Noir
6 Chama
Fael:
Acordei com Jake do meu lado, comendo um pedaço de carne seca.
— Jake? – Chamei. Ele olhou para mim.
— Ah, finalmente! Você esteve desmaiado por tempão!
— Desmaiado? – Olhei para o lagarto desmembrado e o machucado no meu braço. – Ah sim. Jake, será que estamos no caminho certo? – Perguntei
— Por quê não estaríamos? – Duvidou Jake.
— Por que diabos haveria uma foice no Vale da Morte?
— Porque é o lugar mais inóspito do mundo. Não é nem um pouco chamativo. Agora que tal andarmos mais um pouco?
— Mas para onde? – Perguntei. O Vale parecia interminável, o solo queimava meus pés, mesmo através da sola do tênis, o Sol queimava meu rosto, o suor grudava nas minhas roupas.
— Sierras Nevadas. Foi de lá que a Dracaena veio, não é?
— Hm... Vamos lá, então.
Andamos por dois dias. Mal comíamos, mal dormíamos. O calor estava nos matando, tudo estava nos matando. Quase não tínhamos água, então tivemos que economizar muito. Eu já estava quase pedindo para sair, para ser levado de lá, nem que fosse morto. O Vale da Morte honrava o nome, sem dúvidas.
Então surgiu o que nós estávamos procurando. Ou o mais próximo disso que eu consegui achar. Um templo. E na frente... Na frente dele... Uma fonte! De água, brilhante! Eu e Jake corremos até lá, e bebemos água até não caber mais. Ele um pouco mais, já que devia estar em uma crise de abstinência.
Só então eu olhei para o templo. Era lindo, parecia feito de cristal. O Sol refletia nele, em matizes inimagináveis. Provavelmente o lugar mais bonito do mundo, enrustido na base de uma das montanhas Sierra Nevadas. Então um homem saiu de lá. Vestido em roupas leves, e bem escassas.
— Bem vindos ao Templo do Vale da Morte. O que procuram aqui?
— A Foice de Cronos. – Pedi.
— A Foice? Deuses... Então eram vocês que viriam? Eu imaginei que fosse aquela mulher... Não sei por que raios eu fui entregar a foice à ela... Bem, nos foi avisado que alguém viria, então...
— Será que você poderia me explicar o que está acontecendo? – Pediu Jake.
— Bem... Quando Cronos caiu, foi pedido à um grupo de semideuses mais velhos que guardasse a foice... Então Hades, usando o poder que tem sobre as riquezas, construiu esse castelo, para que a foice ficasse em segurança. Ninguém que seja aliado dos titãs pode entrar. E ninguém pode tocar na Foice.
— Mas a tal mulher tocou. – Lembrei.
— Ela conseguiu convencer a todos nós de deixa-la levar a Foice... Não me pergunte como. Me desculpe pelo... "incômodo" de vir até aqui. — Ele falava incômodo como quem pedia desculpas por pedir ao melhor amigo que pegasse trânsito para buscar o filho na escola. Ugh. — A mulher disse que a foice seria levada até... Quadra 33 em New York? É, algo assim.
— Então nós viemos aqui para nada? – Perguntei, estressado.
— Sinto lhe informar que sim – Disse o homem.
— E você poderia nos levar de volta para casa?
— Temo que não. Não podemos sair do templo, só há dois de nós...
— Obrigado por nada. Vamos embora, Jake. – E saí pisando duro. Então, atrás de mim, notei que algo havia começado a brilhar... Seria o Sol? Esquisito... Então esperei o brilho passar e me virei.
— Filho, você sobreviveu! – Então era meu pai? Apolo?
Eu não sabia como reagir. Então acho que eu fiquei parado encarando ele, incrédulo. Meu pai parecia um modelo de cuecas. Sério mesmo. Sem palavras para ele. Então ele andou até mim e me abraçou.
— Que orgulho de você! Bem... Digamos que não foi legal ter desmaiado, mas... Bem, não importa. E, Jake. Obrigado por cuidar do meu filho!
— É só isso? – Perguntei. Digo, ele passa dezesseis anos sem nem me dar notícia, e do nada aparece para mim, e não me dá explicações?
— Quer um doce? – Ele estendeu uma paçoca para mim.
— Você é um idiota. – Rolei os olhos. Apolo me ignorou. – Eu posso leva-los de volta. Querem? – Eu iria dizer que não, mas Jake disse que sim. E, convenhamos, uma caroninha até cairia bem...
Entrei no carro sem nem olhar para a cara do meu pai. Que idiota ele era.
Eu passei metade da viagem dormindo, e a outra metade fingindo dormir, para não conversar com Apolo. Quando chegamos. Eu desci sem dizer uma palavra. Juro que ouvi Apolo suspirando. Mas não me importava. Só então notei onde meu pai havia me deixado. New York. E na minha frente havia... O World Trace Center? Não... Era impossível. E, em frente ao World Trade Center, ao meu lado, estava Celine, acompanhada de um garoto, um pouco mais novo do que eu. Ela olhou para mim.
E só então eu notei que a promessa de Eros havia sido cumprida. Eu amava Celine.
— Fael, Jake. O que fazem aqui?
— Voltamos do Vale... Sobrevivemos. – Respondeu Jake.
— Acho que eu tenho que apresentar alguém para vocês... Esse é Jesse... Meu... Hm... Namorado. – Namorado. Essa palavra me caiu com um estouro. Só porque eu amo ela, ela arranjou um namorado. Aposto que é por isso que Eros me fez amá-la... – Eu consegui um quarto em um hotel... Jesse, poderia levar Jake até lá? Eu tenho que falar com Fael. Eu arranjo um quarto maior quando chegar. – Jesse olhou para nós, desconfortável, e foi embora. – Fael, vamos até a estátua da Liberdade? Eu... Queria ter a vista de New York uma última vez antes de o céu cair... Eu te contei a história? — Perguntou ela. Eu disse que não, e ela explicou o que estava acontecendo. Resumindo: alguém havia feito o céu cair. — Mas voltando ao assunto... Eu queria ter um último minuto em New York antes de... O céu cair. Ou o mundo acabar. E queria que fosse com você.
Chamamos um táxi, o que demorou um pouco, pois haviam poucos táxis, e fomos até a Estátua da Liberdade. Subimos no ponto mais alto, reservado para turismo, que estava vazio.
— A cidade foi evacuada. Acham que está vindo um furacão. Sobraram alguns poucos, como uns quatro funcionários do hotel e esse taxista. Queria que fosse assim. – Disse Celine
— Celine, tem algo que eu quero dizer... Quando eu fui ao deserto, seu pai me prometeu que eu seria capaz de te amar se voltasse vivo. – Celine abaixou a cabeça:
— E ele cumpriu, certo? – eu assenti. – Fael, há algo que eu quero lhe dizer...
— Celine, eu te amo.
— Por favor, não me diga isso. – Começou Celine. — Fael, eu te trouxe aqui porque queria ver New York uma última vez antes de... O mundo acabar. E queria ter essa visão com você. Você foi uma parte importante da minha vida...
— Fui? — Perguntei, desiludido. Então ela me beijou.
— Não se acostume, por favor. Fael, onde há amor, há uma chama. E onde há uma chama, alguém tem que se queimar. Eu sinto muito. — Então ela se virou, e desceu da Estátua, me deixando sozinho e desiludido com uma visão para New York inteira.
Eu fiquei lá por umas duas horas até notar que estava ficando escuro. Então eu desci para voltar ao hotel. Para minha surpresa, Celine ainda estava me esperando, sentada na base da estátua, chorando.
— Fael, eu não aguento mais ficar sem você. Por favor, acabe com isso. — Disse ela, chorando. — Dói muito, e eu não sei como faço para parar.
— Procure o Jesse. – Então eu me virei e fui até um táxi, que me levou até o hotel que Celine havia me citado. Quando cheguei lá, chamei Jake.
— Pegue suas coisas. Vamos para o quarto ao lado. – Mandei. Jake estava bêbado. De novo. Ou melhor, não bêbado. Ligeiramente trôpego. Não posso culpa-lo, ele havia passado três dias sem beber.
— Mas esse quarto está ótimo. – Tropeçou ele.
— Por enquanto. Daqui a pouco não estará mais. – Falei. Jake pensou um pouco, e me acompanhou. Fomos até a recepção e pedimos um quarto. Por ser um dos poucos hotéis funcionando, devido ao esvaziamento da cidade, havia um ótimo quarto disponível. Eu e Jake iríamos para lá. Jake aproveitou para pedir uma garrafa de vodka. O atendente o entregou, e nós fomos para o quarto.
— Vamos lá, desembucha, o que aconteceu com a Celine? – Ele perguntou. Como ele sabia? Acho que ele me conhece mais do que eu gostaria de admitir.
Eu contei toda a história para ele. Ele riu, abriu a garrafa, e me ofereceu a mesma para mim:
— Jake, você sabe que eu não...
— Vamos, deixa de ser fresco. Um gole não mata ninguém. À propósito, antes que eu me esqueça... Celine e eu já namoramos, ok?
— Vocês o quê?
— Isso mesmo. Achou que ela chegaria inteira à você? – Completou ele, cínico. Então eu peguei a garrafa e tomei um gole.
Acho que eu engasguei. Aquilo era muito mais forte do que eu imaginava. Jake riu.
— Desiste, Fael, você não dá conta.
— Dou sim. – Tomei mais um gole. Fiz força para não colocar tudo para fora.
Passamos o resto da noite entre drinques e conversar. Não me lembro de quase nada.
No outro dia, acordei oito da manhã, com a cabeça estourando. Jake estava do meu lado, de pijama.
— Você ficou acordado a noite inteira? – Disse, com a mão na testa para tampar a luz
— Er... Digamos que você desmaiou depois de beber um bocado, aí eu saí pra... Hm... Me divertir. Se é que você me entende. E eu me senti culpado por você estar assim, então voltei. Quer um copo de água? – Perguntou ele.
— Por favor. – Pedi. Ele trouxe. Eu tomei a água. – Isso é ressaca? – Perguntei.
— Não sei, nunca tive. Coisa de filho de Dionísio. Mas se quiser um Engov, eu sempre carrego um. Fael, me desculpa. Eu não devia ter feito você beber.
— Por que não? Você também bebe!
— Fael, olha pra mim. É assim que você quer ser?
— Jake. Você consegue a menina que quiser, quando quiser. Consegue o amigo que quiser, quando quiser. Consegue tudo que quiser, quando quiser. Todos querem ser você.
— Pode ser, mas eu sou um fracasso. Eu maltratei a menina da minha vida, Fael. Eu deixei ela me escapar. E tento preencher esse espaço com qualquer uma. Mas eu simplesmente não consigo. Jesse tem muita sorte. Não podemos deixa-lo esquecer disso.
— Peraí, você maltratou a menina da sua vida... Você também é apaixonado por Celine. – O meu melhor amigo. Era à fim da minha ex-namorada.
Eu juro que não sabia o que estava fazendo, só notei quando vi a minha mão indo na direção do seu rosto.
— Você é um idiota! Um idiota! – Disse eu, com raiva de Jake. Então ele agarrou o meu pulso, e me jogou na parede.
— Escuta aqui. – Começou ele, bravo. – Se você não sabe – Ele encostou a boca no meu ouvido, o que deixou seu tom ainda mais violento e perigoso. Eu sabia o quanto perigoso era um Jake bêbado e bravo. – Eu tive um caso com ela antes de você. Então ela já chegou de segunda mão em você. Se alguém tem que ficar bravo com alguém, sou eu com você. Aprenda que deveria ter dito pra ela que não a amava assim que o descobriu, e não ter iludido a Celine. Fael, de nós três, eu, você e Jesse, você é o pior. Você acabou com Celine. E se agora ela está com o Jesse, vire um homem. Aguente. A culpa é sua. – Então ele me largou. – Os funcionários do hotel foram embora da cidade também. Vou lá embaixo pegar o café da manhã pra mim. Quer também? – Ele não me esperou responder. – Sim, você quer.
— Mas Jake, eu estou sem fome. – Então Jake tirou a camisa. E só então eu notei o tanto que Jake era magro. Digo, não magro de pobreza ou de ser naturalmente magro. Magro de quem não come há um bom tempo.
— Fael, é normal não sentir fome na ressaca. E aí você fica assim. Vamos lá, eu não quero que você fique que nem eu. – Ele colocou a camisa, e desceu as escadas.
Então eu fechei os olhos e dormi.
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