Noir
7 Cheryl
Notas iniciais
Cheryl :))
Cheryl:
Jake:
Após uma noite (E que noite) ontem, eu havia deixado Fael de ressaca. Que idiota da minha parte. Eu não queria que o menino acabasse que nem eu. Ok, talvez ele até quisesse, mas eu não queria. Eu me importava com ele, coitado. Ele era meio que um irmão mais novo para mim.
Depois que o “furacão” começou a vir para New York, todos foram evacuados. Por um tempo, o hotel até tinha funcionários. Mas agora, nem isso. Deixaram-nos ficar, mas se eu quisesse comer, teria fazer minha própria comida. Não que eu não soubesse cozinhar, mas eu prefiro ser mimado por vários empregados.
Quando cheguei à cozinha, Celine estava lá. Ela não me dirigiu uma palavra. E eu sabia muito bem o motivo. Eu sabia o que eu havia feito no dia em que ela foi reclamada. Não, não era porque eu estava bêbado. Eu não sou o tipo de pessoa que perde a noção quando bebe. Herdei do meu pai. Foi, simplesmente, um jeito meio violento de expressar tudo o que eu ainda sentia por ela. Ela deve me odiar por isso. Atitudes impensadas.
Peguei o macarrão na despensa e coloquei para cozinhar.
— Macarrão às 8 da manhã? – Perguntou Celine, levantando a sobrancelha. Eu amava quando ela fazia isso. Mas eu não desviei os olhos do macarrão.
— É. Não é para mim.
— Fael? – Perguntou ela, envergonhada.
— Ele mesmo. Resolvi oferecer a Vodka para ele... Não deu certo, vamos dizer assim.
— Você O QUÊ? – Perguntou ela, desesperada. – Jake, um dos rins do Fael não funciona direito! Ele não pode nem sonhar em beber!
— Sério isso? Ele nunca me contou.
— Ele descobriu isso tem pouco tempo, vai que ficou com vergonha de falar? Afinal nós sabemos o quanto você ama um drinque – Explicou ela. – E depois, você não devia nem ter oferecido! Vocês acabaram de voltar do Vale! E é ilegal! Aliás, você beber é ilegal também! – Disse ela, com raiva. Eu peguei o macarrão no fogo e coloquei o bacon em uma frigideira.
— Você ainda se importa com ele depois do que aconteceu na estátua? – Perguntei. Pergunta indelicada. Oops.
— Isso é da sua conta?
— Por que não seria?
— Porque isso só envolve eu e Fael. – Respondeu ela, como se não quisesse falar sobre aquilo. Tirei o bacon da frigideira e comecei a preparar o molho. – Eu não sabia que você cozinhava.
— Claro, afinal para você eu sou só um bêbado. – Retruquei.
— Jake, não é assim. Desde que você e eu... Bem... Você sabe... Você tem estado estranho comigo.
— Estranho? EU? Celine, — Larguei o molho no fogo e me virei para ela. – Você praticamente corta relações comigo e resolve namorar o meu melhor amigo. O estranho sou eu? Você esperava o quê? Que eu ouvisse Fael se lamentando na minha frente quando vocês brigavam, querendo saber se ele havia te chateado, que eu o ouvisse dizendo o quanto sentia falta de te amar? É isso? – Gritei.
— Ei, como assim “Sentia falta de te amar”? Fael já me amou? – Os olhos dela brilharam nesse momento.
— É uma história esquisita. Ele realmente te amava. Começou a te amar umas duas semanas depois que nós terminamos. Então ele se declarou pra você, e você disse que sim. À partir do momento em que você disse sim, ele se tornou incapaz de te amar.
— Que... Fofo. Jake, como você conheceu Fael?
— Orientação. Ele tinha problemas na escola, então o diretor me chamou para ajudar. Ele devia ter uns 13 anos na época. Eu tinha 16. Cara, eu odiei aquilo. Imagine, passar duas horas por dia com alguém que você não conhece? E eu tinha mais coisas para fazer. Dar aulas não é exatamente divertido. Bem, mas eu gostei do Fael. E você, como conheceu ele?
— Nós estudávamos juntos. Jake, você não é disléxico como nós dois?
— Sou. Bem, não muito, mas sou. Digo, não é difícil estudar, se você tiver motivação e paciência, você aprende a seguir as linhas que se perdem na sua dislexia. Nenhuma palavra é rápida demais para ser lida.
— Hm... Fael está bem? – Ela perguntou. Ela ainda gostava dele.
— Obrigado por perguntar por mim. Estou ótimo também. Afinal, eu fiquei na praia curtindo o mar enquanto ele ia para o deserto.
— Jake, você sabe que não é assim...
— É como então? Não me lembro de você se importar comigo.
— Claro, para você eu sou só um pedaço de carne. Gostosa, mas dispensável. – Ela meio que murmurou. Eu fiquei bravo.
— Então você duvida que eu goste de você. Ótimo.
— Duvido! A primeira coisa que você fez quando nós terminamos foi arranjar alguém para me esquecer! Você resolveu pegar todo mundo depois! Era para me esquecer? Conseguiu?
— AH, claro! E você, que depois de terminar comigo resolveu ir pra cima do meu melhor amigo? Era vingança? Saiba que não conseguiu! Eu duvido que o Fael possa te dar o que eu te dei!
— Claro, e por isso você resolveu pegar um milhão de vadias, porque elas podem te dar o que eu não te dei! E depois, porque acha que eu estou com Jesse? Porque ele está me dando o que nem você e nem Fael puderam me dar! Amor!
— Ah, claro, agora você é romântica. Celine, você quer um namoro estilo Romeu e Julieta. E isso não existe! Eu duvido que ele morreria por você como o Romeu morreu pela Julieta!
— Você é um galinha Jake! Um galinha! Você fede á bordel!
Então eu senti o cheiro de gás. Quando Celine disse que eu fedia à bordel, acho que ela achou que bordel cheirava à gás de cozinha. Garanto que não. Então ouvi um barulho na vindo de onde estavam os botijões.
E em dois segundos havia algo sendo jogado em mim e em Celine. Uma faca. Empurrei Celine para o chão, à tempo de salvá-la... Mas não á tempo de me salvar. A faca veio direto para o meu olho, e fez um corte, talvez na córnea. Eu nunca havia sentido dor maior.
— Você vai me bater agora? Seu... – Começou a reclamar Celine. – Jake, o que aconteceu com o seu... – Eu não esperei Celine concluir a pergunta. Agarrei-a pelos braços, a joguei na despensa e tranquei a porta por fora. Era, provavelmente, mais perigoso do que ela poderia compreender. – Jake, me deixa sair! Agora! – Gritava ela, esmurrando a porta.
— Hmpf, vejo que se livrou da sua namoradinha... – E então a pessoa que jogou a faca apareceu, com seu rosto ainda encoberto pelas sombras, perto da janela de vidro. – Seu idiota. Por que tinha que bancar o heroizinho? Você poderia ter saído da cozinha, daria tempo. – Então ela agarrou outra faca. Eu me abaixei e fui em direção à ela. Agarrei o braço dela e ela se virou para mim.
— Você... Cheryl? – Perguntei, incrédulo.
Cheryl é uma... Hm... Garota de programa. Acho que a minha primeira vez foi com ela. Ela era linda. Os olhos verdes dela brilhavam, e seu cabelo castanho-avermelhado continuava do jeito que eu lembrava, muito levemente ondulado. Só que agora havia uma mecha roxa, da cor da minha, em seu cabelo. Ela era muito linda. – O que você está fazendo aqui?
— Você disse que iria voltar para mim! Seu idiota! Eu te odeio! – Então eu me lembrei de tudo. Foi logo depois que eu terminei com Celine. Eu tive minha primeira vez com Cheryl, e ela pareceu se... Compadecer disso. Foi... Gentil comigo. Então me contou a história. Eu havia prometido que iria voltar. Mas eu não voltei.
Ela não tinha mãe, e o pai havia morrido logo após o nascimento. Logo, ela tinha a si mesma, e só. A mãe não havia deixado nada. E, ao contrário de muitos, ela não queria ir à um orfanato. Preferia a rua. Então vender a si mesma foi a forma que ela encontrou de ter alguma autonomia. Então eu fiquei com dó. Prometi que iria fazer alguma coisa, que iria voltar para ela. Digo, eu achei um absurdo. Eu também não tinha pai, mas nasci com sorte, com uma mãe rica. Então resolvi que eu iria ajuda-la. Mas a minha mãe ficou horrorizada quando eu dei a ideia de chamar uma garota de programa para morar conosco. Ela disse que Cheryl havia dito aquilo justamente para me atingir. E eu passei uma semana sem fazer praticamente nada por causa disso, com raiva dela.
— Cheryl, olhe... Eu tentei. Eu falei com a minha mãe. Mas ela achou que você falou aquilo porque foi... Paga. E eu acabei achando aquilo também. – Ela começou a se debater, e eu a soltei.
— Idiota, idiota! Eu passei esse tempo todo te esperando! Até que não aguentei mais esperar, então te segui! Eu te vi um dia na rua, resolvi saber onde morava. Eu sei cada passo seu, esperei por meses para que você me ajudasse. E você não ajudou. Você sabe o quanto eu odiava fazer o que eu fazia? Você sabe?
— Cheryl, você me seguiu?
— Segui, segui! Você era, e ainda é, a minha única chance de sair daquela vida! Você, eu sou obrigada a seguir um... Um... Bêbado idiota! Mas agora eu vou morrer, então eu achei no mínimo justo que você morresse pelas minhas mãos! – Ela me chutou, agarrou um fósforo e ameaçou o riscar. Eu com certeza morreria, já que a cozinha estava impregnada de gás.
— Cheryl, onde você esteve todo esse tempo? – Perguntei, tentando desviar do assunto “vou morrer”.
— Eu não deveria falar, mas... Vamos morrer. Acampamento Meio-Sangue. – Eu a olhei. Bem, eu passei pouquíssimo tempo por lá. Eu não gostava dele, então eu voltava para casa. Por sorte, poucos monstros me achavam. Pareciam ter algo mais importante para lidar. E eu sou, modéstia à parte, bom em combates. Então nunca tive problemas com monstros.
— Você é uma semideusa? – Perguntei.
— Sou.
— Eu também sou! Você é filha de quem? – Perguntei.
— Pare de brincar, eu estou falando sério! Eu sou filha de Hermes, deus dos ladrões!
— Eu estou falando sério! Eu sou filho de Dionísio, deus do vinho! Você fugiu do acampamento?
— Bem... Eu fui para lá seguindo você. E você estava lá. Tive o cuidado de não deixar que você me visse. Sou... Boa em fugir. Ser sorrateira. Roubei para sobreviver. E deu bem certo. Na semana passada, eu desisti de te seguir. Então eu vim para New York, porque me mandaram em uma missão, para investigar o reaparecimento das Torres Gêmeas. Eu fiquei nesse hotel, e “por acaso” você também.
— Cheryl, solte esse fósforo. É perigoso.
— Mas vamos morrer, qual a diferença?
— Existe uma chance! O céu está caindo, e eu tenho certeza que em algum lugar existe um modo de pará-lo! Pode ser no topo das Torres, já que lá ainda está normal. Cheryl, por favor, solte esse fósforo. – Ela o riscou assim mesmo. E o soltou no chão.
— Você manda.
— Cheryl, não! – Então eu investi contra ela, a agarrei pela cintura e pulei pela janela com ela, no melhor estilo 007. O vidro se estilhaçou no chão, e eu fiz o favor de cair por baixo dela.
Ela se levantou.
— Por que você... – Começou ela
— Nós temos muito a conversar.
— Sim, nós temos. Você venceu. Eu começo. – Cedeu ela, por fim. – Você já me explicou por que não voltou. Agora me diz quem é aquela.
— Celine. Namorada de um amigo meu. Minha vez. Você largou a vida de garota de programa?
— Sim.
— Você quer vir com a gente? Digo... O mundo não necessariamente tem que acabar. – Então eu expliquei toda a situação para ela.
— Acho que eu irei com vocês. Mas você tem que prometer ficar longe de mim. Ok? – Ela riu. Que risada linda.
— Ok. – Eu ri. Então nós ficamos por uns 5 minutos olhando um para o outro, até que Celine esmurrando a porta me acordou do transe.
— Jake me tira daqui AGORA! Eu não estou pedindo! – “Pediu” ela. Eu fui até a porta:
— Pede direito. – Ouvi a revolta dela lá dentro. – Eu não vou tirar até você pedir “por favor, Jake lindo do meu coração”.
— Por favor, Jake lindo do meu coração. Me tira daqui. Esse lugar fede à alho. – Disse ela, fofamente. Ela era boa atuando. Abri a porta. – Jake, o que aconteceu com o seu olho? E... Com as suas costas?
— Hm... Digamos que Cheryl é um pouco louca demais. – E só então eu notei o quanto meu olho estava doendo. – Tem algum hospital por aqui?
— Nenhum que esteja aberto. Já dei uma ronda. Aquele Fael é filho de Apolo, não é? Ele deve saber como resolver isso. — Concluiu Cheryl.
— Ele não está em condições de lembrar o próprio nome.
— Vamos ter que tirar os cacos de vidro das suas costas, então. Vamos, tira a camisa. – Ordenou Cheryl. Eu obedeci. – Deuses, isso está péssimo... Digo, não irreparável... Mas está assim por minha culpa. Escute aqui, nunca mais faça isso. Bancar o herói.
— Vou anotar.
— Isso pode doer um pouco. – Preveniu-me Cheryl
— Sem problemas.
Então ela e Celine começaram a arrancar os cacos de vidro das minhas costas.
— Acho que o hotel tem uma ala de primeiros socorros. Vou lá achar alguma coisa pra passar nisso. – Ela passou por cima do que havia sobrado de alguns armários e foi até a ala hospitalar.
O molho do macarrão e o macarrão ainda estavam inteiros.
— Queimou.
— O quê? – Perguntou Celine.
— O molho do macarrão. Uma pena. Fael vai ter que comer queimado.
— Por quê?
— Duvido que tenha gás para fazer outro.
— Você é tão fofo cuidando do Fael.
— Que bom. – Coloquei o molho no macarrão, misturei, peguei um prato em uma gaveta, um garfo e uma faca. Cheryl chegou.
— Jake, vira. – Eu virei. Ela passou alguma coisa meio ardida nas minhas costas, mas eu nem liguei. Então eu senti o gosto de sangue, e lembrei que tinha um olho escorrendo sangue pela minha cara toda. – E... O seu olho. Tomara que não seja nada sério. Eu vou enfaixar, mas assim que acharmos um hospital você vai visita-lo ok?
— Eu odeio hospitais.
— Nem ligo.
— Eu te odeio. – Que mentira. Eu gostei de Cheryl.
— Eu também. – Respondeu ela.
— Eu tenho que ir. Você vem com a gente?
— Vou. Hm... Vocês estão todos no mesmo quarto?
— Não, — Respondeu Celine. – Eu estou em um separado, com o meu namorado. – Cheryl olhou para a cara de Celine, segurando o riso.
— Eu vou ficar lá. – Decidiu ela. Celine nem se impôs. Não adiantaria. Saímos da cozinha, eu ainda levando o macarrão para Fael. Quando cheguei na porta do quarto, Celine me parou.
— Jake, faça-me um favor, sim?
— Depende, o que?
— Diga à Fael que eu não estou com raiva dele.
— Acho que é ele que tem que te falar isso.
— Mas foi ele quem foi grosso comigo! – Uivou Celine, indignada.
— Acha mesmo? – Abri a porta, e entrei, sem esperar a resposta dela. Fael estava dormindo quando eu cheguei. – Fael. – Sacudi ele. – Fael, acorda.
— Ah, bom dia. O que é isso?
— Macarrão. Fiz pra você. Hm... O molho queimou, e nós tivemos um pequeno problema na cozinha. – Expliquei para ele o que aconteceu.
— Que macarrão perigoso. Tá gostoso pelo menos?
— Acho que não, o molho queimou. Mas você vai comer. – Ele levou uma colher à boca.
— Hm, não está ruim. Só com um pouco queimado demais. – Fael comeu o macarrão.
— Você está melhor? – Perguntei. Acho que eu não sentia tanta culpa desde que eu larguei Cheryl.
— Ahn, sim. Agora já posso pensar direito. – Afirmou ele. Ele terminou o macarrão, colocou o prato na mesa de cabeceira e dormiu.
Então fui dormir um pouco também. Acho que eu merecia. Coloquei o despertador para dormir mais umas três horas. Depois iríamos investigar as torres. Mas antes de dormir eu pensei em Cheryl... Algo estranho. Eu nunca havia sentido isso, nem por Celine... Seria... Amor? Isso era amor? Era... Bom. Muito bom. Como é que eu nunca havia sentido isso? E, de repente, a necessidade de tomar só mais um gole, ou de cair no noite só mais uma vez sumiu. Cheryl me fazia bem? Hm... Acho que eu não posso falar isso, ela me deixou cego de um olho, e quase me explodiu.
Bem, o amor ninguém explica. Ao menos eu acho.
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