Eu não conseguia tirar aquela cena da cabeça. Phillip sem a pele de seu corpo; sem a pele de seu rosto.

Fui levada para o quarto. Tentei absorver o que havia acontecido. Isso é real? Ou é um pesadelo que em alguma hora vai acabar? Se for a segunda opção, que acabe logo. Mas eu duvido muito que seja.

O meu quarto está mais para um laboratório. Com luzes fluorescentes, aparelhos, fios, tubos, ampolas, líquidos estranhos, seringas, agulhas, sangue.

Um quarto claro. Isso irá parecer fútil, mas eu gostaria de ver minha aparência. Será que eu ainda tenho esperança?

O homem vem com uma seringa com o líquido preto novamente. Injeta na minha têmpora.

Meu sangue parece borbulhar. Consigo os ver retirando o meu sangue. Minha cabeça dói. Minha visão fica turva e tudo começa a girar. Fico enjoada rapidamente. Está começando de novo. Convulsão. Apago.

“– ‘Phillip não chegou a te ver. Ele não está aqui. Mas por quanto tempo? Quanto tempo vai levar até ele descobrir? ’– abro os olhos. A escuridão de sempre. – Vai pro inferno! – falo. – ‘Já estou no inferno. O inferno da sua mente. A escuridão já esta quase a completando. Não resta muito tempo.”

Acordo com os meus olhos ardendo de tanto chorar. Não sei quantos dias se passaram. Só sei que o pior está por vir. Isso eu tenho certeza.

– Ei vocês! Onde estou? Quem são vocês? Por que me prenderam? Por que estão fazendo isso? Porque os mataram? – Gritei.

Pessoas apareceram com os mesmos trajes de sempre: roupas de médicos, com mascaras e toucas, só que em vez de verde, as roupas são pretas.

Ninguém me respondeu, me colocaram na cadeira de rodas e eu fui levada novamente para a sacada. Uma mulher pegou a seringa já abastecida com o líquido preto e ficou ao meu lado, preparada para injetar aquilo em mim.

Acho que eu só estou viva por causa dessas coisas. Vejo-os retirarem meu sangue a toda hora. Acho que entendi o que a voz da minha consciência quis dizer com ‘a escuridão já está quase a completando. ’ Os líquidos que ao mesmo tempo me mantêm viva, estão também me matando de dentro para fora. Eu vou morrer.

O carrasco se dirige para a primeira cadeira com um canivete. Eu tremo só de imaginar quem está ali. Eu tento me acalmar, mas é impossível.

O carrasco pega a mão da pessoa e crava o canivete embaixo de suas unhas. Nenhum grito.

O carrasco pega uma tesoura e corta seus dedos, ou tenta cortar, porque a tesoura é sem fio e está enferrujada. Ouço ruídos.

O carrasco continua a torturar a pessoa. Eu observo. O carrasco pega o que parecer ser álcool e joga nos rasgos feitos com o canivete. O carrasco vai embora, e no lugar dele vem um daqueles ‘médicos’ sinistros que estavam no meu quarto/laboratório. Ele tem uma seringa em cada mão. Uma ele injeta no quadril da pessoa e o outro em um dos braços. A pessoa grita; eu estremeço.

E então, de repente, as pernas da pessoa começam a escurecer até ficarem pretas; a pessoa grita.

Sangue começa a sair de furos da perna da pessoa. Milhares de pequenos furos esguichando sangue para todos os lados. Era como se o líquido que estava na seringa tivesse transformado a perna da pessoa em um vulcão, a pele se tornou um pedaço de papel vegetal. Era horrível e belo.

No que eu me tornei? Vendo uma pessoa sendo torturada e achar isso bonito? Isso sou eu ou é fruto dos líquidos?

Os braços da pessoa acontecem à mesma coisa; vejo as pernas se deslocarem dos ossos e caírem no chão com um profundo espanto. Uma salva de palmas ressoa a minha volta.

Vejo que os ossos que ficaram expostos estão pretos, como se fossem ocos e podres. O carrasco volta e o médico vai embora.

O carrasco olha em minha direção; eu gelo.

Ele arranca o capuz da pessoa; eu choro.

Theo com o rosto completamente machucado e inchado. Um dos olhos está roxo, a bochecha inchada, do nariz escorre sangue, a sobrancelha está com um profundo corte, a pele está mais branca que um papel.

– Theo! – Minha voz não sai. Remexo-me na cadeira e bem na hora sinto uma dor imensa no lado da cabeça; alguém havia me dado um soco.

Theo não me vê. Seu rosto esta inchado demais e duas bolsas se formam em cima de seus olhos.

Eu choro. Choro. Dor e sangue. Saudade... Raiva! O que eles pensam que são para destruírem tudo o que eu amo? NINGUÉM! Isso mesmo eles não são ninguém! Reúno todas as forças que ainda me restam e puxo minhas mãos das fivelas da cadeira; consigo soltar. Vejo sangue saindo de meus pulsos.

A mulher tenta injetar o conteúdo da seringa em mim; eu dou um tapa e a seringa cai a mais ou menos um metro de nós. Alguém me dá um soco na barriga; retiro as fivelas do meu pescoço e cabeça e tento tirar os dos pés. Meu corpo dói por causa do esforço. Sinto algo na minha garganta me prendendo de volta na cadeira. O que resta das minhas unhas quebra tentando tirar aquilo que me sufoca e mais sangue aparece; pelo menos algo de colorido na minha pele. Prendem-me na cadeira com cordas e correntes como se eu fosse um animal. Eu choro.

– THEO! THEO SOU EU! BELLA! – Grito para que ele me escute. Theo esboça uma pequena reação, que de nada adianta. – ME SOLTEM! – Grito, o que só faz eles colocaram uma mordaça em minha boca.

O carrasco pega a serra elétrica e vai para perto de Theo, que só fecha os olhos e espera o pior. Fecho os olhos, não quero ver o que vai acontecer. Escuto um grito; choro. Fazem-me abrir os olhos e vejo Theo, somente a parte de cima, caído para fora da cadeira com as vísceras em sua volta. Vísceras e sangue. Dor. Lágrimas. Morte.

Eu choro desesperadamente me contorcendo na cadeira. Quando foi que tudo virou de cabeça para baixo de novo?

Tudo o que eu mais me importei estava caído a alguns passos de mim, pela metade no meio de sangue e vísceras. Tudo o que eu mais amei nessa vida. Tudo.

Agora Theo está morto.