No feelings - A nova era
2 Subordinados
Notas iniciais
Já passara dois dias, Ana se preparava para voltar a cidade e pegar mais comida. Ela pegava os alimentos em uma associação para detentos (presos e com data marcada para a morte). Entrava pelos fundos e se passava por eles, ela nunca me explicou em detalhes como conseguia ser tão astuta, sempre dizia que eu não precisaria correr o risco de sair e que ela tinha uma amiga.
– Pronta? — Perguntei enquanto arrumava sua roupa.
Eles usavam um único trage de roupa. Era um macacão branco com duas listas pretas dos ombros aos tornozelos, o tecido era à prova d'água e nos pés, uma bota cano longo preta na altura da panturrilha. O macacão cobria todo o corpo deixando as mãos, pescoço, cabeça e os pés para fora.
– Sim. Fecha o zíper pra mim, por favor.
Ana era muito bonita, seus olhos verdes e seu cabelo ruivo a deixa incrivelmente linda em todas as roupas, poderia ser um trapo, sua beleza natural surpreendia. Pelo menos a mim.
– Ana, promete pra mim que você vai voltar, as quatro da tarde. Okay? — Fazer Ana me prometer voltar as quatro, me deixaria mais calmo. Eu ficava a espreita o dia todo esperando por ela.
– Okay. Fica tranquilo. Volto em quatro horas. — Sorriu. Se aproximou e me deu um beijo na testa. — Não saia daqui.
– Vou estar aqui quando voltar. — Sorri entediado.
Quando Ana saia para pegar comida eu ficava tentando me distrair, mas era difícil se distrair enquanto ela estava lá fora correndo um grande risco. Nós não éramos os únicos "insubordinados" dali, minha mãe tinha uma amiga, o nome dela era Emily, ela tinha um filho, chamado Mark. Quase nunca nos víamos, o esconderijo deles ficavam um pouco próximo ao nosso. Lembro do seu rosto angelical, de cachos loiros e grandes bochechas rosadas. Minha mãe disse que eles foram pegos pelos guardas e levados até o plenário. Provavelmente não são mais como eu e Ana. Eu só queria arrumar alguma forma de mudar a ideia desses presidentes.
15:30...
A pressão aumentava conforme os números de um despertador velho mudavam em cima da mesa fazendo "Tic" toda vez que se passava meia hora, os números vermelhos me deixavam perturbado e muito preocupado.
15:50...
Eu nem sentia mais meu coração bater, só sentia a vibração deixando meu corpo em choque. Toda vez era o mesmo castigo. Eu procurei me controlar e sentei em minha mesa que servia como escrivaninha e comecei a escrever no meu velho diário, quando eu não tinha com quem conversar escrevia. O senhor Baker se tornou meu amigo diário inseparável.
" Sr. Baker...
Ana ainda não chegou. Eu sei que ela me prometeu chegar as quatro, mas geralmente ela chega antes. Não sei o que eu vou fazer para me acalmar, não posso pensar no pior, mas não consigo pensar no bem, preciso de água. "
16:30...
Meu coração estava ardendo, eu andava de um lado para o outro, deitava, sentava, contava até três. Fechava meus olhos e imaginava um momento bom, que eu ainda não tinha vivido, mas viveria algum dia. As lágrimas começaram a descer involuntariamente, mas eu não perdi a esperança. Ana voltaria para casa.
As horas pareciam passar mais rápido, os números vermelhos do despertador pareciam observar meu tormento toda vez que se passava meia hora. Fazia "Tic", aquele "Tic" parecia emitir um som mais alto a cada meia hora que se passava fazendo com que meu único inimigo fosse o tempo.
20:00...
" Sr. Baker...
Eu ouço desde muito, muito tempo que subir as escadas do esconderijo é um perigo, subir aquelas escadas poderia fazer de mim uma criança morta. O mundo lá fora estava em guerra e eu não nasci para guerras, eu nasci para viver, bem, mal, aquele mundo não é pra mim. Mas eu não posso ficar aqui e fazer com que minha obediência mate minha irmã, ela pode estar precisando de mim. Eu vou sair!"
Ana tinha mais de um uniforme, ela conseguiu arrumar mais de um trage para sair. Eu era quase do mesmo tamanho que ela, uns centímetros a mais, eu tinha um e setenta e quatro de altura. Peguei o uniforme, vesti, faltava calçar as botas. Depois de pronto visualmente, peguei uma bolsa e coloquei meu diário, lápis, água, alguns alimentos e a foto da mamãe e do meu pai.
– Vai dar tudo certo Benjamin. — Disse para mim mesmo e subi as escadas.
Eu me sentia preparado fisicamente, mas mentalmente eu não me sentia bem. A vida da minha irmã estava em risco, usei uma ferramenta para suspender a porta e subi. Tinha me esquecido de quão abandonado era lá em cima, saí dos escombros e me deparei com uma rua abandonada tomada por verde, árvores e plantas haviam crescido por toda a parte transformando a rua em um grande jardim. Olhei de um lado para o outro e escolhi traçar o caminho pelo lado esquerdo. O céu estava estrelado e os animais cantarolava dentre a mata, eu andando mais rápido olhava de um lado para o outro para ver se achava Anastásia. — Ana! Me atende! Onde você está?! — Eu corria por uma rua estreita onde as plantas cobriam tudo dos lados, como uma única linha branca, reta e extensa. Eu olhava para frente e não enxergava saída, por um momento parei para pensar e até cheguei a tropeçar em uma pedra. Eu não estava acreditando que estava fazendo aquilo. Era perfeito aos olhos de um aventureiro, mas eu me achava covarde demais para ser um, aquilo era por uma única causa, Anastásia.
Depois de tanto correr cheguei, era um portal de pedra com plantas e flores cobertas pela metade, me apoiei no portal para descansar a maratona que tinha feito e continuar seguindo.
Não demorou muito até eu chegar a cidade. Ela é linda, longe de qualquer visão que tive sobre a Empire City. Grandes prédios brancos, ruas estreitas sem nenhum defeito, os carros pareciam deslizar sobre elas, em cada esquina havia postes de cor prata, era como uma cidade do futuro, as avenidas davam voltas na cidade de cima a baixo. As vias de metrô se entrelaçavam com as vias de automóveis e a lua parecia ser um detalhe pequeno, porém crucial em uma cidade perfeita como Empire City. Quanto mais eu me aproximava mais outdoor apareciam, fazendo propaganda de cosméticos, roupas e tevê. A cidade parecia viva, mas os cidadãos pareciam mortos, todos andando da mesma forma, gélidos, como defuntos, não esboçavam qualquer tipo de humor, seus olhos caídos pareciam não estar sentindo o que faziam. O silêncio era mortal, nem mesmo os cachorros latia. Depois de observar a cidade, resolvi procurar ajuda e disfarçar, ninguém poderia saber que sou um insubordinado.
Entrei em um bar onde pessoas bebiam, dançavam, estavam em seu momento de lazer mas não parecia divertido. Aquilo estava me dando medo, era como manequins no lugar de pessoas, tentei disfarçar meu espanto e cheguei até o balcão.
– Olá. Você sabe onde fica a associação de detentos? — Perguntei frio, para um dos caras que estava do outro lado do balcão. — Não fica muito longe, anda duas quadras a frente e você chega lá. — Respondeu.
– Obrigado.
Andei duas quadras até achar a enorme associação de detentos. Era como um estádio de futebol, redondo e muito alto. Eu acharia essa associação de qualquer forma, ela parecia tomar a cidade. Andei até a porta principal onde havia dois guardas.
– Ei! Onde você vai. — Um dos guardas de preto, com óculos escuro, branco e de cabelo raspado me parou.
– Estou entrando na associação. — Parecia óbvio.
– Você não pode entrar. Só detentos entram aqui imbecil. — Pigarreou. — Volte para casa.
– Tudo bem. — Suspirei tentando não demonstrar raiva.
– Ei, volta aqui. — O guarda colocou a mão em meu ombro e me virou para ele novamente. — Você não é um daqueles insubordinados não, é?
– Não, não sei o que é insubordinado, senhor. — Meus olhos não conseguiram esconder o espanto e minha barriga embrulhou.
– Hum... Volte aos seus afazeres — O guarda estava suspeitando, rapidamente eu me virei e me desviei do seu olhar.
Não consegui passar pela frente. — Mas é claro! Idiota. Minha irmã passava por trás. Fiz a volta no grande edifício e procurei a porta dos fundos. Chegando lá encontrei uma porta com duas lixeiras entre ela. Bati na porta e uma moça de toca e com o mesmo uniforme abriu as portas para mim.
– O que deseja? — Sua voz carrancuda logo me fez entender que ela não havia passado pela No feelings, o mal-humor estava notório.
Eu não sabia o que falar, minha irmã nunca me falou o nome da moça que a ajudava.
– É... Eu queria... Eu...
– Vai falar ou vai ficar nessa enrolação?
– Eu queria comer. Estou com fome. Muita fome. — Fiz cara de fome.
– Você parece triste demais. Entre.
Meu coração palpitou, era ela, a empregada que ajudara minha irmã.
– Quem é você jovem rapaz? — O humor havia mudado de uma hora para outra.
– Sou Benjamin. — A moça arregalou os olhos e me puxou pelo braço. — Onde a senhora está me levando? — Perguntei confuso.
– Creio que queria ver sua irmã, certo? — Sua voz soou marota.
– Sim, eu quero ver minha irmã. — Sussurrei.
– Venha comigo, vou leva-lo até ela. — Ainda me segurando, ela andava de pressa, sua roupa estava retalhada, suja. Nós andamos de um corredor para o outro a procura de Anastásia, ela parecia mais ansiosa que eu. — Já estamos chegando. Lá dentro era tudo branco, os corredores não tinham enfeites e as portas eram de madeira, grossa e pintadas de branco de grandes maçanetas e com contornos que faziam a forma de um círculo em cada uma delas. — Chegamos Benjamin. — Ela abriu a grande porta branca e eu me deparei com uma enorme sala, com vários painéis de controle. Ao entrar avistei Anastásia presa em uma grande jaula.
– Ana? — Andei levemente até a frente da sala.
– Ben?! — Ana ergueu a cabeça, parecia cansada de tanto chorar, com a aparência fria. Quando percebi corri até ela. — Benjamin, sai daqui! Vai embora! Ela! Ela vai querer te prender, ela não é nossa amiga! — Ela esbravejou da sela onde se encontrava. Eu me virei para a senhora que me ajudara e dois guardas estavam do seu lado. Eu não soube o que fazer e corri em direção a Ana.
– Ana eu vou te tirar daí! — Corri como nunca tinha corrido antes, ela não parava de mandar eu ir embora.
Quando cheguei perto da sela de Ana, me ajoelhei e a encostei em uma abraço não muito confortante.
– Vai embora Benjamin, eles estão vindo. — Ela chorava.
– Eu vou te tirar daqui primeiro. — Enquanto Ana gritava eu tentava achar um meio de tirar ela daquela sela, minha vontade de fazer ela parar de chorar era tão grande que não percebi quando os guardas se aproximaram e me acertaram com uma coronhada na nuca.
...
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