No Coffee
4 Nostalgia
Notas iniciais

–Com quem você tanto fala que não para de rir, Lene? — perguntei, jogada no sofá na tarde de domingo, após uma exaustiva semana.
–Ahn… Um amigo nosso — eu levantei a sobrancelha e ela bufou em redenção — Seu parceiro Sirius.
–Você é masoquista e eu não sabia, é isso mesmo? — ela gargalhou e eu não pude evitar um risinho — Sinceramente, Lene, não faça isso com você… Ouça a pessoa que convive com Sirius Black há cinco anos! E olha que nós já fomos bem amigos durante os primeiros anos do Ensino Médio.
–Vocês eram amigos? — ela tirou os olhos do celular e me encarou — E você nunca me disse?
–Sim, nós fomos bem amigos no 1ºe 2º ano, mas isso mudou drasticamente por conta de… Ah, uma banalidade.
–James Potter, né?
–Sim — eu suspirei, lembrando de como aqueles dois anos tinham sido divertidos e como o terceiro ano tinha sido torturante. — Por favor, vamos deixar o nome dele sem ser mencionado. Podemos?
–Claro, ruivíssima — ela se levantou e me beijou na testa antes de ir para a cozinha — Ei, eu vou fotografar, você vem comigo?
–Agora, sério?! São três da tarde!
–Eu vou poder pegar o sol alto e o lusco fusco, amor da minha vida! — ela pegou sua câmera e sua bolsa — E realmente preciso vender mais algumas fotos, ou você vai ter que me emprestar um dinheiro esse mês para nossas contas…
–Ok, vai lá! Acho que vou visitar os Longbottom, faz um tempinho que não dou uma passadinha e ponho a conversa em dia…
–Isso, fique nostálgica com o ensino médio! — eu ri e mandei uma mensagem de texto para a Alice, perguntando se poderia passar por lá — Só não fique muito, ok?
Com isso, ela piscou e saiu saltitando pela porta. Eu senti uma pontada a lembrar do episódio de antes, na cabana abandonada e de como tínhamos passado a semana afastados, comunicando-nos por Sirius. Porque eu queria evitar o contato ao máximo. E ainda sim, tiveram momentos estranhos e eu não conseguia mais me comportar do mesmo jeito.
"Venha sim! Uau, quanto tempo não saímos pra conversar, Lily! Frank também está com saudades, mas ele mantem o contato com os meninos… Vem e vamos tomar algo e colocar o papo em dia, que tal? Tô esperando! :)"
Sorri em silêncio e fui ao meu quarto escolher alguma coisa para me vestir, afinal, eu estava com a roupa que tinha dormida. Olhei para o meu rosto no espelho e percebi como estava acabada. Estava trabalhando demais, esse caso me estressava em níveis inatingíveis. Além de o assassino ser muito inteligente e sabermos muito pouco, eu tinha que dar o meu melhor perfil “frio e sensato” ao lado de alguém que o abalou consideravelmente no passado. Nossa, como a vida era mais fácil aos 16 anos!
Eu achava que era o fim do mundo passar por coisas tão banais, e agora eu estava no encalço de um serial killer e meus parceiros eram pessoas que eu estava cansada de conhecer, sinceramente. E pensar que eu achava que minha irmã era o pior da minha vida.
Peguei as chaves no balcão, coloquei meus óculos escuros e saí. Meu carro, como sempre, demorou um pouco a pegar, mas pegou. A casa dos Longbottom era a 10 minutos do meu loft com a Lene. Então, em um domingo sem trânsito, cheguei lá bem rápido.
–Fogueira! — uma figura morena, alta e suja de graxa abriu a porta — Eu estou morrendo de vontade de te dar um abraço de urso, mas minha camisa está suja e sua roupa é muito chique.
–Hi 5 por enquanto, então? — ele riu e ergueu a mão, estalando a palma na minha.
–FAÍSCA! — Alice veio correndo e me abraçou com uma força equivalente ao abraço dela e do Frank. Depois de alguns instantes, nós nos soltamos — Meu Deus, que saudades de você! Nós não vemos há uns seis meses, né?
–Acho que um pouco mais, na verdade… — ela me convidou para entrar e fomos para a cozinha, antes de tudo — Eu estive tão louca com as coisas no trabalho que nem saí direito esse tempo, acredita? Ainda teve um incidente com minha família, foi um pouco pesado.
–Ah, mas você vai me contar tudo! Ei, você quer uma cerveja? Coca? Ah, desculpa, esqueci que estou falando com Lily Cafeína — eu gargalhei e ela começou a preparar meu vício ali. — Faísca, não que eu não te ame e não queria você enfurnada na minha casa 24h, mas o que aconteceu para você chamar hoje?
–Andei meio nostálgica esses dias, lembrando de todos esses últimos anos e, claro, senti um aperto super doído de não estar na sua casa 24h por dia!
Alice sempre foi uma ótima amiga, a primeira quando eu cheguei naquela escola e um anjo que continuou comigo apesar de todos os pesares. Eu a amava com todo o coração, mas ela nunca soube esconder quando já sabe de algo.
–Mas você já sabia que eu estava nostálgica, certo? — ergui a sobrancelha e ela fez cara de culpada, enquanto eu ria e revirava os olhos.
–Você pode não me contar, querida, mas os meninos conversam muito com o Frank e eles ainda mantêm o time de basquete, lembra? Todo santo sábado!
–Então, o que você sabe até agora? — ela abriu o sorriso e me serviu uma xícara.
Nós estávamos conversando há cerca de duas horas, sobre o Potter e a situação atual da minha vida pessoal, antes de chegar a assuntos como o que ocorreu na minha família há três meses e falando um pouco do trabalho. Não estávamos nem na metade do que precisava ser posto em dia quando o telefone tocou e Frank foi atender. Ele já tinha consertado seu carro, tomado um banho e estava jogando videogame.
–Fala, seus putos! — olhei para Alice e ela murmurou algo equivalente a “eu disse que eles ainda convivem juntos” — Ah, acho que tudo bem pela Lice. Quer dizer, temos uma visita já, mas onde cabe um, cabem mais… Ah, o que são umas cervejas e umas partidas de videogame? Podem vir, tô esperando!
–Então, Franklin? — Alice questionou, assim que ele desligou o telefone — Quem vem para a nossa casa?
–Lice, amor, desculpa não interromper pra te perguntar, achei que não ia ter problema… Eles são seus amigos também!
–Sim, mas e Lily?! — ele fez cara de quem percebe a cagada e me olhou, pedindo perdão com o olhar, antes de verbalizá-lo.
–Desculpe, Lily, de verdade!
–Não esquenta, Frank… A casa é de vocês, por favor, né! — ele me abraçou e sorriu pra Alice
–Mas você não vai embora, né? — neguei com a cabeça, embora parecesse uma ótima escolha no momento.
–Tá, agora podemos voltar para nossa conversa? — ela assentiu e ele sorriu e voltou para o videogame.
Contei a ela sobre o incidente com a minha família e de que, agora, Petúnia estava em uma clínica de reabilitação e eu não podia ir vê-la, pois ela não queria que eu fosse. E como meus pais estavam devastados por eu ter investigado o que aconteceu e ter descoberto… Enfim, foi uma grande crise. Ela foi super atenciosa, como sempre era e nós conversamos um pouco mais, dessa vez sobre a vida dela.
–E vocês estão mesmo tentando? — ela assentiu sorrindo.
–Começamos esse mês, mas eu passei na doutora e ela disse que eu terei alguns problemas pra engravidar, sabe? Mas ela disse que tenho chances, então eu quero, com certeza!
–Ah, mas você está certa! Nossa, isso é incrível, Lice! Conte comigo para tudo o que precisar, viu? — ela assentiu, com um sorriso enorme — De verdade, estou aqui por você, sempre e pra sempre.
–Ah, Lily, que droga… — ela estava segurando o choro — Nem tô ainda! Não me faça chorar, sua faísca sem vergonha!
Antes que pudéssemos começar aquela parte da conversa em que choramos, começou uma batucada na porta e Frank foi atendê-la. Ouvi três vozes que eu já conhecia muito bem rindo e chegando mais perto.
–Oficial Evans! — Remus anunciou e eu levantei para o cumprimentar — Posso dizer que está linda?
–Posso dizer que está muito galante para quem está esperando a namorada chegar em NY? — ele riu e piscou para mim antes de ir cumprimentar a Alice.
–E aí, parceira linda?! — Sirius me abraçou e me beijou na bochecha e eu me permiti rir e retribuir o abraço. Nós realmente tínhamos ficado mais próximos nesses dias e eu nunca admitiria, mas a amizade dele sempre fez falta.
–Precisamos conversar depois, não, Black? — ele fez cara de quem estava em confusão e assentiu.
–Boa noite, Evans — eu me virei e dei de cara com um Potter tipicamente desarrumadamente arrumado.
–Boa noite, Potter — ele se aproximou e me cumprimentou com um beijo na bochecha, fazendo com que eu corasse por reflexo.
–Lily, amiga — Lice me chamou e eu a agradeci mentalmente — Vamos até a cozinha pegar algo pra beber e uns salgadinhos?
Eu assenti e saí da sala, deixando-a para que eles rissem, gritassem com a televisão e falassem sobre o que quiserem, até sobre mim. Afinal, eu falei deles o dia todo. Eu falei dele o dia todo.
–Você está bem?
–Sim, claro… — ela me olhou como se dissesse “não haja como se estivesse” — É só que todo mundo aqui me dá muita saudade, Lice, de quando tudo ainda era bom. Lembra como nosso segundo ano foi demais?!
–Claro que lembro! Foi o ano que eu e o Frank nos beijamos pela primeira vez, foi o ano em que Sirius transou com exatamente 75% da população feminina da nossa escola, foi o ano que eles ganharam o Campeonato Regional, lembra?!
Sim, eu me lembrava. Eu me lembrava daquele jogo em cada singular detalhe, assim como me lembrava do dia que fizemos as contas das meninas e do dia que Alice apareceu na minha porta falando do encontro com Frank, quando eu estava num momento bem inoportuno… Eu nunca esqueci nada daquilo. Eu enterrei uma boa parte, é verdade, mas isso não significava que eu tinha abandonado o túmulo! Só que era muito doloroso lembrar disso.
–Se a Brittany estivesse aqui, seria como reviver nossos fins de semana — ela observou e eu fechei a cara — Esqueci que foi por sua causa que ela saiu da escola, desculpa
–Bem feito para ela, aquela traidora — ela começou a rir e eu acabei por gargalhar também — Cara, aquele ano foi muito bom! Que saudades!
–Eu que o diga.
Alice olhou para o batente da porta e me olhou em seguida. Eu nem precisei perguntar o que ela estava pensando, eu sabia perfeitamente que seria uma daquelas teorias de que eu estou assim porque ele reapareceu com tudo e porque eu quero ele de volta, mas sou muito orgulhosa ou qualquer algo do gênero que se baseie em: “Faísca, para de ser cabeça dura e aceita ele de volta.”. Então, enquanto eu pensava tudo isso, ela pegou o engradado de latinhas e um pote de salgadinhos e saiu da cozinha. Eu até pensei em sair com ela, mas… Não, não tem justificativa plausível. Eu fiquei ali.
–A culpa foi sua e você sabe. Pare de agir como a vítima, por favor.
–Assumo a culpa totalmente, Evans, tudo o que você quiser! — eu estava apoiada no balcão e ele parou na minha frente — Só, por favor, entende que eu cresci… Eu não sou mais um idiota de 16 anos, eu melhorei e eu mudei. O que não mudou foi minha vontade de ter você, sabe, do jeito que você quiser.
–Potter, para…
–Evans, olha para mim — e assim eu fiz — Você dá as cartas aqui. Você sabe que me tem na mão, que eu quero compensar tudo, mas do que adianta tem um flush na mão e correr? — eu acabei rindo da metáfora e, quando olhei para ele de novo, ele sorria.
–Eu ainda não entendo pôquer!
–Eu te ensino — ele sorria de uma outra forma, de uma que me levava pro passado muito fácil… Para todas aquelas amanhãs, aqueles fins de semana, aquelas noites sem fim.
–Potter, veja bem — eu coloquei uma mão no ombro dele — Você quebrou o coração de uma garota de 16 anos em mil. Aliás, você quebrou muitos corações pelo que eu me lembro, mas essa garota… Ela era sua amiga, e ela realmente gostava de você. Lembra? Ela te amava muito. — ele abaixou o olhar, mas assim que eu recomecei, ele voltou a me encarar — E você fez isso por razões que são, realmente, ridículas e inaceitáveis. O problema é que, não importa o quanto eu tenha mudado, eu ainda tenho daquela garota em mim. E você tem coisas ainda dos seus 16 anos. E eu não consigo fazer isso de novo… Porque eu lembro da dor.
Ele suspirou e olhou de novo nos meus olhos. Não importa quanto tempo passe, os olhos do Potter ainda vão ter um tom de castanho único e ainda vão ser tão profundos quanto o maior dos oceanos. Mas eu não me lembro de, anos atrás, ter visto tanto peso dentro deles. A sua mão foi para a minha cintura e ele segurou a minha mão livre.
–A dor foi consequência de algo que nunca vai acontecer novamente, você sabe. E, não sei, mas acho que você também se lembra das boas sensações. Como quando, não sei se você se lembra tão bem quanto eu, nós fomos ao baile de formatura do seu primo — ele começou a mexer os pés, praticamente me obrigando a seguí-lo, enquanto eu comprimia um sorriso e uma lágrima — E você estava tão linda naquele vestido preto longo e usando um salto que fazia você ficar quase da minha altura… Você lembra, Evans? Como nós dançamos aquela noite! Seu primo disse que fazíamos um casal bonitinho e você corou quase tanto quanto agora… — eu revirei os olhos e nós continuávamos naquele ritmo. Sem música nenhuma, e era bem ridículo, mas estávamos sozinhos — E eu olhava para os seus olhos verdes e me doía saber que você não queria me namorar ainda, mas eu estava feliz, porque eu tinha você nos meus braços e a música era linda e eu… Caramba, Lily, eu te amava muito.
Eu finalmente deixei algumas lágrimas escaparem e ele me soltou, virando de costas para mim e apoiando as mãos no balcão. Eu olhei pras costas dele sem saber o que fazer, estática e sem reação. Quer dizer, o que tinha acabado de acontecer? E por que essa reação? E por que a minha maior vontade era sair correndo dali e me mudar pra algum lugar bem longe?
–Você está certa.
–O que? — ele me despertou dos devaneios e das mil perguntas.
–Você está certa sobre mim. Eu não mudei tanto quanto eu penso — ele não voltava a me olhar — Quer dizer, eu continuo com coisas que eu não preciso. Mas… Eu vou te provar, Lily. Eu vou fazer você confiar em mim de novo.
–Potter, dá pra olhar para mim? — ele virou e eu estava ali, com as mãos no ar, tentando contestar os últimos longos minutos.
–Eu vou te conquistar de novo, Lily Evans. De novo e de novo, não importa quanto tempo vai demorar ou o trabalho que eu terei. Eu vou fazer isso.
–Potter, vamos passar por isso, sabe? Deixar de lado e tudo mais. Só esse surto me provou que…
–Eu surtei mesmo, desculpa. Mas eu surtei porque eu percebi que eu disse que te amava… E a verdade, Lily, é que eu ainda amo.
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