No Nightmares
3 O Encontro
Armstrong’s Home
às 4h30min, escuridão, madrugada gelada
A noite havia passado muito rápido, e os livros de capas velhas e embolorados ainda permaneciam sob meu corpo, espremendo-o contra as colchas que forravam o sofá antigo. Sentia como se agulhas de madeira estivessem espetando todo meu dorso durante horas, e agradeci quando em uma braçada consegui retirar todos os livros de cima de mim. Era cedo demais. Defini isso por que os raios ainda não penetravam os talhos na madeira antiga da casa. Mas eu não podia mais permanecer ali. Levantei, soltando um longo bocejo, enquanto caminhava até a cozinha ainda meio zonzo, com os pés escorregando em várias partes do tapete persa. Fiquei parado defronte o armário, até me dar conta de que estava sem me alimentar a dias.
Nesse instante, senti uma ardência enorme na garganta, e minha pele assumiu uma coloração acinzentada, enquanto eu me apoiava em uma cadeira medieval para conseguir me manter de pé. Eu havia prometido para mim mesmo que jamais me alimentaria de humanos novamente — mas naquelas circunstâncias era impossível permanecer fiel a minha dieta. Eu precisava me manter forte. Eles poderiam chegar a qualquer momento, e eu precisava lutar — precisava me manter vivo.
Caminhei de volta ao local onde havia acordado, subindo as escadas que rangiam a cada passada que eu dava. Aspirei um pouco de ar em uma janelinha com vidraças coloridas em forma de losangos, continuando a subida até o quarto. Era estranho. Eu não precisava comprar roupas periodicamente, afinal, meu tamanho sempre era o mesmo, e embora eu não fosse nada novo — afinal, velho é pouco para definir 256 anos de vida e experiência como caçador. Esbocei um sorriso para o ar, entrando em um cômodo sem porta. Era aparentemente um quarto antigo. Longas cortinas de camurça tomavam conta das janelas de azevinho, contrastando com uma enorme cama coberta por mantas vermelhas e um criado-mudo amarrotado de livros.
Passei o dedo pelas prateleiras do quarto, sorrindo ao ver a quantidade excessiva de pó que havia ficado em meu indicador. Analisei por alguns segundos os livros, suas capas. Eram antigas recordações, que me traziam certa nostalgia. O sorriso se desfez em meus lábios quando lembrei o motivo de ter saído daquela cidade. O motivo pelo qual fugi durante todos esses anos, e também o motivo pelo qual eu retornava aquela cidade. Fitei a porta arrancada, lembrando-me do desespero em que me retirei dali. Aqueles pensamentos me traziam grande dor, embora eu soubesse que poderia destruí-las a qualquer momento. Mesmo soando masoquista, eu não queria que a dor fosse embora. Eu queria lembrar. De tudo.
Sacudi a cabeça, sentindo minhas madeixas tombarem sobre meus olhos enquanto caminhava até o guarda-roupa, tomando certo cuidado ao abri-lo. Retirei algumas peças de roupa e joguei-as em cima da cama, observando ligeiramente uma foto em cima do criado-mudo. Meu coração disparou. Era forte demais pra mim, já fazia tempo demais, já haviam acontecido coisas demais. A foto sequer se mexeu — o sorriso perfeito de Cassie estampado em seu rosto quase imaculado. Semicerrei os olhos, caminhando até a cama e recolhendo as roupas, para sair dali o mais rápido possível. Atravessei o lugar onde deveria haver uma porta, indo até o banheiro.
Chancer Harbor Café
às 06h, tempo nublado, sol escasso
Eu estava ofegante. Saber que eu estava prestes a descumprir uma das promessas mais importantes da minha vida não ajudava muito. Enfiei as mãos dentro dos bolsos da jaqueta de couro, indo até a porta do estabelecimento. Apenas uma garçonete operava o local, colocando água quente dentro da cafeteira. Ela sorriu para mim, e isso de certa forma me machucou. Ela iria morrer, hoje, e mesmo sem ao menos imaginar de que seus últimos minutos estavam rodando, sorria.
Retribui a cortesia, sentando-me em um dos banquinhos próximos ao balcão. Pedi um dose de uísque. Minha respiração ofegante fez a moça me analisar por alguns segundos, sacudindo a cabeça após caminhar na direção da prateleira de bebidas. Ela colocou um copo em minha frente, enchendo-o até a borda.
— Tome tudo. Vai ajudar você, seja qual for sua dor, — ela sorriu, voltando a enroscar a tampa na garrafa de uísque genuíno — bebida cura tudo.
— Obrigado.
Golada por golada, engoli o conteúdo do copo. A tensão fazia minhas mãos tremerem, e isso de certa forma assustou a moça, que meio desconfiada jogou o copo na pia, esfregando-o com um pano enegrecido e sujo. A ardência em minha garganta subia cada vez mais, mas eu tinha que aguentar. Eu não iria matá-la. Não naquelas circunstâncias, não ela, não naquele lugar. Toda minha convicção se foi quando o copo escapuliu da mão da garçonete, e um caco cortou seu anelar.
Veias surgiram ao redor dos meus olhos, e minhas íris assumiram um tom de vermelho muito intenso. Minhas presas surgiram e eu apaguei. Pequenos flashs conscientes tomaram conta de minha cabeça. Gritos, desespero, dor, sangue. Só voltei para mim quando meus lábios enchiam-se de um líquido rubro e extremamente delicioso. A garçonete estava caída no chão, uma marca de mordida exposta em seu pescoço pálido. Ela estava morta.
Limpei meus lábios com as costas da mão, horrorizado. O que eu faria agora? Eu havia acabado de chegar na cidade, e sabia que os habitantes saberiam do que se tratava. Agora eram dois problemas. Não tive muito tempo para pensar. Um homem atravessou a porta do café, e senti todo meu corpo tremer e ser lançado contra o balcão, rolando e sendo arranhado pelos cacos de vidro do copo.
— Eu disse para nunca mais voltar aqui, Jake.
O homem sorriu maliciosamente, enquanto meu corpo era esmagado contra as prateleiras e meu pescoço era espremido por algum tipo de força invisível. Os cabelos negros e escorridos revelavam a figura. Adam Connant estendia uma das mãos para mim, como se enforcasse o ar. Mas ambos sabíamos quem na realidade ele enforcava com sua magia. Eu senti o ar escapando de meus pulmões, e aos poucos fui desfalecendo, tendo apenas alguns vislumbres de mais pessoas entrando no local, aproximando-se do meu corpo. Eu definitivamente apaguei.
Circle’s Home
às 9h, poucos raios de sol, frio
Aos poucos fui abrindo os olhos. Senti cordas apertando meus braços um contra os outros, tal como a ardência em ambos. Era verbana, nas cordas. A dor era insuportável e mesmo acordado, pouco podia me movimentar. De relance ouvi uma voz que de súbito fez meu coração acelerar. O doce e sério timbre de Cassie soava mais alto do que os demais, protestando em minha defesa.
— Definitivamente não! — protestou a voz, em tom de revolta — Ninguém toca no vampiro até segunda ordem.
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