Noah Parker E O Refúgio Dos Deuses

2 A quase morte da Sra. Eeiley


Notas iniciais
Espero que gostem =) próximo cap até amanhã.

Estávamos correndo pelas ruas movimentadas de Nova York. Eu sinceramente não sabia como as pessoas não se assustavam ao ver Jean com suas pernas de bode. Parecia que elas não viam nada... ou NY já tinha tanta coisa estranha que as pessoas já haviam se acostumado.

–- Ninguém vai mesmo explicar o que está acontecendo? – perguntei enquanto corríamos por um beco. O céu estava nublado e ameaçando desabar. Raios iluminavam assustadoramente o beco e o trovão fazia o chão tremer.

–- Não há tempo, Noah. Quando chegarmos ao nosso destino vou explicar-lhe tudo, prometo. – respondeu-me Thomas.

Lancei um olhar intrigado para Jean, mas ele só abaixou a cabeça e continuou a correr.

–- Afinal, para onde estamos indo?

–- Não posso dizer ainda, Noah. Vamos pegar um taxi... tenho alguns trocados aqui.

Saímos do beco e fomos para uma rua movimentada. Não tivemos que esperar muito para pegar um táxi. Entramos no veículo e o motorista nem notara nas pernas de Jean.

–- Ele não pode ver as pernas...

–- Shh! – fez Thomas. Ele tirou um bilhete do bolso do jeans e entregou ao motorista. – Leve-nos para esse endereço o mais rápido possível.

O motorista releu o bilhete e, se achou algo estranho, não demonstrou. Ativou o contador no painel e deu partida no veículo.

–- Será que alguém pode me explicar o que está acontecendo agora? E por que estamos indo para Long Island? – interroguei-os.

–- Shh, Noah! Não pergunte ainda.

Recostei-me no banco e olhei para a janela. Começara a chover. Raios cortavam assustadoramente o céu e faziam tudo brilhar.

Quando eu era menor, minha mãe me dizia que era Deus fotografando a Terra. Minha mãe... há quantos anos eu havia perdido-a?

Eu tinha uns cinco anos quando tudo aconteceu. Estávamos acampando em algum lugar perto de Long Beach. Ela me contava histórias enquanto observávamos a fogueira. Então, a fogueira aumentou e uma sombra surgira. Ela gritou para que eu fosse para dentro da barraca e eu, obedientemente, o fiz.

Escutei alguns gritos e o crepitar do fogo se aumentando, mas eu não saí da barraca para ver. Confiei em minha mãe, que dizia que tudo ficaria bem. E então, o fogo apagou. Abri o zíper da barraca para ver o que estava acontecendo, mas não encontrei minha mãe.

Levantei-me e corri por todo o campo procurando por ela, mas não havia nenhum sinal. Apenas seu colar com um pingente de folha perto da fogueira. Lembro-me de ter pego-o em minhas mãos e, chorando mais do que nunca, sussurrado:

–- Mamãe, onde está você?

Os dias se passavam e eu continuava a dormir perto da fogueira, mesmo passando frio. Como eu tinha cinco anos, não sabia acender fogo. Sobrevivi com a comida que havíamos levado e um pouco de água de um riacho ali perto. Até que meu tio chegara.

Ele era um sujeito gordo, esquisito e mau humorado. Ficara preocupado conosco e por isso resolveu ver se tudo estava bem. Lembro-me dele gritando comigo, acusando-me de ter matado sua irmã ( minha mãe). Ele me arrastou com ele para sua casa, onde tenho morado desde o acidente com a fogueira.

A parte boa é que, como eu estudo em um internato, só passo dois meses por ano com aquele velho idiota. E é por isso que eu não quis voltar para “casa” naquele dia. Pra quê despedir-me dele?

–- Noah? – chamou-me o Sr. Brown de volta para a realidade.

–- Sim?

–- Eu prometo que vou explicar tudo assim que chegarmos no acampamento, ok?

–- Que acampa... Já sei, você não vai responder. Ótimo.

Estávamos passando por campos que diziam “COLHA SEUS PRÓPRIOS MORANGOS”. As colinas eram cobertas de árvores de grande porte, que deixavam tudo mais sinistro e escuro.

–- Pode parar aqui, senhor. – disse Thomas. Olhei para ele incrédulo. Aquilo só podia ser brincadeira. Estávamos no meio do NADA!

–- Tem certeza?

–- Sim, obrigado. Aqui está o dinheiro, pode ficar com o troco. Vamos meninos. – ele abriu a porta do táxi e Jean saiu. Só estava eu dentro do veículo.

–- Por que estamos no meio do nada? – perguntei apreensivo.

–- Desça Noah. Confie em nós. – disse Jean. Olhei para eles mais uma vez e, relutante, desci do carro. O motorista acelerou e saiu de vista.

–- Agora me digam, onde é que eu estou? E o que diabos é esse acampamento? E por que a Sra. Eeiley parecia um demônio? – cruzei os braços. Não sairia dali enquanto eles não me dissessem o que estava acontecendo.

–- Ainda não é seguro falarmos sobre isso. Venha. – Eles saíram andando calmamente e começaram a subir a colina. Porém eu ainda estava no meio da estrada, de braços cruzados.

De repente Jean virou a cabeça bruscamente para a esquerda, farejando alguma coisa.

–- Noah! Corre!

–- Não. Não vou sair daqui até que vocês me digam... Mas o que diabos é aquilo?! – olhei para a minha esquerda e vi que alguma coisa voadora estava se aproximando velozmente. Parecia... parecia com um... Aquilo era a Sra. Eeiley?!

–- Noah! Anda logo! – gritou o Sr. Brown, despertando-me.

Descruzei os braços e desatei a correr loucamente. Em pouco menos de 10 segundos eu havia alcançado os dois. Agora corríamos que nem esportistas, subindo a colina, para o nada.

–- O acampamento! Jean, vá na frente e leve-o para o acampamento! Eu vou distrair aquela coisa.

Jean, com suas pernas de bode, começou a correr colina acima. Eu estava aos seus pés, correndo também. Aquela criatura voava cortando as árvores e logo fora de encontro com Thomas. Não olhei para trás para ver o que estava acontecendo, mas podia jurar que havia escutado um barulho de espada contra garras.

–- Lá! Descendo aquela colina, perto daquela árvore! Tem uma casa bem grande lá no fim. Não pare até chegarmos lá.

–- Mas... e o Thomas?! – perguntei.

–- Ele... ele sabe se cuidar.

Nesse exato momento algo explodiu atrás de nós. E havia algo cortando o ar furiosamente.

–- O que é isso?!

–- Ah não... não... Noah, corre! Eu te encontro depois!

–- Nem pensar! Vamos cuidar dessa coisa juntos. Como é que se mata aquele demônio? – perguntei, já virando-me e parando de correr.

–- Não se mata.

–- O quê?

E então, a criatura saiu de trás das árvores, revelando-se. Tinha olhos brilhantes e mais do que escuros. No lugar dos dedos, haviam garras realmente muito grandes e afiadas. Tinha asas enormes e uma boca cheia de presas amarelas e afiadas.

–- Saia daqui seu monte de estrume! – gritei para ela, jogando uma pedra que poderia matar um humano. Porém, ela não era um humano.

Rugiu ferozmente para nós e avançou, com as asas abertas e a boca sedenta por sangue. Rolei para frente, pegando outra pedra e jogando nela. A criatura desviou seu curso e começou a correr atrás de mim. Ou melhor, voar.

Jean gritava alguma coisa para mim, mas eu não conseguia escutar nada. Meus músculos agiam por puro reflexo e vontade própria, como se eu já estivesse acostumado a fazer aquilo.

Desviei-me para a esquerda, mas não fui rápido o suficiente. As garras da criatura rasgaram minha camiseta, e meu ombro esquerdo ardia em chamas.

Olhei para o lado antes de cair no chão e vi Jean lutando contra a criatura. Minha visão estava tão embaçada que eu não conseguia enxergar o que ele estava segurando em suas mãos. Porém, a Sra. Eeiley perdeu o interesse nele e partiu para cima de mim.

A dor no ombro era tão grande que eu não conseguia levantar-me do chão ou mover-me sequer um centímetro. Vi tudo acontecer em câmera lenta. A Sra. Eeiley avançava contra mim e Jean jogava algum objeto afiado e prateado em minha direção. Aquilo era ou uma faca muito grande ou uma espada muito pequena.

A arma parou perto da minha mão direita e, em um movimento reflexo, eu peguei-a e levantei a mão, atingindo o demônio que havia me alcançado. Um rugido grutualmente alto saiu da boca dela antes que a mesma virasse um montinho de pó do meu lado. Isso era tudo o que eu lembrava antes de desmaiar.