No ordinary love
5 Capítulo 5
Quando conheci a vizinha do apartamento logo acima do meu a achei uma bruta que fez questão de uma simples garagem como se sua vida dependesse daquilo. Quando percebi que ela era exatamente o tipo de pessoa que eu achava que era, minha estima até piorou com relação a ela. Ela tinha faculdade, trabalhava, uma padrãozinho que segue sempre o que é esperado pelos outros e, assim, sendo apenas uma a mais do mesmo que já conhecia.
Contudo, por algum motivo que não sei explicar, talvez atração, me vi a chamando para conhecer a cidade. Imagino que ela não tenha ninguém aqui, talvez poucos amigos, não custa nada tentar recebê-la. Além disso, gosto de voltar nesses lugares, então seria mais por mim do que por ela.
Não consigo negar que a achei atraente, seu cabelo escuro liso contrastava com sua pele branca e a magreza, mas o que mais me pegou mesmo foi o jeito sério dela em cima de uma moto, que logo descobri ser só a capa de uma pessoa extremamente sarcástica que ela se revelou depois de pouco tempo de convívio. Quando vi ela chegando naquela moto barulhenta quase não resisto em soltar uma cantada, eu literalmente soube ali que queria ficar com aquela mulher apesar do episódio da garagem e de a achar uma padrãozinha metida por ter feito uma faculdade. O fato dela ter me rejeitado ontem pareceu aflorar minha vontade de tê-la.
A rejeição não é algo que estou acostumada, geralmente, todos, homens ou mulheres, não resistem aos meus encantos. O que retraiu um pouco minha vontade foi o ocorrido com Sara, claramente elas ficaram, demoraram um tempo considerável fora da minha vista e eu ouvi risadinhas. Tentei extrair essa informação de Sara e ela negou, mentindo descaradamente. Rafaela também negou, mas sua cara lhe entregou que algo havia acontecido. Senti um leve incômodo quando desconfiei que elas ficaram, mas não entendi muito bem, assim como não estava entendendo muitas coisas esses dias, o que pode ter a ver com a rejeição.
Se ela de fato ficou com Sara logo após me rejeitar seria algo sem sentido algum pra mim. Hoje flertei novamente com ela, mas não vi sua reação por ter virado antes, ontem quando sugeri que ficássemos percebi que ela queria, mas ainda assim me rejeitou. Algo que ela falou mais cedo sobre meu jeito de impor coisas e não esperar resposta me chamou atenção e pode explicar essa sequência de rejeições. Será que ela pensa que se ficarmos vou querer namorar? Parece até piada, eu não namoro, nunca namorei, sou de todo mundo e de ninguém, vou tentar chegar nesse assunto com ela, se ficarmos vai ser só casual, talvez uma vez ou mais, mas não passará para o nível sério nunca.
Além disso, ela parece um poço de lerdeza, vou ter que usar as armas que tenho e que ainda não tenho pra conseguir beijar aquela boquinha. Sei como Sara é atirada e descarada, eu também sou, mas quando sou eu, todo esse descaramento não funciona, o que me deixa irritada novamente pela rejeição, sabendo que dela nunca vai ter iniciativa se eu não a levar ao extremo. O problema é que não gostaria de chegar a esse extremo, pois parece desesperado e isso é algo que eu não estou e dificilmente estarei um dia.
Marquei com ela com duas horas de folga, pois precisava sair para falar com Sara, que foi embora hoje pela manhã afoita e não me permitiu esclarecer as coisas que desejava saber dela. Assim como no meu, eu entrava no condomínio dela sem ser anunciada a pedido dela mesmo, assim, estava na porta de seu apartamento já tocando a campainha.
— Oi. – falei entrando, lembrando que minha vizinha odiou quando entrei assim no apartamento dela.
— Oi, meu amor. – Sara me recebeu sorrindo com um abraço carinhoso.
— Voltou pra terra? — perguntei dando um beijo em sua bochecha.
— Desculpa, Mari. — ela disse rindo me puxando para o sofá e deitando no meu colo. — Não sei o que me deu. Encontrei a Julia ontem e fiquei assim.
— Já disse que acho que além de Julia, a Rafaela tem algo a ver com isso. — falei, sabendo que a paixonite de Sara por Julia não era suficiente para deixá-la aérea como estava de madrugada comigo, até porque era bem comum sairmos logo após ela estar com Julia.
— Nós não ficamos, Marina, acredita, para de teimosia. — falou fazendo carinho na minha cabeça.
— Você sabe que te conheço desde sempre né? — falei irônica sabendo que ela estava mentindo.
— Acho que eventualmente vamos ficar, na primeira vez que nos vimos ela disse que eu estava bêbada e ontem que você estava esperando. — falou, por fim, admitindo que tentou.
— Pelo menos alguém tem bom senso. — falei a olhando indignada.
— Mas juro que foi mais por Julia do que pela sua vizinha gostosa. — ela disse tristinha. — Ela vai voltar com aquele babaca.
— Ela é hétero. — falei o que sempre repetia. — Quer manter você de estepe, mas é hétero.
— Não é, só não está pronta ainda. — falou o que eu já ouvia há mais de dois anos.
— Não suporto essa menina. – resmunguei chateada. – Você tem ideia do motivo de Rafaela me rejeitar tanto?
— Rejeitar? – Sara perguntou lerda como de costume. – Nenhuma ideia. Talvez tenha sido o começo ruim de vocês.
— Não é. Tem algo mais profundo que isso. Tenho uma teoria e você vai me ajudar a descobrir se estou certa. – falei sentando ao seu lado e a olhando.
— Que teoria seria?
— Que ela só fica com as pessoas se for pra namorar, casar, essas bobagens. – falei enquanto Sara me olhava atenta. – Então, você vai ficar com ela, e depois disso me fala como ela vai agir.
— Acho que entendi. – falou sorrindo. – Entendi que você acha que a menina é louca e grudenta e quer me mandar na frente pra testar. – afirmou com ironia.
— Não. Nada disso. – falei revirando os olhos. – Só quero entender se meu jeito livre de ser assustou ela e, talvez por isso, ela tenha me rejeitado.
Sara riu negando com a cabeça, mas eu sabia que ela faria. Além de estar com vontade de ficar com ela, ela sempre realizava meus desejos.
— Vou ver, mas te adianto que ela não parece ser o tipo grudenta não.
Assenti com a cabeça, pois apesar de essa ser minha teoria, eu não acreditava também nela.
— Talvez, mesmo que raro, alguém não goste do tipo que você faz. – disse rindo me dando um selinho e levantando do sofá. – Eu tenho que ir ao shopping ajudar Julia a escolher uma roupa pra uma apresentação importante no trabalho.
— Sério que ta me expulsando por isso? – perguntei olhando para meu celular e vendo que estava quase atrasada para o meu compromisso também com a vizinha. – Sorte sua que eu também tenho que ir, do contrário estaria muito magoada.
— Que drama. – Sara falou rindo me dando um beijo. – Vem dormir comigo hoje.
— Não sei, vai ter um jantar dos meus primos, talvez eu chegue muito cansada. – falei indo até a porta.
— Tudo bem. Qualquer coisa me manda mensagem. Te amo. – falou e eu andei rápido até meu condomínio para me arrumar logo pensando na minha relação com Sara. A gente se conhecia há anos, nossa relação era fácil, podíamos facilmente namorar e, até tentamos, mas não deu certo, falta algo além da amizade.
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