No More Secrets

13 Até que a morte os separe.


Notas iniciais
Cá estamos nós. No último capítulo antes do epílogo. Uau. Nem parece que faz quase um ano que eu comecei a escrever isto. Mas dá pra notar o quanto eu evoluí nesse ano e nessa fanfic. Ou melhor, o quanto eu evoluí com ela. No início do ano, eu tinha decidido começar a escrever fanfics. Não apenas para mostrar a todo fandom o quanto os meus ships são extremamente bizarros e doentios (todavia compreensíveis XD), mas para melhorar a minha escrita na qual eu nunca gostei (Pois, aliás, eu sou um escritor. Com alguns trabalhos originais publicados ^^’’ acho que poucos daqui sabem disso) e Gravity Falls foi a minha porta de inspiração para isso. Eu sempre fui do tipo de pessoa que sempre odiou estórias clichês e previsíveis, e uma pessoa que também sempre amou ler e consumir estórias que os outros criam no geral. E eu acho que as plataformas de fanfictions são uma incrível via de entrada para que as pessoas pudessem compartilhar suas fantasias pessoais e inspirações para, no final, estarem mais seguras sobre si mesma. Mas, teve um particular momento que eu notei que as fanfics nacionais estavam seguindo um padrão muito chato. O da mesmice. E eu, com a particularidade dos meus ships e a meu foco em criar uma escrita diferente na qual eu estava acostumado, me vi tentado a escrever e compartilhar essa história aqui. A chance de mudar tudo isso. De me mudar e mudar os outros ao meu redor juntamente. E eu nunca esperei me sentir tão mudado e satisfeito assim. É claro, ainda só estou começando. Me vejo ainda com muito a melhorar. Com muito ainda a crescer... Mas eu gostaria de agradecer a satisfação não só à minha conquista, mas a vocês também. Eu comecei a postar achando que ninguém iria ler, até porque eu não estava com um grande ímpeto de fazer algo sério com essa fic para que as pessoas lessem. E fui surpreendido com esse turbilhão de comentários, visualizações e favoritos. Não só aqui, mas no Nyah também. Embora eu reconheça que minha fic não seja lá aquela famosona com inúmeros likes e repercussões de ficar na home da categoria de “Gravity Falls”, eu reconheço absurdamente o poder que vocês induziram em mim. Não me deparei apenas com comentários, não me deparei apenas com favoritos e estrelinhas. Me deparei com pessoas, me deparei com amigos! :) Encontrei com pessoas que foram capazes de me levantarem do fundo do poço. Pessoas que, absurdamente, sem me conhecerem viram a maior profundidade dos meus sentimentos. Seja isso nos parágrafos desse texto, seja isso nas conversas que tivemos pelos comentários e mensagens privadas. A magia de ter pessoas que você não conhece, mas que ao mesmo tempo você se sente tão ligado e compreendido é inexplicável! MUITO OBRIGADO! >//w// (O epílogo saí amanhã, no dia treze. Cedinho. Praticamente dois capítulos seguidos. Pois vocês merecem!) Recomendo essa música para vocês escutarem (e chorarem XD) lendo os últimos capítulos – foi ela que me inspirou: Gersey - Endlessness

Filetes rúbeos de sangue serpenteiam quase que invisivelmente pelo suéter de Ford. De joelhos, Dipper Pines observava a cena que jamais esqueceria. Suas mãos tremulas estavam postas sobre o peito de Stanford, numa tentativa miserável de conter o sangramento. A cabeça abaixada no nível dos olhos quase sem vida do seu tio avô criava uma cortina com seus cabelos castanhos, separando os dois. Um arroubo de algum sentimento afligia o coração de Dipper. Por mais inesperado que parecesse, ele havia se pego ali. Tentando decifrar qual era aquele sentimento. Ele nunca havia sentido algo tão massacrante assim. Era preciso manivelar constantemente seus comandos para que seu corpo pudesse realizar as tarefas mais básicas, como respirar. Suas percepções se fechando para dentro dele, como se o mundo todo houvesse escolhido encolher naquele momento. Mason Dipper Pines estava vendo Stanford Pines morrer diante dos seus olhos. Dipper Pines estava vendo a pessoa que o acolheu, a pessoa que o protegeu, a pessoa que largou – literalmente – o universo inteiro por ele, a pessoa que o consolou, a pessoa que ele amava. A pessoa que ele amava de volta e nem sequer teve tempo o suficiente para oficializar aquele sentimento entre os dois. A pessoa que era o seu tio. Morrendo. Ali. Entre os seus dedos miseravelmente inúteis.

Dipper poderia chorar,

mas aquilo estava muito além das suas lágrimas.

No meio do tornado, um ponto fixo surgiu. Um sorriso margeado nos lábios de Stanford. Como ele ainda era capaz de sorrir depois disso tudo? Dipper teve vontade de gritar. Foi contido pela mão tremular do tio que tocou uma das bochechas dele.

— Você... salvou... o mundo, Dip. – disse sôfrego. – Eu... estou... orgulhoso do meu lobinho.

— Ford...! – Dipper tentou pronunciar algo, mas uma enxurrada de perdição atravancou a sua garganta. Os dedos fracos de Stanford mal conseguiam apertar as bochechas do garoto. Pines queria pedir para que o seu tio permanecesse quieto, que evitasse ao máximo fazer algum tipo de esforço, pois isso poderia piorar as coisas. Iria encurtar o fio de esperança que Dipper mantinha.

— Desculpe,... por tudo. – seu olhar moldou-se num melancólico. – Se eu não... se eu não tivesse...

— Não! – Dipper vociferou, o berro fazendo seus pulmões virarem ao contrário. – Não diga isso, Ford! Lhe imploro! Nada disso é culpa sua! Eu... eu sempre amei você, desde o princípio. Eu... eu escolhi tudo que veio entre nós! Eu escolhi ser seu aprendiz! Se for para culpar alguém, me culpe!

— Dipper... – Ford sorriu mais uma vez, correndo os seus dedos trêmulos até à testa do garoto. Deixando a pele de Dipper maculada com os traços do sangue. O tio tocou a marca de nascença do sobrinho. Os seis dedos sobre a constelação. Duas marcas. Duas singularidades. Um mesmo sentimento. Um mesmo poder. Tão próximos, mas tão distantes. – Você sempre foi... o garoto mais corajoso que eu já conheci.

— Não sou! Eu... eu não fui capaz de te salvar! Não fui capaz de me salvar.

— Isso não importa agora. O que importa... é que você salvou sua irmã. E o resto.

Dipper se perguntou se era aquilo mesmo. Se ele tinha mesmo salvado sua irmã. Se ele tinha mesmo salvado mais alguém. Ele sabia que não tinha salvado a si próprio.

“Será que isso tudo realmente valeu a pena? Será que realmente a vida de Ford valeu a pena por mim e os outros?!”

Por mais que Dipper tentasse se convencer de que aquilo era necessário, a dor que ele sentia era maior do que a de qualquer outro Apocalipse que ele pudesse imaginar.

Estava além da sua capacidade de compreensão.

Está além da forma que Stanford poderia sorrir com aquilo tudo.

— Não! Não era para acabar assim!

— Sim, Dipper. Era. Afinal... você cumpriu a nossa promessa. Você esteve comigo...

“... até o fim do mundo...” Dipper emendou a frase nos seus pensamentos.

Ford tentou acaricia-lo, mas sua mão fraquejou, fazendo o seu braço desabar de volta ao chão com um rompante. A palidez começara a se estampar no rosto de Ford, o branco se estendendo na medida em que a mente de Dipper se esvaziava de pensamentos assim que o seu tio começava a fechar os olhos.

“Não! Pelo amor de deus, Ford! Não feche os olhos!”

Não. Nada daquilo valia a pena.

Todos os sufocos que Dipper havia passado. Todas as noites em claro, todas as carências, todas as necessidades. As vezes em que ele fora rejeitado por Ford, os anos que se passaram com ele crescendo imerso nos suas descrenças, nas suas dúvidas, os anos em que ele cresceu tendo como sua única companhia a solidão... Nada. Nada era como aquela dor.

Dipper nunca desejou tanto não existir.

Achar uma forma de não ser a bola de neve que causava o seu próprio desastre.

Ford fez um gesto que Pines pôde entender de imediato. Ele apontava para dentro do próprio jaleco. Dipper relutou ao ter que tirar as mãos por de cima do ferimento.

— Você quer que eu pegue algo? – ele perguntou. Ford não respondeu. Ele não conseguia. Mas também não era necessário. Dipper estendeu a mão e alcançou o bolso externo do casaco. Seus dedos tatearam um objeto relativamente pesado. Ele o puxou. Seja o que fosse, estava muito bem guardado no embrulho feito de pano. – I-Isto é pra mim? – questionou, esforçando para fazer a voz soar terna.

Dipper conseguia ver o “sim” apenas pelos olhar de Ford. O olhar que estava aos poucos se desmanchando. Deixando de existir. O olhar que ele nunca mais iria ver. É estranha a forma que notamos bons detalhes – antes despercebidos –das pessoas que gostamos quando elas estão a ponto de partir. O olhar de Ford ia se esvaindo de vida, as suas grandes pupilas castanhas perdendo o brilho, a íris se esfiapando. Até a única coisa que sobrara para Dipper ver naquelas pupilas ser o seu próprio reflexo.

— Eu te amo, Stanford... Me perdoe.

Curvou-se, guardando o rosto do seu tio falecido entre as duas mãos. Lhe dando um último beijo na bochecha pálida. O mais carregado de sentimento que ele já havia dado. O coração de Dipper se enrijeceu apenas ao pensar que Ford nunca iria ser capaz sentir aquele beijo.

Dipper suspirou diante de uma epifania.

Era incrível pensar como o seu coração ainda era capaz de bater, como o seu pulmão era capaz de conter o ar, como seus olhos ainda eram capazes de enxergarem o por do sol tão vívido e colorido, como as suas estruturas ainda lhe davam sustento. Era incrível pensar como o seu corpo e o mundo exterior pareciam tão vivos quando o interior dele nunca esteve tão morto. Era como se tudo e todos fossem alheios diante daquele momento. Como se Dipper fosse melancolicamente escolhido para sofrer sozinho de um único fardo.

A experiência de pensar logo depois que se presencia a morte de alguém que se ama era estranha.

O garoto sequer havia percebido a chegada de Bill Cipher e sua irmã ao lado dele.

Ele via as longas pernas esguias de Cipher se materializarem diante dele no gramado. Falando algumas coisas num tom de desdém que Dipper não se dava o trabalho de perder tempo escutando. Uma onda de calor o envolveu assim que ele notou a presença da irmã o abraçando por trás. Ele acreditou ter retribuído o abraço. Não tinha certeza. Era difícil de raciocinar quando a imagem dos olhos gélidos de Ford insistia em reverberar diante dele.

— Dipper... – ele pôde identificar a irmã lhe chamando diversas vezes, como se estivesse tentando fazê-lo despertar de um transe. – Eu preciso que você coopere comigo.

— O que foi? – indagou de prontidão, atraído pela colocação misteriosa da irmã diante daquele momento.

— Não fale alto. – ela murmurou na orelha dele. – Não podemos deixar Bill saber sobre isso, nós só podemos ter uma única chance.

— Sobre o que você está dizendo? – uma curiosidade impaciente cresceu dentro de Dipper, ajeitando a voz para sair como um sussurro.

— Você pode consertar tudo isso.

Dipper conteve a exclamação de espanto que aflorou nos seus lábios.

— Como...?

— Lembra-se de quando eu disse que Blendin apareceu no meu quarto, vindo de outro tempo, para alertar sobre o que aconteceria agora?

— Não me diga que...

— Digo sim. – antes que ele pudesse terminar a frase, Mabel abriu um pequeno espaço entre eles para mostrar, discretamente, a icônica fita métrica de Blendin Blandin. O dispositivo que permitia o seu utilizador viajar no tempo. O aparelho com a insígnia dos viajantes do tempo de Time Baby reluziu entre os dois mesmo com a pouca luz, enchendo os olhos de Dipper com seu brilho tentador. – Ele deixou isso comigo. Ele disse que seria apenas para emergências extremas. Acho que esse é o caso.

— Mas, Mabel... Eu impedi Bill a tempo. Eu evitei o apocalipse mais uma vez.

— Sim. Mas você voltar no tempo, não precisa ser muito. Apenas alguns instantes atrás. Você pode salvar o mundo e Ford. Podemos ter tudo e Bill ainda preso aqui.

Dipper encarou Mabel com entusiasmo. Os olhos dela eram firmes e determinados. Dipper não conseguia segurar aquilo, Mabel sabia da relação dele com Stanford.

— Mabel... como você...?

— É, Dipper. Eu sei de tudo isso. Não é que eu aceite... provavelmente nunca aceitarei. Mas isso é a coisa certa a se fazer. Eu... – pausou por um instante. – Eu não aguentaria te deixar machucado mais uma vez. Não depois de tudo que aconteceu. Infelizmente, você é meu irmão. – passou o objeto para as mãos dele. – Boa sorte.

Dipper aquiesceu, levantando-se aos poucos. De costas para Bill, ele esticava a fita métrica. Ele via as datas e anos diminuindo no decorrer dela. “2022... 2017... 2016... 2012...”.

— Só volte alguns minutos. – Mabel reforçou num sussurro.

Dipper não assentiu, nem concordou. Ficou apenas olhando para os números que se estendiam infinitamente na fita métrica. Eram tantas portas, tantas oportunidades... Mesmo que ele revivesse Ford. As coisas não estariam devidamente perfeitas. Dipper não precisaria ter passado por tudo aquilo que passou, nem Mabel... Dipper tinha a chance de consertar muito mais do que ele imaginava. Dipper tinha, finalmente, em suas mãos, a chance que vinha pedindo durante todos os últimos miseráveis dez anos de sua vida.

E, desta vez, ele não iria desperdiçar nada.

Não iria esperar para dar uma resposta, ou pela palavra final para tomar uma decisão.

Não iria deixar que as coisas acabassem como acabou com Ford em alguns minutos.

Não era só por Ford.

Não era só por ele.

Mas por Mabel também.

Ele via a obrigação de fazê-la feliz também.

Virou-se para Bill rompante, o demônio estava distraído demais observando a arte que havia feito no corpo de Stanford. E, vendo a cena, Dipper disse o que precisava em voz alta:

— Desculpe, Mabel. Mas é bem mais do que isso.

— O quê?!

Bill ergueu o olhar e empalideceu ao ver o objeto nas mãos do garoto. E, mostrando suas presas ferozes, Cipher avançou na direção de Dipper. A mão esticada tentando parar a sua ação na máquina do tempo portátil.

NÃO! — o demônio berrou, com uma gota de súplica escorrendo da sua voz.

— Tarde demais, Charlie. É o fim do seu showzinho.

E, assim, Dipper soltou a fita. Iniciando a sua volta no tempo.

E a data que ele havia escolhido era: Agosto de 2012.

“Me desculpe, Ford. Mas eu temo que nossa promessa não vá se realizar.”