Notas iniciais
Devo ser sincera, e admitir o quanto escrever essa prompt foi difícil para mim. Primeiro que eu não tinha um plot, simplesmente não sabia o que escrever. Quando achei um plot, por volta das 500 palavras decidi mudar o que iria acontecer, e acabei finalizando a história sem um final (?). No fim, saiu algo mais centrado na Arturia, e com muita narrativa. Não ficou ruim, mas ficou parado. Espero que gostem!

kill/matar.

O silêncio fazia-se presente na biblioteca de Fuyuki. Se aquelas prateleiras fossem medidas, poderiam de fato ter pelo menos três vezes a estatura de um humano comum, por isso escadas ajustáveis estavam colocadas entre todos os corredores. E apesar do absoluto silêncio, os passos sobre o mármore eram escutados em todo lugar garantindo aos mais isolados em suas leituras que não estavam sozinhos. O pouco movimento talvez denunciasse a falta de desinteresse das pessoas dessa época pelo conhecimento, havia velhos e estudantes, nada além.

Artoria analisava cuidadosamente a capa bem trabalhada de um livro de história. Aquela não era a primeira vez que fora invocada para a Guerra Santa, sabia que todo espírito heroico mantinha suas lembranças e seu conhecimento sobre a era atual atualizados, ela conseguia entender como aquilo havia sido feito, mas no momento perguntava-se quanto o mundo que conhecera havia evoluído. Segurava por curiosidade um livro histórico que contava justamente a lenda do Rei Arthur. Folheou as primeiras páginas da introdução e fechou-o quase em seguida após ler na frase inicial dizendo que um menino havia nascido em Bretanha. Ela sabia da história que havia deixado para trás, a lenda que vivera, mas preferia não ler sobre um rei o qual ela não gostaria de ter sido.

Shirou insistia que não precisava de seu servo acompanhando-o durante as aulas, tinha em mente ela não ser capaz de desmaterializar-se como outros espíritos heroicos devido a falta de mana de seu mestre, isso a deixava com longos períodos vagos durante seu dia. Normalmente, ela estaria treinando no dojo de Taiga, mas naquele dia procurara algo novo para complementar sua manhã. Talvez se sentisse inutilizada depois da aliança com Tohsaka Rin, ela como a maga experiente que era, seria uma melhor opção de companhia para seu mestre.

Passou os dedos sutilmente entre o entalho do livro, dizia na capa que era uma edição de colecionador. Havia uma estante menor dedicada apenas a livros de sua lenda, mas aquele em especial prendeu sua atenção. Talvez fosse as bordas douradas, seu tamanho diferenciado ou quem sabe seu aspecto antigo, algo nele despertou sua curiosidade, entretanto, soube por ele que nada ali era o que procurava. Devolveu o livro em seu respectivo espaço, inclinando-se com as mãos nos joelhos para procurar algum outro numa prateleira mais abaixo.

Saber percebeu uma presença incomum na biblioteca, não como a de outro servo, mas fora lenta demais em notá-lo ali.

― Já deveríamos estar casados há dez anos, não é mesmo? ― Ela virou-se no ímpeto, assustando-se com a figura que a contemplava logo em frente recostado a uma estante. ― Saber? ― Gilgamesh pronunciou seu nome no tom sarcástico e divertido que somente ele era capaz de reproduzir.

Artoria piscou algumas vezes, ainda reagindo ao susto. O loiro simplesmente surgira ao seu lado, mesmo tendo captado sua presença não fora rápida o suficiente para colocar-se na defensiva. Estendeu a destra invocando sua espada lendária. Caso preciso, não hesitaria em matá-lo ali mesmo.

O Rei dos Heróis estalou a língua divertindo-se, havia dez anos que não via aquela preciosa expressão enfurecida de sua amada.

― É assim que você recebe pessoas queridas depois de tanto tempo?!

― Archer ― sibilou o único nome pelo qual sabia o chamar, grunhindo um aviso.

― Estamos numa biblioteca, Artoria. ― Tirou uma mão do bolso direcionando-a até o cabelo solto e movendo alguns fios do olho.

A menina pensou por alguns instantes, havia apenas preparado si mesma para qualquer intenção do homem. Sentira sua presença e não fora capaz de equipar-se, mas mesmo agora, via nula ameaça vinda dele. Baixou a mão para perto da barra da saia, sem quebrar o contato visual. Fazendo-o entender aquilo como uma possível trégua.

Saber entendera que do exato instante em que ela destruíra o Santo Graal e o período que passou no escuro, havia se passado dez anos. Ainda que todo esse tempo tivesse decorrido, seu rival continuava precisamente o mesmo. E se ela não o sentia como um servo invocado nesta guerra, significava que ele sobrevivera àquele trágico fim da Quarta Guerra pelo Santo Graal. Gilgamesh deduziu o quão confusa estava a menina, sorriu como resposta, contornando-a e sentando-se numa poltrona próxima. Cruzou as pernas, deixando que sua arrogância natural fluísse, e enfim explicou ao Rei dos Cavaleiros de maneira prévia o que acontecera.

Eliminar suas dúvidas não tirou sua vontade de matá-lo. Saber não encarava mais o pseudo-herói, sentara-se próxima com outro livro, a fim de ignorá-lo depois daquela conversa não muito afetiva. As memórias perdidas da derradeira vez que esteve neste século tomaram-na com imagens vívidas de seus últimos e intensos instantes com vida. Bisbilhotou o homem com o olhar periférico quando lembrou-se de seu delicado pedido de casamento dele e da sua sutileza ao receber um não como resposta. Recordou especialmente do egoísmo de seu mestre, usando seus últimos selos de comando para forçá-la a destruir o que por tanto batalhou. Kiritsugu sabia mais do que ninguém o quanto ela, quem um dia fora rei de toda a Bretanha, desejava o Graal para mudar sua história e salvar seu povo. Obrigá-la a destruir o Cálice com seu Fantasma Nobre fora de todas a pior decisão. Havia sido ignorada, ridicularizada e não reconhecida por seu mestre durante toda a Quarta Guerra, e nos últimos instantes de sua segunda vida, fora humilhada. Socou a mesa com punhos cerrados, chamando a atenção do louro pouco distante dela. Vê-lo ali fez com que seu ódio reprimido emergisse em seus sentimentos. Gilgamesh causou-lhe um mau humor terrível.

Saber levantou-se batendo os pés, em seguida o viu levantar-se também. Estavam distantes um do outro, mas se ela quisesse sair daquela biblioteca teria de passar por ele. Gilgamesh colocou uma mão no bolso da blusa e lançou-lhe um sorriso desafiador. Artoria deixou que quase um rosnado nervoso escapasse de sua garganta. Ela imaginou que um combate direto agora seria em vão.

Gilgamesh vestia um conjunto esporte preto com listras brancas laterais. Tinha o cabelo louro baixo, alguns fios caíam-lhe pelos olhos. Saber não o viu de brincos como costumava usar até mesmo em trajes casuais. Ele havia adequado-se perfeitamente à era atual. Enquanto ela ainda dependia da saia azul e a camisa plissada que Rin dera-lhe outro dia. Gilgamesh parecia melhor que ela em incontáveis aspectos.

Moveu-se. Estremecida por dentro, afogada no nervosismo. Ela sentia apenas a repulsa aversão por ele e nada menos. O homem moveu-se juntamente, para seu desgosto, ele estava em sua direção. Dava um passo a ela, enquanto ela, dava um passo à saída. Ela o sentiu pairar no ar por instantes, colocando-se em alerta para não deixá-lo surpreendê-la outra vez. O que aconteceu em seguida foi apenas a mais pura física, ação e reação.

Gilgamesh jogou-a contra uma estante derrubando alguns dos livros. Ele pensou tê-la pego, mas enganou-se quando sentiu o vento do encanto que protegia a identidade de sua espada bater contra seu rosto. Estavam perigosamente próximos, o Rei dos Heróis não podia diferenciar a respiração pesada de Artoria do vento da lâmina soprado contra si. A menina não havia vacilado uma segunda vez como quando ele chegara à biblioteca.

Ela queria sair daquele local e apenas por um momento, esquecer-se da feição detestável de Gilgamesh. Olhar para ele era como olhar para seu passado atirado no entulho de dez anos atrás. Ainda que, desejasse não vê-lo nunca mais, lá estavam eles sem quebrar o contato visual, tão próximos como nunca estiveram.

O vento misturava ambos os cabelos, carregando e bagunçando os fios loiros. Ela tinha os dentes expostos, grunhindo-os cerrados como uma presa na defensiva. Enquanto ele estava no topo de sua própria cadeia alimentar inventada que criaram. Encaravam-se de olhos semicerrados, não sequer tinham palavras para serem proferidas.

Gilgamesh levou a mão até onde julgou estar a espada e ousou segurá-la, forçando a menina a abaixá-la. Saber ainda a mantinha erguida contra o maxilar do homem, não recuaria. Foi nessa insistência que a lâmina o cortou. Obviamente, se ele mantivesse a mão pressionada logo no fio de corte, ora ou outra, ele se feriria. Afastou a mão e observou o pequeno fio de sangue que escorreu. Disseram-lhe uma vez que Artoria não passava de uma moça correndo atrás de seu sonho desgraçado, mas vendo ali seu sangue que ela não hesitou ou desculpou-se por tê-lo arrancado, via claramente o quanto era mais afeiçoada a uma leoa.

Lambeu o próprio sangue, certificando-se de que ela o assistia. Aproximou-se outra vez, desta, ignorando a espada contra seu pescoço.

― Você não vai fugir de novo. ― Passou sua língua pelos lábios dela, a observando contorcer-se em repulsa, ocupada demais sentindo nojo para atacá-lo.

Artoria sentiu o gosto metálico do sangue recente que passara pela língua dele em seus próprios lábios. Limpou os vestígios da saliva do pseudo-herói com as costas da mão esquerda amaldiçoando-o mentalmente. Abriu os olhos nervosa, de cenho franzido e o procurou para acabar de uma vez com esses abusos, mas não o encontrou. Seu peito inflado esvaziou-se num suspiro, estava cansada de lidar com Archer, pensou, e outra vez, praguejou não tê-lo matado quando teve chances.

Notas finais
Como vocês perceberam (ou não), eu escrevi me baseando na rota Unlimited Blade Works, que tem a Rin como heroína principal e a Saber é meio jogada de lado. Essa é a rota que menos gosto de Stay Night, principalmente pq mal frisa o reencontro do Gil com a Saber, ele mal aparece e depois ainda morre pro Shirou *vomita*. Mas como achei uma boa desculpa em colocar eles juntos já que nunca mostra o que a Saber fica fazendo quando o Shirou está na escola, provavelmente eu venha a fazer mais prompts baseados nessa rota. E eu gosto do Gilgamesh de roupa esporte. Caso tenham encontrados erros ou tenham críticas, me contatem pelos reviews. Sugestões são bem-vindas! Até mais!