu não teria perdido minha esposa. Para que a guerra não se repetisse, pois assim só o semideus enfrentaria Zeus. Mas claro que quando Zeus soube que Hitler queria exterminar os deuses, deu seu jeito de fazer a Alemanha ser atacada. Eu sequer era um soldado. Eu era apenas um comerciante em uma cidade que foi atacada... Eu perdi a minha mulher por lá. uma filha de Ares, com a qual eu tinha duas moças... Me respondam, crianças. Me respondam! Os deuses foram justos? Os deuses estão certos? Vocês sabem o que foi a guerra?
— Morte? Fome? – Chutou Celine.
— Homens que não puderam ser homens. Mulheres que não puderam ser mulheres. Crianças que não puderam ser crianças Países que foram destruídos. Vidas que foram tiradas. Me desculpem crianças. Mas vocês atrapalharam o que eu demorei anos para construir. Vocês devem morrer. – Finalizou Dlevin.
Então Dlevin estalou os dedos e uma esfera de metal surgiu em sua mão. Ela se dissolveu, e se transformou em uma infinidade de tentáculos, que prenderam à todos nós. Menos Jake.
— Temos contar à acertar, Jake Rouge. Você fica.
Então os tentáculos se rearranjaram de modo à se tornar uma bolha de ferro para nós, com uma abertura em cima, para que não interferíssemos no combate.