Circle’s Home

às 10h, muito escuro, frio


Realmente, já não tinha mais esperanças de sair dali. A verbena escorria pelos meus pulsos, provocando uma angústia incomparável. A poucos minutos atrás, após uma grande discussão a sala havia ficado em completo silêncio. Apenas o gotejar de uma infiltração no canto do que parecia ser um porão atormentava meus ouvidos sensíveis. Naquele momento eu tinha certeza que morreria. O sangue da garçonete já não era mais suficiente. A verbena tinha feito tudo piorar, e minha pele já assumia uma coloração acinzentada. De certa forma, tudo aquilo me consolava. Eu havia cumprido minha promessa — eu havia voltado, para vê-la. A dor começou a me provocar alucinações muito fortes, me levando a lembranças de muitos e muitos anos atrás.


Flashback — Mansão Blake

ano de 1872, aniversário de Cassandra Blake


[...] Atravessei o portal de mármore, ajustando o lencinho negro que envolvia meu pescoço — não queria que vissem as marcas das diversas mordidas de Pearl. Nesse momento, Lílian Lockwood passou por mim, esboçando um sorriso que mais parecia um aviso. Eu entendi tudo, e nesse instante caminhei atrás dela, esbarrando em diversos homens engravatados, que bebiam bons uísques enquanto conversavam sobre seu cotidiano boêmio. Eu nunca entendi, por que tinha que precisava proteger pessoas tão patéticas.


Lílian parou num canto escuro, onde apenas um vaso adornado por gramíneas e lírios residia. Senti meu coração acelerar quando ela retirou a luva de seda esbranquiçada da mão direita, recuando alguns passos em direção a luz. Ela sorriu, me olhando como se naquele momento eu tivesse sido um completo idiota.


Acho que se eu te quisesse morto você já estaria, Jake — ela movimentou os dedos, como se estivesse aquecendo-os.


Eu não teria tanta certeza, srta. Lockwood — concluí, os lábios ligeiramente cerrados, enquanto meus dentes rangiam — mas não vim aqui para conversar sobre como a senhorita planeja me assassinar. Eu vim pelas bruxas. Onde estão?


Não tenha tanta pressa, Jake. Elas estão no porão, — ela me interceptou com a mão sem luva, quando eu já me adiantava na direção do final do corredor, fulminando-o com os olhos — seja discreto, tenha calma e não deixe vestígios. Repito. Não deixe qualquer vestígio, mate todas. Todas, Jake.


Assim que a mão de Lílian saiu de meu caminho, me adiantei, recolhendo uma mala que se escorava em um pilar de gesso, cheio de escritos antigos. Conferi se tudo se encontrava lá, caminhando pela velha mansão como se fosse um morador. Me adiantei até uma porta antiga, com vidraças católicos que representavam a morte dos hereges na Inquisição. A chave estava na porta, apenas a girei. Tudo estava em silêncio, aparentemente todas estavam dopadas.


Desci, degrau por degrau, atirando a mala de couro lá em baixo. Não pude contar, mas eram três ou quatro em cada pilar. Existiam uns cinco pilares, então, teria que me adiantar caso quisesse terminar o trabalho antes do sol amanhecer. Retirei alguns frascos de vidro e os depositei numa mesa de mármore, entalhada perfeitamente. Em seguida, puxei a adaga do coldre que se prendia à minha cintura, por baixo do paletó desenhado em giz.


O trabalho foi automático, e eu pretendia ser rápido. Um frasco para cada bruxa, uma gota de sangue e raiz de mandrágora suficiente para acabar com todas elas. Fui dividindo as raízes nos frascos, delicadamente, para que nada se perdesse durante o processo. Em seguida, peguei o primeiro frasco, caminhando até a que agora seria a primeira bruxa. Abri um talho com a adaga em seu braço, despejando o sangue dentro do frasco. O processo se repetiu várias e várias vezes, até a última bruxa. Me assustei quando abri o talho na última delas — era Cassie Blake, filha de Cassandra.


Não conseguia mais me mexer. Meus olhos agora estavam vidrados em suas madeixas loiras e cacheadas, desejando-a de forma avassaladora. Os olhos dela semicerram, e suas íris azuis podiam claramente serem vistas. Ela era linda. Por um momento hesitei, mas as palavras de Lockwood soaram mais alto em minha cabeça. Deixei uma gota de sangue escorrer para dentro do frasco, e juntei ele aos outros, puxando uma caixinha de fósforos.


Acendi o primeiro, jogando-o no frasco mais próximo de minha mão. Olhei para trás e vi uma das mulheres crepitarem em chamas. Eu sorri. Aquilo era tão divertido e ao mesmo tempo sádico. Tanto tempo tentando arrumar uma forma de matá-las e agora tudo parecia tão simples. Comecei a deixar risadas escaparem, queimando as mandrágoras misturadas com sangue em todos os outros frascos, um por um, o prazer visível em meu olhar.


No final, quase todas as bruxas já estavam consumidas por chamas, algumas já até haviam virado cinzas negras misturadas com brasas. Todas, exceto uma. Eu hesitava em acender o fósforo para queimar o último frasco. Não conseguia tirar o olhar de Cassie, ate que ela acordou. Tudo se tornou mais difícil ainda.


O-ond-onde estou? NÃO! NÃÃÃO! — ela olhou para os lados, vendo os cadáveres das outras bruxas crepitarem em chamas, outras ainda ardendo sob o fogo azulado.


Não se preocupe. Você terá o mesmo fim que elas, e então, todas poderão se encontrar, longe daqui — tentei acalmá-la de forma insana.


Q-que-quem é você? Não me mate, por favor! — suas palavras soaram várias e várias vezes em minha cabeça, sendo repetidas quase que num mantra.


Circle’s Home

às 15h, muita luz, calor


Meus olhos abriram vagarosamente, e tudo que pude enxergar foram duas figuras que eu realmente não conhecia. Uma delas, tinha o cabelo curto e negro, a pele morena contrastava com os olhos esverdeadas e bochechas rosadas, ela sorriu. A outra possuía um cabelo longo e escorrido, extremamente loiro — os olhos azuis me lembravam o devaneio que a pouco eu mergulhava.


C-Ca-Cassie? — minha voz era falha e sufocada.


Cassie? Como você conhece a Cassie? — a morena indagou, os olhos esverdeados fulminando-o em tom de dúvida. Aparentemente chocada, ela permaneceu me encarando.


Temos que tirá-lo daqui, Bonnie, o círculo vai mata-lo! — a loirinha arrumou suas madeixas atrás da orelha, e ambas começaram a desamarrar as cordas, tentando me erguer do chão, onde uma poça de água se estendia, em volta de mim.


Eles pretendiam queimá-lo — a morena, suposta Bonnie, observou a poça d’água, horrorizada — vamos, depressa.


As coisas foram ficando confusas e minha visão muito embaçada. As duas garotas foram ficando cada vez mais distantes e meu corpo começou a tremer, cada vez mais forte. Tudo começou a escurecer e apenas os berros de Cassie, implorando por sua vida, soavam em minha cabeça, várias e várias vezes.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.