Como Hitomi disse, eu era ótima na relação com as pessoas, mas odiava isso, odiava ter de ser simpática, me demandava um grande esforço e uma energia demasiada. Pensando nisso e no quanto ficaria esgotada após esse inventário, me arrumava para o jantar ao qual fui convidada e resmungava o fato de estar indo mesmo já subindo o elevador para casa dos Dehling.

— Boa noite. – falei para a moça que me atendeu a porta. Atrás dela vi Helena e Mário me esperando, junto com eles a petulante.

— Ah não, vocês não falaram que ia ter convidados. — disse virando a costa e fazendo algo que não consegui identificar da posição em que estava.

— É um jantar de desculpa pelo seu comportamento. – Mário disse sempre risonho. — Seja pelo menos gentil com nossa convidada.

— Jurou. – a petulante disse pegando um bebê no colo, me surpreendendo por ela ser mãe. No cômodo havia um rapaz muito bonito, parecido com Helena e com a menina petulante e uma moça também muito bonita que parecia ser a esposa do rapaz.

— Rafaela, esse é meu filho Martin, sua esposa Bruna e esse pequeno rapaz é o Miguel. – falou apontando para o bebê de aparentemente três anos que estava no colo da mimada. – Minha filha Marina você já conhece. – Suspirou com a expressão pouco amistosa que ela estava.

Cumprimentei todos, inclusive o bebê, e não cumprimentei Marina. Todos me receberam muito bem, perguntavam sobre mim e sobre minha mudança recente, exceto a petulante que tentou ao máximo ser indiferente a minha presença.

Boa parte da noite passei brincando com o bebê, pois ele, em pouco tempo, me adorou, me puxando para todo lugar que ia, mas além de me puxar, puxava também a tia.

— Miguel, ela é chata para de querer amizade. – ela disse para criança.

— Para tia Ina. – o bebê falava fofo apontando o dedinho.

— Isso, Ina, tia Rafaela é legal né? – perguntei pra ele sendo irônica com ela usando o mesmo apelido que ele acabara de usar.

— Xim, tia. – falou apontando para nós sentarmos no chão junto com ele, espalhando milhares de brinquedos para nós brincarmos.

— Por que você ta aqui? – Marina perguntou enquanto encaixava legos sem ordem exata e aparentando não prestar atenção ao que fazia.

— Seus pais me chamaram, acredito que pelo desentendimento da garagem. – falei dando de ombros também encaixando legos.

— Estranho. Você ficou com a vaga, eles deveriam me pedir desculpa. – ela disse como a mimada que é, mas não questionou mais nada. – Miguel, a tia tem que sair ta? Vou pegar um ar fresco lá fora antes do jantar.

— Na valhanda, tia Ina. – o bebê falou puxando Marina e eu para a varanda do apartamento dos avós mesmo sem ter sido convidado para tomar ar fresco.

— Miguel, deixa a tia Marina e a tia Rafaela. – Bruna levantou pegando Miguel no colo antes de conseguirmos falar que ele não estava incomodando e, pelo contrário, tornaria o fato de eu e ela estarmos sozinhas na varanda apenas esquisito e constrangedor.

— Ele é um amor. – falei ante o silêncio constrangedor que ficou na varanda após ficarmos a sós.

— É. – falou sem prestar muita atenção. – Você mora naquele? – perguntou apontando meu apartamento e eu confirmei com a cabeça apenas. – É bem acima do meu.

— Sim, no dia que cheguei você fez uma festa de boas-vindas bem barulhenta e sem minha presença. – falei sarcástica e ela riu igualmente irônica.

— Você foi uma das dezenas de moradores que reclamou, aposto. Tem a cara que faria isso. – falou rindo e puxando um cigarro de maconha pra fumar. – A santinha quer?

— Seus pais estão logo ali. — falei apontando para sala, que apesar de enorme não ficava nem a 10 metros da varanda. – Tem uma criança logo ali também, seu sobrinho pelo que entendi.

— Ninguém vai ver, pega logo, ta bem ventilado. – falou me estendendo.

— Não, obrigada. – falei e saí da varanda voltando minha atenção para Helena que explicava sobre vinhos para Bruna.

O jantar foi bem rápido e ameno, Marina passou a maior parte do tempo calada, mas parecia claro para mim que estava chapada, não sei se porque eu a tinha visto, mas parecia. Despedi-me de todos e foi a deixa dela também sair, com a desculpa de que morávamos quase no mesmo lugar e poderia aproveitar a subida do elevador, que, de fato, demorava muito e eu ja notara. O caminho até a outra torre foi silencioso até chegarmos ao elevador.

— Maconha me dá vontade de transar. – ela disse e eu ri irônica. – Vi como me olhou no dia da garagem. É o olhar de quem quer tirar a roupa da outra pessoa. Eu também me imaginei tirando sua roupa quando te vi naquela moto. – falou com a pupila dilatada de desejo.

— Pensei que nunca mais queria ouvir minha moto. – falei sarcástica entrando no jogo dela sem conseguir me conter.

— Não quero mesmo, quero ouvir outra coisa. – ela disse sorrindo maliciosamente. Notei que o elevador não tinha sido clicado para parar no 22º, apenas no meu andar.

— Você esqueceu de apertar o botão do seu andar. – falei apertando para ela.

— Não esqueci não. – ela disse apertando novamente o 22 para cancelar minha ação.

Apertei o botão do andar dela novamente, o fato dela ter me imaginado sem roupa confesso que me fez tremer um pouco, mas trabalhar para família dela colocava meu pé no chão e me trazia para a realidade dos limites que teria em relação a qualquer membro da família Dehling.

— Sério que você ta me rejeitando? – perguntou de volta com o tom petulante, como se nunca a tivessem contrariado na vida. Quando o elevador parou no seu andar, ela não saiu dele, ficando parada enquanto eu revirava os olhos imaginando que isso iria acontecer mesmo. – Vou esperar um amigo ou uma amiga no seu apartamento.

— É bom que você aceita os convites que te faço para me visitar. É sempre muito bem vinda no meu apartamento. – falei irônica.

Chegamos ao meu apartamento, eu já tinha passado dois dias arrumando-o, já estava com a minha cara, exceto pelas caixas amassadas nos cantos. Ela sentou no meu sofá e começou a mexer no celular.

— Victor, eu to cheia de vontade, vem me fazer companhia? – perguntou em ligação e eu descrente com a situação em que estava, principalmente por ela falar tão naturalmente na minha frente sobre questões íntimas. – Então vai dar o cu. — ouvi ela falando, muito provavelmente por não ter sido correspondida novamente.

— Outra rejeição? – perguntei risonha. – Achei que era incomum isso para princesa, mas já foram duas vezes no mesmo dia.

— Escuta aqui, por que você não quer? Só me diz um motivo, porque eu tenho certeza sobre como me olhou no domingo. – falou se levantando e vindo em minha direção que estava na banqueta virada para ela. Imediatamente fiquei nervosa pela abruptidade dos seus movimentos que pareceram mudar de rota enquanto ela caminhava, se desviando da direção onde eu estava.

— É inconcebível para princesa eu não querer? – perguntei irônica, enquanto ela me ignorava e fazia outra ligação sentando ao meu lado na outra banqueta.

— Sara, me faz companhia hoje?... Por favor. Eu já tô até molhada. – ela falou na ligação, mas me olhando. Engoli em seco e me levantei, afinal não era nada obrigada a lidar com essa garota mimada fazendo e agindo como bem entendia no meu apartmento. – Te espero, to no 2301, sobe até o 23º pra me pegar. – falou, por fim, desligando. – Vai me responder? – perguntou rindo notando minha reação sem jeito.

— Eu tenho trabalho amanhã, só vou esperar sua amiga chegar e capotar. – falei tentando responder da forma menos comprometedora possível e sem querer lhe tratar mal de alguma forma.

— Quem perde é você. – ela disse dando de ombros. – Tem vinho? Cerveja?

Fui até minha cozinha e peguei um vinho gelado, que iria tomar assim que voltasse do jantar assistindo série, pois ao contrário do que afirmei em minha desculpa, não costumava dormir cedo.

— Tinha colocado esse pra gelar. É Argentino, muito bom. – falei abrindo e mostrando a rolha

— Eu não entendo tanto de vinhos como mamãe. Estando gelado pra mim tá ótimo. – falou menos ríspida e autoritária do que eu esperava. Estendi uma taça para ela e fiquei com uma para mim. – Sua família? – perguntou olhando uma foto perto da ponta do sofá onde ela estava.

— Sim, minha mãe e irmãos. As duas ficaram em São Paulo e meu irmão mora em Fortaleza. — falei olhando para eles. Sentia imensa saudade mesmo se passando apenas dias da mudança. Mamãe havia pedido para eu não vir, muito provavelmente em razão do meu recente estado de saúde mental que estava recuperando pouco a pouco. Contudo, em comparação como estava, estou me saindo bem e poderia até dizer que quase normal.

— Você veio para cá a trabalho? – perguntou ainda interessada em mim, o que começava a me incomodar.

— Sim. Para advogar. – falei simplesmente. – E você? Faz o que?

— Gasto. Gasto muito. – disse rindo e eu não pude evitar a gargalhada que soltei pela sua afirmação. – E só.

— Cada um com a vida que merece né? – falei acompanhando ela no riso. Quando parou me vi admirando de novo a beleza dela, que quando desfazia a postura arrogante e o nariz em pé até aparentava ser uma pessoa boa de se conviver e conversar, fazendo com que eu quisesse saber mais sobre ela.

— Você está com o mesmo olhar de domingo. – ela disse com um sorriso prepotente voltando a parecer a menina petulante que conheci mais cedo. – Posso cancelar com Sara. – falou piscando no mesmo momento que meu interfone tocou e eu levantei revirando os olhos imaginando quem seria.

— Oi Josué, boa noite. – falei apenas estendendo a mão para o telefone que ficava bem ao lado de onde eu estava.

— Boa noite, Dra. A senhora Sara pode subir? — perguntou.

— Sim. – falei simplesmente revirando os olhos mais uma vez após a confirmação de quem era. – Na verdade não pode cancelar não, ela já está aqui. — falei para ela quando desliguei o telefone.

— Eu cancelo aqui. – Marina disse rindo tomando um grande gole de sua taça de vinho. Fiz um gesto negativo com a cabeça mais em descrença do que negando sua investida, quando tocaram a campainha e eu fui atender.

— Ora, ora se não é a deusa. – a mesma garota que me assediou domingo falou já entrando no meu apartamento e me dando dois beijos na bochecha. Em seguida, ela sussurrou algo no ouvido de Marina e as duas caíram na gargalhada. Marina também respondeu em sussurros e novamente gargalhadas vindo delas duas.

— Eu fico muito feliz em fazer parte da diversão no meu apartamento. – falei irônica bebericando meu vinho que nem estava mais tão gelado e sequer assisti um episódio da série que estava acompanhando.

— A gente já está indo. – Marina disse se levantando.

— Espera... posso lavar minha mão? – Sara perguntou, o que estranhei, visto que elas logo estariam no apartamento de Marina, mas não questionei.

— Claro, tem a cozinha e o banheiro. – falei apontando para os dois.

— Me leva. – ela disse e eu já senti algo errado. A levei para o banheiro. – Me chamo Sara e estou sóbria. – disse enquanto andávamos rindo. Eu ri junto lembrando do nosso encontro no elevador e do que havia dito a ela, apontei a porta do banheiro já me virando para voltar a sala. – Espera, tá com medo de mim?

— Na verdade, você já tem um compromisso pra agora., então, quem sabe quando estiver sóbria e sem compromisso. — falei piscando e me virando.

— A gente terminaria em dez minutos. – ela disse me puxando para o banheiro. – Dez minutos de muita qualidade. – sussurrou no meu ouvido, fazendo meus pelo do braço esquerdo se arrepiarem.

— A Marina tá esperando. – falei quase que inutilmente tentando evitar minha mão na cintura dela. Ela beijou o canto da minha boca e eu, me contendo ao máximo, empurrei ela pelo ombro, a afastando de mim, o que foi o mais acertado a ser feito quando ouvi Marina gritando da sala se Sara iria demorar. – Vamos. – falei rapidamente abrindo a porta do banheiro sem dar tempo da loira questionar.

— Que demora. – Marina disse contrariada e logo em seguida olhou para nós desconfiada, mas nada mais falou. – Vamos, Sara? – perguntou.

— Vamos. – a menina estava com riso solto. – Foi um prazer te conhecer. – falou me abraçando. – A gente termina outro dia. – sussurrou no meu ouvido.

— O que foi isso? – Marina perguntou e Sara só deu de ombros.

— Boa noite. – falei tentando desconversar levando as duas para fora.

Marina me olhou novamente sem nenhum resquício da malícia que tinha mais cedo, estava inexpressiva e parecia se esforçar para parecer assim ou era coisa da minha cabeça.