O choro cessa.

Levam-me para o laboratório de novo.

Repetem o procedimento de me colocaram na maca, retirarem meu sangue e me drogarem.

Pouco me importa com o que vão fazer comigo.

“–‘Fascinante não? O que o ser humano é capaz de fazer. Os mistérios da mente. A vida é um negocio que se esgota. É finita. Só que existem pessoas que querem fazer com que outras cheguem mais cedo, seja por bem ou por mal.”

Acordo com frio.

Abro os olhos e vejo que não estou mais no laboratório, mas na sacada, presa em uma das cadeiras. Já sei o que esperar.

A chuva molha meus cabelos. O frio é tanto. Porque não acabam logo com isso?

Vejo que limparam a sacada e retiraram as cadeiras. Eu posso me jogar para trás e morrer rapidamente, assim espero, do que esperar o carrasco.

As portas se abrem. Me preparo para o pior.

De lá o médico e mais uma platéia, entra carregado uma mesa cheia de seringas.

Dez pessoas; cada uma com uma seringa.

Uma vem até mim e me crava uma seringa que tem um líquido meio esverdeado; fico tonta, minha língua embola e eu a mordo; o gosto de sangue.

Eles riem.

Vem outro e me injeta um líquido amarelo bem forte na veia do meu braço; um calor começa a ferver o meu sangue e a me cozinhar por dentro; parece que eu engoli lava. A dor é tanta que eu tento engolir a água da chuva para ver se alivia a dor da minha garganta. Isso dói.

A dor não passou. Mais líquidos foram injetados. Mais dor. Em uma hora tudo estava quente, na outra eu estava congelando, na outra eu achava que iria morrer, na outra eu achava que não poderia ser pior. Eu era um rato de laboratório. Eles estavam testando alguma coisa.

O carrasco aparece. Eu já sei o que vai acontecer.

Acontece que o carrasco me soltou.

Eu nem acreditei.

Mas de que adianta? Não tenho forças para nem sequer dar um passo.

Ninguém parece estar afetado por causa da chuva.

Eu caio no chão; minhas pernas estão moles. Não consigo andar. O carrasco me coloca apoiada na cadeira. Eu tiro meus cabelos do rosto para poder enxergar alguma coisa. Olho para as minhas mãos. Brancas e fracas. Patéticas.

Mãos cheias de cortes e ultimamente, ressecadas. Mãos que um dia foram de uma assassina.

O carrasco me estende o revolver de Theo. Como que eu sei que era dele? Porque o dele tinha um ‘T’ que mais parecia um ‘+’ no cano.

Peguei a arma. A sensação de ter uma arma em minha mão me trazia lembranças. Lembranças que eu não quero lembrar. Recomeço a chorar. Os médicos vão embora levando a mesa consigo.

O carrasco vira as costas e entra com eles também. A confiança deles é tanta em que eu não vou fugir que eles não estão nem um pouco preocupados em me deixar com uma arma.

Como se eu fosse sair matando todo mundo. E para que? Todo o sentido do que eu chamava de vida se esvaio pela ponta de uma faca.

Pega a arma e a aperto contra o peito. As lágrimas se misturam com a água da chuva.

Theo sempre dizia para eu ‘não me deixar ser morta’.

– Desculpe Theo, mas não vai ser possível.

Em meio a lágrimas, dor e tristeza, coloca a arma na minha boca, e puxo o gatilho.

“– Bella Clainford aceita Theo Bournd como o seu legitimo esposo?”

“– Não se deixe morrer.”

“– Você não sente medo?

– De que especificamente?

– Disso. Um mar com milhões de profundidade, rochas pontiagudas, essa altura.

– Não. Não mais.

– Como conseguiu?

– Porque não conseguir? – Ele olha para mim.

– Você é louca.

– Será que você também não é?

– Os loucos sabem quando estão loucos?

– Eu não sei.”

“Bella Clainford Bournd, seu nome de casada, morreu no dia 10/09/2015, aos 20 anos de idade, casada com o também falecido, Theo Bournd. Ambos foram vitimas de um grupo de pesquisadores que estavam em estado terminal de uma doença mental; seqüestraram também mais outras dez pessoas, duas, conhecidas de Bella. Todos foram mortos. Os únicos sobreviventes foram os pesquisadores, que foram presos porque estavam atacando pessoas a facadas em uma praia na Califórnia. Todos confessaram as atrocidades que haviam feito e ficaram presos até o dia de suas respectivas mortes.”

Ninguém nunca soube da vida de Bella Clainford ou Theo Bournd. Ambos não tinham vizinhos ou parentes.

*Esta fanfic não incentiva o suicídio ou qualquer outra forma de agressão física*

Notas finais
Agradeço muito as pessoas que leram e acompanharam a 'vida' de Bella. Foi realmente algo muito importante para mim. Muito obrigada!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!