Saímos correndo – eu mais ou menos correndo, estava mais para pulando/rastejando – e fomos andando na volta da casa.

A sujeira ali era tanta que eu mal podia andar e para ajudar, um espinho cravou no meu braço.

– Ai!

– O que foi? – Theo me pergunta baixinho.

– Um espinho.

– Temos que sair daqui.

– Nosso helicóptero está lá em cima, e eu aposto que já pegaram nossas armas. – Falo.

– Só que seja as suas. – Ele tira dois revolveres de casaco. – Não saio sem eles. – Ele me entrega um.

Seguimos andando pela volta da casa, até chegarmos ao fim da cerca, aonde o caminho vai afunilando até acabar na parede externa da mansão.

– Vamos ter que escalar. – Theo falou.

– Não seria mais fácil se apenas voltássemos?

– As águas do Caribe mexeram com o seu cérebro? – Ele me perguntou.

– Há-há.

– Bella, ou descemos ou subimos. E eu acho que você não quer mergulhar em um liquidificador natural não é?

– Vamos voltar. – Sei lá, algo naquela historia de escalar uma mansão não me cheirava ser algo muito fácil. Ainda mais com meu pulso quebrado.

– Bella...

– Vamos voltar. – Olho fixamente para os olhos escuros de Theo, que reviram em aprovação.

– Tudo bem, ok. Vamos voltar. Mas se por acaso toparmos com alguém tentando nos matar, a culpa será sua.

– Me diz quem não está tentando nos matar? Vem. – Pego o braço dele e puxo para vir comigo.

No caminho, não encontramos ninguém; deveriam estar dentro da mansão.

– Vamos ter que entrar; nosso helicóptero está lá em cima. Prepare a arma; vamos entrar. – Falei baixinho.

Assim que coloquei o pé na porta e entrei, mal dei dois passos e fui direto ao chão. Haviam me acertado; perdi a consciência em estantes.

“– ‘Bella, Bella!’ – uma voz conhecida me acorda. Eu abro os olhos e vejo Lucas com a cabeça acima da minha me olhando com preocupação. – ‘Bella você está bem? O que está fazendo aqui?’ – Lucas! Como assim, onde estou? – ‘Eu não sei, fui chamado até aqui. Esperava que você me desse respostas!’ – E-eu não sei o que eu vim fazer aqui! Eu estava com Theo – a menção de Theo fez os olhos de Lucas perderem um pouco o brilho. – na mansão e alguma coisa me acertou e que lugar escuro é esse? Pelo amor de Deus! – ‘Não tem nada com vida aqui a não ser você! Bella tem alguma coisa muito errada acontecendo. Você está com uma aparência que não me traz boas lembranças.’ – levanto-me do chão e olho em volta; apenas uma imensa escuridão fria. – Lucas, tem alguma coisa acontecendo. E você está desaparecendo! Lucas! – assim que olho para Lucas percebo a sua opacidade. – ‘Bella...Adeus.’ – Lucas desaparece por inteiro, me deixando sozinha na escuridão. – Alguém? – grito. – Por favor! Alguém? Lucas! – ‘Lucas não irá aparecer.’ – a voz de Amarílis. – ‘Ele não voltará.’ – a voz de Eleanor. – ‘Nem você resistirá.’ – a voz de Annelise. – O que vocês querem? Me matar em meu sonho? – falo. – ‘Isso não é um sonho Bella.’ – A voz de Ethan. – ‘Nem um pesadelo.’ – a voz de Joseph. – ‘Isto é a realidade Bella. E sua realidade é a sua morte.’ – Eles saem das sombras e se aproximam de mim, eu corro; eu caio; eu apago.”

Abro os olhos, a claridade de uma luz fluorescente me cega temporariamente. Alguém vem na minha direção e coloca um pano em meu nariz. Apago.

“–‘Se você acha que irá escapar de nós, está completamente enganada. ’ – a voz de Marc chega aos meus ouvidos. – ‘Não irá escapar de sua morte. ’ – a voz de Maya; recuso-me a abrir os olhos. – ‘Abra os olhos e enfrente seus medos. Enfrente sua morte. ’ – a voz de Anny; sinto o hálito gelado de bala de morango no meu rosto; não abro os olhos. – ‘Vejam, ela tem medo de nós. Tem medo da morte. ’ – a voz de Louis; Louis, que eu mal conheci. Meu deus o que está acontecendo. Forço minha mente a sair dali.”

Abro os olhos; escuridão. Tento ver onde estou; meus braços estão presos.

– Theo. – murmuro. – Theo você está ai? – repito.

– Ele não está aqui. – Não reconheço a voz.

– Quem está ai? Onde está Theo? – Nenhum barulho. – Responda-me! – Nada.

Alguém coloca novamente um lenço com alguma coisa no meu nariz e eu apago.

“– ‘Bella, abra seus olhos. ’ – uma voz cantarolante chega aos meus ouvidos. Obedeço. A escuridão está ali novamente. – Onde estou? – ‘No lugar mais obscuro de sua mente. Um local onde você nada pode controlar. O lugar onde seus medos e culpas se escondem. ’ – não consigo ver de onde vem a voz. – Onde você esta? – ‘Aqui. Na sua mente. ’ – Onde está Lucas? – ‘Ele se foi. Foi para o seu lugar. Não irá mais te atormentar em sua mente. Agora ele está em paz.’ – Porque eu não acredito em você? – ‘Não acredite.’ – Quem é você? – ‘A morte.’ – apago.”

Não abro os olhos, apenas escuto. Vozes falam rapidamente palavras que eu não conheço; escuto alguém gritando ao longe. Um arrepio percorre a minha espinha. Sinto-me tremer. Theo. Onde está Theo? Uma agulha perfura o meu braço e eu grito; não estava esperando. Apago.

“–‘Sua mente é responsável por tudo que você fez ou o que ainda vai fazer. O que você faz querendo ou não é fruto dela. Mas as coisas que você não faz se tornam desejos sombrios não realizados. Esses desejos têm vida própria. E eles fazem o que bem entenderem. E quando eles não conseguem fazer o que querem, coisas sombrias e perigosas acontecem. E isso transforma até as pessoas mais puras e sãs do mundo, em pessoas insanas e sem controle. – Apago.”

Não abro os olhos, escuto. Vozes e mais vozes indecifráveis. Escuto ao fundo o som de tiros e de facas sendo afiadas. Acredite em mim, eu sei o som dessas coisas. Resolvo abrir os olhos. Agora tem uma janela em minha frente. Está chovendo. As vozes não estão no quarto. Olho em volta; fios e aparelhos conectados aos meus braços; o medo me invade. Penso em gritar, mas a parte consciente do meu cérebro me impede. Uma serie de fios em meus braços parecendo tentáculos. Sangue saindo pelos tubos e líquidos estranhos sendo injetados na minha veia. Não sinto dor. Sinto medo. Um medo que eu nunca senti na vida. Um medo que invade a minha alma. Theo. Onde está Theo?