“– ‘Na sua vida coisas boas acontecem raramente, mas coisas ruins chegam a todo estante. Coisas que você não entende. Coisas incapazes de serem entendidas. Sua vida é um completo pergaminho árabe, basta você saber lê-lo. Depois que lê-lo, terá de decifrá-lo. Depois de decifrá-lo, terá que fazer o que ele pede. E isso, não será nada fácil. Por isso estou aqui. Para facilitar tudo. Eu sou a solução. Eu sou a resposta. Eu sou a morte.”

Abro os olhos; uma pessoa está praticamente em cima de mim. O rosto dela era inexpressivo.

– Ahn, onde estou? – Ela nem sequer olha para mim. – Por favor.

– Não posso dizer. – Não detectei nenhum sotaque em sua voz.

– Onde está Theo? O meu marido, ele estava comigo na mansão, só me diga se ele está vivo?

– Não posso dizer.

– Essas são as únicas palavras que você diz? – Grito. – Hein? O que me diz? Que tal me soltar e eu arrancar essa sua linda cabecinha e reparti-la em mil pedaços? – Ela permanece quieta e sem se mostrar abalada, apenas se vira de costas para mim e pega uma seringa com o conteúdo azul e injeta na minha veia. Apago.

“– ‘Nos veremos em breve. Isso não é uma pergunta, mas uma afirmação. Sua vida está acabando, e o tempo se esgotando. Aproveite enquanto pode. Como aproveitar não é mesmo? Você está presa. Estará mais presa ainda comigo. Será minha companhia. Minha e de todas as almas atormentadas que você matou. Todas estarão junto de mim na hora que você voltar e ficar. Até breve.”

Assim que abro os olhos, luzes são direcionadas para os mesmos.

– Ei! Parem com isso! – Não consigo fechar meus olhos; lágrimas escorrem involuntariamente pelo meu rosto. Meus braços estão bem presos. Pelo o que parece, as fivelas que prendem meus pulsos tem agulhas também.

Tiram as mãos dos meus olhos que ardem e eu vejo pessoas das quais eu não conheço tirando meu sangue e me injetando líquidos estranhos; levanto um pouco minha cabeça e vejo que minha pele está branca. Não pálida; branca.

– Quem são vocês? Onde está Theo?

– Somos seu pior pesadelo. – Fala um homem que eu não reconheço, mas que chega perto de mim e injeta um liquido preto em minha têmpora.

Fico tonta e minha visão embaça. Sinto um enjôo repentino. Não é um enjôo. Uma convulsão. Não consigo parar. Sinto alguma coisa escorrendo pela minha boca. Meu deus o que está acontecendo? Apago.

“– ‘Você voltou. A escuridão te recebe bem melhor que o mundo lá fora não? Não responda. A morte não precisa de respostas. Elas as têm. As pessoas são seres um tanto imprevisíveis...Volte logo. Não agüento mais esperar. Nem eu nem as suas vitimas. Imagine que elas não gostam de esperar. E pelo o que eu vejo, são perigosas quando unidas.”

Acordo e vejo que estou sendo levada em uma cadeira de rodas; os fios e tubos foram retirados de meus braços; minha cabeça dói. Minhas pernas e braços estão presos. O tal homem vem até mim e prende o meu pescoço e minha testa em fivelas, para que a mesma fique imobilizada. Não consigo olhar para os lados nem para baixo.

– O que está acontecendo? O que vocês estão fazendo? – Minha voz sai muito baixa, nem eu mesma a escuto.

Levam-me para o céu aberto. Três cadeiras estão posicionadas na minha frente. Três pessoas com capuzes cobrindo as suas cabeças estão sentadas nelas.

– O que está acontecendo?

– Apenas observe.

Um carrasco leva uma mesa para perto das cadeiras. Perto, mas nem tanto. Pelo o que ainda consigo ver, tem diversos tipos de facas na mesma.

O carrasco pega um canivete e vai até a terceira cadeira. Quem está na terceira cadeira é uma mulher. Minha percepção está lenta; não sei quem é a mulher, eles não tiraram o capuz.

O carrasco pega a mão da mulher e posiciona o canivete embaixo da sua unha do dedo indicador da mão direita. Conta até três bem alto e corta a ponta do dedo da mulher, que grita aos soluços desesperadamente. A visão me enoja; o carrasco faz isso com todos os dedos das mãos da mulher. Riachos de sangue esguicham da ponta de seus dedos. A mulher grita de dor. Esbraveja palavrões. Dor e raiva. Dor e sangue. Dor.

O carrasco troca de faca e volta para a mulher que grita.

Pega a mão dela novamente e arranca o resto do dedo que sobrou. A mulher grita. Gritos soluçados. A dor dela chega até mim. Estão a torturando. E de certo modo me torturando também. O carrasco para. A mão da mulher só resta às palmas; não existem mais dedos. Os dedos caíram no chão aos seus pés. Vi quando um de seus dedos do pé tocou no sangue e no dedo médio caído ali. Ela recuou rapidamente e gritou, gritou e chorou. Eu não agüentava mais ver aquilo.

O carrasco vai até a mesa, larga a faca e pega o sal, que até agora eu não havia percebido que estava ali. Ele pega sal e joga em seus dedos. A mulher grita esganiçadamente. Não consigo desviar o olhar. Algo na minha mente psicopata fica dizendo para eu continuar olhando para ver o que vai acontecer; ver o jeito que ela sofre. Ver como as pessoas sofrem.

O carrasco pega uma faca de serra da bancada, coloca sal e volta para a mulher agonizante.

Ele corta devagar a mão da mulher até restar somente o osso do pulso; o sangue espirra daquele resto de um braço como um chafariz de halloween.

O carrasco começa a riscar os braços dela com a faca de serra; rasgos profundos que vertem sangue escarlate provocando poças abaixo dos pés da mulher. Meu pescoço dói de ficar na mesma posição. A mulher grita a cada vez que o carrasco encosta a faca nos rasgos espirrando sal por cima, como se fosse um confeiteiro, colocando granulado em cima do bolo. O carrasco continua a fazer rasgos, indo e voltando com a lâmina da faca de serra sangrenta. Aquela mulher gritando.

No fim de tudo, a mulher esta sem as duas pernas, os dois braços e grita enlouquecidamente. Não sei como é possível ela ainda estar viva. Mas eu não paro de olhar para aquela cena que causaria vômitos em muitas pessoas. Não em mim.

O carrasco retira o capuz da mulher que tem o rosto molhado por lágrimas e os olhos vermelhos. Meu coração para. Não acredito nisso.

A mulher era Melissa.