Cheryl não era quieta, mas também não fazia o tipo agitada, que vivia saindo. Tinha alguns amigos que moravam por perto, outros até moravam no mesmo prédio que ela, esses saíam sempre que tinham chance.
Cheryl não trabalhava, estava naquela cidadezinha silenciosa porque precisava descansar, acabara de sair de uma depressão, parte dela causada pelos problemas familiares e outra por causa da faculdade. Ela me disse que ficaria lá por alguns meses até que sua saúde melhorasse, para que ela não corresse o risco de delirar novamente. Bem, aos meus olhos ela parecia estar cem por cento bem, e, pelo menos quando estava perto de mim, não parecia estar triste ou preocupada.

Não demorou muito para descobrir que, assim como eu, ela tinha suas manias e vícios. Eu simplesmente perguntei "Você quer ir até a cafeteria quando sairmos daqui?" e ela jogou os braços para cima, dizendo bem alto "CAPUCCINO!" e no instante seguinte lá estava eu, bebendo café enquanto a observava conversar com a garçonete. Foi nessa conversa que descobri, Cheryl adorava cães tanto quanto adorava gatos, mas o prédio em que vivia não permitia a entrada de cães.


Eu também gostava, tive um pastor alemão quando era pequeno, ele morrera dois anos antes de eu me mudar para essa cidadezinha, estava bem velho e fraquinho, partiu como se estivesse apenas dormindo.
De repente, Cheryl voltou e se sentou ao meu lado.
– Ei, eu não quero ir para casa ainda – disse ela – você quer ir até o bar? Alguns amigos queriam me encontrar lá mais tarde.

Eu não tinha mais o que fazer. Assenti, ela sorriu, eu sorri de volta, e ela descobriu naquela noite que eu fumava, mas não bebia. Por alguma razão as pessoas sempre esperam que você beba, caso seja fumante, não era a primeira vez que eu escutava "ué, você não bebe?"

Bem, aquela noite foi melhor do que eu esperava. Nós chegamos, os amigos dela me cumprimentaram, Ryan era um cara divertido, apesar de ter uma aparência séria, Brenda era uma garota brincalhona que adorava falar sobre a infância, e Alex era o tipo de cara que fica bêbado nas primeiras duas doses. Eram pessoas legais, pessoas legais que eu nunca mais veria.


Tivemos a chance de conversar de verdade quando saímos do bar, já estava escurecendo quando resolvemos nos despedir dos amigos dela e voltar pra casa.
O céu possuía um colorido acolhedor, alaranjado meio branco e azulado, o barulho das ondas vinha acompanhado do vento, que parecia tentar achar um jeito de nos abraçar.
– Seus amigos são legais – disse eu, simplesmente – fazia tempo que eu não ria daquele jeito com alguém.


– Bom, então você precisa sair mais com a gente – disse Cheryl, balançando os braços para frente e para trás, brincando com o vento – O que acha de irmos até a próxima cidade amanhã? Não é tão longe daqui, e pelo jeito você nunca foi até lá.

– Sair daqui? Eu não tento fazer isso desde que os meus pais morreram – eu cocei a nuca.


Cheryl pareceu ficar meio abalada, parou de balançar os braços e adotou uma expressão séria ao rosto.
– Posso... Perguntar como foi que eles morreram?


Cruzei os braços e fiz uma careta, lembrando-me de como aquela história me dera dor de cabeça durante muito tempo. Mas eu já não me importava mais de ter que falar sobre ela.
– Meu pai tinha uma moto, ele me emprestava para dar umas voltas de vez em quando – disse eu – eu estava preparando minha mudança para cá quando meu pai resolveu levar a minha mãe até a cidade, para fazer sabe lá Deus o que. Eles pegaram a moto e no meio do caminho foram assaltados, meu pai reagiu para defender minha mãe, levou um tiro no peito, enquanto minha mãe levou três tiros no tórax. Eles levaram tudo, menos a moto.


Cheryl pareceu surpresa – Meu Deus...


– Então a polícia me avisou, eu me mudei para ca e deixei a moto no estacionamento do prédio, nunca mais a usei. Parece que perdeu a graça andar com ela depois de tudo o que aconteceu. Mas, e você? Como veio parar aqui?

Cheryl endireitou a postura.
– Bem, minha família é muito imatura e possessiva, quando eu não estava na faculdade, tinha de ficar em casa para ouvir as cobranças da minha mãe e as brigas dela com o meu pai, sem falar sobre os problemas que o meu irmão mais novo tinha no colégio. Quando arrumei um emprego para pagar a faculdade tudo ficou pior, eu quase enlouqueci, comecei a entrar em pânico sempre que saía de casa e logo fui atrás de uma terapia. A psiquiatra disse que seria melhor se eu desse um tempo em tudo, por isso me mudei para ca temporariamente.

– Que tenso – comentei – pelo menos você parece estar bem, agora. Até fez amigos aqui.

– Sim! E eu ainda não desisti de te levar até a próxima cidade, Larry – ela voltou a se animar – tem muita coisa legal para ver lá, e poderíamos ir na sua moto, talvez você volte a gostar de usa-la.

Ela estava certa, mas eu tinha medo, medo de voltar a me sentir mal, medo de não saber mais como pilotar aquela moto. Pior, medo de não saber mais como pilotar os meus sentimentos.
Mas, eu precisava tentar, precisava sair daquela cidadezinha e ver algo novo, seria a primeira vez desde que havia me mudado.
Animei-me, ainda meio receoso, voltei-me para Cheryl e disse:

– Certo, quando iremos?

Ela sorriu vitoriosa – Amanhã às oito da manhã!

Na manhã seguinte, eu acordei me sentindo estranho. Eu não sentia nada errado, nem mesmo desejei voltar a dormir. Arrumei-me, coloquei o maço de cigarros, as chaves e o isqueiro no bolso do casaco, depois saí.
Do outro lado da rua, lá estava o gato, o banco e a praia. A única diferença era que, ao lado do gato, sentada no banco de costas para a praia, estava Cheryl. De repente eu já não me sentia tão sozinho, atravessei a rua e quando cheguei mais perto, ela me cumprimentou.

– Oi, Larry.

– Oi, Cheryl – então voltei-me para o gato e peguei-o no colo – oi, gato.

E três segundos depois eu estava espirrando. Sete espirros, um pulo, e a Cheryl rindo da minha cara. Devolvi o gato para o banco e como se não se importasse, ele apenas deitou e voltou a dormir.

– Bem, vamos? – perguntou Cheryl, acariciando o gato.

– Certo, vou tirar a moto do estacionamento.

Assim eu fiz, e segundos depois nós estávamos em cima da moto, Cheryl abraçando minha cintura enquanto eu a ligava. Quando finalmente saímos do lugar, não acreditei no que estava sentindo.
Achei que ficaria triste, nervoso, com a cabeça cheia de pensamentos ruins, mas ao invés disso senti algo que achava nunca mais ser capaz de sentir. Senti o vento me abraçar, como nas vezes em que meu pai me emprestava a moto para sair, e enquanto o som das ondas ia sumindo, o cheiro das árvores ficava mais forte. Eu estava em paz, e foi a primeira vez em anos que eu consegui pensar aquilo com total certeza.

Pouco tempo depois estávamos na cidade vizinha, de acordo com Cheryl, o lugar era um pouco maior que a nossa cidadezinha.
Vi vários bancos, outros gatos e uma praia bem maior, mas nenhum deles me passava a mesma sensação boa (a não ser os gatos, eu adoro todos os gatos).
Havia outras cafeterias também, um parque, pessoas indo e vindo. Era tranquilo, mas não era tão quieto.
Quando voltamos já era noite, eu me diverti bastante, e quando me dei por conta, já não estava mais passando todas as manhãs com o banco, o gato e a praia, mas sim com Cheryl e a moto.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.