No One Anywhere

1 O banco, o gato e a praia.


– Então... Agora você só fuma de vez em quando. De fato, sua saúde melhorou bastante desde a última vez em que nos vimos. Quando foi exatamente que você diminuiu o uso do cigarro?

Respirei fundo e evitei soltar uma pequena risada — Acho que foi quando eu descobri que eu não era o único humano vivo na terra.

– Como assim? – o médico descansou os braços em cima da mesa e voltou toda sua atenção para mim.

– Certo, acho que terei de contar em detalhes.

Aquela manhã estava perfeita, nem parecia que eu tinha, de fato, acordado. Levantei, me arrumei e saí do meu apartamento, para aquela rua vazia e quase sem cor por causa do agradável clima frio.
O gato estava deitado no banco, como sempre. Sentei-me ao lado dele e automaticamente comecei a espirrar, irritei-me e o peguei no colo, então comecei a espirrar mais ainda, porém era como se eu dissesse para a minha alergia "ei, você não pode me impedir, perdedora" sejamos sinceros, meus espirros são até bonitinhos. Felizmente, e digo isso porque gosto de estar sozinho pela manhã, não tinha ninguém ali para escutar-me espirrando, além do gato, é claro.
Então ele se lembrou de que ainda era um gato, debateu-se e desceu do meu colo, indo para debaixo do banco.
Levantei e olhei para a praia que ficava atrás dos muros daquela casa, despedi-me do gato, e fui até ela. Ninguém na praia, ninguém no banco, e provavelmente todos no prédio ainda dormiam. Devo ter ficado por uns três minutos observando o mar, quando finalmente algo chamou a minha atenção, e dessa vez, era humano.


Até aqui você deve estar pensando que eu sou o tipo de cara melancólico do qual ninguém gosta de ficar perto. Errado, o lugar onde moro é quieto, e todos os "amigos" que já tive foram buscar algo melhor para fazer fora daquele lugar, as namoradas que tive lutaram contra si mesmas para poder me deixar, e acho que magoei o coração de algumas pessoas quando não deixei escapar o mínimo de tristeza que poderia estar sentindo no momento em que estavam partindo.
Bem, eu trabalho com entregas, sei consertar algumas coisas, e digamos que uso a internet apenas para upar algumas musicas que crio no meu tempo livre, eu ganho o suficiente para ver várias pessoas em vários lugares todos os dias, até a manhã de domingo chegar novamente. Agora, humanos, fazia tempo que eu não via um de verdade. Aliás, fazia tempo que eu não me sentia um também.


Ela estava chutando a água, olhando para o mar assim como eu, e sempre que ventava forte, ela abria os braços. Seus cabelos marrons e curtos e sua blusa de manga comprida e larga balançavam de um lado para o outro, e ela parecia pouco se importar com a água quase atingindo a barra de sua calça.
Voltei minha atenção para o mar novamente, torcendo para que ela não olhasse na minha direção. Não porque eu não queria a companhia dela, mas porque ela poderia vir a não querer a minha depois de trocar pelo menos duas palavras comigo, e eu não estava preparado para isso. Na verdade eu nunca estava preparado para nada quando o assunto era... Assuntos.
Porém, com o canto do olho, vi que ela voltava sua atenção para mim, vez ou outra. Depois de um tempo ali, parado, virei em sua direção e esperei que ela me olhasse, e quando isso aconteceu, eu lhe acenei. Ela devolveu o aceno com uma expressão divertida no rosto, então eu dei meia volta e fui até o banco, acariciei o gato mais uma vez, espirrei duas e atravessei a rua, logo depois adentrei o prédio e fui até o meu apartamento.


Assim que entrei, fui até o espelho que ficava no meu quarto. Eu parecia o tipo de cara do qual alguma vovó ou vovô religioso pararia ao lado na cafeteria e iniciaria uma conversa sobre fé e estilo dos jovens de hoje em dia. Com 21 anos, eu já havia passado por aquilo algumas vezes, e devo dizer que não era tão ruim assim. Idosos são bem engraçados, principalmente quando o assunto muda de religião para sentimentos.


Meu cabelo castanho jogado para o lado, a barba que eu não pretendia fazer por um bom tempo, o cachecol preto que não esquentava nada, e a jaqueta marrom e pesada que eu usava quase o tempo todo. Sempre que precisava coloca-la para lavar, eu me sentia nú ao sair na rua.
Olhei para minha camiseta preta desbotada, ainda estava cheia de pelos brancos por causa do gato. Perguntei-me por quanto tempo aguentaria sem espirrar caso começasse a bater a camisa para me livrar dos pelos, descobri que não durava nem cinco segundos.
Não, eu não entrei no apartamento apenas para me olhar no espelho. Andei até o meu guarda roupas, abri uma das portas, apanhei minha carteira, o isqueiro e o maço de cigarros, então saí novamente.
Era bem fácil ir e voltar desse jeito, eu morava no segundo andar, devia ser o cara que menos parava em casa.

Desci as escadas com calma, saí do prédio e caminhei até a calçada do outro lado da rua onde o banco e o gato continuavam me esperando. Dei a volta no banco e debrucei sobre o muro que tapava a visão da areia da praia, acendi um cigarro e fiz de tudo para limpar a minha mente. Odiava pensar muito logo pela manhã, minha cabeça doía e eu sentia uma vontade estranha de gritar de ódio. Pensar demais sempre me fez mal, principalmente quando eu acabava chegando à conclusão de que as coisas estavam dando errado.

A fumaça começava a me incomodar no momento em que eu a vi novamente. Eu não tinha certeza, já que estava um pouco longe, mas a expressão tranquila de seu rosto parecia ter mudado para uma de desgosto. Ela olhava feio para a areia enquanto andava, dei uma tragada no cigarro e tentei desviar minha atenção, mas não deu muito certo. Ora, a culpa não era minha se aquela garota era a coisa mais interessante que estava acontecendo naquele lugar.

Então, ela se virou na minha direção, e assim que me viu lançou novamente um olhar amigável. Eu devolvi, e acho que isso foi o suficiente para fazê-la vir falar comigo. Traguei o cigarro mais uma vez e soltei a fumaça, depois o apertei contra o muro, apagando-o. A garota subiu as escadas que levavam da praia até a rua e parou ao meu lado, virei-me para ela e esperei que dissesse algo.

Ela ergueu uma das mãos para um pequeno aceno. – Oi – disse ela – você mora naquele prédio ali, né? Outro dia eu te vi saindo.

– Sim... – cocei o pescoço – então você é daqui? Eu nunca tinha te visto.

– Sou sim, mas quase nunca venho aqui – ela se debruçou no muro para observar a praia – mas acho que vou passar a vir pelas manhãs, é muito mais quieto e frio. A propósito, meu nome é Cheryl.

– Larry – disse eu, apertando o cigarro apagado entre os dedos – você disse que me viu saindo do prédio outro dia, isso é bem estranho. Eu estava carregando alguma coisa?

– Que eu me lembre, você tinha uma pequena bacia nas mãos.

– Ah, então foi isso – voltei-me para o banco onde o gato dormia – de vez em quando eu saio para dar comida pra ele.

A garota se virou e foi até o banco, sentou-se a acariciou o gato com cuidado, provavelmente esperando para levar uma mordida ou ser arranhada, mas isso não aconteceu. – por que você não o leva para o seu apartamento? – perguntou ela.

Arqueei as sobrancelhas, andei até o banco e peguei o gato no colo. Poucos segundos depois saiu o primeiro espirro, depois o segundo, então coloquei o gato de volta. Porém eu não contava com o fato de não conseguir parar de espirrar, já estava no quinto espirro quando me irritei e dei um pulinho, como quem queria gritar “Ta bom, já chega!”

– Ah, droga! – disse, recompondo-me.

Cheryl riu – Seus espirros são bonitinhos.

– Você acha? – sorri para ela – bem, é por causa desses espirros que eu não levo esse carinha para morar comigo, e como se não fosse suficiente, eles não permitem animais no prédio a partir do segundo andar. É uma pena, eu realmente adoro gatos.

– Que chato... Bom, pelo menos você cuida dele, isso é legal. – Cheryl se levantou e pôs-se a me observar.

Olhei para os lados sem saber o que dizer ou fazer, não tinha ideia do motivo pelo qual ela estava me olhando tanto, então resolvi perguntar.

– O que foi?

– O seu casaco é enorme! Eu posso experimentar?

Não fiz mais perguntas, apenas assenti e tirei o casaco, enquanto ela fez o mesmo com sua blusa de frio. Joguei o casaco por cima dos ombros dela, que depois de me passar sua blusa, terminou de vesti-lo. Meu casaco servia como um cobertor para ela, e se o fechasse, seu rosto certamente sumiria, e isso pareceu tê-la agradado.

– Como eu pensei, seu casaco me engoliu – ela sacudiu os braços para que as mangas folgadas balançassem de um lado para o outro – hmm... Tente vestir a minha blusa!

Nem preciso descrever como uma das mangas daquela blusa de frio nem conseguiu passar pelo meu pulso. Não aguentei aquela situação, soltei uma pequena risada e lhe devolvi a blusa, enquanto ela tentava tirar meu casaco sem deixa-lo cair. Ela colocou a blusa de frio e eu joguei o casaco por cima dos ombros, Cheryl acariciou o gato mais uma vez e então se voltou para mim.

– Eu tenho dois gatos, um é adulto e o outro é filhote – ela passou o peso de uma perna para a outra – o prédio onde moro não é tão longe, da para ir a pé. Você quer vê-los?

Até então eu já estava achando estranho o fato de que ela estava se esforçando para manter uma conversa comigo, e espantado pelo fato de que eu estava gostando de conversar com ela. Fazia tempo que eu não falava com alguém que aparentava ter a minha idade, e se eu recusasse, passaria o resto do dia trancado no apartamento ouvindo musica e pensando no que não queria pensar. Respirei fundo, guardei o que sobrou do cigarro no bolso da calça e disse:

– Quero. Qual é a cor dos seus gatos?

Ela sorriu, segurou meu pulso e saiu me puxando até seu apartamento. De fato não era muito longe, o gato adulto era cinza e o filhote era preto, não possuíam nome definido, talvez pelo fato de que ela os chamava constantemente de “bebê”, e se me lembro bem, devo ter dado uns 4 pulos enquanto espirrava dentro do apartamento. Não demorou muito para que Cheryl notasse que aquilo era uma mania minha, e não demorou muito para que eu notasse que não passaria mais as manhãs de domingo sozinho, nem as tardes de segunda na cafeteria, ou as noites na praia.

Acho que posso dizer que, em dois dias, nós já sabíamos muito um sobre o outro, e por incrível que pareça, aquilo não me preocupou da forma que deveria. No domingo seguinte, havia alguém no banco, sentado ao lado do gato, esperando para caminhar comigo na praia depois de me ouvir espirrar.