No ordinary love
2 Capítulo 2
No meu primeiro dia de trabalho na filial do Rio de Janeiro estavam me tratando como se fosse uma celebridade, desde os estagiários até os advogados formados. Fui até minha sala e meu chefe me esperava com sua cabeça enorme aparecendo na tela da televisão. O cretino continuava em São Paulo, enquanto tive que me mudar.
— Rafaela, seja muito bem vinda a sua sala, espero que goste da vista. – Hitomi disse sorridente, como em um comercial de margarina. – Gostou do seu novo apartamento?
Uma das minhas condições para me mudar para o Rio era que o escritório de advocacia pagasse metade do valor, pois não tinha intenção nenhuma de vender meu apartamento em São Paulo. A contraproposta deles foi que pudessem escolher o apartamento.
— Sim, é muito bom. – falei sem maiores delongas. – Pode me dizer agora o motivo da minha mudança?
— Rafa, você é nossa principal advogada de inventários agora, uma das melhores que já conheci. – ele disse e já havia ouvido aquela história antes e não sentia que terminaria bem. Como ano passado, quando ele me elogiou o tanto que pode e me atolei em trabalho por dois meses. – Pois bem, temos um inventário bilionário, que pode mudar o rumo do escritório e inclusive aposentar você com 28 anos. O inventário do falecido Guilherme Dehling, você vai trabalhar exclusivamente nesse caso até o fim.
— Eu mudei toda minha vida para trabalhar em um único caso? – perguntei perplexa. – Incrível, vou voltar para São Paulo. – falei fechando meu notebook que acabara de abrir.
— Não, esse caso é muito peculiar, a família se entende e logo depois se desentende, você vai se aproximar deles para que esse processo seja o mais curto possível. Seu trabalho vai ser muito mais como intermediária do que como advogada. Você é muito boa na relação entre pessoas. Eu quero que você se aproxime da família, faça com que todos, principalmente, os filhos do Dehling entrem em consenso para que nós os representemos nesse processo. O primeiro que você irá convencer é Mário Dehling, o mais velho deles, e também seu vizinho. Mora na Torre B do seu prédio novo.
— Agora entendi fazer questão de escolher o apartamento. – sorri irônica. – Inacreditável.
— Amanhã você vai ter uma reunião com Mário. Dê o seu melhor, Rafaela, que vai ser muito bem recompensada. – Hitomi desligou logo em seguida, sem espaço para mais questionamentos. Ele era assim, autoritário da sua própria maneira, mas um excelente advogado e administrador.
— Pelo que entendi meu trabalho só começa amanhã. – falei no interfone com a secretária. – Vou sair, caso alguém pergunte.
— Sim, dra. – ela confirmou e eu peguei o elevador para o estacionamento. Iria andar de moto, já que estaria relativamente entediada nessa nova fase no trabalho.
[...]
— Dra. O senhor Mário está lhe aguardando. – Julia falou me interfonando.
— Mande entrar, por favor. – falei, visto que já estava esperando ele havia 20 minutos.
Julia quase imediatamente entrou na sala acompanhada do mesmo senhor que era pai da menina petulante, junto com sua esposa. Por conta da minha memória ruim e do pouco convívio, não associei o nome a figura. Coloquei meu melhor sorriso de boas-vindas e os cumprimentei.
— Rafaela, não é? – ele perguntou também sorrindo.
— Sim, Mário. – falei estendendo a mão. – E a senhora é?
— Helena. – respondeu simpática e tímida.
— Que coincidência o episódio da garagem e esse reencontro. – falei tentando amenizar, antes de enfiar a faca, como Hitomi diria.
— Sim. Lamentamos o comportamento de nossa filha... Marina é... difícil. – eu poderia dar muitos adjetivos para filha dele e nenhum seria “difícil”, mas ali não estava em posição de questionar a educação que eles lhe deram e os defeitos da prole deles.
— Entendo, jovens são assim mesmo. – falei de forma falsa, pois ainda era jovem e estava longe de ser mimada como aquela ali.
— Jovem? Quantos anos você tem? – Mário me perguntou e eu fiquei surpresa com a pergunta.
— 28.
— Ela também. – Helena disse amuada, como se realmente estivesse pesarosa por algo.
— Ainda assim jovem. – falei, incomodada com o assunto. – Vocês sabem o motivo de estarem aqui? Hitomi é uma ótima pessoa, mas as vezes só me joga as situações e pede pra eu resolver sem saber nem qual o contexto.
— Nós o adoramos. – Mário disse novamente risonho, como se estivesse feliz de mudar de assunto. – Ele nos indicou você como uma ótima advogada de família e confiamos muito nele. O que ocorre, Dra. Rafaela, é que meu pai faleceu há dois meses, mais ou menos, e ele tinha um largo patrimônio sobre o qual não há consenso, não restando nada além do processo de inventário, gostaríamos de evitar o inventariante dativo, gostaria que meus irmãos me aceitassem como inventariante.
— Seria possível uma reunião com todos? – perguntei.
— Não no momento, todos moram atualmente nos Estados Unidos, só eu moro aqui. – Mário disse retirando o óculos como se estivesse cansado. – Meu irmão está vindo semana que vem, passar férias os outros devem vir até início do mês que vem também.
— Quando todos estiverem aqui gostaria de marcar uma reunião com todos. – falei.
— Sinto que tem que ser um pouco mais que uma reunião, Dra. – Helena disse tímida novamente.
— Pode me chamar só de Rafaela. – falei.
— Helena tem razão, Rafaela. Com meus irmãos seu contato tem de ser um pouco além do profissional para conseguir a aprovação deles para eu ser o inventariante. – Mário disse e eu ergui uma sobrancelha em dúvida. – Já havia conversado com Hitomi, mas para lhe contextualizar melhor, meus irmãos confiariam muito mais em um advogado próximo a família, com quem houvesse uma relação íntima, de amizade e menos profissional. Depois de conquista-los poderíamos marcar uma reunião com todos, mas até lá acho que a reunião não será bem sucedida.
— E como se daria essa aproximação? – perguntei ainda em dúvida.
— Nós ajudaríamos. Convidaríamos para jantares e festas, em dois meses acho que poderíamos marcar uma reunião com todos dependendo de como estará a situação.
— Tudo bem. Podemos tentar da forma que vocês querem, mas se não der certo, independente de qualquer coisa, eu marcarei a reunião. – falei, pois minha atuação em outros casos nem se assemelhava aquilo que estavam me propondo.
— Obrigado, será nesses termos então. – Mário disse simpático. – Venha jantar conosco hoje, já que é tão perto. Seria um prazer lhe receber até como um pedido de desculpa pela vaga da garagem.
— Não precisa, pra mim essa situação sequer existiu. – falei com meu melhor sorriso falso.
— Nós fazemos questão, querida. – Helena disse um pouco mais confortável sorrindo de canto.
— Tudo bem, eu estarei lá então. – falei sem querer questioná-los novamente.
Após conversarmos sobre o contrato que fecharia inicialmente somente com Mário para tentar convencer seus irmãos, também conversamos sobre o contrato com todos e ele ficou um pouco balançado com os 30% que eu receberia ao final do inventário, mas depois deu o braço a torcer quando lhe comuniquei que era o normal cobrado por aí.
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