No One Can Help Me
2 No One Can: Feel my pain
Notas iniciais
28 de Agosto de 1914 — Paris — França
Tempo desde o início da guerra: 1 mês (31 dias)
Era uma tarde comum, e já fazia um mês de que meu pai e Giovani tinham saído naquela viagem. As aulas em todas as escolas da França tinham sido suspensas, e por sorte, minha mãe, Verônica, era uma professora de Matemática.
Eu tinha sorte, pois como ela passou um bom tempo dando aulas em renomadas escolas de Paris, ela adquiriu conhecimento sobre outras matérias além da própria matemática.E como não podíamos ir para a escola, e por algum motivo, o governo havia dito para as pessoas não saírem de suas casas, a não ser que fosse extremamente importante.
Então já que eu não podia ficar sem estudos, pois como eu era uma criança de 10 anos, ainda tinha muuuito a aprender.Então minha mãe começou a me dar aulas particulares todos os dias, durante as ensolaradas tardes de verão. Ah, e mais um detalhe, Caroline também estava assistindo as aulas de minha mãe comigo, todos os dias!
Aquelas tardes costumavam ser sempre paradas, entediantes, e quentes! Mas por algum motivo eu estava achando que aquela tarde, em específico, estava bem mais parada do que uma tarde qualquer. Talvez fosse fruto da minha imaginação, já que as pessoas não saiam mais as ruas. Mas aquele dia estava realmente diferente, nem os pássaros cantavam, como sempre faziam.
Geralmente, para nos divertimos e acabar com parte do tédio do dia-a-dia, costumávamos brincar no pequeno jardim que ficava nos fundos de minha casa.E Caroline sempre levava seu urso de pelúcia, o Mr.Tiggles, porém ela não estava com ele naquele dia, o que era estranho, porque ela nunca se separava daquele brinquedo. Era um jardim bem espaçoso, com uma balança de dois assentos no meio, e era cercado por um arbusto de uns 2 metros, então não dava para ver o que acontecia do outro lado, pois além de grande ele era denso.
Quando acabamos de fazer a última tarefa de ciências, fomos correndo para o jardim, como sempre fazíamos, e enquanto bricavamos, a mãe da Caroline fazia deliciosas guloseimas na cozinha, com ajuda da minha mãe e, as vezes da Lana. Essas três gostavam muito de cozinhar e fazer deliciosos pratos.
Quando Caroline e eu chegamos no Jardim, começamos a nos balançar beeem alto nas balanças (adorávamos competir e fazer apostas), depois brincamos de pega-pega e essas outras brincadeiras de criança. Logo depois, me deitei de costas no chão, em baixo de uma grande cerejeira que ficava no canto do jardim. E comecei a observar as nuvens.
—O quê está fazendo,Cacázinho? – Disse ela com sua doce e meiga voz.
—Estou observando as nuvens Carol, como meu pai fazia comigo quando eu era mais novo... – Sempre que eu falava sobre meu pai, ficava um pouco triste e com saudades.
Quando pisquei os olhos, logo vi Carol correndo na minha direção, e se deitando ao meu lado.
—Então vou olhar as nuvens com você! – Disse ela entusiasmada.
—Tudo bem haha. Meu pai e eu sempre ficávamos olhando para elas e tentando adivinhar com o quê elas pareciam. Quer brincar disso também?
—Sim!!! – E o som dessa fala ecoou pelo jardim, como se estivéssemos em uma caverna...ou algum tipo de deserto pacato. – Uau...Ca...Cacázinho, você reparou que hoje o dia esta bem quieto?Bem mais que o normal?
Fiquei parado olhando para ela por alguns segundos...
—Reparei sim...você acha que todos morreram? E nós somos os únicos sobreviventes?!!! Ai meu Deus, será que os alienígenas estão abduzindo todas as pessoas??? –Ahh, como criança sonha!
—Não viaja, Cacázinho... – Falou, lançando um olhar de descrença sobre mim.
—Ahh, tudo bem...vamos voltar para a brincadeira de adivinhar o formato das nuvens!!
—Tá bom! – Ela parecia bem alegra naquela tarde.
alguns minutos depois...
—Aquela ali parece um cachorro – Dizia Caroline – ...e atrás dele tem uma árvore!
—Uau Carol, olha aquela, parece um esquilo!
— Legal...EI...OLHA AQUELA – disse ela apontando para o céu – Tem o formato de uma arma!!
—Que horrível, Carol!! Armas são horríveis, elas só trazem destruição, mortes e tristeza, TUDO DE RUIM!!
—Não Cacázinho...meu pai...ele tinha uma arma, eu já peguei ela nas mãos algumas vezes, não há nada para temer. Armas não matam pessoas, são pessoas que matam pessoas!!
—Uau, você é mesmo bem corajosa Carol... – Eu disse, tentando parecer admirado, mas no fundo eu só estava me sentindo um pouco impotente, já que até ela era mais corajosa do que eu. Aquilo tudo só me fazia perder o pouco de auto-estima e de confiança que ainda tinha sobre mim mesmo. – Um dia, eu vou ser ig...
Fui interrompido por um avião gigante que havia passado bem alto, próximo das nuvens. Nunca tínhamos visto algo parecido, aquilo era imenso e bonito. Era um avião vermelho e com alguns detalhes pretos, que pareciam cruzes, nas asas e na parte de trás.
—Uaaaau, meu Deus, você viu aquilo Cacázinho?!! –Perguntou a menina, eufórica.
—Meu...meu...meu...meu...meu
—Cacázinho, você está bem?
—MEU DEUS DO CÉU!! OS ALIENS ESTÃO INVADINDO!!!
Ela começou a rir e a me explicar que era um avião. Depois de alguns minutos ficamos nos perguntando "para onde será que ele estava indo?", e nós não conseguíamos parar de rir.
Logo depois, entramos para dentro de casa. Lá estava a dona Danielle, a mãe de Caroline. Ela estava retirando do forno um bolo de chocolate de dar água na boca!
Cheguei logo tentando pegar um pedaço, mas fui reprimido pela mão esquerda de Danielle.
—Espere um pouco pequenino! Está quente, você pode acabar se queimando! – Exclamou a mulher, porém não de uma forma grosseira, mas sim de um jeito calmo e cauteloso.
— Desculpe Dona Danielle! Juro que foi sem querer, é que eu não consigo me controlar quando estou com fome... – (...Ok, confesso que esse foi um dos motivos de eu ter sido uma criança acima do peso...)
—Tudo bem hahahaha— ela começou a rir, e logo em seguida, todos que estavam ali também começaram, inclusive eu mesmo!
Os risos não duraram muito tempo, pois foram interrompidos por um barulho infernal e extremamente alto, como se fosse uma explosão distante. Aquilo pegou todos de surpresa, e com certeza nos deixou muito assustados. Minha mãe procurou abrigo atrás do sofá da sala de estar, já que estava sentada nele. Dona Danielle se assustou tanto, que sem querer acabou derrubando o bolo tão cobiçado por mim, e logo em seguida se escondeu em baixo da mesa de jantar.
Lana que estava cuidando das louças sujas, pegou eu e Caroline pelos braços e nos levou correndo para debaixo da cama, que ficava no quarto de hóspedes, em baixo da despensa da escada principal.
Cinco minutos depois do barulho, ainda com todos assustados e em seus devidos abrigos, o telefone começou a tocar. Minha mãe saiu de sua cobertura e foi correndo atender, ela sabia que poderia ser algo extremamente importante.
—Alô...Meu Deus!...mas já começou?...EU NÃO ACRED...
Antes que pudéssemos ouvir o resto da conversa, Lana tapou os meus ouvidos e os da Carol, com um travesseiro de penas que estava no chão.
Alguns minutos depois, nós três saímos de baixo de cama, e então deitamos em cima da mesma. Eu estava no meio, Caroline estava ao meu lado direito e Lana ao esquerdo.
—Tenho que contar uma história para vocês dois – Disse Lana calmamente. –No mundo, existem pessoas boas e pessoas más. E nesse momento, alguns homens lá fora estão fazendo o mal, e matando pessoas.Mas não se preocupem, enquanto estivermos aqui e todos juntos, nada poderá nos fazer mal!
Senti Caroline apertar minhas mãos com força. Eu estava muito confuso.
—Cartman –Continuou Lana – Seu pai e seu irmão disseram para você ser forte, e eles não disseram isso por acaso... – Ela fez uma pausa, provavelmente buscando as palavras corretas, primeiro, para não acabar por traumatizar duas crianças, e segundo, não fazer o pai e o irmão parecerem mentirosos, pois isso acabaria com minha vontade de um dia, reencontrar meu pai e Giovani. – Eles sabiam que um dia, você iria acabar tendo que nos proteger e proteger a si mesmo desses homens maus. E eu também estou contando com isso Cartman, não se deixe abalar por essas coisas, algum dia nós vamos precisar enfrentar esses homens, e nesse dia, ou você estará preparado, ou então, eles estarão!
Uma lágrima escorreu dos meu olhos, e eu que estava deitado e virado para Lana, resolvi me virar para Caroline, que estava atrás de mim, e me olhando com seus lindos e gigantes olhos (porém gigantes de uma maneira agradável, bonitinhos) e cheios de lágrimas. Caroline era uma menina forte, nunca chorava perto de mim ou de qualquer outra pessoa, mas no fundo, ela era como qualquer outra menina, frágil e sensível. Ela só queria que os outros não vissem essa outra parte dela. Então aquela foi a primeira vez que a vi chorar. E aquele estava mais para um choro de felicidade do que um choro de tristeza.
—Pode deixar Lana, eu vou me tornar forte, e protegerei todas vocês!!! – Eu disse, com ênfase naquelas palavras. E então olhei profundamente nos olhos de Caroline e disse – Carol, não importa o que aconteça, não importa o que acontecer comigo, eu sempre, sempre, sempre vou estar ao seu lado, pronto para te defender e te apoiar!! Conte comigo para sempre!!
Ela sorriu, e mais algumas lágrimas caíram, e então eu pude ter certeza que não eram lágrimas de tristeza. Então ela aproximou o rosto do meu e me deu um beijo na testa, com seus lábios macios e rosados.
—Eu também sempre estarei ao seu lado, sempre te protegerei, conte comigo!! Porque além de ser sua melhor amiga, eu....eu..... – Ela fez uma pequena pausa e olhou para o teto,depois me olhou novamente nos olhos, e com muita confiança disse – Eu te a...
Eu a interrompi com um abraço, por algum motivo, meu corpo se moveu sozinho, eu não deixei ela terminar a frase em que eu mais sonhei que ela dissesse.
Depois disso, adormecemos, nós três. Aquele quarto era bem escuro, já que as cortinas sempre eram mantidas fechadas, especialmente depois daquela tarde. Naquele dia eu estava tentando entender o que havia acontecido, eu não fazia idéia, mas a cidade de Maincy, que ficava há aproximadamente 60 km de Paris, havia sido bombardeada pelo avião que tínhamos visto momentos antes. O homem no telefone, era um amigo da família, um homem muito rico e que tinha contato com o governo, e avisou minha mãe no telefone.
29 de Agosto de 1914
Já passava de meia-noite, e então eu me levantei da cama, ouvindo barulhos de minha mãe conversando com dona Danielle.
Então desci da cama com muito cuidado, para não acordar Caroline nem Lana.
Depois fiquei encostado na porta do quarto apenas espionando a conversa das duas. Elas estavam na cozinha, que ficava ao lado da escada e consequentemente daquele quarto. E aparentemente, elas estavam falando sobre Danielle e Caroline virem morar definitivamente conosco!
—É isso Verônica, fico agradecida por esse convite que você propôs, e eu não poderei recusar. Com esse caos lá fora, o melhor é que todos fiquemos juntos...
—Que isso Danielle...não foi nada, você faria o mesmo por nós... e também tem uma filha pequena, a doce Carolzinha...
—Sim, a Caroline, eu não conseguiria viver sem minha filha! E aqui eu e ela poderemos ficar juntas e seguras. É tão triste saber que eles vão crescer nesse mundo podre...
Minha mãe assentiu com a cabeça.
— Sim, mas não podemos fazer nada.... é desesperador para uma mãe criar um filho num mundo que está nessa situação! Ainda mais sabendo que é aqui que eles vão crescer e ter filhos..
.–Mas Verônica, voltando ao assunto, eu e a pequena Carol vamos ter que pegar nossos pertences e o ursinho de pelúcia dela...
—Urso? – Perguntou minha mãe, curiosa.
—Sim, o nome dele é Mr.Tiggles, a Caroline não desgruda daquele brinquedo. Ela sempre está com ele por perto, e hoje, antes de vir pra cá ela não sabia onde ele estava. Ontem eu estava arrumando a casa e acabei colocando o bendito urso em algum lugar, mas não me lembro onde. Aquele urso é uma das únicas coisas que podem evitar o contato da minha Caroline com esse mundo podre, então pelo bem dela e também pelo meu bem estar, temos que achar o urso!Então eu preciso que ela vá comigo, ela diz que o Mr.Tiggles tem um cheirinho que só ela consegue sentir.
—Tem certeza Danielle? Nós duas poderíamos ir lá, e também chamar a Lana para nos ajudar!
—Não posso permitir, a Caroline nasceu naquela casa, e sempre esteve lá, ela conhece muito bem cada canto, e nós não podemos ir todas e deixar as crianças sozinhas...
—Tem razão.....está mesmo disposta a fazer isso e colocar em risco sua vida, e até mesmo a da pequena Carol?
—Mas o quê é isso Verônica? Não há o que temer tanto assim, nós moramos só a uns 100 metros daqui...
—Tudo bem Danielle, mas pela última vez, melhor deixar a Carol aqui em casa, segura!
De repente sinto Caroline surgir atrás de mim, ela e Lana acordaram sem que eu percebesse.E então Caroline foi em direção às duas e disse:
—Eu vou sim! Eu preciso achar o Mr.Tiggles!!
Então estava tudo decidido, todos concordaram delas irem até onde moravam, pegassem o maldito urso e voltassem o mais depressa possível.
Quando estavam saindo pela porta, dona Danielle olhou para trás e disse uma coisa à minha mãe, bem baixinho, mas eu pude ouvir:
—"Se não voltarmos em dez minutos, vão atrás de nós!"
Aquilo só deixou minha mãe ainda mais perplexa e nervosa.Mas aquela realmente não parecia ter sido uma boa ideia, eu não devia ter deixado a menina que eu amava ter ido junto com ela, não mesmo! Aquilo não parecia que iria acabar bem...
Missão: resgatar Mr.Tiggles!
As duas saíram correndo apressadamente em direção a casa. Alguma coisa parecia não estar certa....como se algo estivesse vagando por lá
Danielle tinha uma sensação estranha, como se tivesse alguém observando cada movimento, cada passo delas.
Um relâmpago divide o céu em dois, fazendo o céu inteiro clarear, e anunciando assim, o começo de um temporal. E isso fez elas correrem ainda mais rápido.
Finalmente chegaram e na casa, porém Danielle estava com tanta pressa, que não reparou que a porta de sua casa havia sido arrombada!
Assim que entraram na casa, ela logo encontrou duas malas, e então começou a encher uma delas com as jóias e outras coisas valiosas que ela encontrava pela casa. Enquanto isso, Caroline subiu para o andar de cima da casa, onde ficavam os quartos, inclusive o dela, onde provavelmente estaria o ursinho.
—Tome cuidado filha, a casa está escura, você pode acabar se machucando! – gritou a mãe, que agora estava colocando as roupas que tinham dentro da segunda maleta.
—Achei mãe!!! –Gritou a garota que estava no andar de cima.
—Ótimo filha, agora desça aqui para irmos embora – Disse Danielle enquanto colocava as roupas na maleta o mais rápido que conseguia.
Então Caroline saiu do quarto, atravessou o corredor estreito, e começou a descer as escadas, parando no último degrau.
—Olha mãe, achei ele! – Disse Caroline apertando o urso contra o peito.
— Que bom filha! Onde ele estava? –Perguntou a mãe sem nem olhar para a filha, pois estava focada em guardar as malditas roupas naquela maldita maleta!
—Não sei mãe, meu amigo soldadinho que entregou ele pra mim. Opss, ele disse pra mim manter segredo, droga!
—Olha a boc......
Antes mesmo de terminar a frase, Danielle parou de colocar as roupas no maleta e ficou paralisada por um breve minuto.
—O que você disse...fi...filha?
—O soldadinho, mãe, o homem que estava lá no meu quarto, ué.
Ela então finalmente ficou lúcida depois de ter entrado na casa.
—Filha......a porta já estava aberta quando entramos? – Ela estava a ponto de surtar em pânico.
—Sim mamãe, eu achei que a senhora tinha visto...
"Desespero"
Danielle correu em direção à filha, agarrando sua mão com força. Quando de repente a imagem de um homem surgiu no alto da escada e começou a desce na direção das duas.
— CORRA CAROLINE, CORRA, NÃO OLHE PARA TRÁS, EU ESTAREI LOGO ATRÁS DE VOCÊ!!!
A menina obedeceu a mãe, saiu da casa e começou a correr de volta para a casa de Cartman, sobre a forte chuva que começará a cair.
enquanto isso, na casa de Cartman...
—Elas estão demorando demais! –Eu gritei para minha mãe.
—Vou atrás delas! – Ela respondeu bruscamente.
Então ela começou a andar em direção a porta, a abriu e para a surpresa de todos, Caroline estava lá parada, segurando em uma das patas de um urso de pelúcia encharcado, com mão esquerda.
Antes de que conseguíssemos falar alguma coisa, o barulho de um tiro nos calou.
Caroline se virou lentamente para trás, e viu sua mãe caída sobre chão molhado pela chuva, que caia sem parar. Logo as poças d'água mudaram sua cor para um tom avermelhado em volta do corpo de Danielle.
Minha mãe Puxou Caroline para dentro usando apenas a mão direita e a jogou para dentro. E NUM ATO DE DESESPERO, FECHOU A PORTA!!!
DANIELLE ESTAVA MORTA.

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