Mudanças nunca são fáceis, mas mudanças para cidades tão culturalmente tão diferentes era mais tende a ser mais difícil ainda. Era assim que eu sentia a diferença entre São Paulo e Rio de janeiro. Eu, nasci e cresci na grande metrópole, agora em um local que as pessoas aparentemente não têm pressa para nada. Prova da minha teoria é o pessoal da mudança do meu prédio novo que não cansou de admirar a vista que admito ser maravilhosa, mas que eles já deveriam estar acostumados.

— Ainda demoram? – perguntei tentando esconder no meu tom a impaciência.

O chefe da equipe desviou o olhar da paisagem e me olhou constrangido, não falando nada, apenas balançando a cabeça em negativa.

Tentei não demonstrar minha impaciência pelas próximas três horas que aqueles homens estavam no meu apartamento, carregando caixas e mais caixas vindas de São Paulo. Assim que eles terminaram o serviço, me joguei sobre a cama sem roupa de cama mesmo e adormeci, acordando apenas a noite, o que desregularia completamente meu sono na hora certa.

Era sábado a noite, em um dia como esse, em São Paulo, muito dificilmente eu estaria no meu apartamento, entediada e sem ânimo, mas quem eu conhecia no Rio que pudesse ser minha fiel companhia de sábado a noite? Havia, claro, alguns conhecidos, mas ninguém que eu tivesse tanta proximidade, por isso me detive em tirar das caixas alguns objetos para organizar e, assim, não vi o tempo passar até ouvir um barulho intenso e incessante de uma caixa de som. Francamente, eu não era chata, mas não estava minimamente no melhor dia para ser incomodada no primeiro dia que iria passar no meu novo apartamento.

A música parecia estar dentro do meu apartamento, mas era indecifrável, só conseguia sentir as ondas e o barulho altíssimo. Fui até a varanda e tinham muitos vizinhos igualmente incomodados, inclusive, do prédio da torre ao lado, que ficava há uns 100 metros de distância. Havia um senhor no apartamento da cobertura gritando palavras ininteligíveis, parecendo conhecer a pessoa do apartamento debaixo, que era o do poluidor sonoro. Tentei olhar para baixo, mas pouco consegui ver, apenas luzes como um globo de festa e muito barulho, tanto do som estridente como de pessoas rindo e se divertindo.

Liguei para portaria, reclamei do som, o que outros vizinhos já deviam ter feito e a música foi reduzida. Com as portas devidamente fechadas o barulho ainda podia ser ouvido, mas não chegava a incomodar como antes, ainda assim, foi difícil adormecer com a falta de sono por ter dormido por horas a tarde.

[...]

Acordei cedo no Domingo de manhã, disposta a caminhar um pouco pelo calçadão da Barra da Tijuca, quando chamei o elevador, notei que ele parou no andar exatamente abaixo do meu para depois seguir seu caminho até mim, por isso não foi surpresa alguma quando entrei e três jovens já estavam dentro da caixa de metal.

— Bom dia. – cumprimentei mesmo notando que os três estavam bêbados, possivelmente amanhecidos.

— Bom dia. – a única mulher do grupo respondeu e piscou como se flertando de um jeito esquisito. Sorri e apenas ignorei. – Nunca vi essa deusa por aqui. – Infelizmente ela continuou.

— Você mora no apartamento debaixo? – perguntei torcendo pela resposta negativa.

— Não, sou amiga dela, mas moro aqui perto, andando a gente consegue chegar no meu quarto. – ela disse ainda como se tivesse flertando.

— Quem sabe quando você tiver sóbria. – falei rindo para não parecer grossa.

Saí rapidamente do elevador antes que fosse assediada ainda mais pela mulher bêbada, falei com o porteiro, me apresentei e afirmei que hoje meu carro chegaria de São Paulo, pedindo para ele me confirmar a vaga. De forma muito educada e solícita ele não só me mostrou no mapa da garagem qual seria minha vaga, como também fez questão de ir até ela comigo. Agradeci a atenção e fui até o calçadão fazer minha caminhada. Eu sentia que estava de férias, ocasião em que sempre ia ao Rio, o que fazia parecer que eu nunca me acostumaria em trabalhar nesta cidade.

Assim que retornei ao apartamento, recebi a ligação que meu carro havia chegado, chamei um uber e fui rapidamente a sede da transportadora, agradecendo por eles não terem atrasado, pois amanhã eu já precisaria do meu carro, mas muito além disso, era da minha moto que eu estava com saudade.

Assim que vi meu carro e minha moto, senti uma pontada de animo que não senti desde que cheguei ao Rio. Minha Harley Davidson Sport S e meu Honda Civic estavam lá, pedi para um dos rapazes que trabalhavam na transportadora levarem o carro, enquanto eu levava a moto. Estava morrendo de saudade de sentir o vento em cima da minha Harley. Pela saudade, demorei mais do que deveria chegar ao meu prédio, pois fiquei dando voltas pela orla de moto. Contudo, quando cheguei, preferia não ter chegado.

— Eu quero meu carro aqui, Josué! – uma menina gritava sem deixar o porteiro falar. Ela era linda, uma das mulheres mais lindas que já vi na vida. Ela estava apontando para meu carro, dando a entender que eu tinha roubado a vaga dela. – De quem é esse carro? – perguntou para um porteiro atônito e, até mesmo, parecia absurdamente envergonhado. — Não importa, chama pra tirar daqui. – ela continuava gritando sem parar pra respirar. Forçou a porta do meu carro, do lado do passageiro, quando percebeu que estava aberta viu a chave. – A chave ta dentro, eu mesma tiro esse treco da minha vaga. – Assim que ela se movimentou para sair do carro e ir para o lado do motorista, fiz a Harley acelerar e o estrondo assustou tanto o porteiro como a menina mimada. Tirei meu capacete e coloquei a moto atrás do meu carro, na mesma vaga.

— O que está acontecendo aqui? – perguntei saindo da moto.

— Essas são suas coisas? – perguntou a menina petulante.

— Sim.

— Essa é minha vaga. – ela disse cruzando os braços e me olhando como esperando uma resposta. Eu virei para o porteiro Josué, o mesmo que tinha me mostrado a vaga mais cedo.

— Dona Rafaela, eu já expliquei para dona Marina que a vaga não é dela, já foi há muito tempo atrás, mas o avô dela vendeu para os donos anteriores do apartamento que a senhora acaba de comprar.

— Chama meu pai Josué, por favor. – a menina pede sem parecer ligar para as explicações do porteiro.

— Eu aguardo o pai vir. – falei irônica. Era domingo e realmente eu tinha esse tempo a perder. O tipo dos moradores desse prédio devem ser esse mesmo e eu já odeio pelo menos duas pessoas: essa garota mimada que chama os pais para resolverem seus problemas e a menina da festa barulhenta do apartamento abaixo.

— Mora em qual andar? – a menina petulante com o mesmo tom petulante me perguntou.

— Meu nome é Rafaela, prazer. – falei irônica. – Moro no 23º e você?

— 22º. Minha família tem vagas na outra torre, você pode usar lá.

— Não, eu moro nessa torre. – falei. – Não tem sentido mudar minha vaga para outro lugar.

— Filha, o que está acontecendo? – o mesmo senhor que acenava da torre na noite anterior chegou perguntando ao lado de uma senhora muito parecida com Marina, a petulante.

— Minha vaga está ocupada por um carro que não é meu. – a menina disse como se fosse óbvio para o pai, enquanto eu só conseguia pensar que se falasse naquele tom com meu pai, acordaria provavelmente sem os dentes.

— Sim, usei a chave reserva pra tirar, assim que soube que o 2301 tinha uma nova dona. Essa vaga foi vendida há muitos anos pelo papai para o dono do 2301, que nunca teve carro, mas a vaga é oficialmente da dona dele agora, Marina. – ele disse num tom paciente, como se falasse como uma criança e eu fiquei surpresa de que os dois haviam vindo para ficar do meu lado.

— Dê uma vaga no estacionamento ao lado. – ela disse como se desse ordens ao pai sem parecer nem prestar atenção a explicação que ele havia dado.

— Não é assim que as coisas funcionam, Marina. – ele disse ainda no mesmo tom como se falasse como uma criança.

— Quer saber, por mim não tem problema algum. No meu apartamento em São Paulo andava em um estacionamento o triplo desse para chegar ao meu carro, acho que daria a mesma distância para a garagem do outro prédio. – falei desistindo pela falta de paciência de continuar ali discutindo por algo tão bobo quanto uma garagem.

— Não, fique com a garagem. Ela é sua. Marina, você todo dia vai ao nosso prédio pra tomar café, almoçar, levar roupas para lavar. Qual a diferença de ir pegar seu carro? – ele perguntou e imediatamente eu soltei uma risada ao constatar que o próprio pai a estava chamando de mimada, o que fez a petulante me fuzilar com o olhar.

— Mário, a moça aceitou, por que não aceitamos? – a mulher muito parecida com Marina questionou.

— Ela precisa aprender Helena. – eles conversavam como se ela não estivesse aqui e mais falavam com os olhos do que com a boca. – Marina, está resolvido. Seu carro permanece na garagem da outra torre.

— Mas pai....

— Eu vou indo, então. Estou me mudando agora e tenho muitas coisas para arrumar. – falei já sem paciência para aquela novela. Peguei o elevador e, dessa vez, estava só, mas por pouco tempo, pois a menina petulante correu até mim e pediu para eu segurar a porta. Ela deu as costas para os pais sem sequer falar nada.

— Nunca mais ria de mim, ouviu? – ela disse e eu dei de ombros apenas. – Falo sério.

— Acho pouco provável termos contato novamente. – eu disse notando que ela falava sério mesmo.

— Ótimo. – ela disse e eu podia ver seu nariz se empinando enquanto ela me ignorava completamente. Realmente era uma das pessoas mais bonitas que já vi, aparentava ter minha idade, branca, cabelos castanhos caramelo longo, nariz fino e um olho verde penetrante. Para ajudar, ela tinha seu abdômen de fora, em um cropped preto que contrastava com sua pele. Como se sentindo que eu estava analisando, ela vira de costas e impaciente fica batendo o pé como a menina mimada que é. – Eu também não quero mais ouvir sua moto, me deu dor de cabeça.

— Também pouco provável, você não tem mais porque pisar na garagem novamente. – Provoquei irônica e rindo.

O elevador chegou ao seu andar e ela pisou duro para fora, enquanto eu ria de como aquela menina era mimada.