No ordinary love
4 Capítulo 4
Acordei atrasada para uma reunião com Hitomi sem conseguir tirar da cabeça a expressão fria de Marina no dia anterior. Acho que por conta de tudo que passei nos últimos tempos fico um pouco mais afetada quando as pessoas não demonstram emoções ou são inexpressivas como ela fora anteriormente. Tentei esquecer esse fato, a explicação devia ta na relação dela com a amiga Sara, pois foi após ela cochichar para mim que isso aconteceu.
Fui de moto para tentar chegar mais rápido, mas meu chefe já me esperava, dessa vez, pessoalmente, em minha sala. Como era de costume não estava de terno e gravata, mas o contrário disso, usava uma bermuda e uma camiseta simples, o que fazia eu me sentir muito a vontade em trabalhar no ambiente que ele construía em seus escritórios.
— Oi Rafa. – Hitomi disse sentado na poltrona a frente da minha cadeira. – Tenho novidades. – disse abrindo seu notebook em um perfil de facebook. – Esse Maurício semana que vem estará no Brasil.
— Mário me disse. – falei entediada. – Hitomi, apesar de ser bilionário esse inventário, ainda acho um despropósito minha mudança.
Ele riu sem dizer nada por algum tempo, enquanto vasculhava a rede social de Maurício Dehling. Eu sei que não importa o que eu fale, ele sempre encontrará um motivo para estar certo e, de fato, poucas vezes ele errou nas escolhas que fez na vida.
— Você foi ontem a um jantar na casa deles? – perguntou casualmente e o olhei confusa sobre como ele poderia saber dessa informação. – Vi nas redes sociais do filho dele, o Martin, você está indo bem.
— Essa família não precisa ser conquistada, eles já gostam de você. – falei revirando os olhos. – Fui como um pedido de desculpa por uma vaga que era ocupada pela filha deles.
— Sempre é bom fortalecer laços. – ele disse risonho. – Marina é difícil, mas que mulher hein? – falou malicioso se virando por completo para mim como que pra avaliar minha reação.
— Você já ficou com ela? – perguntei, me arrependendo logo em seguida. Hitomi era muito atento e me olhou como que desconfiando de algo, ele sempre percebe.
— Não, mas você já ou quer. – falou gargalhando. – Essa é minha garota. Aproveita! Ela gosta mais do que você tem do que daquilo que eu tenho.
— Não fiquei e nem vou. – falei revirando os olhos. – Além de ser muito antiético, vou só me ater em fazer meu serviço para voltar pra São Paulo o mais rápido possível. — falei indo sentar na minha cadeira.
— Bom, de qualquer forma se ficasse não seria antiético já que conquistar a família é seu trabalho agora e Mário, nosso cliente, está de acordo com isso.
— Por isso mesmo não ficaria e mais antiético seria sim. – falei impaciente já querendo ficar só. Eu amo Hitomi, mas o jeito dele sempre ter razão sobre coisas que não concordo muitas vezes me irrita. – Além do que eu já saiba, tem algo mais para falar?
— Algumas coisas, Maurício gosta de esportes, vôlei, tênis, etc. Você também.... – falou deixando claro o que queria.
— Certo, Hitomi. Já entendi. – revirei os olhos.
— Já que gostou de Marina, vamos marcar de sair sábado com ela. Fico no Rio até domingo. – falou já se levantando e arrumando suas coisas em sua pasta para sair. — Como você está? — perguntou. — Da cabeça eu quero dizer.
— Você é amigo daquela petulante? – perguntei irônica ignorando sua pergunta de propósito, caso ele realmente se importasse com minha saúde mental não faria eu ficar longe da minha mãe, não agora pelo menos. – Não estou surpresa. E nem vou sair com vocês, obrigada.
— Vamos sim, eu ainda sou seu chefe. – falou saindo sem me deixar escolha.
Fiquei olhando o facebook de Maurício durante o resto da manhã, não senti o tempo passar nessa tarefa. Não parecia tão chato como Mário fez parecer em nossa primeira conversa, ele parecia ser um velho rico qualquer com hábitos de qualquer outro velho rico. Avisei Julia que não voltaria mais e fui para meu apartamento, pois nunca estive tão entediada em um trabalho como agora e, pelo visto, enquanto não acabasse este trabalho essa seria minha vida.
Estava entediada procurando grupos de corrida de moto, mas achava pouco provável ter coragem de correr ilegalmente aqui no Rio, onde conhecia poucas pessoas, mas não custa sonhar.
Estava absorta em minhas pesquisas, quando minha campainha tocou, o que estranhei já que ninguém foi anunciado. Fui até a porta e a morena do andar debaixo me esperava de baby doll como se estivesse acabando de acordar.
— Bom dia. – ela disse meio sonolenta. – Já tomou café?
— Sim. – falei em dúvida. – Já voltei do trabalho, inclusive. — falei rindo da cara decepcionada que ela fez, que incluía um biquinho que era até fofo.
— Você trabalha... é verdade – falou como se lembrasse pra ela mesma. – Enfim, você vai almoçar comigo então. — ela disse entrando no meu apartamento, novamente sem ser convidada igual na noite anterior.
— Isso é bem feio sabia? — falei demonstrando ter ficado chateada, enquanto ela me olhava confusa sobre o que eu estava falando — Não perguntar, impor coisas que as pessoas devem ou não fazer. – falei permitindo que ela entrasse. – Mas almoço com você sim, só temos que pedir algo, ainda não fiz compras desde que me mudei.
— Tudo bem. – ela disse olhando entediada de mim para o seu celular e depois olhando para a tela do meu computador que permanecia aberta com as minhas anotações da pesquisa. Fui rapidamente para perto dele e o fechei. – Bem misteriosa. — disse irônica.
— O que você quer comer? – perguntei indicando meu celular que já estava fazendo o pedido.
— Pede pizza. — ordenou novamente como se não importasse minha opinião. Que menina mais egocêntrica, por Deus.
— De almoço? – perguntei com uma careta, o que ela só respondeu acenando com a cabeça. – Que estranho — disse dando de ombros sem querer caçar confusão por isso.
— Sabe o que é estranho? Uma pessoa transar contigo pensando em outra e logo depois de ter ficado com outra também. — ela disse.
— Oi? – perguntei me fazendo de desentendida. – Quer assistir algo?
— Não quero. To falando sobre você e a Sara ontem, que ficaram antes de ela transar comigo, motivo pelo qual vim aqui tirar satisfações, pois ela estava muito aérea, mas se negou a confessar o que aconteceu. Vamos ver se você tem a mesma cara de pau. — disse arqueando uma sobrancelha em minha direção.
— Não aconteceu. – não estava mentindo totalmente, pois não ficamos, mas podia sim ser o motivo dela estar aérea.
— Jura? – ela perguntou incrédula como se não acreditasse. Continuou mexendo no celular enquanto eu pedia a pizza. O silêncio estava um pouco constrangedor, o que foi quebrado pelo som de alguém batendo em minha porta.
— Mário? – perguntei surpresa por vê-lo.
— Bom dia, Rafaela, subi para falar com Marina, mas ela não está em casa. Essa menina não faz nada da vida e mesmo assim vive fora de casa. Para não ser uma viagem em vão, resolvi passar pra dar um oi. – falou simpático.
— Você está com sorte então na procura pela sua cria, porque vamos almoçar juntas hoje. – falei brincando.
— Sério? – perguntou já olhando para dentro do meu apartamento, onde Marina estava. – Oi filha. O que faz aqui?
— Resolvi diversificar o lugar de almoço, vou uns dias lá com vocês outros dias venho aqui na vizinha. – falou irônica. — Todo dia a que não faz nada da vida vai ser bancada por alguém.
— Não dê trabalho para Rafaela. – ele falou rindo. – Vim avisar que seus primos já estão chegando agora a tarde e seu tio Maurício semana que vem. Vá em casa recepcionar eles hoje a noite, vá também Rafaela, Helena separou bons vinhos para o jantar.
— Que chatice essa família chegando. – Marina revirou os olhos e ligou minha televisão.
— Bom, estejam lá. Tenho que ir trabalhar. Amo você. – falou dando um beijo na cabeça de Marina que estava sentada e resmungou que amava ele também. – Até mais, Rafaela.
— Saco. – Marina resmungou bufante.
— Você reclama demais. O que tem seus primos? – perguntei interessada em quem encontraria hoje a noite.
— São estilo do Martin, sabe? Fazem faculdade ou já terminaram e seguem o planejado da família perfeita. – falou revirando os olhos.
— Qual problema em ter planejamento e fazer faculdade? – perguntei irônica.
Ela me olhou de uma forma esquisita, mas logo em seguida revirou os olhos, como se dizendo que eu não entenderia o que ela quis dizer.
— Você não fez faculdade?
— Não terminei, comecei arquitetura, mas acho que até perdi o tempo de poder terminar. – falou dando de ombros.
— Aconteceu algo pra parar? – perguntei interessada.
— Sim, eu percebi que nasci pra ser herdeira. – falou rindo e eu gargalhei junto. – No fundo eu sou a única que não finjo pelo menos. Olha o Martin, é médico e tanto ele como a esposa tem cargos na diretoria do grupo.
— Mas ainda assim, se não for pra ter uma carreira, por que você não vai trabalhar no grupo então junto com eles?
— Não precisam de mim lá. Eu provavelmente atrapalharia. – falou simplesmente assim que o interfone tocou, anunciando que a pizza chegara.
— Ainda sem acreditar que vou comer pizza de almoço. – falei indo em direção a porta para aguardar o entregador. – Se você quiser, posso ver o regulamento da sua faculdade pra ver se você consegue voltar para terminar.
— Não. – falou categórica. – Nasci pra ser herdeira.
Dei de ombros, peguei a pizza, agradeci o entregador e coloquei na mesa de centro da sala.
— Pode comer, ó herdeira. – falei colocando a mesa pratos e talheres.
— Sabe o que é engraçado, o jeito que meus pais admiram o Martin por ter feito uma faculdade, mas no fundo ele não atua nem na área que se formou. – falou pensativa.
— As vezes só o fato de ter um diploma, ter tentado algo, já levam em consideração. – falei dando de ombros, visto que eu não conhecia a família deles o suficiente.... ainda. – Enfim, vamos comer.
— O que te fez mudar pro Rio? – ela perguntou enquanto comíamos.
— Uma causa grande. – falei o mais evasiva que consegui, não gostava que ninguém soubesse no que estava trabalhando no momento, ainda mais ela pertencendo a família do inventário. – Sou advogada.
— Doutora. – ela disse não parecendo zombar, só fazendo uma observação mental como tava fazendo de vez em quando nessa manhã confusa. – Fica pouco? Meu pai disse que seu apartamento foi comprado.
— Eu esperava que sim, mas Hitomi me fez trazer minhas coisas e mudar toda minha vida, então não sei. Mas assim que acabar espero voltar pra São Paulo e alugar aqui, mantive meu apartamento de São Paulo.
— Hitomi? Ele é o advogado do meu pai. – ela falou só constatando sem parecer achar nada estranho. – Não gostou do Rio?
— Considerando que uma das minhas primeiras experiencias foi uma festa barulhenta no andar de baixo e depois uma briga por garagem... – falei rindo e brincando.
— Considerando o jeito que me olhou no mesmo dia dos acontecidos, pensei que poderia ter relevado o nosso começo com pé esquerdo. – ela falou entrando na brincadeira.
— Dias inesquecíveis demais para se relevar. – falei.
— Vou te levar pra conhecer lugares incríveis no Rio, os tradicionais e uns que você só vai conhecer comigo. – falou convencida comendo a pizza, parecendo uma criança.
— Realmente, já vim aqui tantas vezes e não conheço os pontos turísticos clássicos. — falei sincera. — Mas não vejo motivo para você fazer isso.
— Talvez conhecendo, você não queira mais voltar pra selva de pedra ué. — ela respondeu simplesmente.
Sorri mesmo achando aquilo pouco provável, mas não querendo contrariá-la.
— Eu espero que sim, quero esquecer um pouco minha antiga vida. – falei lembrando de tudo que deixei pra trás em São Paulo.
— Eita. – Marina disse parecendo interessada. – O que rolou?
— Nada demais. – falei me levantando para lavar minha mão sem querer lembrar de toda situação que me envolvi nos últimos meses antes de vir para cá. — Mas o que eu quis dizer é que não entendo o motivo de ser justo você a me mostrar os pontos turísticos, por que faria isso?
— E o que é nada demais? – perguntou me seguindo igual uma pulga insistindo no assunto que não queria falar. — Vai só então, ingrata do caralho. — falou agressiva como sempre quando contrariada.
— Quem sabe um dia eu te fale, ô petulante. – falei rindo da sua curiosidade e de tê-la irritado. — Vou com você se ainda quiser me levar sim, só questionei pra entender não que não queira.
— Aguardo a revelação desse assunto misterioso. – ela disse pegando a caixa de pizza e trazendo para cozinha.
— Eu jurava que suas mãos de princesa eram incapazes de tirar a mesa e ajudar. – falei irônica e ela revirou os olhos jogando a caixa no mármore de qualquer jeito.
— Apesar do nosso começo eu sou muito bem educada, só estava de ressaca. – falou igualmente irônica. – Antes de irmos pra esse purgatório de hoje a noite quero te levar na Vista Chinesa, se arruma que com duas horas eu volto.
— Nunca ouvi falar. – falei dando de ombros. – É o que?
— Fica no Parque Nacional da Tijuca, eu adoro ir lá. Vai pouco turista e a vista é tão linda quanto qualquer outro morro dessa cidade.
— Um morro então. Eu tava louca pra subir um morro de moto. – falei sem esconder meu entusiasmo.
— Ta surda? Chamei pra ir comigo, eu não subo naquilo que você chama de moto nem fodendo. – falou indo até a porta.
— Por favor. – falei com minha cara do gato do Shrek que funciona com 90% das pessoas, incluindo garçons, garçonetes e clientes. — Você gostou dela, disse ontem, elogiou a robustez e o roncar do motor. — falei rindo
— Que feitiçaria é essa? – perguntou já se rendendo e eu comemorando pelo fato dela não ser um dos 10% que resiste. – Vamos, mas quando eu pedir pra diminuir me ouve.
— Você que manda. – fiz uma continência já abrindo a porta para ela sair.
— Eu não gostei da sua moto, gostei de quem tava em cima dela. — falou piscando virando a costa para mim.,
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