Noah Parker E O Refúgio Dos Deuses

3 O chalé 11 - indeterminado


Notas iniciais
Aqui está outro capítulo =) Em breve vocês saberão de quem o Noah é filho.

Quando abri os olhos, me vi deitado em uma cama – ou algo do tipo – muito confortável. Ao meu lado havia uma pequena cômoda com um copo de vidro vazio. O ambiente era bem arejado e com chão de madeira.

Sentei-me na cama, tentando lembrar porque eu estava ali. Meu ombro estava enfaixado e haviam cortado a manga esquerda da minha camisa. Eu vestia as mesmas roupas de antes.

Olhei para a porta assim que senti uma presença e vi o Sr. Brown caminhando ao meu encontro. Foi então que me lembrei de tudo.

–- Onde estou? – perguntei assim que ele se sentara ao meu lado, em um pequeno banquinho. Tinha seu braço direito enfaixado e uns curativos no rosto que eu não havia percebido antes. – O que aconteceu?

–- Do que você se lembra, Noah? – perguntou ele, fitando-me.

–- Me lembro de que estávamos fugindo de uma criatura e que ela veio para cima de mim e então Jean... onde está ele?

–- Continue, por favor. – pediu ele.

–- Ele me entregou algo que parecia uma faca e eu... eu matei a Sra. Eeiley...

–- Sim. Bom, Jean te trouxe até aqui e depois foi me buscar. Estávamos esperando que você acordasse mas ele, infelizmente, teve que partir.

–- Como assim partiu? Ele... ele morreu? – perguntei assustado.

–- Não... encontramos sinais de outro semideus. Jean foi buscá-lo.

–- Semi o quê?

–- Você consegue se levantar? Venha... precisamos conversar. Vou lhe explicar tudo agora. Chegou a hora, Noah.

Levantei-me da cama calmamente e acompanhei-o até a saída. Do lado de fora, havia uma grande campina verde. O ar cheirava a morangos. Havia um pequeno riacho ao longe, o que tornava tudo mais bonito.

–- Onde estou?

–- No acampamento meio-sangue. É um lugar especial para semideuses. Noah, você sabe o que são semideuses? – perguntou-me enquanto caminhávamos pela varanda, dando uma volta na construção de madeira que parecia uma ala hospitalar.

–- Hm... São metade humanos e metade deuses não são? Pelo menos era o que dizia a mitologia grega...

–- Sim. Semi humanos e semideuses. Esse acampamento é um lugar especialmente para os semideuses. – disse ele, lançando-me um olhar um tanto quanto curioso. Sentamo-nos em um pequeno banquinho de madeira ao lado da casa, que tinha uma vista para as colinas.

–- Mas então... quer dizer, o que eu estou fazendo aqui? Está me dizendo que eu sou um... um semideus?

–- Vamos devagar. Bem... você se lembra dos deuses que aprendeu? Eles estão vivos Noah. Todos os deuses gregos estão vivos. – disse-me.

–- Está me dizendo que Zeus, Hera, Poseidon... todos aqueles lá existem de verdade? – ao longe um trovão ressoou.

–- Sim, eles existem. E às vezes eles descem até aqui e têm filhos com mortais. Quer dizer... humanos. Os filhos são chamados de semideuses. Os deuses do Olimpo criaram esse acampamento para seus filhos aprenderem a lutar e controlar seus poderes para não serem mortos por monstros.

–- E... eu sou um semideus? – perguntei, querendo mais do que tudo obter aquela resposta.

–- Sim. Você é um semideus, Noah.

–- Então você quer dizer que meu pai é um deus? Um dos deuses do Olimpo?

–- Ou sua mãe.

–- Ela... ela está morta. – respondi, sem dar mais detalhes.

–- Então... sim, seu pai é um deus.

–- Quem... quem é meu pai? – perguntei. Minha mãe nunca falava sobre meu pai. E eu aprendi a não perguntar sobre isso.

–- Não sabemos ainda. Você é um indeterminado. Por isso ficará no chalé 11 junto com outros campistas. O chalé 11 é de Hermes. Lá há semideuses filhos de Hermes e alguns outros indeterminados.

–- E o que significa ser... determinado? – perguntei.

–- É quando seu pai ou mãe olimpiano te reconhece. Então você vai para seu próprio chalé, de acordo com seu parente, junto com seus irmãos e irmãs. – Ótimo, pensei. Ficarei para sempre no chalé 11. Serei sempre um indeterminado. Meu pai nunca me deu nenhum sinal durante 12 anos... por que o faria agora?

–- E... desculpe-me as perguntas, mas o que eu faço aqui?

–- Aqui Noah, você treinará para combater os monstros e aprenderá muitas coisas. Seu treinamento começa amanhã. Venha – disse ele, levantando-se do banquinho – vou lhe mostrar o Chalé 11.

Acompanhei-o pela varanda até que viramos a casa. Eu não conseguia processar o que estava vendo. Na minha imaginação, um acampamento era muitas vezes pequeno e cheio de barracas. Porém o que eu vi não se parecia com nada do que eu já tivesse visto. Entre a casa e a água – que provavelmente seria o oceano na costa norte de Long Island – havia construções gregas realmente fantásticas. Tinha um pavilhão a céu aberto, uma arena em forma de círculo e algo que me lembrava um teatro... não... não era essa a palavra... algo que me lembrava um anfiteatro. E todas pareciam recentemente construídas, apenas um pouco desgastadas aqui e ali.

Havia também uma espécie de quadra de areia onde algumas crianças de camiseta laranja praticavam esportes. À minha esquerda tinham campistas em canoas no lago. Sem contar os outros que estavam com arco-e-flechas e outros montando em cavalos.

–- Quantos campistas vocês têm aqui? – perguntei intrigado com o número de pessoas laranja que eu estava vendo.

–- Bom... fizemos a conta no mês passado, mas entraram tantos novos que precisamos refazê-la... alguns só passam o verão aqui. Na verdade a maioria faz isso. Alguns outros passam aqui o ano inteiro.

Descemos os degraus da varanda e continuamos andando para um agrupamento de casinhas – ou chalés, como havia dito o Sr. Thomas.

Havia cerca de treze chalés lá, no bosque perto do lago. Estavam dispostos em uma forma de U e cada um tinha seu próprio “estilo”.

Cada um tinha um número acima da porta de entrada. O número 9 parecia uma fábrica, com chaminés. O número 7 parecia uma representação do próprio sol. O número 4 tinha tomateiros e grama por todos os lados. O número 5 era pintado em um vermelho-vivo e o telhado era forrado de arame farpado, com um cabeça de javali acima da porta. Ou eu estava muito enganado ou eu podia jurar que havia visto espadas e facões de caça decorando as paredes interiores. O chalé número 6 era feito de mármore branco e pálido, ornado com grossas colunas. As paredes interiores eram repletas de prateleiras com livros e uma pequena coruja, entalhada, decorava a porta.

Todos davam para uma área grande cheia de estátuas gregas, fontes e canteiros de flores. Bem no centro da área havia uma fogueira acesa com pedras circundando-a.

–- Então... depois que os filhos são reclamados cada um vai para um chalé? – perguntei.

–- Sim.

–- Mas... por que alguns estão vazios? – perguntei intrigado.

–- Bem... tem alguns deuses que... digamos assim, não podem ter filhos.

–- Por que não?

–- Antigamente, os três grandes deuses – Zeus, Poseidon e Hades – fizeram uma espécie de juramento. Eles não podiam ter mais filhos, pois seus descendentes eram muito poderosos e podiam causar confusão. Mas... não deu muito certo. Todos quebraram a promessa. Então ela foi desfeita, mas eles ainda continuam sem procriar. Ou pelo menos tentam.

–- Ah... Quem foi o último filho dos três grandes? – perguntei curioso.

–- Um garoto chamado Nico di Ângelo, filho de Hades. Ele não ficava muito aqui, mas acabamos construindo um chalé para ele também. Mas... se você estiver falando no geral, há uma menina aqui no acampamento que é filha de um dos três grandes. Vamos para o chalé 11. — disse ele, sem dar mais detalhes.

Caminhamos por entre os chalés até chegarmos no de número 11. Este era – entre todos – o único que parecia com um chalé normal. A pintura estava desgastada e havia um caduceu na porta, que estava aberta.

Dentro, havia o maior número de pessoas que eu já havia visto. Entre meninos e meninas, todos quase da mesma idade. Haviam beliches para todos os lados, mas creio que era muito pouco para abrigar a todos, então alguns dormiam em sacos de dormir, no chão.

–- Arranjaremos um lugar para você, Noah. Fique tranqüilo. – disse ele, entrando no chalé. – Pessoal, quero que conheçam seu novo companheiro, por enquanto. Este aqui é Noah Parker, indeterminado.

–- Seja bem-vindo, Noah. – cumprimentou-me um garoto alto e loiro, com um porte físico elevado. – Pode ficar naquele beliche lá no fundo, junto com o Sam.

–- Certo. – respondi. Não gostava muito de lugares super-populosos e barulhentos mas... fazer o quê. Andei até o fundo do chalé, desviando-me de pessoas e mais pessoas até alcançar o beliche.

Não olhei para cima, mesmo sabendo que havia um garoto ali. Coloquei minha mochila na cama e me sentei. Todos os campistas olharam para mim, mas depois logo desviaram o olhar. Isso sempre acontecia com os novatos. Não era nada do que eu já não estivesse acostumado – afinal, eu já havia passado por tantas escolas que até perdi as contas.

–- Muito bem. Agora que o Sr. Parker se instalou, quero lhes pedir para que voltem às suas atividades normais. Os indeterminados podem ficar aqui mesmo, para se conhecerem. Vejo vocês no jantar. – disse Thomas, despedindo-se.

A maioria dos campistas se levantou e saiu do chalé, para fazerem sabe-se lá o que. Só restara eu, os indeterminados e o garoto alto de cabelo claro.

O chalé agora parecia deserto. Deitei-me na cama, não querendo conversar com ninguém. Mas, hoje não era meu dia de sorte.

–- Indeterminados, venham aqui! Vamos às apresentações.

O garoto da parte de cima do meu beliche desceu as escadas e foi até o meio do chalé, junto com o outro garoto alto que havia nos chamado. Xingando por dentro, levantei-me e fui até lá.

Havia uma outra garota também – particularmente muito bonita – com cabelos claros e olhos cinzas tempestuosos. Tinha uma aparência atlética. Sentei-me ao seu lado e logo fizemos uma espécie de roda.

–- Bem indeterminados, meu nome é Will. Sou o líder desse chalé. Algum de vocês sabe qual deus é o representante daqui ? – perguntou ele.

Como ninguém respondia, abri a boca e disse:

–- Hermes?

–- Certo Noah. Agora que vocês já sabem disso, podem conversar entre si. Preciso fazer uma coisinha, volto logo. – Ele levantou-se e saiu do chalé, deixando-nos sozinhos.

–- Então... qual é o seu nome? – perguntei para a garota. Ela me olhou intrigada por um instante, como se me analisasse de cima a baixo e depois respondeu:

–- Meu nome é Anne. – sua voz era delicada, mas ao mesmo tempo determinada. Tinha 12 anos, pelo visto, como eu.

–- Eu sou Sam. – apresentou-se o outro garoto, que eu até então não havia reparado muito. Ele tinha uma pele um pouco bronzeada e cabelos curtos e marrons. Vestia uma camiseta azul clara e uma calça jeans. Nenhum de nós três vestíamos aquela camisa laranja, com o nome do acampamento.

–- Bem... eu sou Noah. Tenho 12 anos. Algum de vocês sabia que era um semideus?

Eles responderam que não e logo começamos a nos conhecer. Anne e Sam também tinham 12 anos e foram expulsos de várias escolas – assim como eu.

–- Vocês também têm dislexia e TDAH? – perguntou Sam.

Respondemos que sim e continuamos a conversar. Tínhamos várias coisas em comum, o que tornava a conversa muito interessante.

Sam viera do oeste, fugindo de monstros que o atacavam. Seu sátiro lhe dissera onde ficava o acampamento, antes de morrer, e por isso Sam conseguiu chegar aqui com vida.

Anne era de NY e também fugira de monstros a vida toda até encontrar um sátiro que a trouxe em segurança até aqui.

–- Há cerca de quantos dias vocês estão aqui? – perguntei.

–- Hm... acho que uns cinco dias – disse Anne.

–- Cheguei aqui na noite passada – respondeu Sam.

–- E não receberam nenhuma dica sobre seu pai ou mãe olimpiano?

–- Não. – responderam. Aquilo realmente me entristeceu. Quanto tempo ficaríamos ali até que fôssemos reclamados? Dias? Meses?

–- Só espero que não demorem. – comentei. Conversamos mais e mais, até que o sol fora se pondo.

–- E você Noah, da onde veio? – perguntou-me Anne.

–- Sou de NY. Fugi da minha professora que parecia um demônio e cheguei aqui. Já conhecia o Sr. Brown há alguns meses e ele me ajudou a chegar aqui, acompanhado de outro sátiro

Eu ia começar a lhes contar minha aventura quando uma menina chegou no chalé e andou até nós. Ela era, de certo modo, assustadora.

Tinha olhos azuis elétricos que pareciam que iriam te fritar a qualquer momento. O cabelo era castanho bem escuro – quase preto – liso e comprido, passando do ombro. Sua pele era bem clara, quase do mesmo tom da minha. Tinha uma expressão de “não muitos amigos”, com uma cara irritada. Irritada por estar ali talvez?

Usava calças jeans e uma camiseta laranja do acampamento, mas eu podia quase dizer que ela odiava aquela camisa. Usava botas de sobrevivência ou de combate. Ela fazia o estilo de garota confortável – não ligando se ficava bonita ou não.

Parecia o exato tipo de pessoa que adora liderar tudo – o que, na minha opinião, era extremamente irritante.

–- Quem é você? – perguntei, levantando-me.

–- Não interessa quem sou. O que interessa é que está na hora do jantar. E vocês estão atrasados. Vamos, sigam-me. Ah... a propósito, meu nome é Trisha. Trisha Miller. E acho bom nenhum de vocês entrarem em meu caminho.