No feelings - A nova era
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Notas iniciais
Eu sonhava várias vezes todas as noites. Meu cérebro captava todos os momentos do meu dia e os guardava fazendo com que os acontecimentos se desenvolvessem de desejos, realidade em cada sonho que tinha. Sonhos esses que me fizeram enxergar a salvação em coisas que aparentemente pareciam perdidas, que alimentara a minha esperança no ser humano e na sua capacidade de amar. Hoje, acreditar no amor, nas pessoas, é proibido, não é mais uma opção você amar por uma coisa que te fez chorar de felicidade ou sofrer por alguma coisa que te fez chorar de tristeza, hoje não se pode sentir. Mas eu não me entrego, não vou me entregar nunca! Sentir é a realidade da vida, é a emoção de conquista ou fracasso, é o que da sentido a vida.
Empire City — 2200.
Sub solo da antiga cafeteria Delightful:
Minha vida desde o meu nascimento tem sido muito difícil, meus pais me esconderam aqui quando criança e desde então vivo com minha irmã mais velha, Anastásia. Aprendemos sozinhos como nos esconder dos guardas de preto que viviam a cima de nós, Ana era responsável pela comida, uma vez na semana subia até visitava o centro da cidade para pegar comida. Tenho dezessete anos e me chamo Benjamin, não tinha responsabilidade nenhuma, a não ser me esconder e em hipótese alguma ser achado. Depois que a lei 999091° entrou em vigor, todos os cidadãos da nova Empire fora obrigados a desligar seus sentimentos.
Tudo começou quando houve a terceira guerra em 2080. Muitas pessoas foram mortas com o ataque dos dez países, bombas, armas e canhões, fizeram o trabalho, minha irmã disse que a guerra durou tanto tempo que os seres humanos chegaram a entrar em extinção. Quando a guerra acabou e o antigo Estados Unidos venceu, eles começaram a pensar em uma saída, certamente uma máquina que acabasse com todas as guerras e que de certo modo nunca mais essa ideia viesse a tona. Cientistas de todo o mundo se juntaram em vontade dos governadores da única cidade que resistiu a guerra e começaram a planejar um modo de retirar qualquer sentimento ruim de todas as pessoas. No início a ideia foi fazer com que a raiva nunca mais chegasse em nossos corações e que sem raiva não teria guerra, nem mortes, ou suicídios. A N. feelings foi construída com o propósito de manter a paz no mundo, mas depois de vinte testes em seres humanos, descobriram que ela não tirava só a raiva, como também o amar, paixão, alegria, depressão, tédio, cansaço e qualquer outro sentimento. Na hora os governadores não aceitaram, falaram que isso era um absurdo e íamos virar máquinas. Os cientistas foram dispensados e a máquina ficou guardada por dez anos, não demorou muito até perceberem que aquelas vítimas da N. feelings tinham mais disposição, não sofriam e produziam muito mais. Os países estavam se reerguendo da guerra e essa foi uma ótima opção para aquelas pessoas tristes que mal andavam. Eles tiraram a máquina do laboratório e começou a usar em todas as pessoas, no início foi opcional, só usavam aqueles que nunca mais queriam "sofrer" (no caso, sentir) o povo estava tão amargurado e doente que não pensaram duas vezes antes de aceitar, com o sucesso e eficiência de todos, o país se ergueu mais rápido. As coisas foram melhorando, tudo parecia perfeito, até surgir soldados vítimas da guerra que tinham sede de sangue estadunidense, os soldados se multiplicaram e tentaram atacar novamente, o presidente não viu outra opção a não ser usá-la novamente. A No feelings (N.F. , N. feelings, sem sentimentos) foi vista como a salvação e a iniciação de uma nova era, de novas pessoas, novos planos, o presidente tornou o uso dela obrigatório em todo o mundo, em cada cidadão. Todos os cidadãos a partir dos seis anos deveriam visitar a sessão plenária e passar pela N. feelings. Mas havia pessoas que não desejava perder os sentimentos, elas queriam amar, se sentir reais e não máquinas. Logicamente o presidente não aceitou e declarou "Qualquer pessoa que depois dos seis não aceitar a renovação da N. feelings será detido! São esses os amargurados e que podem alimentar raiva em seus cérebros." Para eles, qualquer pessoa que quisesse sentir era considerada inimiga. E com o isso começou uma nova perseguição, o que me trouxe aqui, a essa "caverna" debaixo de uma cafeteria, um lugar seguro e longe de gurdas de preto.
Meus pais me mantiveram longe deles por anos, eles acreditavam no amor que tinham um pelo outro e sempre antes de dormir me contavam que "Sem o amor ou a dor, nada somos". Quando eles foram pegos, minha irmã estava com eles, ela chora até hoje dizendo que os dois morreram abraçados. Ela conseguiu fugir a tempo e voltou para o esconderijo, nós já vivíamos escondidos. E eu prometi a minha mãe, nunca, nunca deixar meus sentimentos de lado.
Ouvi um barulho vindo da escada que dava para o solo da cafeteria. Me levantei rapidamente e me escondi atrás da mesa que estava escrevendo. Ouço o barulho de passos descendo lentamente.
– Ben? -Era a Ana.
– Oi. — Saí de trás da mesa e me sentei novamente na cadeira. — Você me assustou.
– Desculpa. É que hoje tem muitos guardas pela rua. É difícil driblar todos eles. E quando cheguei, percebi que a porta da cafeteria estava aberta, acabei pensando no pior. — Ela andou até a segunda mesa no meio daquela bagunça e colocou uma sacola de alimentos em cima.
Ana conseguia passar desapercebida pelo simples fato de esconder suas emoções, ela agia como um robô e quase nunca chamava atenção, pois sua atuação como uma No feelings era perfeita. Nós moramos um pouco longe da guarda (onde os guardas se aglomeram para revistar casas e vê se tem algum sedicioso intocado). A cafeteria onde moramos fica na cidade abandonada da antiga Minnesota. Eles usavam essa cidade para executar pessoas que negam passar pela máquina que ficava localizada em Empire City (antiga Nova York) o centro.
– Como foi hoje? Pegou muita comida? — Perguntei enquanto anotava o meu diário. — Não suficiente para toda a semana, vou ter que voltar de novo essa semana. — Se sentou no colchão onde dormimos.
– Você não pode sair toda hora. E se eles perceberem ? — Meu coração congelava toda vez que pensava que minha irmã poderia ser pega.
– Eles não vão perceber, já te dei provas suficientes que sou boa no que faço. Só não consegui pegar muita comida hoje. — Bufo cansada.
– Se ao menos pudesse ajudar. Seria mais fácil. — Murmuro.
– Você não pode sair Benjamin! Nunca! Você está me ouvindo?! — Se levantou e se aproximou com a voz mais elevada.
– Tudo bem, tudo bem...
– Está avisado.
– Até quando vou ficar preso de baixo de uma cafeteria abandonada ?! — Perguntei estressado.
– Não sei, eu sinceramente não sei. Só sei que você está protegido aqui. — Afirmou.
Ana era minha segunda mãe, seu extinto materno despertou cedo, eu um dia espero ser como ela, corajoso, protetor assim como ela é comigo, sua força e delicadeza está além de tudo que já vi. Minha vida não era bem, uma vida. Eu vegetava como um lixo largado no subsolo de um estabelecimento abandonado. Mas Ana sempre alimentou meus meus sonhos, falando que um dia a gente iria sair dali e viver como uma família novamente. Meu sonho era um dia poder ver o sol nascendo e se pondo, sentir as gotas d'água me tocar em um dia de chuva, sentir o vento soprar forte no alto de uma grande montanha. Minha mãe falava muito sobre suas aventuras com o papai antes da guerra, meus olhos brilhavam só de imaginar o quão legal devia ser. Eu não queria nada além da minha liberdade de expressão, só queria poder interagir com alguém. Minha irmã quase nunca tinha tempo, ela vivia montando planos de fuga e fazendo esconderijos, eu passava o dia escrevendo e sonhando com uma vida natural, longe de guerras ou obrigações. Talvez se eu me entregasse, teria uma vida ao ar livre, mas o que é uma vida sem sentimentos? Eles não estão me ajudando muito nesses momentos de aflição, mas eu não consigo pensar em uma vida sem poder sentir nada, entre viver como um parasita ou fadado a se esconder, eu prefiro me esconder.
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