No More Secrets
14 Epílogo: "Até o fim do mundo."
Uma explosão de claridade diante dos olhos de Dipper.
A corrente do tempo, ágil e imperdoável, passando diante dele. Retrocedendo de modo tão insignificante quanto um piscar de olhos.
Quando sua visão endireitou-se e o clarão se desfez, Pines encarou as faces das tão conhecidas colinas de Gravity Falls. Embora tivesse voltado dez anos no tempo, elas não haviam mudado nem um pouco, afinal, a imagem delas no futuro não era nada mais do que a reprodução da bolha temporal que Ford havia feito.
Era o mesmo local, o mesmo ele. Porém, não havia nenhum corpo no chão. Não havia sua irmã. Não havia Bill Cipher. Não havia nenhuma lágrima. Nenhum desespero.
Nenhuma preocupação.
Dipper arrastou o olhar lânguido para a fita métrica temporal que ele segurava com força. Ele se assustou ao ver que as mãos que seguravam o dispositivo não eram dele. Ou melhor, eram. Porém, eram mãozinhas pequenas e delicadas. Dipper correu os olhos pelo seu corpo, girando dentro do seu próprio eixo.
Dipper não havia apenas voltado no tempo.
Dipper havia voltado no seu corpo de um garoto de 13 anos.
Inserido no bom e velho colete cinza e na sua camiseta laranja e shorts, Dipper imaginou poder sorrir. Era uma criança novamente... quer dizer, de certa maneira. Embora toda a realidade temporal e espacial estivesse a ponto de ser alterada, Dipper sabia que, mesmo voltando e refazendo os seus passos, ele nunca esqueceria as imagens que havia vivenciado. Nunca seria capaz de esquecer os olhos de Ford deixando a vida. Nunca seria capaz de esquecer a traição de Charlie. Nunca seria capaz de esquecer a Mabel daquela realidade. Nunca seria capaz de esquecer o que ele causou.
“Agora é minha chance. A chance na qual eu serei cauteloso o suficiente para não desperdiçar.” Pensou, decidido. “Está na hora de mudar as coisas.”
— Dip?
O chamado havia sido acolhedor. O garoto sentiu uma chama de glória despertar no seu peito ao ouvir aquele – tão particular – apelido. Girou nos calcanhares, encarando a razão de tudo aquilo. A razão de sua existência.
— Olá, Ford.
O seu tio avô estava, absurdamente, vivo. Era quase assustador. Era como ver um fantasma. Dipper queria correr e abraça-lo. Queria dizer o quanto amava ele. Queria dizer o quanto Ford era importante para ele. Queria dizer o quanto sentia muito por ter deixa-lo morrer.
Mas, ao invés disso, Dipper não fez nada.
Stanford estagnou, estudando os repentinos jeitos e falas do sobrinho.
— Está tudo bem, Dip? Você parece... – fez uma pausa, tentando encontrar uma palavra certa. – ... mudado.
— Estou bem. – respondeu ele, sucinto. Contendo as lágrimas enquanto admirava a figura diante dele. Ford estava ali. Seus óculos rachados, os seus peculiares dedos articulados, seu sorriso torto, seu sobretudo vermelho, sua barba malfeita, a afeição, a barreira protetora, o carinho,
o amor.
— Então, – Ford continuou, seu sorriso mais radiante que o próprio pôr-do-sol. Dipper se esforçava para prestar atenção em suas palavras. – agora que o Weirdmaggedon finalmente foi contido, vamos ao que estávamos discutindo primeiramente.
— ‘Tivô’... – a voz de Dipper falhou, interrompendo o tio brevemente.
— Sim...?
— Desculpe, eu... estou um pouco distraído ultimamente. Será que você... poderia me contar, exatamente, o que aconteceu durante o fim do weirdmaggedon. – Pines teve de perguntar. Ele precisaria saber que fim Bill havia tomado naquela realidade.
Ford arqueou uma sobrancelha, intrigado pelas inquisições do sobrinho. Possivelmente estranho o fato de ele ter se esquecido de algo tão importante como o fim do próprio apocalipse que eles mesmos haviam impedido.
No fim, Ford havia explicado a Dipper que Stan havia sacrificado suas memórias em troca do fim da existência de Bill Cipher (para isso, tendo preso o demônio dentro da própria mente dele enquanto havia trocado de posições com seu irmão. Numa estratégia para enganar Bill, que queria pegar a combinação para romper a barreira de Gravity Falls que estava na mente de Ford) mas que, miraculosamente, seu tio avô Stan havia recuperado as memórias. Assim, com a existência astral de Cipher deletada, nada havia restado dele a não ser por uma inofensiva estátua de pedra. Quando Dipper perguntou por onde a estátua de Bill havia se materializado, Ford apontou para não muito longe dele e, quando Pines se virou, tomou um susto.
A imagem de Bill Cipher estava congelada logo por trás dele. Na sua forma tradicional de um triângulo, o demônio mantinha – congelado eternamente naquela posição – um dos seus braços esticados na direção de Dipper.
Era idêntico à quando Dipper havia voltado no tempo em 2022. Quando Bill havia percebido o plano dele de voltar no tempo, acabou avançando para cima de Dipper com uma de suas mãos hasteadas.
Dipper se perguntou se, talvez, aquela estátua tivesse uma ligação mais significativa com a linha do tempo no qual ele havia alterado do que com os eventos daquela realidade alternativa.
Ignorou. Não importava. Charlie não incomodaria mais agora.
— Entendi. – o garoto assentiu, no fim da explicação.
— Ótimo! Pois, agora que estamos só eu e você, me sinto finalmente capaz de oficializar o que prometemos há alguns dias...
Era agora. O momento que havia ficado na memória do garoto por tanto tempo. Ele já sabia o que Ford o perguntaria.
— Dipper, mesmo depois de tudo isso, você ainda quer se junta a mim, ser meu aprendiz e ficar aqui em Gravity Falls? – Ford estendeu a mão na direção dele. – Juntos até o fim do mundo?
Era a hora. A resposta. A escolha. O destino de toda humanidade decidido numa única e miserável sílaba. Incrível como às vezes uma simples palavra pode ter tamanho poder. Dipper olhou para a mão estendida de Ford – um convite para um destino infortúnio – e, em seguida, olhou de soslaio para a mão estendida de Cipher. O garoto nunca se sentiu tão dividido, no entanto, tão certo.
— Não.
Estava feito. Respondeu com a maior naturalidade que conseguia reproduzir. A expressão entusiasmada do seu tio se fragmentando em lástima.
— Desculpa, Ford, mas eu não quero. Não posso. Eu... não estou preparado para isso no momento.
Ford abaixou a mão lentamente, ergueu os lábios de orelha a orelha sem mostrar os dentes. Ele havia aceitado aquela decisão.
— Tudo bem, Dipper. Eu compreendo. É... é por causa dela, não é? Para o bem dela. Mabel.
“E para o seu também.” Dipper quis dizer, mas apenas concordou cabisbaixo.
*
— Eu vou com você, Mabel.
Era a decisão que ele havia exposto para a irmã. O semblante triste de Mabel que ele havia visto anteriormente mudou-se para um de pura felicidade. Assim como da última vez, Mabel derramava algumas lágrimas, mas, agora, de júbilo. Ela correu na direção dele e ele a envolveu num abraço apertado. “Não vou deixar você sozinha, Mabel... Eu não posso. Eu prometo.”
“Eu vou garantir que você fique bem.”
A sensação de estar de volta aos 13 anos de idade era inexprimível. Ver novamente Soos, Wendy, Stan, Mabel e Ford era como estar tendo um sonho corriqueiro. Um sonho de uma boa memória que duraria por pouco tempo até que ele finalmente despertasse. Mas Dipper não despertou. Dentro do que mais parecia com um dèjà vu muito real, ele nunca teve tanta certeza dos seus caminhos. Nunca teve tanta certeza de si. Nunca teve tanta esperança.
Já acomodado com sua irmã dentro do ônibus que partia de Gravity Falls, levando os dois para Piedmont, Dipper se distraía com os rostos familiares que irradiavam do outro lado das janelas empoeiradas. Fragmentos de pessoas que ele havia conhecido, fragmentos de pessoas nas quais ele havia criado fortes laços... alguns mais fortes e intensos do que outros. Ou pelo menos, o que viria a ser se ele não tivesse tomado aquela decisão.
Agora era um laço quebrado,
Uma despedida maior do que ele imaginava.
Uma despedida maior do que a morte de Ford naquela realidade apagada.
Pois era uma despedida de algo que nunca iria vir a acontecer.
Dipper sabia que, com aquilo, ele nunca mais iria sentir os toques de Ford, nunca iria sentir os sentimentos que haviam desabrochado por ele, nunca iria ser beijado por ele, nunca iria ser pedido em casamento por uma pessoa tão importante e única para ele, nunca iria se sentir tão feliz e realizado por ter a companhia e apoio de Ford sempre ao seu lado.
As coisas, aquele sentimento, – mesmo que muitas vezes repugnantes, mas que ele não desistia de amar sentir – de certa e factual forma, nunca sequer existiu.
Dipper nunca havia se sentido tão triste, mas tão certo.
E, após ver o bilhete que Wendy havia escrito com todas as assinaturas dos seus amigos naquela aventura de Gravity Falls em 2012, Dipper estendeu a mão para fora do veículo. Acenando em agradecimento a todos, nunca fingindo estar tão bem por dentro. Os seus amigos e tios correram atrás dele quando o ônibus começou a acelerar. Num movimento inesperado, Ford foi capaz de segurar a mão dele, ainda colocada para fora da janela, enquanto corria atrás do transporte em movimento.
Dipper se sobressaltou um pouco, sentindo a palma suada da mão de Ford por debaixo da dele. E, então, Ford se despede de forma brincalhona (nem ao menos fazendo ideia do quando havia/poderia ter acontecido do período temporal que Dipper tinha voltado). Dipper aperta os seis dedos dele com firmeza, preparando-se para a sua despedida, e abominando interminavelmente o momento que teria que soltá-lo.
Seu tio avô, obviamente, não conseguiu mais acompanhar a velocidade do ônibus e então... as mãos se separam.
Ford se distanciou.
Bill se distanciou.
O fim do mundo se distanciou.
E o velho Dipper havia ficado para trás já há muito tempo.
Após a irmã pegar no sono, e os icônicos pinheiros sumirem de vista, Dipper pôde se ver capaz de descobrir o que tinha no seu... presente.
O garoto abriu o colete, vasculhando os seus bolsos internos, e de dentro tirou a única coisa que ainda o ligava àquela antiga vida.
O embrulho que Ford havia lhe dado antes de morrer. O mesmo embrulhado delicadamente num pano. Dipper ainda não havia o aberto.
Então o fez sem esperar mais.
Dipper sorriu melancólico.
O que encarava diante dele era, numa versão reduzida, um caderno repleto de anotações sobre anomalias e mistérios daquela singular cidade e, na capa, além do familiar contorno dourado na mão de Ford, estava inserido uma forma de um pequeno Pinheiro. Os dois símbolos haviam sido colocados juntos. Num só. E, no centro dos dois, um grande e esbelto número “1”.
Era o diário. Ou melhor, a reconstrução do diário que eles vinham trabalhando por tanto tempo naqueles dez anos...
Agora, ao invés da clássica coloração vermelha na capa, Dipper encarava um roxo vívido e resplandecente. E, ao folhear as páginas, distraído, um pequeno objeto escapuliu das páginas amareladas e caiu sobre seu colo. Dipper o ergueu na ponta dos dedos e viu dois aros metálicos reluzirem em ouro diante da luz tênue do crepúsculo.
Duas alianças.
E, gravada nelas, uma simples, boba e cafona frase que quase fez o garoto rir, mas na qual ele amava insondavelmente.
UPDATE: A SEGUNDA TEMPORADA JÁ ESTÁ DISPONÍVEL! CORRAM LÁ PARA LER!!
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